segunda-feira, fevereiro 16, 2026

O geógrafo Orlando Ribeiro nasceu há 115 anos...

Orlando Ribeiro (à esquerda) no Pico do Fogo, na ilha do Fogo, Cabo Verde, durante a erupção de 1951
   
Orlando Ribeiro (Lisboa, 16 de fevereiro de 1911 - Lisboa, 17 de novembro de 1997) foi um geógrafo e historiador português.
   
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Ribeiro dedicou toda a sua vida ao ensino e investigação em Geografia, e é a justo título considerado como o renovador desta ciência em Portugal. Foi também o geógrafo português do século XX com mais projeção ao nível internacional. A sua vasta obra inclui não só científicos na Geografia, mas revela também uma diversidade de interesses intelectuais invulgares. Orlando Ribeiro licenciou-se em Geografia e História em 1932, e veio a doutorar-se em 1935 pela Universidade de Lisboa com a tese A Arrábida, esboço geográfico. Entre 1937 e 1940 (durante a guerra) viveu em Paris, e trabalhou na Sorbonne, com Marc Bloch, Emmanuel de Martonne e A. Demangeon. Em 1940, foi nomeado professor da Universidade de Coimbra, mas rapidamente se instalou em Lisboa. Em 1943, já em Lisboa, fundou o Centro de Estudos Geográficos.
Da sua intensa atividade científico-académica destaca-se Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Em 1966, o Centro de Estudos Geográficos começou a publicar a revista Finisterra, que foi e continua a ser a principal publicação da Geografia portuguesa, com projeção internacional.
O interesse intelectual de Ribeiro pela História, Antropologia e Etnografia foi desenvolvido essencialmente enquanto discípulo de David de Melo Lopes e de Leite de Vasconcelos. Ribeiro lançou-se também na Geologia, com Carlos Teixeira. Trabalhou ainda com Juvenal Esteves, Barahona Fernandes e Celestino da Costa.
Recebeu o grau de Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada, em 1987.
 

Octave Mirbeau nasceu há 178 anos - e morreu há 109 anos...


Octave Henri Marie Mirbeau (Trévières, Calvados, 16 de fevereiro de 1848 - Paris, 16 de fevereiro de 1917) foi um escritor, crítico de arte, jornalista e entusiasta do anarquismo francês. Autor de diversos romances e peças teatrais, é considerado uma das personalidades mais originais da literatura francesa da chamada "Belle Époque". Tolstoi certa vez definiu-o como "o maior escritor francês contemporâneo e aquele que melhor representava o génio secular da França".

Octave Mirbeau nasceu em Trévières, na Normandia, em 16 de fevereiro de 1848, filho de uma família de posses, sendo o seu pai médico de profissão. Passou a infância em Rémalard, no Perche, vindo a estudar no colégio jesuíta de Vannes. Após os conflitos de 1870 Mirbeau acompanha os martírios aos quais são submetidos os communards pela Terceira República Francesa, e perante o ocorrido, passa a contestar tanto o estado como a elite da qual fazia parte.

A sua estreia como jornalista se dá a serviço dos bonapartistas e o seu debut literário (L'Écuyère, 1882, La Belle Madame Le Vassart, 1884) como "negro", nome que adotaria como pseudónimo logo após as grandes mudanças de 1884-1885. A essa época coloca a sua pena ao serviço de seus próprios valores éticos e estéticos, combinando literatura e política. As suas obras se caracterizam por seu anticlericalismo e seu antimilitarismo. Foi um personagem comprometido com todas as lutas de seu tempo em busca de justiça social.

Crítico de arte e de literatura, conviveu com grandes nomes de sua época: foi defensor de Auguste Rodin, Claude Monet, Camille Pissarro, Paul Cézanne, Félix Vallotton e Pierre Bonnard, "descobriu" Vincent Van Gogh, Camille Claudel, Aristide Maillol, Maurice Maeterlinck, Marguerite Audoux e Maurice Utrillo.

Entusiasta do anarquismo e ardente deyfusista, encarna o protótipo de intelectual comprometido com os assuntos públicos de sua época, assumindo como dever primordial desmistificar as instituições que alienam e oprimem. Nesta tarefa buscou constituir uma estética da revelação que levasse a lucidez, capaz de obrigar os voluntariamente cegos a encararem a realidade das injustiças do mundo. Combateu a sociedade burguesa e a economia capitalista, fazendo frente a formas literárias e estéticas tradicionais que contribuíam para anestesiar consciências, rejeitou o naturalismo, o academicismo e o simbolismo, buscando seu caminho entre o impressionismo e expressionismo

    

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Morte

Com o início da I Guerra Mundial em 1914, Octave Mirbeau converteu-se num pacifista desesperado que, sozinho, denunciava a aberração criminosa da violência das guerras nas quais os pobres morriam para que os ricos pudessem ficar ainda mais ricos. Morreu, após nove anos de doenças constantes, no mesmo dia em que completava 69 anos, em 16 de fevereiro de 1917. Foi sepultado no Cemitério de Passy, Paris na França. 

 

Glória póstuma

Mirbeau nunca foi completamente esquecido tendo as suas obras publicadas, continuamente, em mais de trinta línguas. No entanto, apesar da sua imensa produção literária, o  seu trabalho tem sido injustamente reduzido a apenas três das suas obras, e ela tem sido considerada política e literalmente incorreta, atravessado um amplo período de incompreensão por parte dos autores de manuais e estudiosos da história da literatura.

Mais recentemente Mirbeau tem sido redescoberto e lido sob uma nova perspetiva. Uma nova apreciação da sua obra bem como do seu importante papel de envolvimento e desenvolvimento do cenário político, literário e artístico da Belle Époque.

A câmara funerária de Tutankhamon foi aberta há 103 anos...

 

Tutancámon, também conhecido pela grafia Tutankhamon (falecido em 1.324 a.C.), foi um faraó do Antigo Egito que faleceu ainda na adolescência.
Era filho e genro de Aquenáton (o faraó que instituiu o culto de Aton, o deus Sol) e filho de Kiya, uma esposa secundária do seu pai. Casou-se aos 8 anos, provavelmente com a sua meia-irmã, Anchesenamon. Assumiu o trono quando tinha cerca de nove anos, restaurando os antigos cultos aos deuses e os privilégios do clero (principalmente o do deus Amon de Tebas). Morreu, provavelmente, em 1.324 a.C., aos dezanove anos, sem herdeiros - com apenas nove anos de trono - "o que levou especialistas a especularem sobre a hipótese de doenças hereditárias na família real da XVIII dinastia egípcia", na opinião de Zahi Hawass, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito.
Devido ao facto de ter falecido tão novo, o seu túmulo não foi tão sumptuoso quanto o de outros faraós, mas mesmo assim é o que mais fascina a imaginação moderna pois foi uma das raras sepulturas reais encontradas quase intacta. Ao ser aberta, em 1923, ainda continha peças de ouro, tecidos, mobília, armas e textos sagrados que revelam muito sobre o Egito de três milénios atrás.
  
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Em novembro de 1922 foi descoberto o túmulo de Tutancámon, resultado dos esforços de Howard Carter e do seu mecenas, o aristocrata Lord Carnarvon. O túmulo encontrava-se inviolado, com exceção da antecâmara onde os ladrões penetraram por duas vezes, talvez pouco tempo depois do funeral do rei, mas por razões pouco claras ficaram-se por ali.
A câmara funerária foi aberta, de forma oficial, no dia 16 de fevereiro de 1923. Estava preenchida por quatro capelas em madeira dourada encaixadas umas nas outras, que protegiam um sarcófago em quartzito de forma retangular, seguindo a tradição da forma dos sarcófagos da XVIII dinastia. Em cada um dos cantos do sarcófago estão representadas as deusas Ísis, Néftis, Neith e Selket. Dentro do sarcófago encontravam-se três caixões antropomórficos, encontrando-se a múmia no último destes caixões; sobre a face a múmia tinha a famosa máscara funerária. Decorados com os símbolos da realeza (a cobra e o abutre, símbolos do Alto e do Baixo Egito, a barba postiça retangular e ceptros reais), o peso dos três caixões totalizava 1375 quilos, sendo o terceiro caixão feito de ouro. Na câmara funerária foram colocadas também três ânforas, estudadas, em 2004 e 2005, por arqueólogos espanhóis, coordenados por Rosa Lamuela-Raventós. Os estudos revelaram que a ânfora junto à cabeça continha vinho tinto, a colocada do lado direito do corpo continha shedeh (variedade de vinho tinto mais doce) e a terceira, junto aos pés, continha vinho branco. Esta pesquisa revelou-se importante pois mostrou que os egípcios fabricavam vinho branco, mil e quinhentos anos antes do que se pensava.
A lâmina de uma das adagas encontradas junto da múmia era feita com o metal de um meteorito.
Na câmara do tesouro estava uma estátua de Anúbis, várias joias, roupas e uma capela, de novo em madeira dourada, onde foram colocados os vasos canópicos do rei. Neste local foram achadas duas pequenas múmias correspondentes a dois fetos do sexo feminino, que se julgam serem as filhas do rei, nascidas de forma prematura.
Embora os objetos encontrados no túmulo não tenham lançado luz sobre a enigmática vida de Tutancámon, revelaram-se bastante importantes para um melhor entendimento das práticas funerárias e da arte egípcia.
    
   
in Wikipédia

Carlos Paredes nasceu há cento e um anos...

    
Foi um dos grandes guitarristas e é um símbolo ímpar da cultura portuguesa. É um dos principais responsáveis pela divulgação e popularidade da guitarra portuguesa e grande compositor. Carlos Paredes é um guitarrista que para além das influências dos seus antepassados - pai, avô, e tio, tendo sido o pai, Artur Paredes, o grande mestre da guitarra de Coimbra - mantém um estilo coimbrão, a sua guitarra é de Coimbra, e própria afinação era a do Fado de Coimbra. A sua vida em Lisboa marcou-o e inspirou-lhe muitos dos seus temas e composições. Ficou conhecido como O mestre da guitarra portuguesa ou O homem dos mil dedos.
   
Biografia
Filho do famoso compositor e guitarrista, mestre Artur Paredes, neto e bisneto de guitarristas, Gonçalo Paredes e António Paredes, começou a estudar guitarra portuguesa aos quatro anos com o seu pai, embora a mãe preferisse que o filho se dedicasse ao piano; frequenta o Liceu Passos Manuel, começando também a ter aulas de violino na Academia de Amadores de Música. Na sua última entrevista, recorda: "Em pequeno, a minha mãe, coitadita, arranjou-me duas professoras de violino e piano. Eram senhoras muito cultas, a quem devo a cultura musical que tenho".
Em 1934, a família muda-se para Lisboa, o pai era funcionário do BNU e vem transferido para a capital. Abandona a aprendizagem do violino para se dedicar, sob a orientação do pai, completamente à guitarra. Carlos Paredes fala com saudades desses tempos: "Neste anos, creio que inventei muita coisa. Criei uma forma de tocar muito própria, que é diferente da do meu pai e do meu avô".
Carlos Paredes inicia em 1949 uma colaboração regular num programa de Artur Paredes na Emissora Nacional e termina os estudos secundários num colégio particular. Não chega a concluir o curso liceal e inscreve-se nas aulas de canto da Juventude Musical Portuguesa, tornando-se, em 1949, funcionário administrativo do Hospital de São José.
Em 1958, é preso pela PIDE por fazer oposição a Salazar, é acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, do qual era de facto militante, sendo libertado no final de 1959 e expulso da função pública, na sequência de julgamento. Durante este tempo andava de um lado para o outro da cela fingindo tocar música, o que levou os companheiros de prisão a pensar que estaria louco - de facto, o que ele estava a fazer, era compor músicas, na sua cabeça. Quando voltou para o local onde trabalhava no Hospital, uma das ex-colegas, Rosa Semião, recorda-se da mágoa do guitarrista devido à denúncia de que foi alvo: «Para ele foi uma traição, ter sido denunciado por um colega de trabalho do hospital. E contudo, mais tarde, ao cruzar-se com um dos homens que o denunciou, não deixou de o cumprimentar, revelando uma enorme capacidade de perdoar!»
Em 1962, é convidado pelo realizador Paulo Rocha, para compor a banda sonora do filme Os Verdes Anos: «Muitos jovens vinham de outras terras para tentarem a sorte em Lisboa. Isso tinha para mim um grande interesse humano e serviu de inspiração a muitas das minhas músicas. Eram jovens completamente marginalizados, empregadas domésticas, de lojas - Eram precisamente essas pessoas com que eu simpatizava profundamente, pela sua simplicidade». Recebeu um reconhecimento especial por “Os Verdes Anos”.
Tocou com muitos artistas, incluindo Charlie Haden, Adriano Correia de Oliveira e Carlos do Carmo. Escreveu muitas músicas para filmes e em 1967 gravou o seu primeiro LP "Guitarra Portuguesa".
Quando os presos políticos foram libertados depois do 25 de Abril de 1974, eram vistos como heróis. No entanto, Carlos Paredes sempre recusou esse estatuto, dado pelo povo. Sobre o tempo que foi preso nunca gostou muito de comentar. Dizia «que havia pessoas, que sofreram mais do que eu!». Ele é reintegrado no quadro do Hospital de São José e percorre o país, atuando em sessões culturais, musicais e políticas em simultâneo, mantendo sempre uma vida simples, e por incrível que possa parecer, a sua profissão de arquivista de radiografias. Várias compilações de gravações de Carlos Paredes são editadas, estando desde 2003 a sua obra completa reunida numa caixa de oito CDs.
A sua paixão pela guitarra era tanta que, conta que certa vez, a sua guitarra se perdeu numa viagem de avião e ele confessou a um amigo que «pensou em se suicidar».
Uma doença do sistema nervoso central, (mielopatia), impediu-o de tocar durante os últimos 11 anos da sua vida. Morreu a 23 de julho de 2004 na Fundação Lar Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa, sendo decretado Luto Nacional.
   
Cquote1.svg "Quando eu morrer, morre a guitarra também.
O meu pai dizia que, quando morresse, queria que lhe partissem a guitarra e a enterrassem com ele.
Eu desejaria fazer o mesmo. Se eu tiver de morrer.”
Cquote2.svg
- Carlos Paredes

   
in Wikipédia
 

Música adequada à data...

Hoje é dia de ouvir Duran Duran...!

Joan Margarit morreu há cinco anos...


Joan Margarit i Consarnau (Sanaüja, 11 de maio do 1938 – San Justo Desvern, 16 de fevereiro de 2021) foi um poeta, arquiteto e catedrático da Universidade Politècnica de Catalunya.

Recebeu o Prêmio Miguel de Cervantes em 2019. Morreu a 16 de fevereiro de 2021, aos 82 anos de idade, por causa de um cancro.

 

in Wikipédia

 

CERRANDO EL APARTAMENTO DE LA PLAYA 


Ya está limpio, ordenado.
Los armarios cerrados, igual que las ventanas.
Nada al descuido encima de los muebles.
El dormitorio con la cama a punto,
la mesita de noche y el retrato
de la muchacha con los ojos
iluminados por una sonrisa.
Todo el invierno sola y escuchando el mar.

 

Joan Margarit

domingo, fevereiro 15, 2026

O Meteoro de Cheliabinsk assustou os russos há treze anos

Rastro deixado pelo meteoro sobre os Montes Urais, ao amanhecer

 

O Meteoro de Cheliabinsk foi provocado por um asteroide que entrou na atmosfera terrestre sobre a Rússia em 15 de fevereiro de 2013, transformando-se numa bola-de-fogo que cruzou os céus do sul da região dos Urais até explodir sobre a cidade de Cheliabinsk, às 09.20.26 (hora local) ou 03.20.26 (hora UTC). Estima-se que o asteroide, ao entrar na atmosfera terrestre, tinha aproximadamente 10.000 toneladas de massa e 17 m de diâmetro, libertando o equivalente a 500 quilotoneladas de TNT de energia durante o evento. Para efeitos de comparação, a bomba nuclear de Hiroshima libertou cerca de 13 quilotoneladas de TNT de energia. Após despedaçar-se sobre Cheliabinsk, a maior parte do objeto parece ter caído no lago Chebarkul.

A agência de notícias russa RIA Novosti informou que oficiais haviam detetado uma explosão na troposfera a uma altitude de aproximadamente 10.000 m. Contudo, a Academia de Ciências da Rússia estima que a explosão tenha ocorrido entre 30 e 50 km de altitude. De acordo com estimativas preliminares da agência espacial Russa Roskosmos, o objeto deslocava-se ao longo de uma trajetória baixa com uma velocidade de aproximadamente 30 km/s (equivalente a 108 000 km/h). Dados coletados por pelo menos cinco estações de infrassom indicam que o evento teve uma duração total de 32,5 s. O primeiro registo do evento por uma estação de infrassom ocorreu no Alasca, a 6.500 km de Cheliabinsk. Porém, o asteroide não havia sido detetado antes de entrar na atmosfera. A composição do meteorito assemelhava-se à dos condritos ordinários.

Cerca de 1.200 pessoas procuraram atendimento médico em consequência do evento, sendo que a maioria dos feridos machucou-se com estilhaços de vidro das janelas destruídas pela onda de impacto da explosão da bola-de-fogo. Segundo a defesa civil, pelo menos duas estavam muito mal. A explosão e os impactos resultantes danificaram prédios em seis cidades na região do evento. O calor resultante do atrito do objeto com o ar da atmosfera produziu uma luz ofuscante, a ponto de projetar sombras em Cheliabinsk, tendo sido avistada nos óblasts de Sverdlovsk e Oremburgo e no vizinho Cazaquistão.

O meteoro de Cheliabinsk é o maior corpo celeste a atingir a Terra desde o evento de Tunguska, em 1908, e, até onde se tem conhecimento, o único evento no qual tamanho número de vítimas foi registado. Reconstrução de sua trajetória orbital baseada nas informações e vídeos amadores coletados permitiram concluir com segurança que tal asteroide pertencia a um grupo de asteroides denominado Apollo, que orbitam de forma perigosa na proximidade da Terra.

  

Um dos fragmentos do meteorito encontrados na área de impacto

  

Poema para recordar um cientista...

 

Poema para Galileo

 

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.


Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!


Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.


Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.


Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caía
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.


Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.


Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.


Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.

    
 
in Linhas de Força (1967) - António Gedeão

O Avante!, jornal oficial do PCP, faz hoje 95 anos...!


 

O Avante! é o jornal oficial do Partido Comunista Português, e iniciou, clandestinamente, a sua publicação a 15 de fevereiro de 1931. O seu lema é «Proletários de todos os países, UNI-VOS!» .

Só o primeiro número foi impresso numa tipografia legal, próxima do Largo de São Paulo, em Lisboa, graças a um estudante do liceu Gil Vicente que convenceu o tipógrafo a imprimir, além de um boletim estudantil, mais umas quantas folhas - o «Avante!». A partir daí e até ao 25 de abril, o jornal foi sempre impresso em tipografias clandestinas. Por altura da apanha da azeitona chegaram a cair jornais «Avante!» das oliveiras em terras alentejanas, uma das muitas formas encontradas para distribuir clandestinamente o órgão central do PCP. O trabalho era todo feito manualmente, por funcionários que pareciam ter uma vida normal. Algumas vezes a perseguição da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) resultou na morte dos tipógrafos. No dia 24 de janeiro de 1950, o corpo do funcionário José Moreira deu entrada na morgue com a indicação de que caíra de uma janela, no entanto, o operário vidreiro e responsável pelas tipografias do Jornal «Avante!», foi capturado durante assalto a uma casa clandestina do PCP em Vila do Paço e torturado pela PIDE, que o interrogou e espancou até à morte, acabando por o atirar da janela. Joaquim Barradas de Carvalho afirma que o operário "foi torturado pela PIDE e foi morto na tortura sem ter dito uma palavra acerca daquilo que era conveniente guardar acerca do trabalho do Partido Comunista Português na clandestinidade". Maria Machado, professora primária e militante do PCP, do qual foi funcionária clandestina entre 1942 e 1945, trabalhava numa tipografia na povoação de Barqueiro, em Alvaiázere, quando a PIDE a assaltou. Tendo ficado para trás para permitir a fuga aos restantes tipógrafos, foi presa e torturada, e não prestou nenhuma declaração. Enquanto era arrastada pelos agentes da PIDE, gritou: «Se a liberdade de imprensa não fosse uma farsa, esta tipografia não precisava de ser clandestina. Isto aqui é a tipografia do jornal clandestino «Avante!». O «Avante!» defende os interesses do povo trabalhador de Portugal.». Joaquim Rafael teve uma vida de inteira abnegação dedicada à imprensa clandestina do Partido. Entre 1943 e 1945, Joaquim Rafael esteve ligado à distribuição do «Avante!», passando depois para as tipografias. Nos vinte e cinco anos que se seguiram, tornou-se num dos melhores tipógrafos clandestino e um mestre para novos camaradas que entravam para as tipografias. Referência maior na história da imprensa clandestina, morreu em 1974. José Dias Coelho, escultor e funcionário do PCP, foi assassinado a tiro pela PIDE em 1961, quando se dirigia para um encontro clandestino. Pondo os seus dotes de artista plástico ao serviço da sua causa e do seu Partido, deu um contributo decisivo para a melhoria do aspeto gráfico de vários órgãos de imprensa clandestina, nomeadamente do «Avante!». Das suas mãos saíram muitas das famosas gravuras – de linóleo ou de madeira – que se podem encontrar em numerosos exemplares do «Avante!» clandestino. Em 1972, o cantor Zeca Afonso homenageia-o com a música A Morte Saiu à Rua.

Segundo o jornal Público, as regras para quem trabalhava na clandestinidade eram rigorosas ao ponto de ter que se fazer as malas à mínima suspeita de se ter dado nas vistas.

Em 17 de maio de 1974 foi publicado o primeiro número fora da clandestinidade, tendo passado a semanário desde essa data.

 

Eduardo Gageiro nasceu há 91 anos

(imagem daqui)


Eduardo Gageiro
(Sacavém, 16 de fevereiro de 1935) é um fotógrafo e foto-jornalista português.

Originário de Sacavém, e um de três irmãos, os seus pais eram proprietários de uma modesta casa de pasto, onde também se vendia bacalhau e se aquecia as marmitas dos trabalhadores da Fábrica de Louça de Sacavém, que ficava defronte. Cedo começou a aviar copos de vinho aos trabalhadores da fábrica, onde também ingressou, por volta dos 11 anos, como paquete, por ordem do pai.

Com apenas 12 anos tomou de empréstimo uma máquina de plástico do irmão (Kodak Baby) e começou a receber aulas de arte e composição do escultor Armando Mesquita, trabalhador na Fábrica de Louça de Sacavém. Fotografava os trabalhadores à saída da fábrica.

Viu uma fotografia sua publicada na 1ª página do Diário de Notícias. Começou a sua atividade de repórter fotográfico em 1957 no Diário Ilustrado (1956-), e a partir daí dedicou toda a sua vida ao foto-jornalismo.

Esteve dois meses retido pela PIDE em Caxias, sendo libertado após pressão dos correspondentes da Associated Press junto do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício.

Foi colaborador das principais publicações portuguesas e estrangeiras e da Presidência da República. Tem trabalhos reproduzidos um pouco por todo o mundo, com os quais ganhou mais de 300 prémios internacionais. Foi o único fotógrafo do mundo a fotografar os terroristas que sequestraram os atletas israelitas da aldeia olímpica nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.

 

Principais prémios

  • 2005 - Em 5 de novembro, ganhou o Prémio Especial do Júri, a Medalha de Ouro para a melhor fotografia e a Medalha de Ouro para a melhor fotografia a preto e branco da 11ª Exposição Internacional de Fotografia Artística da China, o maior concurso de fotografia do mundo, onde participaram mais de 3500 fotógrafos de 68 países e mais de 35.000 fotografias.
  • 2004 - Agraciado pelo Presidente da República Jorge Sampaio com a Ordem do Infante D. Henrique.
  • 1974 - 2º prémio do World Press Photo, em 1974, na categoria Portraits.

   

Ronald de Carvalho morreu há 91 anos...

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Ronald de Carvalho (Rio de Janeiro, 16 de maio de 1893 - Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 1935) foi um poeta e político brasileiro.
    
Vida
Ronald de Carvalho era filho do engenheiro naval Artur Augusto de Carvalho e de Alice Paula e Silva Figueiredo de Carvalho, concluindo o curso secundário no Colégio naval.
Entrou na Faculdade Livre de Ciéncias Jurídicas e Sociaes do Rio de Janeiro, precursora da atual Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, fazendo um bacharelato em 1912. Desde 1910 trabalhava como jornalista, no Diário de Notícias, cujo diretor era Ruy Barbosa.
Na sua ida para a Europa, cursou Filosofia e Sociologia em Paris. Ao voltar para o Brasil, entrou para o Itamaraty. Em 1922, participou da Semana de Arte Moderna, que decorreu em 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo, a qual foi o momento determinante do modernismo brasileiro.
Em 1924 dirigiu a Seção dos Negócios Políticos e Diplomáticos na Europa. Durante a gestão de Félix Pacheco, esteve no México, como hóspede de honra daquele governo. Em 1926 foi oficial de gabinete do ministro Otávio Mangabeira. Em 1930, o seu poema Brasil foi entusiasticamente lido na conferência Poesia Moderníssima do Brasil, apresentada pelo professor Manoel de Souza Pinto, da Cadeira de Estudos Brasileiros da Faculdade de Letras de Coimbra (tal estudo saiu estampado depois no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, edição de domingo, 11 de janeiro de 1931). Exerceu cargos diplomáticos de relevância, servindo na Embaixada de Paris, com o embaixador Sousa Dantas, por dois anos, e depois em Haia (Países Baixos). Regressou a Paris, de onde, em 1933, voltou para o Rio de Janeiro.
Foi secretário da Presidência da República, cargo que ocupava quando morreu. Em concurso realizado pelo Diário de Notícias, em 1935, foi eleito Príncipe dos Prosadores Brasileiros, em substituição a Coelho Neto. Colaborou, com destaque, em O Jornal e também se encontra colaboração da sua autoria nas revistas Alma nova (1914-1930) e Atlântida (1915-1920). Casou com Leilah Accioly de Carvalho, de quem teve quatro filhos.
Ronald de Carvalho faleceu com 41 anos de idade, vítima de acidente automobilístico, no Rio de Janeiro, a 15 de fevereiro de 1935.
   
Literatura
Na biblioteca de Fernando Pessoa da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, existe um exemplar do livro Luz Gloriosa - Poema de Ronald de Carvalho, com o seguinte colofon:
«Terminou-se a impressão deste livro em Novembro do anno de MCMXIII, nas officinas graphicas da Casa Crès et Cie, Paris.»
Este exemplar foi oferecido a Fernando Pessoa pelo autor e enviado, através de Luís de Montalvor, no seu regresso a Lisboa, após dois anos como secretário da Embaixada de Portugal no Rio de Janeiro. O livro tem uma dedicatória escrita pelo punho de Ronald de Carvalho:
«Para as mãos de Fernando Pessôa, fraternalmente Ronaldo de Carvalho. Rio MCMXIV»
Em 29 de fevereiro de 1915, Fernando Pessoa escreveu ao autor, agradecendo o livro que este lhe oferecera e fazendo uma apreciação de Luz Gloriosa:
   
«O seu livro é dos mais belos que recentemente tenho lido. Digo-lhe isto para que, não me conhecendo, me não julgue posto a severidade sem atenção às belezas do seu Livro. Há em si o com que os grandes poetas se fazem. De vez em quando a mão do escultor faz falar as curvas irreais da sua Matéria. E então é o seu poema sobre o Cais e a sua impressão do Outono, e este e aquele verso, caído dos deuses como o que é azul no céu nos intervalos da tormenta. Exija de si o que sabe que não pode fazer. Não é outro o caminho da Beleza.»
in Correspondência (1905-1922) - Fernando Pessoa
   
A crítica de Fernando Pessoa parece ter influenciado o escritor brasileiro, que iria aderir ao modernismo, destacando-se a sua intervenção na Semana de Arte Moderna. cinco anos mais novo do que Fernando Pessoa, Ronald de Carvalho viria a morrer, por coincidência, no mesmo ano do escritor português.
 
   
Orpheu – Revista Trimestral de Literatura
Ronald de Carvalho foi, em conjunto com Luís de Montalvor, diretor do primeiro número da revista literária Orpheu, publicada em Lisboa, em março de 1915, causando enorme polémica. Esta revista, de que se publicaram apenas dois números, foi uma das mais importantes no panorama literário português, contribuindo decisivamente para a introdução do modernismo em Portugal e exercendo uma duradoura influência na literatura portuguesa do século XX. Para além desses dois escritores, Orpheu publicou grandes nomes das letras portuguesas, como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e José de Almada-Negreiros.
Na folha de rosto do primeiro número da «revista trimestral de literatura» Orpheu, correspondente ao primeiro trimestre de 1915, pode ler-se:
DIRECÇÃO

PORTUGAL

Luiz de Montalvor - 17, Caminho do Forno do Tijolo - LISBOA

BRAZIL

Ronald de Carvalho -104, Rua Humaytá - RIO DE JANEIRO
Nas páginas 21 a 25 a mesma revista contém os poemas de Ronald de Carvalho «A Alma que Passa», «Lampada Nocturna», «Torre Ignota», «O Elogio dos Repuxos» e «Reflexos (Poema da Alma enferma)».
   
Obras
  • Luz Gloriosa (1913)
  • Pequena História da Literatura Brasileira (1919)
  • Poemas e Sonetos (1919)
  • Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922)
  • Toda a América (1926)
  • O Mercador de Prata, de Ouro e Esmeralda
  • Epigrama
  • Uma noite em Los Andes
  • Sabedoria
  • Brasil
    
in Wikipédia
   
 
Brasil
  A Fernando Haroldo

 
Nesta hora de sol puro
Palmas paradas
Pedras polidas
Claridades
Faíscas
Cintilações

Eu ouço o canto enorme do Brasil!

Eu ouço o tropel dos cavalos de Iguaçu correndo na ponta
    das rochas nuas, empinando-se no ar molhado, batendo
    com as patas de água na manhã de bolhas e pingos verdes;

Eu ouço a tua grave melodia, a tua bábara e grave melodia,
    Amazonas, melodia da tua onda lenta de óleo espesso que
    se avoluma e se avoluma, lambe o barro das barrancas, morde
    raízes, puxa ilhas e empurra o oceano mole como um touro
    picado de farpas, varas, galhos e folhagens;

Eu ouço a terra que estala no ventre quente do Nordeste,
    a terra que ferve na planta do pé de bronze do cangaceiro,
    a terra que se esboroa e rola em surdas bolas pelas
    estradas de Juazeiro, e quebra-se em crostas secas,
    esturricadas no Crato chato;

Eu ouço o chiar das caatingas — trilos, pios, pipios, trinos,
    assobios, zumbidos, bicos que picam, bordões que ressoam
    retesos, tímpanos que vibram, límpidos papos que estufam,
    asas que zinem, rezinem, cris-cris, cicios, cismas, cismas
    longas, langues — caatingas debaixo do céu!

Eu ouço os arroios que riem, pulando na garupa dos dourados
    gulosos, mexendo com os bagres no limo da luras e das locas;

Eu ouço as moendas espremendo canas, o gluglu do mel
    escorrendo nas tachas, o tinir da tigelinhas nas serigueiras;
E machados que disparam caminhos,
E serras que toram troncos,
E matilhas de “Corta Vento”, “Rompe-Ferro”, “Faíscas”
    e “Tubarões” acuando suçuaranas e maçarocas,
E mangues borbulhando na luz,
E caititus tatalando as queixadas para os jacarés que
    dormem no tejuco morno dos igapós...
Eu ouço todo o Brasil cantando, zumbindo, gritando, vociferando!
Redes que balançam,
Sereias que apitam,
Usinas que rangem, martelam, arfam, estridulam, ululam e roncam,
Tubos que explodem,
Guindastes que giram,
Rodas que batem,
Trilhos que trepidam.
Rumor de coxilhas e planaltos, campainhas, relinchos
    aboiados e mugidos,
Repiques de sinos, estouros de foguetes, Ouro Preto,
    Bahia, Congonhas, Sabará,
Vaias de Bolsas empinando números como papagaios,
Tumulto de ruas que saracoteiam sob arranha-céus,
Vozes de todas as raças que a maresia dos portos joga no sertão!

Nesta hora de sol puro eu ouço o Brasil.

Todas as tuas conversas, pátria morena, correm pelo ar...
A conversa dos fazendeiros nos cafezais,
A conversa dos mineiros nas galerias de ouro,
A conversa dos operários nos fornos de aço,
A conversa dos garimpeiros, peneirando as bateias,
A conversa dos coronéis nas varandas das roças...
Mas o que eu ouço, antes de tudo, nesta hora de sol puro
Palmas paradas
Pedras polidas
Claridades
Brilhos
Faíscas
Cintilações
É o canto dos teus berços, Brasil, de todos esses teus berços,
    onde dorme, com a boca escorrendo leite,
    moreno, confiante, o homem de amanhã!
  

 
in
Toda a América (1926) - Ronald de Carvalho

Matt Groening comemora hoje setenta e dois anos

  
Matthew Abram Groening ou simplesmente Matt Groening (Portland, 15 de fevereiro de 1954) é um cartunista, roteirista, produtor, animador e dobrador norte-americano, criador das séries de televisão Os Simpsons (1989–presente), Futurama (1999–2003, 2008–2013) e Disenchantment (2018–presente). Atualmente, trabalha como produtor executivo e consultor criativo de Os Simpsons.

Groening fez a sua primeira venda profissional de cartoon Life in Hell para a revista de vanguarda Wet em 1978. No auge, o cartoon foi publicado em 250 jornais semanais. A Life in Hell chamou a atenção de James L. Brooks. Em 1985, Brooks contatou Groening com a proposta de trabalhar com animação para o programa de variedades da Fox, The Tracey Ullman Show. Originalmente, Brooks queria que Groening adaptasse os seus personagens de Life in Hell para a série. Temendo a perda dos direitos de propriedade, Groening decidiu criar algo novo e criou uma família de desenhos animados, a família Simpson, e deu aos membros o nome de seus próprios pais e irmãs - enquanto Bart era um anagrama da palavra pirralho. As curtas seriam transformados na sua própria série Os Simpsons, que desde então exibiu 695 episódios. Em 1997, Groening e o ex-escritor dos Simpsons David X. Cohen desenvolveram Futurama, uma série animada sobre a vida no ano 3000, que estreou em 1999, durante quatro anos na Fox, sendo depois adquirida pela Comedy Central para temporadas adicionais. Em 2016, Groening desenvolveu uma nova série para a Netflix intitulada Disenchantment, que estreou em agosto de 2018.

Groening ganhou 13 Primetime Emmy Awards, 11 com Os Simpsons e 2 com Futurama, bem como 1 British Comedy Award por "contribuição notável para a comédia" em 2004. Em 2002, ele ganhou o Prémio Reuben da National Cartoonist Society pelo seu trabalho em Life in Hell. Ele recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood em 14 de fevereiro de 2012.

 
      
    

O escultor Francisco Franco morreu há 71 anos

      
Francisco Franco de Sousa (Funchal, 9 de outubro de 1885 - Lisboa, 15 de fevereiro de 1955) foi um escultor português.

Pertence à primeira geração de artistas modernistas portugueses e destaca-se, segundo José-Augusto França, como o maior escultor português da década de 20. A sua obra desse período é um marco na renovação da escultura nacional. O seu Monumento a Gonçalves Zarco, 1927, assinala uma inflexão e tornar-se-ia numa referência para as direções da escultura pública portuguesa a partir dos anos 30; Francisco Franco foi, então, um dos autores mais solicitados para a realização da estatuária oficial do Estado Novo

 

Estátua equestre de D. João IV, 1938-40

Estátua equestre de D. João IV, 1938-40 (Vila Viçosa)

Biografia

Nasce no Funchal a 9 de outubro de 1885. Trabalha com o seu pai, mestre do Ensino Técnico, em carpintaria e marcenaria, recebendo dele as primeiras lições de desenho. Aos 15 anos de idade parte para Lisboa com o seu irmão, Henrique Franco. Frequenta a Escola de Belas Artes de Lisboa entre 1902 e 1909, onde é aluno de Simões de Almeida (tio). Em 1909 interrompe os estudos e parte para Paris como bolseiro do Estado, através do Legado Valmor; convive com outros artistas portugueses então residentes nessa cidade, entre os quais Amadeo de Souza Cardoso, Eduardo Viana, Manuel Jardim, José Pacheko e, sobretudo, Santa-Rita Pintor, o seu principal companheiro nesses anos. Interessa-se de modo particular pela obra de Auguste Rodin.

Em 1911 viaja pelos Países Baixos. No ano imediato a sua bolsa, tal como a de outros colegas, é interrompida devido a desentendimentos de caráter político, levando-o a regressar a Lisboa, mas em breve está de novo em Paris. Em 1914, após a eclosão da I Guerra Mundial, fixa-se no Funchal, onde realiza diversas esculturas, entre as quais quatro monumentos públicos.

Em 1919 (ou 1921, segundo algumas fontes consultadas) volta para Paris como bolseiro, convivendo com Diogo de Macedo, Dordio Gomes, Heitor Cramez e Modigliani. É uma fase de trabalho intenso: executa diversas esculturas, desenha e grava em madeira e ponta-seca, realiza algumas monotipias. Expõe no Salon d'Automne em 1921 e na Société nationale des beaux-arts, da qual é nomeado «Associé» com privilégio «Hors Concours». Em 1923 desloca-se a Lisboa para organizar a exposição Cinco Independentes (com Diogo de Macedo, Dordio Gomes, Henrique Franco e Alfredo Miguéis). No ano imediato viaja a Paris, expondo no Salon a sua escultura Semeador.

Em 1925 parte para Roma como pensionista do Estado, visitando, com Dordio Gomes, diversas cidades italianas entre as quais Turim, Veneza, Florença, Pompeia, Assis. Regressa ao Funchal em 1926, começando a trabalhar na estátua de Gonçalves Zarco (completada em 1927); essa obra é exposta na Avenida da Liberdade (1928) e, uma cópia, na Feira de Sevilha (1929). Em 1930 o monumento é inaugurado na cidade do Funchal. Nesse mesmo ano Francisco Franco participa no I Salão dos Independentes (SNBA, Lisboa), onde se faz um balanço do modernismo à escala nacional.

A partir da década de 30 Francisco Franco irá ser um dos autores mais solicitados para a realização da estatuária do Estado Novo, tornando-se numa figura de referência a nível nacional.

Em 1931 realiza a estátua do Infante D. Henrique para a Exposição Colonial de Paris (Vincennes). Em 1934 candidata-se ao lugar de professor de desenho da Escola de Belas-Artes de Lisboa, sendo preterido em favor de Leopoldo de Almeida. Nesse mesmo ano executa um primeiro retrato de Salazar, que expõe na I Exposição de Arte Moderna do S.P.N. (1935), e é agraciado com o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, a 5 de outubro. Realiza a estátua de Salazar que será apresentada na Exposição Internacional de Paris de 1937. Durante dois anos trabalha na estátua equestre de D. João IV para o terreiro do Paço Ducal de Vila Viçosa. Recebe a Medalha de Ouro de Mérito do Município do Funchal.

Os últimos anos revelam um abrandamento da sua obra, em grande parte resultante do atropelamento de que foi vítima junto ao seu estúdio e do qual nunca recuperou por completo. O monumento ao Cristo Rei, em Almada, de que apenas realizou o esboceto, é revelador desse esmorecimento. Viria a falecer a 15 de fevereiro de 1955 aos 69 anos de idade.

No ano de 1979, a Escola Secundária Francisco Franco, localizada no Funchal, escolheu-o como seu patrono passando assim a constar o seu nome na designação da mesma escola. 

 

Estátua da Rainha D. Leonor, 1935

Estátua da Rainha D. Leonor, 1935

 

Obra

A obra de Francisco Franco pertencente ao seu primeiro período parisiense (1910-1911), é ainda tendencialmente convencional; da sua fixação na ilha da Madeira, em 1914, irão resultar esculturas "com bom valor dramático" onde se sentem ecos da obra de Rodin. No início do segundo período parisiense, ao mesmo tempo que realiza notáveis gravuras em madeira ou a ponta-seca, Franco abandona, a pouco e pouco, a influência de Rodin (ainda presente em O semeador, 1924), modelando obras como Busto de Manuel Jardim, 1921 – um poderoso retrato interior e a escultura mais significativa desse ano –, ou Torso de Mulher, 1922, duas peças peças que contam como as primeiras de uma "escultura portuguesa modernizada, libertada em valores expressionistas".

Torso de Mulher foi exposto no Salon d'Automne e assinala a opção por valores mais classizantes próprios do início da década de 1920. "A arquitetura das massas bem equilibradas, quase hierarquicamente entendidas como puros valores escultóricos, aproximam-no de Bourdelle que será o seu mestre entre os contemporâneos, no entanto os cortes que fragmentam a peça, sobretudo o da cabeça, evocando uma memória arqueológica, têm ainda presente a lição de Rodin".

Em 1927 realiza um trabalho que irá marcar a estatuária portuguesa entre as décadas de 1930 e 1960: o monumento a Gonçalves Zarco, Funchal. Inspirada nos painéis de Nuno Gonçalves, esta obra fixa o cânone da «idade de ouro da escultura portuguesa» – assim denominada por António Ferro em 1949. Caracterizado por um «classicismo austero», esse modelo seria longamente explorado (pelo próprio e por autores mais jovens), garantindo a Franco uma carreira de escultor oficial do Estado Novo durante mais de um quarto de século. O abandono do lirismo expressivo inicial estender-se-ia à série de estátuas públicas que vai do seu Infante D. Henrique (1931) ao Cristo-Rei monumental, "que esboçou antes de morrer e seria infelizmente erguido numa colina de Almada em 59". Esse «naturalismo clássico» ficaria claramente expresso na sua D. Leonor (1935; Caldas da Rainha), D. Dinis (1943, Universidade de Coimbra), Bispo D. Miguel (1950; Lamego), Oliveira Salazar (1937), ou na notável estátua equestre de D. João IV (1940; Vila Viçosa). Realizada em 1940 no âmbito das comemorações dos centenários, uma cópia em gesso da estátua de D. João IV foi apresentada na Exposição do Mundo Português; nas palavras de José-Augusto França, trata-se de uma obra "de grande dignidade na sua cuidada elaboração, síntese de bons exemplos bem unificados, velasquenha por necessidade e funcionando como se pretendia, e com escala suficiente, no vasto terreiro do Paço Ducal".

Incompleta talvez para as exigências do próprio autor, a obra plástica de Franco será, segundo Diogo de Macedo, um reflexo dos constrangimentos do tempo em que viveu. A imposição dos temas históricos na sua vasta produção não lhe permitiu realizar plenamente o que sonhara na mocidade. Para Francisco Franco, "não houve tempo nem oportunidade para esculpir para sua satisfação a obra-prima de total intimidade de que era capaz. Escravizado às circunstâncias que o destino ordena […], só nas pequenas obras de criação afetiva pôde fazer declarações desse desejo", como acontece, por exemplo, no Busto de Manuel Jardim ou na Rapariga polaca (1921), obras parisienses que são excelentes exemplos de uma arte de penetração psicológica e de um superior domínio formal.


Estátua de D. João III, 1948 - Coimbra

 

 Estátua de D. Dinis, 1943 - Coimbra