

A encíclica foi publicada apenas cinco dias antes da
Divini Redemptoris, na qual o mesmo Papa condenava o
comunismo ateu, explicitando a resposta do magistério de Pio XI diante das grandes ideologias totalitárias do
século XX. Embora, em
1933, o Pontífice tivesse negociado
uma concordata com a Alemanha, na esperança de garantir a liberdade da Igreja e a proteção dos fiéis, o regime de
Adolf Hitler rapidamente passou a violar sistematicamente os compromissos assumidos. Diante da repressão crescente, da
propaganda anticristã
e da tentativa de submeter a Igreja ao Estado, as advertências papais
tornaram-se progressivamente mais severas, culminando na publicação
desta encíclica.

Mit brennender Sorge é considerada o primeiro documento público de um chefe de Estado europeu
a denunciar abertamente a ideologia nazi. Em passagens particularmente
incisivas, o texto condena a absolutização da raça, do sangue e da
nação, bem como o culto ao líder
político, elementos centrais da ideologia nacional-socialista, contendo
afirmações que muitos intérpretes veem como uma crítica direta ao
próprio Führer:
"Aquele que, com sacrílego desconhecimento das diferenças
essenciais entre Deus e a criatura, entre o Homem-Deus e o simples
homem, ousar colocar-se ao nível de Cristo, ou pior ainda, acima d'Ele
ou contra Ele, um simples mortal, ainda que fosse o maior de todos os
tempos, saiba que é um profeta de fantasias a quem se aplica
espantosamente a palavra da Escritura: 'Aquele que mora nos céus zomba
deles' (Salmo 2,4)".
O documento desperta ainda especial interesse por ser uma das raras encíclicas cuja versão oficial não foi redigida em latim, mas em alemão, decisão deliberada do Papa para que a mensagem fosse compreendida diretamente pelos fiéis da Alemanha.
Após sua redação, cópias da encíclica foram enviadas clandestinamente para a Alemanha, a fim de evitar a apreensão pela Gestapo, e posteriormente reproduzidas por gráficas ligadas à Igreja Católica. Foram então distribuídas aos bispos, sacerdotes e capelães, com a ordem expressa de que fossem lidas em todas as paróquias alemãs após a homilia da Missa matutina do dia 21 de março de 1937, Domingo de Ramos. A escolha dessa data, uma das celebrações litúrgicas com maior presença de fiéis e autoridades no ano,
visava maximizar o impacto da mensagem papal. O tom do documento
distingue-se pela firmeza incomum e por uma retórica vigorosa, raramente
vista em textos do magistério pontifício.
A reação do regime nazi foi imediata e severa. Por meio da
Gestapo, intensificou-se drasticamente a perseguição aos católicos, com a
prisão de mais de mil clérigos, além do lançamento de uma ampla campanha anticlerical, conduzida pelo ministro da Propaganda, Joseph Goebbels. Publicada num período em que a guerra
ainda parecia distante, a encíclica surpreendeu pela clareza e pela
coragem da sua denúncia, sendo alvo tanto de críticas na imprensa
secular quanto de incompreensão por parte de alguns católicos leigos,
que ainda acreditavam na possibilidade de uma convivência pacífica com o
Terceiro Reich e não compreendiam a atitude do Pontífice. Com o passar
do tempo, Mit brennender Sorge consolidou-se como um testemunho da resistência moral da Igreja frente ao totalitarismo do século XX.
Para escrever o documento, Pio XI contou com a colaboração e as informações dos cardeais alemães Adolf Bertram, Michael von Faulhaber e Karl Joseph Schulte e dos dois bispos mais contrários ao regime nazi: Clemens von Gallen e Konrad von Preysing, além da intervenção decisiva do Cardeal Eugénio Pacelli - futuro Papa Pio XII - e dos seus auxiliares alemães, Mons. Ludwig Kaas e dos jesuítas Robert Leiber e Augustin Bea.
(...)
Na época foi uma surpresa geral para os fiéis, as autoridades e a
polícia, a leitura da encíclica nas missas do domingo de Ramos,
21 de março de
1937,
em todos os templos católicos alemães, que eram então mais de 11 mil
igrejas. O seu impacto entre as elites dirigentes alemãs foi forte. Em toda a breve história do
Terceiro Reich, nunca recebeu este na
Alemanha uma contestação de amplitude e gravidade que se aproximasse da que se produziu com a
Mit brennender Sorge.
No entanto, o controle intensivo que o regime exercia sobre a imprensa e
a falta de liberdade de circulação de informações impediu que o impacto
fosse maior entre as massas, sendo seu conteúdo prontamente censurado e
respondido com uma forte campanha publicitária anticlerical. No dia
seguinte à leitura nos púlpitos, todas as paróquias e escritórios das
dioceses alemãs foram visitados por oficiais da
Gestapo que apreenderam as cópias do documento.
Como era de se esperar, no mesmo dia o órgão oficial nazi,
Völkischer Beobachter, publicou uma primeira réplica à
encíclica, mas foi também a última. O ministro alemão da propaganda,
Joseph Goebbels,
foi suficientemente inteligente e perspicaz para perceber a força que
havia tido a declaração, e com o controle total da imprensa e do rádio
que já tinha por essa ocasião, entendeu que o mais conveniente era
ignorá-la completamente e censurar tanto o seu conteúdo como quaisquer
referências a esta.
Após a leitura e publicação da encíclica, as perseguições
anti-católicas tiveram lugar, e as relações diplomáticas Berlim-Vaticano
ficaram severamente afetadas.
Em maio de 1937, 1.100 padres e
religiosos são lançados nas prisões do III Reich. 304 sacerdotes católicos
são deportados para
Dachau em 1938. As organizações católicas são dissolvidas e as escolas confessionais interditas.
Até a queda do regime nazi, cerca de onze mil sacerdotes católicos
(quase metade do clero alemão dessa época) "foram atingidos por medidas
punitivas, política ou religiosamente motivadas, pelo regime nazi",
terminando muitas vezes nos campos de concentração.
Já Pio XII comentou, em 1945:
[Mit brennender Sorge] desmascarou aos olhos do mundo aquilo que o nacional-socialismo era na realidade: a apostasia orgulhosa de Jesus Cristo,
a negação da sua doutrina e da sua obra redentora, o culto da força; a
idolatria da raça e do sangue, a opressão da liberdade humana.