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terça-feira, agosto 25, 2026

Hoje é dia de ouvir guitarra de Coimbra...

António Brojo morreu há 27 anos...


António Brojo - foto do blog "Guitarra de Coimbra II"

 

António Pinho Brojo (Coimbra, 28 de novembro de 1928 - Coimbra, 25 de agosto de 1999) foi um músico português.

Frequentou o Liceu de Coimbra e começou os estudos de Ciências Farmacêuticas em Coimbra, que viria a ter de terminar na Universidade do Porto em 1950, por não ser possível ainda fazer na totalidade o curso em Coimbra. Preparou a tese de doutoramento em Farmácia na Universidade de Basileia e doutorou-se na Universidade do Porto em 1961. Seguiu a carreira académica na Universidade de Coimbra, onde chegaria a professor catedrático (1972) e a vice-reitor (1994). Jubilou-se da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra em 1998.

Paralelamente à carreira de professor universitário, foi um distinto executante de guitarra de Coimbra. Começou a tocar ainda nos anos quarenta, quando frequentava o Liceu com guitarristas como José Amaral, João Bagão, Armando de Carvalho Homem e Flávio Rodrigues da Silva. Ao lado de António Portugal, viria a fazer um dos mais célebres duetos de guitarra de Coimbra.

Gravou dois CDs: "Variações Inacabadas" e "Memórias de uma Guitarra". 

 

in Wikipédia

 

quinta-feira, agosto 20, 2026

Música para recordar uma voz de Coimbra...

António Bernardino, o Berna, nasceu há 85 anos...

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António Bernardino Pires dos Santos (Berna), nasceu em 20 de agosto de 1941, em Óis da Ribeira, concelho de Águeda. Fez o liceu em Aveiro onde deu os primeiros passos nas cantigas, não só na Récita de Finalistas de 61/62, como também em inúmeras serenatas, tão em voga na época. Do seu primeiro Grupo de Fados de Aveiro marcaram presença António Andias, António Castro, Carlos Lima e Mário Cruz.

- Chegou a Coimbra em 1963 e desde logo as suas grandes capacidades de intérprete o guindaram à ribalta da Canção Coimbrã. Foram seus companheiros nessa época António Portugal, os irmãos Melo (Eduardo e Ernesto), Octávio Sérgio, Nuno Guimarães, Manuel Borralho, Francisco Martins, Hermínio Menino, Jorge Rino, Rui Pato, Durval Moreirinhas e Jorge Moutinho. Colaborou com quase todas as secções culturais da Associação Académica de Coimbra - Orfeão, Tuna, CITAC, Coro Misto / Danças Regionais - e manifestações académicas - Saraus, Serenatas Monumentais, Latadas, Festas de Repúblicas, etc.
- Gravou o seu primeiro disco em 1964 do qual faziam parte a “Samaritana” e “Fado do 5º Ano Médico”. Alguns dos seus registos fonográficos, nomeadamente os de contestação, não chegaram ao grande público, embora existam alguns exemplares, guardados religiosamente em coleções particulares. Em 1969 grava o LP “Flores para Coimbra”, sem dúvida o seu trabalho mais importante e que marcou um momento histórico de viragem.
- António Bernardino considerou-se influenciado por José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e pela poesia de Manuel Alegre. Gravou oficialmente cerca de 50 temas.
- Em 1967 foi mobilizado para a guerra colonial, em Moçambique, local onde permaneceu até 1974. Regressado de África, passou a residir em Lisboa a partir de 1975. Licenciado em Ciências Geográficas, exerceu o cargo de Vice-presidente dos Serviços Sociais da Universidade de Lisboa. Continuou sempre a cantar e a participar em espetáculos, gravações de discos e programas de televisão e rádio. Nesta fase foi acompanhado por António Portugal, António Brojo, João Bagão, Octávio Sérgio, Aurélio Reis, Luis Filipe, Rui Pato, Durval Moreirinhas e tantos outros.
- António Bernardino foi, seguramente, o cantor que mais divulgou a canção de Coimbra no estrangeiro. Dos E.U.A. à ex-URSS, da América Central à Tailândia, da América do Sul à Malásia, da África a Macau, a todos levou um pouco da cultura coimbrã.
- No dia 10 de junho de 1995, foi agraciado pelo então Presidente da Republica Dr. Mário Soares, com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, por serviços relevantes prestados à cultura.
- Faleceu em 17 de junho de 1996. 
 
 

Saudades de António Bernardino...

Música para recordar um fadista de Coimbra...

segunda-feira, agosto 17, 2026

Hoje é preciso ouvir Luiz Goes cantar poesia de António Botto...

 

O Meu Fado - Luiz Goes

Música: Armando do Carmo Goes
Letra: António Botto

 

Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo,
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

Tem quatro letras apenas
A triste palavra amor,
Menos uma do que a morte,
Mas mais uma do que a dor.

sábado, agosto 15, 2026

Nunca te esqueceremos, Nuno Guimarães...

Música para recordar um poeta que era músico e compositor de fado e canção de Coimbra...

 

Título original: ANJO NEGRO
Música: José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (1942-1973)
Letra: José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (1942-1973)
Incipit: Nuvem branca
Origem: Coimbra
Género: Canção de Coimbra
Arranjo: José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (1965)
Data: 1964-1965 (SPA: 4.05.1965)
 
 
Anjo Negro

Nuvem branca
É como a noite
Anjo negro é como a flor

Meu amor é um anjo negro
Quanto mais me prendo a ele
Maior minha perdição.

Mas eu vou
Roubar-te as asas,
Anjo negro como a flor,
Ficas na terra sozinho

Anda procurar comigo
Anjo negro, a perdição.
 

Informação complementar:
Composição musical paraestrófica em compasso quaternário, no tom de Mi menor, magnificamente vocalizada pelo 1.º tenor José Manuel dos Santos no EP Serenata de Coimbra, Porto, OFIR AM 4.039, do ano de 1965. Os acompanhamentos são de Nuno Guimarães/Manuel Borralho (guitarras) e Rui Pato/Jorge Ferraz (violas). Remasterização no CD Fados e Baladas de Coimbra. Recordando Nuno Guimarães, Porto, OFIR DSA-CD-401, ano de 1997, faixa nº 7 (ver em particular o texto de Armando de Carvalho Homem no livreto desta reedição). Pauta em Recordando Nuno Guimarães, Vila Nova de Gaia, Edição da CMVNG, 1997, pág. 25.
O autor, poeta, compositor e executante de guitarra de Coimbra, nasceu em Perosinho, Vila Nova de Gaia, em 1942 e faleceu, precocemente, em 1973. Frequentou a Faculdade de Letras da UC entre 1961/1962 e 1967. Redescoberto como poeta singular, continua esquecida no mainstream intelectual português a sua originalidade como compositor musical, autor de arranjos inovadores e intérprete-criador no campo da segunda modernidade coimbrã.

 

in Guitarra de Coimbra V

Nuno Guimarães morreu há 53 anos...

   

José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (Perosinho, Vila Nova de Gaia, 29 de agosto de 1942 - 15 de agosto de 1973) foi um poeta e músico português. 

 

 Biografia

José Nuno Guimarães Guedes dos Santos nasceu a 29 de agosto de 1942, em Perosinho, Vila Nova de Gaia, Porto.

Estudou Filologia Românica em Coimbra, na Faculdade de Letras. Nesta cidade, integrará a publicação coletiva de poesia Confluência (1963). Autor de letras, músicas e arranjos de acompanhamento da Canção de Coimbra e intérprete da guitarra de Coimbra, contribui para renovar a estética do género entre 1964 e 1967. A sua primeira colaboração na revista Vértice data de junho de 1967. Concluirá a licenciatura no mês seguinte, com uma tese sobre a obra de Machado de Assis e as suas relações com Garrett (1967). Em outubro, inicia o serviço militar em Mafra. Aí, "entre espingardas e sistemas criptográficos" vem a conhecer, em janeiro de 1968, Gastão Cruz, encetando-se uma amizade para lá de meia década. É depois enviado para Luanda, onde também leciona e vem a casar. De regresso ao Porto, exerce a docência no então Liceu D. Manuel II.

Publica o primeiro livro de poemas, Corpo Agrário, em 1970. Seguir-se-ão a presença na antologia 10 Poemas para Che Guevara (1972) e a segunda publicação, Os Campos Visuais (1973). Nesse mesmo ano, após breve doença, acabará por falecer, interrompendo uma promissora voz na poesia portuguesa.

É, anos mais tarde, e pela mão do amigo, professor e poeta Fernando Guimarães, que se reunirão as suas Poesias Completas (1995), pelas Edições Afrontamento. Por último, seguindo a lição anterior, é publicado o volume Entre Sílabas e Lavas: poesia completa (2024), pela Assírio & Alvim, restituindo integralmente uma entrevista dada a Maria Teresa Horta, no jornal A Capital.

 

in Wikipédia

Palavras que rebentam

 

Palavras que rebentam. Aflorando
a pedra, a solidão, deslizam, vagas,
gramaticais, roendo inconformadas
as arestas, o atrito, puras. Quando
 
nos líquidos, no éter, na distância,
diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
combatem, rumorosas, cal e cântico.
 
É difícil atarem corpo e vida
aos que vivem e morrem subjacentes
subjazendo, talhados para mina.
 
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
rebentam em ogiva, funcionais
chamas supostamente adormecidas.

 
 
 
Nuno Guimarães

Música adequada à data...

quarta-feira, agosto 12, 2026

domingo, agosto 09, 2026

Porque hoje é preciso recordar Alexandre de Rezende...

Fado de Coimbra com música de aniversariante de hoje

Alexandre de Rezende, guitarrista, compositor e cantor do fado de Coimbra, nasceu há 140 anos...

 


 
ALEXANDRE de REZENDE (1886 - 1953). Guitarrista, compositor e cantor de Coimbra.

Faz hoje, dia 2 de fevereiro de 2013, 60 anos que ALEXANDRE AUGUSTO de REZENDE MENDES, ou ALEXANDRE AUGUSTO MENDES de PINA e ALBUQUERQUE REZENDE, faleceu em Lisboa, no ano de 1953, nascera em Campinas, estado de S. Paulo, Brasil, a 9 de agosto de 1886. O pai, Alexandre Augusto de Albuquerque Mendes de Pina e Rezende, fora Cônsul Honorário de Portugal, em Campinas. A mãe, D. Ana Duarte Gouveia de Rezende, faleceu quando o jovem Alexandre tinha 10 anos. Filho de pai fidalgo e abastado, vem para Portugal, passa pelos liceus da Guarda e de Lamego, e aos 16 anos instala-se com o progenitor, em Coimbra, em Celas. No ano seguinte, com 17 anos, faz exame de admissão à 5ª Classe do Liceu, em Coimbra, mas reprova. Nunca entrou na Universidade de Coimbra. Vivia em Celas, na Casa Grande de Celas, edifício que hoje já não existe, e onde havia sempre uma ajuda para os estudantes com mais dificuldades financeiras. Eram gente fraterna e solidária. Na sua casa, juntavam-se todos os que precisavam de ajuda e se entregavam nos serões gastronómicos e musicais, que Alexandre e o pai, lhes proporcionavam. O seu amigo Rafael Salinas Calado (1893 – 1962), no seu livro “Memórias de um estudante de Direito”, diz:

- “O Alexande Rezende. Não era estudante, já no meu tempo, mas acamaradava com galhardia e com amizade, recíproca, com muitos estudantes. Alto, esbelto, delgadinho, valente e destemido, sempre muito janota, abastado, muito leal, cantava muito bem e muito bem tocava guitarra.

Tinha uma pecha curiosa, ou antes uma imunidade muito característica.

Quando era preciso beber, bebia tanto ou mais que os outros, mas rijo, nada o virava, e calmo e, fleumático, não deixava adivinhar o estado em que se encontrava.” (vem depois uma estória de uma serenata, a umas senhoras gentilíssimas da Figueira, que os copos a mais, prejudicaram o final ...).

Alexandre Rezende, conviveu com a juventude estudantil do seu tempo em Coimbra, dos quais referiremos apenas Manassés de Lacerda (1885 – 1962), durante algum tempo, pois este segue cedo para o Porto, Alexandre Torres (1886 – 1969), Francisco Menano (1888 – 1970), Patrocíno Dias (1884 – 1965), muito, Paulo de Sá (1891 – 1952), António Menano (1895 – 1969), e muitos outros não estudantes, mas que eram famosos na altura, como os irmãos Caetanos, Francisco (1884 – 1956), Alberto (1888 – 1941) e José (1894 – 1971), José Trego (1883 – 1976) e outros. Na sua casa, cantava-se e tocavam-se guitarradas , o chamado Fado de Coimbra era presença indispensável, mas noites havia, em que o Fado de Lisboa era rei. Ficaram famosas as comezainas bem regadas, que pai e filho proporcionavam, na casa de Celas, sendo que não faltavam os charutos, as declamações poéticas e versalhadas do mais fino estilo. Consta que as tascas e tabernas de Coimbra, conheciam bem esta rapaziada, que parece terem eleito como templo principal, das suas noite de petiscos e comezainas musicais, a Tasca do Magrinho.

Era usual, deslocarem-se para fora de Coimbra, onde nas casas abastadas e fidalgas, em serões de antologia, se ouviam os estudantes de Coimbra, nos seus Fados e Guitarradas. Entre outras, a Condessa de Proença-a-Velha, D. Maria de Melo Furtado Caldeira Geraldes de Bourbon (1864 – 1944), quando se deslocava a Mogofores (Anadia), mas também em Penamacor, Lisboa e por vezes Coimbra, promovia com forte entusiasmo estes serões culturais. Deixou escrito, livros que atestam estas vivências inesquecíveis, a que Augusto Hilário (1864 – 1996), foi no seu tempo uma presença privilegiada, pois para além do mais, eram da mesma idade.

Alexandre de Rezende, mais tarde constituiu família, e veio a ser Administrador de concelho em Montemor-o-Velho, Fornos de Algodres (terra do famoso Jaime de Abreu, e da família Menano), e Celorico da Beira, procurando sempre nesses lugares, manter estes serões culturais, a fidalguia residente e com artistas amadores. Tendo em atenção o trabalho do Coronel José Anjos de Carvalho e do Mestre Dr. António Manuel Nunes, poderemos dizer que o AR, gravou nos anos longínquos de 1929, quatro fonogramas etiqueta Parlophon. Coloca-se a hipótese de haver ainda mais uma gravação, não totalmente identificada. Como composições de Alexandre de Rezende podemos referir, com música sua:

- D’UM OLHAR (As meninas dos meus olhos)
- FADO DE MINHA MÃE (Minha mãe é pobrezinha)
- INQUIETAÇÃO (Quanto mais foges de mim)
- FADO DA MENTIRA (Ninguém conhece no rosto)
- O MEU MENINO (O meu menino é de oiro)
- O MEU FILHINHO (À mãe de Nosso Senhor)
- FADO DA SUGESTÃO (Não digas não, dize sim)
- FADO DA GRAÇA (Dona Clarinha da Graça)
- FADO DA LUZ (Tenho uma luz que me guia)
- FADO DA MONTANHA (Quem por amor se perdeu)
- FADO TRISTE (Tive um só amor na terra)
- FADO REZENDE (ao morrer os olhos dizem)

Existem ainda composições suas, que de acordo com os autores referidos JAC e AMN, não se conhecem solfas impressas, estando os respetivos fonogramas inacessíveis. É o caso dos fonogramas da Parlaphom, B. 33500 e B. 33505, onde figuram as composições Canção da Despedida e Fado do Conde da Covilhã, no primeiro, e Fado da Minha Mãe e Canção da Raia, no segundo. Um outro fonograma tem duas composições ao estilo de Fado de Lisboa, com as composições, Fado de Lisboa e Fado da Fadistice. Alexandre de Rezende, faleceu em Lisboa a 2 de fevereiro de 1953. A 9 de agosto desse ano, faria 67 anos.
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Manuel Marques Inácio

NOTA - Para um conhecimento mais profundo de Alexandre de Rezende, veja o que se encontra no link que se segue, da autoria de Anjos de Carvalho e António Manuel Nunes: 
   

sexta-feira, agosto 07, 2026

Saudades de Edmundo Bettencourt...

 

Canção do Alentejo -  Edmundo Bettencourt

 

Lá vai Serpa, lá vai Moura
Ai, as Pias ficam no meio
Lá vai Serpa, lá vai Moura
Ai, as Pias ficam no meio

Quem vier à minha terra
Ai, não tem de que ter receio
Quem vier à minha terra
Ai, não tem de que ter receio

Teus olhos, linda morena,
Ai, fazem-me a alma sombria
Teus olhos, linda morena,
Ai, fazem-me a alma sombria

Quero-te mais, ó morena
Ai, do que à luz de cada dia.
Quero-te mais, ó morena
Ai, do que à luz de cada dia.

Hoje é preciso ouvir fado de Coimbra...

Edmundo Bettencourt nasceu há 127 anos...

(imagem daqui)

  

Edmundo Alberto Bettencourt (Funchal, 7 de agosto de 1899 - Lisboa, 1 de fevereiro de 1973) foi um cantor e poeta português notavelmente conhecido por interpretar o Fado e a Canção de Coimbra e pelo seu papel determinante na introdução de temas populares neste género musical. Notabilizou-se pela composição musical "Saudades de Coimbra" a qual é ainda hoje uma referência da música portuguesa universitária.  

Edmundo era neto de Júlio César de Bettencourt, Morgado da Calheta. Caso o morgadio não tivesse sido extinto, Edmundo teria sido o Morgado. 

Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra, foi funcionário público, até ser despedido, por o seu nome figurar entre os milhares de signatários das listas do MUD, desenvolvendo, então, a atividade de delegado de propaganda médica. Integrou o grupo fundador de Presença, cujo título sugerira, e em cujas edições publica O Momento e a Legenda. Dissocia-se do grupo presencista em 1930, subscrevendo com Miguel Torga e Branquinho da Fonseca uma carta de dissensão, onde é acusado o risco em que a revista incorria de enquadrar o "artista em fórmulas rígidas", esquecendo o princípio de "ampla liberdade de criação" defendido nos primeiros tempos" (cf. "O Modernismo em Portugal", entrevista de João de Brito Câmara a Edmundo de Bettencourt, reproduzida em A Phala, n.° 70, maio de 1999, p. 114). A redação de Poemas Surdos, entre 1934 e 40, alguns dos quais publicados na revista lisboeta Momento, permite antedatar o surto do surrealismo em Portugal, enquanto adesão a um "sistema de pensamento, no que ele tem de fuga à chamada realidade, repúdio dos valores duma civilização e esperança de ação num domínio onde por tradição ela é quase sempre negada", embora não seja possível esclarecer com especificidade qual foi o conhecimento que Bettencourt teve da lição surrealista francesa.

Frequentou os cafés Royal e Gelo, onde se reuniu a segunda geração surrealista, vindo a publicar seis inéditos no n.° 3 da revista Pirâmide (1959-1960), em cujas páginas, entre 59 e 60, foram dadas à luz algumas das produções do grupo do Gelo. Publicou ainda esparsamente outros poemas em Momento, Vértice, Búzio. Depois de um silêncio, que deve ser compreendido não como desistência "mas sim [como] uma peculiar forma de revolta que o poeta defende carinhosamente", colige toda a sua produção, permitindo a edição, em 1963, dos Poemas de Edmundo de Bettencourt, prefaciados por Herberto Helder, poeta que, pela primeira vez, faz justiça à originalidade do autor de Poemas Surdos, considerando-o "uma das pouquíssimas vozes modernas entre o milagre do Orpheu e o breve momento surrealista português" (HELDER, Herberto - "Relance sobre a Poesia de Edmundo de Bettencourt", prefácio a Poemas de Edmundo de Bettencourt, Lisboa, Portugália, 1963, p. XXXII). Com efeito, o versilibrismo, o imagismo e certa atmosfera onírica e irreal conferem à sua poesia um lugar de destaque no segundo modernismo, estabelecendo, simultaneamente, a ponte com o vanguardismo de Orpheu e com tendências surrealistas e imagistas verificadas em gerações posteriores à Presença.

 

in Wikipédia

 

Nebulosa


Certo passado audaz sempre revive,
apenas, sob um céu menos escuro.
Quem vive para o futuro,
já o vive!
 
Futuro!
Quando te posso ver, por ti, plena aurora,
condena-te a presença:
és este agora
que possuo
como a abelha suga a rosa…
e sem que o resto me importe.
  
Mas ante sou depois, ver-te ou pensar-te
é ver uma nebulosa
– é como pensar na morte.

 
 
 
Edmundo Bettencourt

segunda-feira, agosto 03, 2026

Barros Madeira nasceu há 92 anos...

  

Chega-nos a notícia do falecimento do Dr. JOÃO BARROS MADEIRA (Loulé, 03.08.1934 - 21.01.2021), filho de David Mendes Madeira e de Joana d'Aragão Barros, associado que foi do Orfeon Académico e da TAUC, dirigente associativo em Coimbra e reputado cantor-serenateiro na década de 50 e nos inícios dos anos sessenta. Deixou discos gravados com os grupos de Jorge Tuna e António Portugal.

Frequentou a FMUC entre 1953-1962, com passagem prévia pelo Liceu João de Deus (Faro). Concluído o curso, exerceu Medicina no Algarve, teve militância política e dedicou-se à criação, treino e venda de pombos correios. 

Foi autor de pelo menos duas composições coimbrãs famosas e teve uma gravação censurada pela moral da época, por conta de um verso onde se dizia que Nossa Senhora tivera inveja de uma moça sortuda. 

Tem uma pequena biografia em Niza (1999: I, 94), com erros na datação dos registos fonográficos.

Barros Madeira foi, no vulto e na voz, uma espécie de Luciano Pavarotti da Academia de Coimbra, tenor dotado de pontentíssimo registo que, em 1962, fez um sucesso estrondoso na digressão do Orfeon Académico aos Estados Unidos com o tema Fado de Santa Clara (em cuja gravação faz umas lentificações curiosas).

Deixa amigos, admiradores e muitas saudades.

Divulgação de uma fotografia tirada em 1959 junto da República Boa-Bay-Ela, onde também figura o popular "Teixeira" que vendia o Poney


in Guitarra de Coimbra V (Cithara Conimbrigensis)