Há ministros fora de tom, como aconteceu com Luís Amado, dos Negócios Estrangeiros, ao defender uma "grande coligação governamental", logo recusada por Sócrates. O próprio chefe do Governo "desafinou" do seu ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, como aconteceu com os cortes salariais na função pública ou as ordens à Caixa Geral de Depósitos por causa dos dividendos da PT.
Mas o círculo restrito de Sócrates, dizem fontes do PS, nem quer ouvir falar no assunto. A palavra de ordem continua a ser resistir. E se alguma crise se precipitar em 2011, há dirigentes nacionais a acreditar que Sócrates quer ir de novo a eleições. O problema é se o FMI entrar fronteiras dentro. Aí, o CDS-PP foi o primeiro a dizer que o executivo deveria ser substituído.
Dois sociólogos, André Freire e Manuel Meirinho Martins, ajudam a explicar o fenómeno. André Freire, professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), detecta sinais desse fim de ciclo: as sondagens com o PSD muito à frente do PS, a degradação da situação política. "No fundo, e por causa da crise, o PS está a governar com um programa que já não é o seu", afirmou ao PÚBLICO.
Já Manuel Meirinho Martins, professor de Ciência Política no ISCSP, olha a situação política e compara-a com outros momentos vividos por António Guterres (2001) e Santana Lopes (2004) para concluir que este é "um fim de ciclo arrastado".
E aponta os quatro sinais evidentes de que o ciclo socrático está a caminho do fim. Por um lado, "a incapacidade de o Governo lidar com os problemas da crise" económica, a par da "instabilidade ao nível da elite governativa". "Nota-se uma falta de coesão, como foi visível recentemente com o caso do Governo dos Açores [com a lei para contornar os cortes salariais na função pública] e com as divisões na bancada parlamentar", disse.
Depois, nota-se o "desgaste no apoio social ao Governo" e a "emergência de uma alternativa de Governo, com a transferência de expectativas para o PSD".
André Freire, investigador do Instituto de Ciências Sociais, tem uma leitura diferente quanto às sondagens. "A alternativa, o PSD, apesar de estar à frente nas sondagens, também não gera grande entusiasmo", afirma o sociólogo, lembrando estudos de opinião sobre o projecto de revisão constitucional apresentado pelo partido de Passos Coelho.
Ponto de ebulição
As presidenciais de 23 de Janeiro e a posse do Presidente da República, em Março, ajudarão a uma clarificação. Até porque, seja quem for o eleito, o chefe de Estado ganhará de novo "armas" para resolver qualquer impasse: o poder de dissolução da Assembleia e convocação de eleições. André Freire é cauteloso e admite que "pode ter algum efeito", Meirinho acredita que, se Cavaco Silva for reeleito, sendo "um institucionalista puro, não irá tomar uma iniciativa" que leve à queda do Governo. O caso será diferente se houver pressão social, a entrada do FMI no país ou uma qualquer iniciativa dos partidos na Assembleia: "Aí, acredito que sim."
A questão central é mesmo saber qual será o "ponto de ebulição"? Uma moção de censura? A entrada do FMI? Uma crise no próximo Orçamento do Estado? Ou a conflitualidade social nas ruas, como aconteceu na Grécia?
E o próprio PS, em vésperas de mais um congresso, no início do ano, como assinalou André Freire, também não dá sinais de alternativas a Sócrates. "Apesar das vozes dissonantes, que fazem reparos e são pouco consequentes, não são conhecidas as alternativas a este poder. Aproxima-se um novo congresso e o líder não deverá ter adversário, o que é um sinal de fraqueza do próprio PS".



















