domingo, agosto 16, 2026
Música para recordar um Poeta...
Postado por Pedro Luna às 00:15 0 comentários
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quarta-feira, agosto 12, 2026
Miguel Torga nasceu há 119 anos...
Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha (Vila Real, São Martinho de Anta, 12 de agosto de 1907 - Coimbra, 17 de janeiro de 1995), foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.
Vou aqui como um anjo, e carregado
De crimes!
Com asas de poeta voa-se no céu...
De tudo me redimes, Penitência De ser artista!
Nada sei,
Nada valho,
Nada faço,
E abre-se em mim a força deste abraço
Que abarca o mundo!
Tudo amo, admiro e compreendo.
Sou como um sol fecundo
Que adoça e doira, tendo
Calor apenas.
Puro,
Divino
E humano como os outros meus irmãos,
Caminho nesta ingénua confiança
De criança
Que faz milagres a bater as mãos.
in Penas do Purgatório (1954) - Miguel Torga
Postado por Fernando Martins às 01:19 0 comentários
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segunda-feira, agosto 03, 2026
Porque não esquecemos Políbio Gomes dos Santos...
À Memória de Políbio Gomes dos Santos
O poeta que morreu entrou agora,
Não se sabe bem onde, mas entrou,
Todo coberto de demora,
No bocado de noite em que ficou.
As ervas lhe desenham
Seu espaço devido:
Depressa, venham
Lê-lo no chão os que o não tenham lido.
Que o sorriso que o veste
Já galga como um potro
As coisas tenebrosas,
E esquecido – só outro:
Este
Nem precisa de rosas.
in Eu, Comovido a Oeste (1940) - Vitorino Nemésio
Postado por Pedro Luna às 19:39 0 comentários
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quinta-feira, julho 30, 2026
Hoje é dia de recordar Ângelo Araújo, uma voz do fado e canção de Coimbra...
Postado por Pedro Luna às 16:00 0 comentários
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Saudades de Ângelo Araújo...
Postado por Pedro Luna às 01:06 0 comentários
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Ângelo Araújo faleceu há dezasseis anos...
- FEITICEIRA (Ó meu amor, minha linda feiticeira)
- CARTA (Esta carta será a derradeira)
- COIMBRA DOS MEUS ENCANTOS (Ó Coimbra tens tais encantos)
- CONTOS VELHINHOS (Contos velhinhos de amor)
- SANTA CLARA (Santa Clara, Santa Clara)
- MARIA SE FORES AO BAILE
- BALADA AO CREPUSCÚLO (As ondas beijando a areia)
- SUSPIRO D'ALMA (Suspiro que nasce da alma)
Postado por Fernando Martins às 00:16 0 comentários
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sábado, julho 25, 2026
Hoje é dia de ouvir Fado de Coimbra...
Postado por Pedro Luna às 03:07 0 comentários
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José Manuel dos Santos morreu há 37 anos...
Faz hoje, dia 16 de fevereiro de 2013, 70 anos que nasceu em Coimbra, JOSÉ MANUEL DOS SANTOS. Faleceu na sua cidade natal, a 25 de julho de 1989.
José Manuel Martins dos Santos, nasceu em Coimbra, fez a instrução primária na sua terra, e curso liceal no Liceu D. João III. A seguir, matriculou-se em Engenharia Civil, na Universidade de Coimbra, depois no curso de Psicologia, nunca tendo avançado significativamente em nenhum deles. A canção de Coimbra, a vida académica, e a boémia saudável que quase todo o estudante adora viver, eram superiores à vontade de estudar. Os seus pais, com um pequeno comércio na Rua Ferreira Borges, na Baixa de Coimbra, e com uma venda de bilhetes no teatro Avenida, lá iam assegurando o tipo de vida, que o Zé Manel gostava de viver. Calcorreava a Coimbra nas serenatas de rua, nos espetáculos organizados pelos diferentes Organismos e Instituições, onde a Canção de Coimbra, era presença indispensável, e onde a sua voz se identificava pela diferença qualitativa.
Vivia a mística do Penedo da Saudade, e o simbolismo da sua Sé Velha, emprestando com a sua voz maviosa, e um estilo muito próprio de cantar. A sua dimensão estética invulgar, ao cantar de Coimbra, sem romantismos retrógrados, respeitando a tradição, mas inserido num movimento de modernidade e de mudança, marcavam uma diferença significativa para os demais. Tomando por base o escrito por José Niza, JOSÉ MANUEL DOS SANTOS, acompanha pelo país e pelo estrangeiro, o Coro Misto da Universidade de Coimbra, a Tuna Académica, e o Orfeon, do qual fez parte como 1º tenor, nos anos de 1966 a 1968.
Cantou com Rui Nazaré, José Niza, Eduardo Melo, Ernesto Melo, Durval Moreirinhas, Rui Borralho, Manuel Borralho, Jorge Godinho, Hermínio Menino, António Bernardino, José Miguel Baptista, Jorge Rino, António Portugal, Rui Pato, Jorge Cravo, José Ferraz, António Andias, Manuel Dourado, Octávio Sérgio e muitos outros, igualmente importantes na divulgação da Canção de Coimbra. Refere ainda José Niza no mesmo livro, que o Dr. Rui Pato, no Jornal de Coimbra, de Setembro de 1989, escreve que José Manuel dos Santos, terá sido o único que teve a honra de interpretar a obra poética de José Nuno Guimarães. Pelo Dr. Rui Pato sabemos do agradecimento comovido da sua viúva, quando da leitura do artigo em causa, pouco tempo após a partida do amigo Zé Manel, aos 46 anos de idade. O seu filho médico em Coimbra terá talvez outra visão e relação, com a música e o canto de Coimbra, não tendo sofrido o encantamento que a voz de seu pai ajudou a construir, e que no fundo não foi uma contribuição activa, para uma de carreira profissional consolidada.
Gravou dois fonogramas. Vamo-nos socorrer do trabalho do Prof. Doutor Armando Luís de Carvalho Homem, sob o título “NUNO GUIMARÃES (1942 – 1973), e a Guitarra de Coimbra nos anos 60: - impressões perante uma re–audição de cinco 45 RPM”. O autor aborda aquilo que considera que foi o caminho seguido por ele, e pelos seus companheiros, nas suas vivências académicas, inseridas nas preocupações estéticas dos mesmos, no domínio da Canção de Coimbra. Atende-se preferencialmente no contexto social e político envolvente, à época, na Academia do Porto, e num tempo de mudança, de lutas sociais e políticas dos anos 60. ALCH aborda a discografia de Nuno Guimarães, com base na sua experiência da sua vida de jovem compositor e violista, a nosso ver, estruturada em dois pilares fundamentais:
- A dimensão cimeira, do que foram o saber, a experiência na composição e interpretação da música e da canção de Coimbra, da lavra do seu saudoso Pai, o Dr. Armando de Carvalho Homem (1923 – 1991), e a sua passagem enriquecedora pela Academia de Coimbra.
A propósito dos fonogramas gravados por JOSÉ MANUEL DOS SANTOS, ALCH, escreveu:
- Coimbra Antiga: Fados por José Manuel dos Santos, EP AM 4.069; instrumentistas: Nuno Guimarães/ Manuel Borralho (gg), Rui Pato/Jorge Rino (vv); contém os temas “Adeus Minho Encantador”, “Fado das Penumbras”, “Canção da Beira” e o “Fado Manassés”.
JOSÉ MANUEL DOS SANTOS, partiu muito novo. Tinha 46 anos e a cidade que o viu nascer, também o viu partir naquele dia 25 de julho de 1989.
in Guitarra de Coimbra V (Cithara Conimbrigensis)
Postado por Fernando Martins às 00:37 0 comentários
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quinta-feira, julho 23, 2026
Porque é preciso ouvir uma Guitarra de Coimbra...
Postado por Fernando Martins às 22:22 0 comentários
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Porque hoje é preciso recordar um Músico...
Postado por Pedro Luna às 22:00 0 comentários
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Saudades de Carlos Paredes...
Postado por Pedro Luna às 02:20 0 comentários
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Carlos Paredes morreu há vinte e dois anos...
Em 1962, é convidado pelo realizador Paulo Rocha, para compor a banda sonora do filme Os Verdes Anos: «Muitos jovens vinham de outras terras para tentarem a sorte em Lisboa. Isso tinha para mim um grande interesse humano e serviu de inspiração a muitas das minhas músicas. Eram jovens completamente marginalizados, empregadas domésticas, de lojas - Eram precisamente essas pessoas com que eu simpatizava profundamente, pela sua simplicidade». Recebeu um reconhecimento especial por “Os Verdes anos”.
"Quando eu morrer, morre a guitarra também.
O meu pai dizia que, quando morresse, queria que lhe partissem a guitarra e a enterrassem com ele.
Eu desejaria fazer o mesmo. Se eu tiver de morrer.”
Postado por Fernando Martins às 00:22 0 comentários
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sexta-feira, junho 26, 2026
Alberto Ribeiro morreu há 26 anos...
Alberto Ribeiro (Ermesinde, 29 de fevereiro de 1920 - Porto, 26 de junho de 2000) foi um cantor e ator português, muito popular, sobretudo na década de 40 e inícios dos anos 50 do século XX.
Alberto Dias Ribeiro nasceu em 29 de fevereiro de 1920 em Ermesinde, concelho de Valongo, distrito do Porto.
Oriundo de uma família de artistas, tinha um irmão e uma irmã que também cantavam, mas que não foram muito conhecidos. Ficou famoso pela sua voz extensa, a sua facilidade em utilizar os agudos e pelo seu timbre quente.
Obteve grande de popularidade, surgindo, como um dos intérpretes principais da película Capas Negras, onde contracenou com a fadista Amália Rodrigues, continuando no período que se lhe seguiu como vedeta de cinema em várias películas nacionais.
Em 1946 foi inaugurada no Parque Mayer a peça Sala Júlia Mendes, onde Alberto Ribeiro foi um dos principais intérpretes, juntamente com Amália.
Participou em várias operetas, quer pela sua figura, quer pelo seu cantar era o intérprete ideal, para um espetáculo muito popular na época.
Na década de 60, voltou ao palco no âmbito da comemoração dos 25 anos da opereta Nazaré onde interpretava, entre outras canções "Maria da Nazaré" de sua autoria em parceria com o poeta António Vilar da Costa e que tinha sido um estrondoso êxito na década de 40. Refira-se ainda que foi ele o criador do tema "Cartas de Amor" mais tarde muito popularizado por Tony de Matos. No citado filme que co-protagonizava com Amália, interpretou "Coimbra", canção que a fadista tornaria internacionalmente conhecida. O intérprete de "Marianita", "Senhora da Nazaré", "Soldados de Portugal", "O Porto É Assim" ou "Eu Já Não Sei", este último retomado por outros nomes como Florência.
Passado pouco tempo, retira-se novamente de cena, sem que ninguém o compreenda, remetendo-se a um silêncio que ninguém conseguiu quebrar. Apesar disso, os seus admiradores não o esqueceram, tendo surgido várias reedições dos seus discos.
in Wikipédia
Postado por Fernando Martins às 00:26 0 comentários
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sexta-feira, junho 19, 2026
Machado de Castro nasceu há 295 anos
Postado por Fernando Martins às 00:29 0 comentários
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quarta-feira, junho 03, 2026
Artigo de opinião, sobre as cheias do Mondego, de quem sabe...
Pedro Proença Cunha - Professor Catedrático de Geologia Sedimentar da Universidade de Coimbra e investigador no MARE - Centro de Ciências do Mar e do Ambiente)
A cheia de fevereiro de 2026 não foi uma surpresa para quem conhece o rio. Foi a consequência previsível de décadas de ilusões, de má manutenção e de construções onde nunca deveriam ter sido feitas. Está na hora de dizer o que a ciência sabe há muito
A
11 de fevereiro de 2026, no Baixo Mondego, o dique marginal direito do
canal principal do Mondego, cedeu por baixo da autoestrada A1. O
tabuleiro da mais importante autoestrada do país abateu horas depois. A
água alastrou pelos campos. Portugal ficou em choque. Mas há uma
pergunta que poucos pensaram naqueles dias de lama e sirenes: roturas de
diques e alagamento das planícies de inundação, já tinham acontecido
antes; e voltarão a acontecer
Há 827 anos que a
documentação escrita sobre as cheias do Mondego, nos avisa. Já em 1199 - quando uma cheia catastrófica inundou a Baixa de Coimbra "em menos de
uma hora" e alagou o Mosteiro de Santa Cruz - que este rio demonstra,
com brutal regularidade, o que é capaz de fazer. As crónicas medievais,
os registos eclesiásticos, as gazetas do século XIX, os dados horários
do século XX: tudo diz o mesmo. E nós continuámos, inconscientemente e
imprudentemente, a edificar nas planícies de inundação.
Escrevo
este artigo com base no relatório técnico-científico que elaborei a
pedido da Agência Portuguesa do Ambiente, no seguimento da solicitação
da Ministra do Ambiente e Energia. Tive 100 dias para o elaborar e
acesso a dados que, anteriormente, nunca tinham sido sistematizados e
interpretados desta forma. O que encontrei confirmou os piores receios e
também revelou erros que não podem voltar a ser tolerados.
O escasso valor estatístico que tem causado colossais prejuízos
Durante
décadas, o caudal considerado "de cheia centenária, em regime natural"
no Mondego - aquele que serviu de referência para o Projeto Hidráulico
do Mondego, os Planos Diretores Municipais (PDMs) e para os Planos de
Proteção Civil (PPCs) dos municípios com territórios na planície aluvial - foi de 3660 m³/s. Foi obtido a partir de 50 anos (1915-1965) de
registos em Coimbra. Depois, com base em 63-80 anos, foi estimado em
4100 a 4500 m³/s. Para um rio com grande variabilidade interanual de
caudal, isto equivale a calcular a probabilidade de um caudal com muito
fraco valor estatístico.
Com base na análise de 805
fontes documentais ao longo de 827 anos - das crónicas de Santa Cruz às
séries hidrométricas modernas -, obtive uma estimativa de provável
caudal centenário de ~4500 a 5200 m³/s
(respetivamente, com base nas distribuições pelo Empírico ou pelo
Gumbel). Note-se que apenas as cheias ordinárias a catastróficas foram
documentadas antes de 1915.
Um caudal desse nível,
provocaria o colapso da obra hidráulica do Baixo Mondego e o alagamento
total das planícies de inundação, incluindo as baixas de Coimbra e Sta.
Clara. É isso que está em risco.
A análise histórica
é ainda mais dramática: de 1199 a 2026, ocorreram em média cerca de 5
cheias por século com caudal >3000 m³/s, e 3 cheias com caudal
>4000 m³/s (caudais naturais). Oitenta e três por cento das grandes
cheias acontecem entre dezembro e fevereiro. O período crítico é,
exatamente, o inverno. Nada disto é novidade para a ciência. Mas parece
continuar a ser desconhecido por quem licenciou e por quem continua a
licenciar bairros nas planícies de inundação.
As barragens fizeram o que podiam. Mas não fizeram milagres
O
sistema de regularização hidráulica do Mondego - as barragens da
Aguieira (1981), Raiva (1983) e Fronhas (1987), o Canal Principal do
Mondego com diques marginais e o Açude de Coimbra - é uma obra de
engenharia notável, com um investimento de 516 milhões de euros a preços
atuais. Durante 19 anos, de 1981 a 2000, não ocorreram eventos de
elevada precipitação e as barragens conseguiram encaixar afluências de
pequenas cheias.
Este aparente sucesso criou a ilusão de que o problema estava definitivamente resolvido.
Através da gestão hídrica assegurada pelas barragens, o projeto prometia que um caudal atenuado de 2000 m³/s (equivalente a um natural de 3000 m³/s) em Coimbra seria um evento raro, decorrente de uma precipitação extraordinária. Mas, na realidade, de 1987 a 2026, esse valor foi atingido quatro vezes em 39 anos: em 2001, em 2016, em 2019, em 2026. Em alguns anos, a gestão de caudal pelas barragens podia ter sido melhor. Mas, principalmente, houve uma subestimação do rio.
A A1 foi construída em cima do dique. Literalmente
A
causa principal da rotura de fevereiro de 2026 não foi a chuva, não
foram as barragens, não foi o rio. Foi uma decisão de engenharia tomada
em 1991: uma linha de pilares do tabuleiro da A1 foi implantada no dique
direito do Canal Principal do Mondego, construído dez anos antes, em
1981.
Os pilares penetraram em profundidade no
aterro arenoso do dique, criando transmissão de vibração, diferenças
mecânicas, zonas de fragilidade e facilitação da percolação; além disso,
a queda dos tubos de escoamento de água pluvial da A1 faz-se
diretamente sobre a areia do dique. Com um caudal extremo, a pressão
hidráulica lateral fez o resto. A consequência negativa da opção de 1991
foi potenciada pela falta de uma fiscalização moderna.
Em
imagem de satélite de outubro de 2025 - quatro meses antes da rotura -,
era já visível um abatimento significativo no coroamento desse dique. O
descarregador em sifão imediatamente a montante da A1, que deveria ter
aliviado parte do caudal para os campos agrícolas adjacentes, tal como
desde 2021, praticamente não funcionou.
Há ainda uma
causa secundária que merece atenção. Entre 2017 e 2018, fez-se
deposição de areia proveniente do desassoreamento do Açude de Coimbra
diretamente no leito do Canal, a montante e a jusante, exatamente, do
cruzamento com a A1. Este excesso local de areia elevou artificialmente o
nível do leito, o que subiu localmente o nível de água, aumentou a
pressão lateral no dique, galgou-o, rompeu-o e levou a que imensa areia
ficasse a cobrir os campos agrícolas vizinhos (com 1 m de espessura). A
ciência não adivinha. Mas quando os dados estão disponíveis, alguém tem
de lê-los, percebê-los e atuar em conformidade.
Esta
coincidência perturbante pode ter uma explicação geológica:
identificámos neste local um lineamento tectónico, com direção NNW-SSE,
alinhado com o raro vale retilíneo ao longo da ribeira de Frades. O
traçado desta provável falha tectónica ativa atravessa o canal principal
do Mondego muito junto à A1. Uma eventual movimentação desta falha
contribuiria para a fragilização local de ambos os diques. É uma
hipótese remota que precisa de investigação pormenorizada - mas que não
pode ser ignorada dada a surpreendente e, aparentemente inexplicável,
posição das duas roturas.
A barragem da Aguieira e o sismo que ninguém ainda quis discutir
A
falha de Vérin-Penacova é uma das maiores falhas sismicamente ativas de
Portugal continental. Tem muito mais de 800 km de extensão total e
situa-se a apenas 6 km da barragem da Aguieira. Um sismo de magnitude
7,1 nesta falha - com período de retorno estimado de 14300 anos
portanto, improvável, mas não impossível - provocaria, no percentil 95%,
acelerações entre 0,6g e 0,8g. A barragem foi, aparentemente, projetada
para suportar 0,4g.
O muito improvável colapso
(natural ou antrópico) da Aguieira geraria uma gigantesca e rápida onda
de água, que chegaria a Coimbra 1 h depois. O alagamento atingiria,
provavelmente, 8 m de altura de água nas planícies de inundação,
alagando-as completamente - incluindo as baixas de Coimbra e de Santa
Clara, bem como todo o Baixo Mondego.
A
probabilidade é muitíssimo baixa, atendendo à robustez da estrutura e
cálculos feitos. Contudo, as diferenças no comportamento mecânico nos
encostos da barragem ao maciço de rochas metamórficas pouco resistentes
poderá gerar rotura. As consequências de uma rotura seriam devastadoras.
É
recomendável fazer a reavaliação do risco sísmico acompanhada de
eventual manutenção da barragem. Não porque o colapso seja provável, mas
porque a prudência assim o exige dado que ainda não conseguimos prever
sismos. Note-se que as consequências deste raríssimo evento não estão
consideradas nas Cartas de Zonas Inundáveis e de Riscos de Inundações do
PGRI, PDMs e PPCs dos municípios do Mondego.
Girabolhos: uma resposta política a um problema de gestão
Dias
depois da cheia do passado fevereiro, o Governo anunciou o relançamento
da barragem de Girabolhos como solução para o problema das inundações a
jusante. A intenção é compreensível. Mas a análise de fundamentação
técnica e científica obriga a uma muito grande prudência na decisão
política.
A sub-bacia que Girabolhos controlaria
representa apenas 15% da bacia do Mondego. Em fevereiro de 2026, o
volume de precipitação na sua área de influência teria enchido
completamente a albufeira em apenas sete dias - e depois continuaria a
transbordar. O rio Ceira, que trouxe mais de 1000 m³/s nas cheias de
2019 e 2026, entra no Mondego a junto a Coimbra, completamente fora do
sistema de controlo.
Girabolhos não resolve, nem
muito parcialmente, as cheias extraordinárias ou catastróficas. Poderia
constituir uma nova fonte de energia renovável e complementar a gestão
de pequenas ou moderadas cheias, bem como de secas. Mas os impactos
ambientais no rio Mondego seriam muito altos. Entre eles encontram-se a
diminuição da qualidade e da oxigenação da água, desaparecimento de
habitats essenciais às espécies aquáticas, perda de conectividade
longitudinal essencial para espécies migradoras, perda de vegetação
ripária essencial à manutenção de uma temperatura da água mais baixa no
verão e limitação dos blooms de cianobactérias, entre outros.
O
Estudo de Impacto Ambiental existente é de 2016 - e está, no mínimo,
desatualizado. Num momento de crise emocional não se tomam as melhores
decisões de engenharia.
O que é preciso fazer - e o que não pode continuar a acontecer
Há
medidas urgentes que não exigem estudos, nem licitações, nem anos de
espera. Exigem rigor técnico-científico na fundamentação e a consequente
vontade e decisão política:
Primeiro: Proibição
imediata de implantação de novas edificações nas planícies de inundação.
Não é uma medida impopular: é a única medida racional. Se não houver
edifícios nas planícies de inundação, não há risco fluvial. É tão
simples quanto isso.
Segundo: Gestão dinâmica das
cotas de espera nas barragens da Aguieira e Fronhas, com base em
previsões meteorológicas a 15 dias - disponíveis e fiáveis, hoje, com
tecnologia existente. Durante dezembro, janeiro e fevereiro, as
albufeiras devem estar o mais vazias possível.
Terceiro:
Manutenção preventiva e regular dos diques do canal principal do
Mondego. Desassoreamento da albufeira do Açude de 3 em 3 anos, mas
dependente de cada montante extraído e transferido, bem como tendo em
conta a época de reprodução das espécies piscícolas e outras. Remoção da
vegetação arbórea nos diques. Inspeção geotécnica anual. Não é
glamoroso. Não dá títulos nos jornais. Mas evita que um dique que,
segundo a moderna engenharia hidráulica foi construído para ser “não
galgável e intransponível”, rompa numa tarde de fevereiro.
Quarto:
O caudal natural correspondente a uma recorrência de 100 anos agora
determinado é muito superior ao que foi estimado no projeto da Obra
Hidráulica do Mondego, bem como o correspondente caudal amortecido pelas
barragens. Assim, é necessária uma revisão urgente das Cartas de Zonas
Inundáveis e de Riscos de Inundações do PGRI. Consequentemente, também
dos PDMs e dos PPCs dos municípios do Mondego.
Quinto:
Criação de uma entidade de Gestão Integrada da Bacia do Mondego, com:
competências reais, amplas e claras; recursos humanos qualificados e em
número adequado; recursos financeiros necessários aos objetivos a
atingir; e ser usado um modelo de cogestão participada. A gestão hídrica
de uma bacia hidrográfica não pode continuar a ser feita em silos - a
APA de um lado, a EDP de outro, os municípios de um terceiro, os
agricultores a reclamar e a Proteção Civil a apagar fogos, bem como as
populações ribeirinhas em desespero…
A lição do Mondego é muito antiga
Em
Coimbra ocorreram muitas cheias catastróficas, nomeadamente: 1788 (4800
m³/s); 1331 (4500 m³/s); 1764 e 1843 e 1948 (4200 m³/s); 1411, 1739 e
1821 (4100 m³/s). Mesmo após a construção da gigantesca barragem da
Aguieira (1981) ocorreram grandes cheias: em 2001, cedeu um dique junto à
A1 e ocorreram mais 15 roturas em diques; em 2019 ocorreram 2 roturas
em diques; em 2026, cedeu o dique do outro lado, exatamente, na mesma
secção transversal onde a A1 abateu.
De cada vez que o
Mondego transbordava, dizia-se que tinha sido excecional. Que não
voltaria a acontecer. E era feito mais um pormenorizado relatório a
listar as eventuais causas. Mas, depois, voltava a ocorrer mais um
grande caudal de cheia, que o projeto hidráulico preconizava não poder
vir a acontecer!
E de cada vez que o dizíamos,
construíamos mais um pouco nas planícies de inundação, aprovávamos mais
um PDM otimista, mantínhamos mais uns anos os diques sem manutenção
adequada ou mesmo uma Câmara Municipal chegava a suspender o seu PDM
para poder edificar extensivamente, nas planícies de inundação!
A
ciência, nomeadamente, os especialistas de investigação científica, têm
a obrigação de dizer a verdade, mesmo quando é incómoda. A verdade é
esta: o Mondego não está a comportar-se de forma anómala. Está a
comportar-se exatamente como sempre se comportou. O que mudou foi a
quantidade de casas, estradas e infraestruturas que pusemos no caminho
da sua água.
O Ordenamento do Território
fundamenta-se nos dados científicos recolhidos e estudados, aplicando as
regras da prevenção face à salvaguarda de pessoas e bens.
Portugal
vai voltar a ter grandes cheias no Mondego. Nos últimos 102 anos a
frequência de cheias em regime natural de 3000 m³/s (equivalente a 2000
m³/s com controlo por barragens) é de 20 anos (5 cheias por 100 anos,
valor igual nos últimos 827 anos). A questão não é se o rio vai
transbordar.
A questão é se da próxima vez haverá
mesmo muita gente nas planícies de inundação a perder a sua casa, o seu
carro, todos os seus outros bens ou a sua vida... Isso não depende do
rio. Depende de nós.
in Expresso
Postado por Fernando Martins às 11:07 0 comentários
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quarta-feira, abril 29, 2026
Hoje é dia de celebrar a dança...!
Postado por Pedro Luna às 11:11 0 comentários
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segunda-feira, abril 06, 2026
José Bonifácio de Andrada e Silva morreu há 188 anos...
Postado por Fernando Martins às 18:08 0 comentários
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quinta-feira, abril 02, 2026
O Jardim-Escola João de Deus de Coimbra, o primeiro em Portugal, faz hoje 115 anos...!
A história dos Jardins-Escola João de Deus tem origem na constituição da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, fundada a 18 de maio de 1882, por iniciativa de Casimiro Freire, secundado por algumas personalidades destacadas do seu tempo como Bernardino Machado, Jaime Magalhães Lima, Francisco Teixeira de Queiroz, Ana de Castro Osório e Homem Cristo, entre outros.
Postado por Fernando Martins às 01:15 0 comentários
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quarta-feira, março 18, 2026
Hoje é dia de recordar um Poeta, cuja alma perdura numa amada Torre de Coimbra...
Esta torre celebrizou-se por ter sido a residência do poeta António Pereira Nobre (1867-1900), quando estudante, no final do século XIX. Daí deriva o nome pelo qual é melhor conhecida hoje, conforme o verso, em uma placa epigráfica, na sua fachada:
- "O poeta aqui viveu no oiro do seu Sonho
- Por isso a Torre esguia o nome veio d'Anto
- Legenda d'Alma Só e coração tristonho
- Que poetas ungiu na graça do seu pranto"
- "Esta Torre de Anto foi assim chamada por António Nobre, o grande poeta do Só, que nela morou e a cantou nos seus versos. E habitou-a mais tarde Alberto d'Oliveira, ilustre escritor e diplomata, o grande amigo de António Nobre e da Coimbra amada."
Postado por Pedro Luna às 12:06 0 comentários
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segunda-feira, março 16, 2026
Música para terminar bem o dia...!
Postado por Pedro Luna às 23:59 0 comentários
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