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sexta-feira, outubro 23, 2026

Hoje é preciso celebrar uma imortal guitarra de Coimbra...

António Portugal nasceu há 95 anos...

 


António Portugal 

Guitarra portuguesa

António Moreira Portugal teve como professores dois guitarristas “futricas”, barbeiros de profissão e irmãos (o Flávio e o Fernando).

Nasceu em 23 de outubro de 1931, na República Centro-Africana, e morreu em Coimbra, a 26 de junho de 1994, com 63 anos.

Com um ano de idade foi viver para Coimbra (a sua família era de Penacova) e aí fez a escola primária, os estudos secundários e se licenciou em Direito.

Foi no Liceu D. João III que conheceu Luiz Goes e José Afonso e que os começou a acompanhar, em 1949, com um grupo constituído por Manuel Mora (2º guitarra) e Manuel Costa Brás (militar de Abril e ex-ministro) e António Serrão, à viola.

Em 1951 matriculou-se na Faculdade de Direito e ingressou na tuna e Orfeon Académico. Em 1952 conheceu António Brojo, que o convidou para integrar o histórico grupo de fados e guitarradas do qual faziam parte os cantores Luiz Goes, José Afonso, Florêncio de Carvalho, Fernando Rolim e, um pouco mais tarde, Fernando Machado Soares.

Para além de António Brojo e de António Portugal, nas guitarras, faziam ainda parte do grupo os violas Aurélio Reis e Mário de Castro. Em 1953 – e depois de muitos anos em que não se gravaram discos de Fado de Coimbra – o grupo liderado por António Brojo registou uma série de 8 discos de 78 rotações por minuto.

António Portugal, durante mais de 45 anos, esteve omnipresente em tudo o que se relaciona com a “Canção de Coimbra”.

De 1949 a 1994, criou uma obra ímpar, quer pela qualidade e inovação das suas composições e arranjos, quer pela forma como sabia ensaiar os cantores, e com eles criar uma dinâmica de acompanhamento que o distingue de todos os outros guitarristas do seu tempo.

António Portugal deixou, de longe, a mais ampla e completa discografia do Fado e da Guitarra de Coimbra.

Embora de forma esquemática e muito resumida, o percurso musical de António Portugal poderá ser dividido em quatro fases.

A primeira, iniciática, em que António Portugal se aplica na execução e pesquisa da guitarra, e na sua colaboração, já referida, com os maiores e mais importantes nomes da geração de 50.

A segunda, que inicia com a formação do grupo do “Coimbra Quintet” (Luiz Goes, Jorge Godinho – 2º guitarra, também já falecido e Manuel Pepe e Levy Batista), corresponde à transição para a renovação do fado e da guitarra de Coimbra, que culminou com a gravação da “Balada de Outono”, de José Afonso e onde, pela primeira vez ao lado de António Portugal, surge a viola de Rui Pato.

A terceira fase – início dos anos 60 – é fundamentalmente marcada pela canção de intervenção e pelos nomes de Adriano Correia de Oliveira e Manuel Alegre. A “Trova do vento que passa”, de que António Portugal é autor da música em conjunto com Adriano Correia de Oliveira, é o hino e o emblema da resistência ao regime e à guerra colonial.

A quarta e última fase, é também a mais longa: é o período da maturidade e da consagração.

Depois do 25 de Abril, António Portugal, que ao longo dos anos tinha sido um ativista político persistente e eficaz na luta contra o fascismo, “trocou” temporariamente a guitarra pela política ativa, quer na Assembleia Municipal de Coimbra (onde foi, até à sua morte, líder da bancada do PS), quer na Assembleia da República, como deputado.

Ultrapassado o período revolucionário de 1975 – em que a onda de contestação não poupou também as tradições coimbrãs – e com o “regresso” de António Brojo ao gosto e ao gozo da guitarra, reconstituiu-se o grupo dos anos 50 e foi reiniciada uma atividade de intensa participação, quer em espetáculos em Portugal e por todo o mundo, quer numa série de programas para a RTP, quer ainda a gravação de uma coletânea de 6 LP, “Tempos de Coimbra – oito décadas no canto e na guitarra”, onde se registam, para a história – desde Augusto Hilário à atualidade – dezenas de fados e guitarradas, fruto de laboriosa e cuidada recolha.

A sua morte interrompeu o seu último projeto, que vinha realizando com António Brojo, sobre a guitarra de Coimbra: ambos os solistas preparavam um duplo álbum de guitarradas, em que alternadamente se acompanhavam um ao outro, e que já ia a caminho da finalização.

No dia 10 de junho de 1994, quando se encontrava no Oriente para atuar com o seu grupo nas Comemorações do Dia de Portugal, o Presidente da República, Dr. Mário Soares, atribui-lhe, em Coimbra, a Ordem da Liberdade.

António Portugal não teve a alegria de ver, e ostentar, essa justíssima condecoração porque, à chegada ao aeroporto de Pedras Rubras, foi vitimado por acidente vascular cerebral, morrendo dias depois, na sua amada cidade de Coimbra.

Como escreveu o conceituado Rui Vieira Nery, na Revista do jornal “Expresso”,

“A morte de António Portugal, encarnação modelar da guitarra coimbrã e de toda a tradição que nela se foi condensando ao longo destes dois últimos séculos, deixa-nos aquela espécie de vazio doloroso que é a de uma perda simultaneamente individual e geral. Perdemos um músico excelente que marcou decisivamente a nossa música popular urbana dos anos 60 e 70, mas perdemos também uma trave-mestra desse universo cada vez mais frágil e mais difuso que é o da guitarra portuguesa e, especificamente, o da guitarra de Coimbra”.

 

in Meloteca


Saudades da guitarra de António Portugal...

 

sexta-feira, outubro 16, 2026

Saudades de Adriano...

 

Capa negra, rosa negra - Adriano Correia de Oliveira
Música: António Portugal e Adriano Correia de Oliveira
Letra: Manuel Alegre

  
  
Capa negra, rosa negra
Rosa negra sem roseira
Abre-te bem nos meus ombros
Como o vento numa bandeira.

Abre-te bem nos meus ombros
Vira costas à saudade
Capa negra, rosa negra
Bandeira de liberdade.

Eu sou livre como as aves
E passo a vida a cantar
Coração que nasceu livre
Não se pode acorrentar. 

Música para recordar uma triste e clara madrugada com uma morte...

 

E alegre se fez triste - Adriano Correia de Oliveira
Poema de Manuel Alegre e música de José Niza
   
   

Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como
chuva que viesse em pleno Agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.

Adriano Correia de Oliveira morreu há 44 anos...

(imagem daqui)
    
Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira (Porto, 9 de abril de 1942 - Avintes, 16 de outubro de 1982) foi um músico português.
  
Filho de Joaquim Gomes de Oliveira e de sua mulher, Laura Correia, Adriano foi um intérprete do Fado de Coimbra e cantor de intervenção. A sua família era marcadamente católica, crescendo num ambiente que descreveu como «marcadamente rural, entre videiras, cães domésticos e belas alamedas arborizadas com vista para o rio». Depois de frequentar o Liceu Alexandre Herculano, no Porto, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em 1959. Viveu na Real República Ras-Teparta, foi solista no Orfeon Académico, membro do Grupo Universitário de Danças e Cantares, ator no CITAC, guitarrista no Conjunto Ligeiro da Tuna Académica e jogador de voleibol na Briosa. Na década de 60 adere ao Partido Comunista Português, envolvendo-se nas greves académicas de 62, contra o salazarismo. Nesse ano foi candidato à Associação Académica de Coimbra, numa lista apoiada pelo MUD.
Data de 1963 o seu primeiro EP, Fados de Coimbra. Acompanhado por António Portugal e Rui Pato, o álbum continha a interpretação de Trova do vento que passa, poema de Manuel Alegre, que se tornaria uma espécie de hino da resistência dos estudantes à ditadura. Em 1967 gravou o álbum Adriano Correia de Oliveira, que, entre outras canções, tinha Canção com lágrimas.
Em 1966 casa-se com Maria Matilde de Lemos de Figueiredo Leite, filha do médico António Manuel Vieira de Figueiredo Leite (Coimbra, Taveiro, 11 de outubro de 1917 - Coimbra, 22 de março de 2000) e de sua mulher Maria Margarida de Seixas Nogueira de Lemos (Salsete, São Tomé, 13 de junho de 1923), depois casada com Carlos Acosta. O casal, que mais tarde se separaria, veio a ter dois filhos: Isabel, nascida em 1967 e José Manuel, nascido em 1971. Chamado a cumprir o Serviço Militar, em 1967, ficaria apenas a uma disciplina de se formar em Direito.
Em 1970 troca Coimbra por Lisboa, exercendo funções no Gabinete de Imprensa da FIL - Feira Industrial de Lisboa, até 1974. Ainda em 1969 vê editado o álbum O Canto e as Armas, revelando, de novo, vários poemas de Manuel Alegre. Pela sua obra recebe, no mesmo ano, o Prémio Pozal Domingues.
Lança Cantaremos, em 1970, e Gente d' aqui e de agora, em 1971, este último com o primeiro arranjo, como maestro, de José Calvário, e composição de José Niza. Em 1973 lança Fados de Coimbra, em disco, e funda a Editora Edicta, com Carlos Vargas, para se tornar produtor na Orfeu, em 1974. Participa na fundação da Cooperativa Cantabril, logo após a Revolução dos Cravos e lança, em 1975, Que nunca mais, onde se inclui o tema Tejo que levas as águas. A revista inglesa Music Week elege-o Artista do Ano. Em 1980 lança o seu último álbum, Cantigas Portuguesas, ingressando no ano seguinte na Cooperativa Era Nova, em rutura com a Cantabril.
   
Vítima de uma hemorragia esofágica, morreu na quinta da família, em Avintes, nos braços da sua mãe.
    
 

Música adequada à (triste) data...

quarta-feira, setembro 30, 2026

Começou a Festa das Latas e Imposição de Insígnias de 2026...

Às 24.00 horas de 30 de setembro, com as badaladas da velha cabra, começa outra Festa das Latas e Imposição de Insígnias da Associação Académica de Coimbra, com a tradicional Serenata, novamente na praça da Sé  Nova.

Programa longo, com quatro grupos da Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra: Madrugada, Passatempo, Nox Aurea e Última Luz.

Infelizmente esta serenata não será transmitida pela televisão - mas podem assistir, via Internet, no Youtube ou Facebook da tvAAC ou de alguns jornais locais, ou ouvir na rádio da Academia, a RUC.


sexta-feira, setembro 18, 2026

Porque Luiz Goes nunca morre, enquanto for recordado...

Saudades de Luiz Goes...

Saudade de Luiz Goes...

 

Cantiga de um Vagabundo - Luiz Goes

 

Se queres saber, amor, porque te quero,
pergunta a um velho marinheiro
se uma aventura em cada cais
lhe faz perder o rumo verdadeiro.

Pergunta ao mar, eternamente azul,
a razão de ser da sua cor,
às vezes verde, às vezes cinza…
mas é o céu o seu primeiro amor.

Se queres saber, amor, porque te quero,
pergunta a um velho vagabundo
se tanta estrada, tanta mulher,
matou de vez o seu primeiro mundo.

Pergunta à flor, que a noite emurcheceu,
se quer abrir em nova madrugada,
se o quase nada que a vida lhe deu
a faz morrer na minha mão fechada.

Hoje é dia de recordar o melhor cantor de sempre de fado de Coimbra...

Luiz Goes morreu há catorze anos...


(imagem daqui)

Luís Fernando de Sousa Pires de Goes (Coimbra, 5 de janeiro de 1933 - Mafra, 18 de setembro de 2012) foi um médico e músico português. Cantor e compositor, conhecido pelo seu nome artístico como Luiz Goes, é considerado um dos expoentes máximos da canção de Coimbra.
Filho de Luís do Carmo Goes e de D. Leopoldina da Soledade Valente d'Eça e Leyva Cabral de Sousa Pires, nasceu em Coimbra, em 1933, e, por influência de seu tio paterno Armando do Carmo Goes, figura destacada da Canção de Coimbra, cedo começou a interpretá-la, tendo aos 19 anos, a convite de António Brojo, gravado o seu primeiro disco.
No final da década de 50, formou o Coimbra Quintet, com os músicos António Portugal, Jorge Godinho, Manuel Pepe e Levi Baptista, gravando o álbum Serenata de Coimbra, que "é ainda hoje o disco português mais vendido", segundo Manuel Alegre Portugal. Em 1958 licencia-se em Medicina, na Universidade de Coimbra e exerceu a profissão de médico estomatologista até à sua reforma, em 2003. De 1963 a 1965 prestou serviço militar na Guiné como Alferes Miliciano Médico.
Foi autor de 25 canções estróficas e 18 baladas. Do seu reportório fazem parte canções como "Balada do mar", "É preciso acreditar", "Cantiga para quem sonha", "Só" ou "Toada beirã".
Foi condecorado com a Ordem do Infante Dom Henrique, no grau de Grande Oficial (9 de junho de 1994), com a Medalha de Ouro da cidade de Coimbra (4 de julho de 1998), com a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Cascais e com o Prémio Amália Rodrigues 2005, na categoria Fado de Coimbra. 
  

 

 

Balada para ninguém - Luiz Goes

Letra - Leonel Neves

Música - João Bagão



Chuva dize-me o que sentes
quando as tuas gotas
caem só no mar

Chuva disse-me o que sentes
se às cisternas rotas
é que vais parar

Pobre chuva sem sementes


Noite dize-me o que sentes
quando em sonhos falas
sem achar ninguém

Noite diz-me o que sentes
quando alguém embalas
mas o dia vem

Triste noite sem correntes


Vento diz-me o que sentes
se é em vão que pedes
velas para inchar

Vento dize-me o que que sentes
se a buscar paredes
só encontras ar

Vento inútil sem batente

quinta-feira, setembro 03, 2026

quarta-feira, setembro 02, 2026

Fernando Machado Soares nasceu há noventa e seis anos...

(imagem daqui)
        
Fernando Machado Soares (São Roque do Pico, 3 de setembro de 1930 – Almada, 7 de dezembro de 2014) foi um poeta, cantor, intérprete e compositor no âmbito da Canção de Coimbra, jurista e juiz jubilado, mais conhecido pela sua Balada da Despedida do 6.º ano Médico (1958), intitulada "Coimbra tem mais encanto".
   
Biografia
Nasceu em São Roque do Pico, Ilha do Pico, Açores, sendo descendente do último Capitão-Mor das Lajes do Pico. Licenciou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, nos anos 50.
Participou no filme Rapsódia Portuguesa.
Após ter concluído o curso superior, suspendeu durante alguns anos a sua atividade artística. Porém, acompanhou o Orfeão Académico de Coimbra aos Estados Unidos (1962), onde cantou com êxito em Nova York (Lincoln Center), Boston, Chicago e Atlanta. Participou ainda num programa televisivo da NBC.
Autor de diversos temas célebres, entre eles a "Balada da Despedida do 6º Ano Médico" (1958); co-autoria de Francisco Bandeira Mateus.
Fernando Machado Soares, que foi juiz-conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, recebeu em 2006 o Prémio Tributo Amália Rodrigues “pela excelência da carreira artística e dedicação aos outros”.  Morreu aos 84 anos, em Almada, cidade onde se realizou o funeral.
     

 

 

Balada da Despedida do 6º Ano Médico (1958)





Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.
Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.


Que as lágrimas do meu pranto
São a luz que me dá vida.


Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.
Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.


Quem me dera estar contente
Enganar minha dor
Mas a saudade não mente
Se é verdadeiro o amor.


Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.
Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.


Não me tentes enganar
Com a tua formosura
Que para além do luar
Há sempre uma noite escura.


Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.
Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.


Que as lágrimas do meu pranto
São a luz que lhe dá vida.


Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.
Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.


Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.
Coimbra tem mais encanto
Na hora da despedida.

sábado, agosto 29, 2026

Para recordar um poeta que também era compositor do fado e canção de Coimbra...

 

Título original: A ROSA E A NOITE
Música: José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (1942-1973)
Letra: José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (1942-1973)
Incipit: Meu amor/Anda perdido no mar
Origem: Coimbra
Género: Canção de Coimbra
Arranjo: José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (1965)
Data: 1964-1965 (SPA: 4.05.1965)

Meu amor
Anda perdido no mar
Dizei, ó guitarras,
Que ele há de voltar
Dizei, verdes algas,
Que ele há de voltar
Meu amor que foi para o mar.

Ó ondas brancas de espuma,
Ondas brancas de luar,
Quero morrer no mar alto
Quero morrer a cantar.

Cai a noite, rosa brava,
Fecha os teus olhos à luz do poente
O barco voltou sem gente
Rosa brava
Ao sol poente…

Informação complementar:
A primeira gravação desta obra foi vocalizada pelo tenor José Manuel dos Santos, acompanhado em 1.ª guitarra de Coimbra por Nuno Guimarães, em 2.ª guitarra por Manuel Borralho, e pelos executantes de viola de seis ordens (nylon) Rui Pato/Jorge Ferraz: EP Serenata de Coimbra, Porto, Ofir AM 4.039, ano de 1965, reeditado no CD Fados e Baladas de Coimbra. Recordando Nuno Guimarães. Solfa e letra em Recordando Nuno Guimarães, O Poeta, o Músico (1942-1973), VNGaia, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 1997. O arranjo de acompanhamento é da autoria de Nuno Guimarães.

 

in Guitarra de Coimbra V

Porque há poetas que são (ou eram) músicos...

Música adequada à data...


Título original: FADO DA VIDA
Música: José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (1942-1973)
Letra: José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (1942-1973)
Incipit: Nossa Senhora
Origem: Coimbra
Género: Canção de Coimbra
Arranjo: José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (1965)
Data: 1964-1965 (SPA: 4.05.1965)

Nossa Senhora,
Dai-me um dia para amar.
Quero dizer sim à vida 
Quando a vida me deixar.         
Nossa Senhora,
Dai-me um dia para amar.

Dai-me, Senhora,
Uma flor da cor da neve.
Se a morte vem, passe ao longe,
Se a brisa vem, não a leve.
Dai-me, Senhora,
Uma flor da cor da neve.
 
 
Canta-se o 1.º dístico, canta-se o 2.º, repete-se o 2.º e finaliza-se com o 1.º.
Informação complementar:
Composição vocal de tipo estrófico para 1.º tenor. Canta-se cada estrofe seguida, repete-se o 2.º dístico, remata-se com o 1.º dístico, que funciona como uma espécie de estribilho atípico. A primeira gravação foi vocalizada pelo tenor José Manuel dos Santos, acompanhado em 1.ª guitarra de Coimbra por Nuno Guimarães, em 2.ª guitarra por Manuel Borralho, e pelos executantes de viola de seis ordens (nylon) Rui Pato/Jorge Ferraz: EP Serenata de Coimbra, Porto, Ofir AM 4.039, ano de 1965, reeditado no CD Fados e Baladas de Coimbra. Recordando Nuno Guimarães. Solfa e letra em Recordando Nuno Guimarães. O Poeta, o Músico (1942-1973), V. N. Gaia, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 1997, pág. 27. O arranjo de acompanhamento é da autoria de Nuno Guimarães.
Nuno Guimarães era um nietzshiano e um wagneriano. Leu e cita na sua dissertação de licenciatura o filósofo alemão. Na 1.ª estrofe, o autor invoca explicitamente Friedrich Wilhelm Nietzsch, num processo de reflexão sobre a dimensão trágica da vida: “Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas. Amor-fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”(A gaia ciência: 1882).
Composição interpretada, na Serenata Monumental da Queima das Fitas de Coimbra, em maio de 1994, pelo grupo Capas Negras.

 

in Guitarra de Coimbra V

Nuno Guimarães, poeta e músico, nasceu há 84 anos...

   

José Nuno Guimarães Guedes dos Santos (Perosinho, Vila Nova de Gaia, 29 de agosto de 1942 - 15 de agosto de 1973) foi um poeta e músico português. 

 

 Biografia

José Nuno Guimarães Guedes dos Santos nasceu a 29 de agosto de 1942, em Perosinho, Vila Nova de Gaia, Porto.

Estudou Filologia Românica em Coimbra, na Faculdade de Letras. Nesta cidade, integrará a publicação coletiva de poesia Confluência (1963). Autor de letras, músicas e arranjos de acompanhamento da Canção de Coimbra e intérprete da guitarra de Coimbra, contribui para renovar a estética do género entre 1964 e 1967. A sua primeira colaboração na revista Vértice data de junho de 1967. Concluirá a licenciatura no mês seguinte, com uma tese sobre a obra de Machado de Assis e as suas relações com Garrett (1967). Em outubro, inicia o serviço militar em Mafra. Aí, "entre espingardas e sistemas criptográficos" vem a conhecer, em janeiro de 1968, Gastão Cruz, encetando-se uma amizade para lá de meia década. É depois enviado para Luanda, onde também leciona e vem a casar. De regresso ao Porto, exerce a docência no então Liceu D. Manuel II.

Publica o primeiro livro de poemas, Corpo Agrário, em 1970. Seguir-se-ão a presença na antologia 10 Poemas para Che Guevara (1972) e a segunda publicação, Os Campos Visuais (1973). Nesse mesmo ano, após breve doença, acabará por falecer, interrompendo uma promissora voz na poesia portuguesa.

É, anos mais tarde, e pela mão do amigo, professor e poeta Fernando Guimarães, que se reunirão as suas Poesias Completas (1995), pelas Edições Afrontamento. Por último, seguindo a lição anterior, é publicado o volume Entre Sílabas e Lavas: poesia completa (2024), pela Assírio & Alvim, restituindo integralmente uma entrevista dada a Maria Teresa Horta, no jornal A Capital.

 

in Wikipédia

 

 

Seguro então a vida em pleno

 

Seguro então a vida em pleno
solo. Aí me deito
com os sinais perpétuos: árvores,
bosque, sombra, a permanência
de objectos olhados ou suspensos.
Agora, a outra lei – extractos
De sol sobre a retina – cede. Ao fácil
 
vento, à comoção do ar
pensado, onde se vive. Deste lugar os
elementos se afastam. Estão mortos,
inactivos no foco. Ou pela sombra
gravados, suspensos de algum livro.
Criaram-se da luz! São objectos
perecíveis: na imprecisão
da imagem, no seu repouso
exterior – entre a ciência e a vista.

 
 
 
Nuno Guimarães