O Curso de Geologia de 85/90 da Universidade de Coimbra escolheu o nome de Geopedrados quando participou na Queima das Fitas.
Ficou a designação, ficaram muitas pessoas com e sobre a capa intemporal deste nome, agora com oportunidade de partilhar as suas ideias, informações e materiais sobre Geologia, Paleontologia, Mineralogia, Vulcanologia/Sismologia, Ambiente, Energia, Biologia, Astronomia, Ensino, Fotografia, Humor, Música, Cultura, Coimbra e AAC, para fins de ensino e educação.
António Pinto Basto nasceu em 6 de maio de 1952 em Évora. Filho do engenheiro António Ferreira Pinto Basto (Aveiro, Glória, 12 de maio de 1913 - ?) e de sua mulher (Estremoz, Evoramonte, Casa da Juceira, Capela do Coração de Jesus, 20 de abril de 1941) Maria Luísa de Matos Fernandes de Vasconcelos e Sá (Lisboa, São Mamede, 17 de agosto de 1920 - ?), sobrinha-bisneta do 1.º Barão de Albufeira e prima sobrinha em segundo grau do 1.º Visconde de Silvares.
António Pinto Basto começou a interessar-se pelo Fado aos 13 anos. Uma noite os pais levaram-no a uma noite de fados na Feira dos Salesianos de Évora e Pinto Basto e a sua irmã, resolveram recriar aquele ambiente e improvisar um retiro na garagem da casa, a Toca, em homenagem à casa de Carlos Ramos.
António Pinto Basto tinha acesso aos poemas do seu avô materno, João
Vasconcellos e Sá, e, como tal, desde cedo, cantava letras originais
nos fados tradicionais. O seu tio, José de Vasconcellos e Sá, depois de
passar pela Toca numa das noites de festa, apreciando os dotes
de intérprete do seu sobrinho, resolve inscrevê-lo na Grande Noite do
Fado. Com 16 anos, António Pinto participou neste concurso, como
representante da Casa do Alentejo. Pela mesma altura também teve a experiência de cantar em casas de fado. Lembra-se, por exemplo, de o ter feito no Timpanas.
É também por intermédio desse tio que grava o primeiro disco, em 1970. Um EP editado pela Alvorada, com letras do avô e do tio e músicas do fado tradicional (Fado Franklin, Fado Vitória, Fado Dois Tons e Fado das Horas).
Nessa altura foi também a alguns programas de televisão e concedeu
entrevistas. Tinha apenas 17 anos quando, com este primeiro disco,
iniciou a sua carreira. Nos anos de 1972 e 1973 gravou mais dois EPs.
António Pinto Basto acabaria por se dedicar exclusivamente ao Fado,
após gravar, em 1988, o maior sucesso da sua carreira — "Rosa Branca",
um fado escrito pelo seu avô João, cujas vendas atingiram o disco de platina
e renderam cerca de 120 espetáculos em apenas um ano, além de ter
dado 73 entrevistas. Tornou-se incomportável manter a atividade
profissional como empregado da Siderurgia Nacional, que resolveu abandonar no final do ano de 1989. Nesse ano editou mais um álbum, Maria (1989), que repetiu o sucesso de vendas.
Confidências à Guitarra foi editado em 1991. Segue-se a coletânea Os Grandes Sucessos de António Pinto Basto (1993) e Desde o Berço (1996).
Em 1997 realizou uma digressão na Turquia, numa iniciativa da Comissão Europeia. Em 2000 conduziu o programa Fados de Portugal, na RTP1.
Sobre várias letras de fado publicadas em volume (letras do fado vulgar, Quetzal, 1998), José Campos e Sousa compôs as peças que em 2003 são gravadas na voz de António Pinto Basto.
"Revelação" - Grande Prémio da Rádio Renascença 1988
"Se7e de Oiro Revelação" (1988) Música
"Se7e de Oiro" - Fado 1988
"Popularidade" - Grande prémio Rádio Renascença 1989
"Popularidade" - Casa da Imprensa 1989
"Popularidade" - Casa da Imprensa 1990
"Prémio Popularidade Despertar" 1991
"Troféu Neves de Sousa - Casa da Imprensa 1998
Discos de Platina Rosa Branca, Maria, Confidências à Guitarra
Foi uma das 50 figuras do fado e da guitarra portuguesa homenageadas, em 2012, aquando da celebração do primeiro aniversário do fado enquanto Património Imaterial da Humanidade, tendo nessa altura recebido a Medalha Municipal de Mérito (Grau Ouro), da cidade de Lisboa.
Natural do bairro de Alcântara,
filho de Óscar José da Costa Braga (1907 - 1985) e de sua mulher Maria
de Lourdes de Oliveira e Costa (c. 1920 - 1988), estreou-se em público
aos nove anos, como solista do coro do Colégio de São João de Brito. Em 1957 a sua família mudou-se para Cascais, vila onde começou a cantar em casas de fado amador.
Em junho de 1964
João Braga inaugura o Estribo como casa de fados, em parceria com
Francisco Stoffel, mudando-se ambos para o bar Cartola, em novembro do
mesmo ano. Em 1965 recebe o seu primeiro cachet (mil escudos) nas Festas de Nossa Senhora do Castelo, em Coruche. Conhece Carlos Ramos, João Ferreira Rosa e Carlos do Carmo. É convidado a cantar, juntamente com Teresa Tarouca e António de Mello Corrêa, na festa dos 50 anos de toureio de mestre João Branco Núncio.
1967 é o ano do lançamento de João Braga como intérprete profissional, com o disco É Tão Bom Cantar o Fado, a que se juntam, no mesmo ano, três EP: Tive um Barco, Sete Esperanças, Sete Dias e Jardim Abandonado; e um LP: A Minha Cor.
No mesmo ano, na televisão, João Braga estreia-se a cantar num programa apresentado por Júlio Isidro, na RTP.
Conciliando a música com as atividades de redator d'O Século Ilustrado e d'O Volante, conhece em 1968Luís Villas-Boas,
que viria a tornar-se seu produtor e parceiro na organização do I
Festival Internacional de Jazz de Cascais, realizado em 1971. Ainda em
1970, porém, participa no Festival RTP da Canção e funda a revista Musicalíssimo, de que foi editor até 1974.
A 4 de outubro de 1971, em Lisboa, casou com Ana Maria de Melo e Castro (Nobre) Guedes (Lisboa, 23 de abril de 1945), irmã de Luís Nobre Guedes. Com a Revolução dos Cravos, é emitido um mandato de captura em seu nome, o que leva a família a fixar-se em Madrid, até fevereiro de 1976.
Quando voltou do exílio, abriu o restaurante O Montinho, em Montechoro,
que esteve em atividade apenas durante um verão. Em 1978, regressou à
capital portuguesa, integrando o elenco do restaurante de fados Pátio
das Cantigas, em Lisboa, até 1982.
Desde finais da década de 70 João Braga dedica-se
exclusivamente à sua carreira musical, como assinala o lançamento
sucessivo de novos álbuns: Canção Futura (1977), Miserere (1978), Arraial (1980), Na Paz do Teu Amor (1982), Do João Braga Para a Amália (1984), Portugal/Mensagem, de Pessoa (1985) e O Pão e a Alma (1987).
Após o encerramento do Pátio das Cantigas, centrou a sua
atividade nos concertos e na composição. Em 1984, surgiu pela primeira
vez como autor de melodias, musicando os poemas de Fernando Pessoa, "O Menino da Sua Mãe" e "Prece", o fado "Ai, Amália", de Luísa Salazar de Sousa, e o poema "Ciganos", de Pedro Homem de Mello, num álbum a que chamou Do João Braga para a Amália
Também a partir da década de 80 foi contribuindo para a renovação do
panorama fadista, através de convites a jovens intérpretes para
integrarem os seus espetáculos, como surgiu com Maria Ana Bobone, Mafalda Arnauth, Ana Sofia Varela, Mariza, Cristina Branco, Katia Guerreiro, Nuno Guerreiro, Joana Amendoeira, Ana Moura ou Diamantina.
Em 1990, o seu primeiro CD, Terra de Fados, que superou as 30 mil cópias vendidas, incluiu poemas inéditos de Manuel Alegre, que pela primeira vez escreveu expressamente para um cantor. Seguiram-se Cantigas de Mar e Mágoa (1991), Em Nome do Fado (1994), Fado Fado (1997), Dez Anos Depois (2001), Fados Capitais (2002), Cem Anos de Fado - vol. 1 (1999) e vol. 2 (2001) - e Cantar ao Fado (2000), onde reúne poemas de Fernando Pessoa, Alexandre O'Neill, Miguel Torga, David Mourão-Ferreira, Manuel Alegre, entre outros.
Além do fado, interpreta um repertório diversificado, incluindo
música francesa, brasileira e anglo-saxónica. O seu emocionado estilo
interpretativo é caraterizado por um timbre bem pessoal, pela primazia
do texto e por uma abordagem melódica imaginativa, sempre atualizada e
de constante improviso (muito «estilada», em jargão fadista).
Desde os tempos da Musicalíssimo que desenvolveu atividade na imprensa escrita, tendo sido cronista das revistas Eles & Elas e Sucesso, e dos jornais O Independente, Diário de Notícias, Euronotícias e A Capital. Em 2006, publicou o livro Ai Este Meu Coração. Participa em tertúlias desportivas na televisão, onde defende o seu Sporting Clube de Portugal.
Tem dois filhos, Filipe e Miguel Nobre Guedes Braga.
Bill! Se algum dia voltares Aos caminhos do passado, Acharás tudo mudado: A dança, o trajo, os cantares… Fica a máscara por fora? Por baixo dela, ainda igual, Se ergue a bandeira real – Branca e azul – intacta, agora? Bailam a Gota?
– Eu te digo:
Veio, há tempos, um amigo (Meu país foi sempre o teu E esse país não morreu!) Ver de perto com seus olhos O lírio de que eu falava (Lírio tão branco entre abrolhos!) Em versos de silva brava. Branco lírio! Branco lírio! Ao alto da serra da Arga! Lembro nele o Fandangueiro Que, ao bailar, de corpo inteiro, Era uma flor, doce e amarga… Mas, em chegando, ouvi só Insultos de altifalantes! Onde estavam os amantes Do Poeta?
Apenas pó.
E olhos, olhos espantados E toda a monotonia Da voz que o rosto desvia Dos rouxinóis dos silvados. Que loucura! (Pense-o, pense-o Quem quiser de lábios mudos.) – Comprei por dez mil escudos Dez minutos de silêncio. Calou-se o altifalante! Castanholaram os dedos… De novo, Naquele instante, Voltou o povo a ser povo! E voltaram homens ledos: – Veio o Nelson e a Artemisa, Veio Afife e Gondarém E os de Carreço também Misturar-se aos da Galiza… E bastaram dez minutos (Os dez minutos comprados!) Para dez mil namorados Sorrirem, de olhos enxutos. Que loucura! – (Pense-o, pense-o Quem quiser de lábios mudos!)
Comprei por dez mil escudos Dez minutos de silêncio!
Natural de Leiria, bacharelou-se em Direito, pela Universidade de Coimbra, em 1900. Depois de exercer a advocacia junto do seu pai, Afonso Xavier Lopes Vieira, radicou-se em Lisboa, onde veio a exercer o ofício de redator na Câmara dos Deputados, até 1916. No último desses anos deixou o cargo para se dedicar exclusivamente à atividade literária. Na capital, residiu no Palácio da Rosa, junto ao bairro da Mouraria, que fora dos marqueses de Castelo Melhor, e foi propriedade do poeta entre 1927 e 1942. Em frente do palácio, no Largo da Rosa, foi colocado um busto seu.
Ainda jovem, Afonso Lopes Vieira descobriu os clássicos da literatura,
nomeadamente através da biblioteca do seu tio-avô, o poeta Rodrigues Cordeiro, e iniciou a sua colaboração em jornais manuscritos, de que são exemplos A Vespa e O Estudante. Com a publicação do livro Para Quê? (1897) faz a sua estreia poética, iniciando um período de intensa atividade literária - Ar Livre (1906), O Pão e as Rosas (1908), Canções do Vento e do Sol (1911), Poesias sobre as Cenas Infantis de Shumann (1915), Ilhas de Bruma (1917), País Lilás, Desterro Azul (1922) - encerrando a sua atividade poética, assim julgava, com a antologia Versos de Afonso Lopes Vieira (1927), mas que culminará com a obra inovadora e epigonal Onde a terra se acaba e o mar começa (1940).
O carácter ativo e multifacetado do escritor tem expressão na sua colaboração em A Campanha Vicentina, na multiplicação de conferências em nome dos valores artísticos e culturais nacionais, recolhidas nos volumes Em demanda do Graal (1922) e Nova demanda do Graal (1942). A sua acção não se encerra, porém, aqui, sendo de considerar a dedicação à causa infantil, iniciada com Animais Nossos Amigos (1911), o filme infantil O Afilhado de Santo António (1928), entre outros. Por fim, assinale-se a sua demarcação face ao despontar do Salazarismo, expressa no texto Éclogas de Agora (1935), sob a égide e em defesa do Integralismo Lusitano.
Teve ainda colaboração em publicações periódicas, de que são exemplo as revistas Ave Azul (1899-1900), Serões (1915-1920), Arte & vida (1904-1906), A republica portugueza (1910-1911), Alma Nova (1914-1930), Atlantida (1915-1920), Contemporânea (1915-1926), Ordem Nova (1926-1927) e Lusitânia (1924-1927).
Cidadão do mundo, Afonso Lopes Vieira não esqueceu as suas origens, conservando as imagens de uma Leiria de paisagem bucólica e romântica, rodeada de maciços verdejantes plantados de vinhedos e rasgados pelo rio Lis, mas, sobretudo, de São Pedro de Moel, lugar da sua Casa-Nau
e paisagem de eleição do escritor, enquanto inspiração e génese da
sua obra. O Mar e o Pinhal são os principais motivos da sua poética.
Nestas paisagens o poeta confessa sentir-se «[…] mais em família com o
chão e com a gente», evidenciando no seu tratamento uma apetência para
motivos líricos populares e nacionais. Essencialmente panteísta, leu e
fixou as gentes, as crenças, os costumes, e as paisagens de uma
Estremadura que interpretou como «o coração de Portugal, onde o próprio
chão, o das praias, da floresta, da planície ou das serras, exala o
fluido evocador da história pátria; província heroica, povoada de
mosteiros e castelos…» (Nova demanda do Graal, 1942: 65).
Atualmente a Biblioteca Municipal em Leiria tem o seu nome. A sua casa de São Pedro de Moel foi transformada em Museu. Lopes Vieira é considerado um eminente poeta, ligado à corrente da chamada Renascença Portuguesa e um dos primeiros representantes do neogarretismo.
Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar:
ditoso o "Lavrador" que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;
ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
rei D. Dinis, bom poeta e mau marido,
lá vem as velidas bailar e cantar.
Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu;
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.
Pinhal de heróicas árvores tão belas,
foi do teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhe deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a terra e olhando os novos astros,
ó gótico Pinhal navegador,
em naus, erguida, levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!...
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar!
Na sussurrante e verde catedral
oiço rezar a alma de Portugal:
ela aí vem, dorida, e nos seus olhos
sonâmbulos de surda ansiedade,
no roxo da tardinha,
abre a flor da Saudade;
ela aí vem, sozinha,
dorida do naufrágio e dos escolhos,
viúva de seus bens
e pálida de amor,
arribada de todos os aléns
de este mundo de dor;
ela aí vem, sozinha,
e reza a ladainha
na sussurrante catedral aonde
toda se espalha e esconde,
e aonde, ecoando a cantar,
se alonga e se prolonga a longa voz do mar.
in Onde a Terra se Acaba e o Mar Começa (1940) - Afonso Lopes Vieira
Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira (Leiria) - foto do Poeta (FJFOM)
Dança do Vento
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia.
Baila, baila e rodopia
E tudo baila em redor.
E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando.
E suas folhas, tombando,
Uma se esfolha, outra cai.
E o vento as deixa, abalando,
- E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor.
E diz às altas ramadas:
Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas
Bailam no ar desgrenhadas,
Bailam com ele assustadas,
Já cansadas, suspirando;
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às folhas caídas:
Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
As folhas, por ele erguidas,
Pobres velhas ressequidas
E pendidas como um ai,
Bailam, doidas e chorando,
E o vento as deixa abalando
- E lá vai!
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
e as ondas no ar se empolam,
Em seus braços nus o enrolam,
E batalham,
E seus cabelos se espalham
Nas mãos do vento, flutuando
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
Venceslau
de Sousa Pereira de Lima, filho de José Joaquim Pereira de Lima,
capitalista e comendador, e de D. Isabel Amália Tallone de Sousa
Guimarães, nasceu no Porto a 15 de novembro de 1858. Oriundo de uma
abastada família portuense, foi enviado muito jovem para o estrangeiro,
tendo aí feito os seus estudos preparatórios e secundários. Terminados
esses estudos, regressou a Portugal com uma formação voltada para as
ciências naturais, bem distinta da formação que as escolas portuguesas
então propiciavam. Matriculou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, completando o curso com elevada classificação. Requereu exame de licenciatura, defendendo com brilhantismo uma tese sobre carvões vegetais. Logo de seguida, a 26 de novembro de 1882, doutorou-se pelas mesmas Faculdade e Universidade.
Em 1883 concorreu para uma vaga de lente da Academia Politécnica do Porto, tendo apresentado no respetivo concurso de provas públicas uma dissertação sobre a função clorofilina. Tendo a prova sido considerada brilhante e distinta,
foi nomeado para o lugar, iniciando uma carreira que duraria perto de
30 anos. Durante esse período regeu, com pequenas intermitências
causadas pela sua atividade política, a cadeira de Geologia
daquele estabelecimento de ensino superior. Paralelamente, desenvolveu
ali um conjunto de trabalhos de investigação pioneiros no domínio da paleontologia vegetal.
À época, a paleontologia era uma ciência nova e o estudo dos fósseis
encontrados em território português era muito incipiente, devendo-se
essencialmente ao trabalho de alguns investigadores estrangeiros que
tinha coletado amostras em Portugal. Os únicos trabalhos publicados por
investigadores portugueses resumiam-se aos estudos sobre a flora fóssil
do Carbonífero feitos por Bernardino António Gomes.
Venceslau de Sousa Pereira de Lima teve o mérito de reunir os
trabalhos anteriormente publicados por estrangeiros, nomeadamente por Daniel Sharpe, Charles Bunbury e Oswald Heer,
e a partir dessa base incipiente desenvolver um profícuo estudo da
geologia e paleontologia vegetal de Portugal, com destaque para a
referente aos terrenos carboníferos.
A sua dedicação a estes estudos levaram, em 1886,
à sua nomeação como engenheiro da Secção dos Trabalhos Geológicos,
encarregado do estudo da flora fóssil portuguesa. Foi, nessas funções,
um dos colaboradores de Carlos Ribeiro, um dos pioneiros da geologia portuguesa.
Sendo uma personalidade multifacetada e com grande capacidade de
intervenção na vida social, Venceslau de Sousa Pereira de Lima não se
limitou à sua carreira científica: pouco depois de iniciar funções
docentes filiou-se no Partido Regenerador, tendo de seguida desempenhado o cargo de governador civil dos distritos de Vila Real, Coimbra e Porto. Foi também eleito deputado pelos círculos do norte de Portugal em diversas legislaturas. Em 1901 foi elevado a Par do Reino, tendo tomado assente na respetiva Câmara na sessão de 17 de março daquele ano.
As suas intervenções nas Cortes centraram-se nos temas relacionados com a instrução pública, pugnando pela reforma do Conselho Superior de Instrução Pública, órgão de que era membro.
Quando em 1903 coube a Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro assumir a presidência do Conselho de Ministros, convidou Venceslau para assumir o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros, a que ele acedeu. Durante o seu mandato conseguiram-se notáveis progressos no relacionamento com o Reino Unido e celebrou-se um tratado comercial com a Alemanha. Voltou à pasta dos Negócios Estrangeiros em 1905.
Em 1909, já em pleno período de implosão da monarquia constitucional
portuguesa, foi nomeado para formar governo, presidindo a um dos últimos
executivos do regime. Durante a sua efémera passagem pela presidência,
acumulou as funções de Ministro do Reino. Sendo Conselheiro de Sua Majestade Fidelíssima, Par do Reino, Presidente do Conselho de Ministros, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino foi, também, nomeado Conselheiro de Estado a 22 de dezembro de 1909 (Diário do Governo, n.º 292, 24 de dezembro de 1909). Ao longo da sua carreira política, foi também membro do Conselho de Estado, presidente da Câmara Municipal do Porto, diretor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e provedor da Santa Casa da Misericórdia da mesma cidade. Foi ainda vice-presidente da comissão executiva da Assistência Nacional aos Tuberculosos e vogal da comissão do Patronato Portuense.
Foi também um esclarecido viticultor, introduzindo nas suas
importantes propriedades vários melhoramentos técnicos, alguns pioneiros
em Portugal. Nesta área de atividade foi presidente da Comissão AntiFiloxérica do Norte, introduzindo nessas funções diversas inovações técnicas na luta contra aquela praga das vinhas.
Intransigente nas suas ideias políticas, com a implantação da República Portuguesa,
não querendo de forma alguma colaborar com um regime com que não
concordava, demitiu-se de todos os cargos públicos que desempenhava.
Afastado da atividade política, durante os últimos anos da sua
vida, a sua atividade intelectual orientou-se para os trabalhos de
investigação científica, preparando um estudo sobre os terrenos
carboníferos portugueses, que não pôde terminar por ter entretanto
falecido. Teve colaboração na revista A semana de Lisboa (1893-1895).
Casado desde 1879 com D. Antónia Adelaide Ferreira, filha de António Bernardo Ferreira (III) e neta da sua homónima D. Antónia Adelaide Ferreira (1811-1896), a famosa "D. Antónia" ou simplesmente "Ferreirinha",
Venceslau de Lima viveu os últimos anos de vida no exílio, na cidade de
Pau, em França, e morreu em Lisboa, a 24 de dezembro de 1919. Está
sepultado no Porto, no Cemitério da Lapa.
Obras publicadas
Durante
perto de 30 anos o Doutor Wenceslau de Lima publicou um conjunto vasto
de trabalhos sobre paleontologia e geologia dos depósitos carboníferos,
sendo dignos menção os seguintes:
Notícia sôbre os vegetais fósseis da flora neocomiana do solo português;
Monografia do gênero Dicranophillum (Sistema Carbónico);
Notice sur une algue palèozoique;
Notícia sôbre as camadas da série permo-carbónica do Bussaco;
Formado em Engenharia, não quis seguir a carreira, preferindo voltar-se para o magistério e o jornalismo. Em 1873, foi aprovado no concurso para o Colégio Pedro II para a cadeira de Português, Geografia e Aritmética, disciplinas que formavam o primeiro ano do curso. Em 1915,
com a reforma da instrução secundária, desapareceu aquilo que Ramiz
Galvão chamara de "anomalia" - a reunião de três disciplinas tão
díspares numa mesma cadeira - e Laet foi então nomeado professor de
Língua Portuguesa.
Por um momento, deixou-se seduzir pela política. Em 1889 os seus amigos monárquicos insistiram com ele para aceitar uma cadeira de Deputado. Eleito, a Proclamação da República privou-o da cadeira. Manteve-se monárquico - e fiel ao imperador D. Pedro II.
Proclamada a República, deliberou o Governo Provisório extinguir
quaisquer reminiscências do antigo regime, e uma das medidas que tomou
foi substituir o nome do Colégio Pedro II pelo de Instituto Nacional de Instrução Secundária.
Na sessão da congregação da casa de 2 de maio de 1890,
Laet requereu fosse feito um apelo ao governo republicano para
conservar-se o nome antigo do estabelecimento. Mas a grande maioria dos
professores era então republicana. No dia seguinte, o Diário Oficial
trazia a demissão de Carlos de Laet. Pouco depois, Benjamin Constant, o primeiro ministro da Educação do novo governo, conseguia transformar o ato de demissão em reforma. Só no governo de Venceslau Brás foi ele reconduzido ao seu posto no magistério secundário.
Carlos de Laet exerceu, desde então, até aposentar-se, em 1925,
o seu cargo de professor, sendo também, durante longos anos, diretor
do Internato Pedro II. Foi professor do Externato de São Bento e do
Seminário de São José, entre outros estabelecimentos de ensino
particular.
No jornalismo, estreou no Diário do Rio em 1876, passando em 1878 para o Jornal do Commercio, onde durante dez anos escreveu os textos do seu "Microcosmo". Trabalhou também, como colaborador ou como redator, na Tribuna Liberal, no Jornal do Brasil, no Jornal do Commercio de São Paulo
e do Jornal, nos quais deixou uma vasta produção de páginas sobre
arte, história, literatura, crítica de poesia e crítica de costumes.
Por suas convicções monárquicas sofreu perseguição também em 1893, por ocasião da Revolta da Armada.
Orgulhava-se de não ter embainhado "o pedaço da espada que me
quebraram em 89". No entanto, ter-lhe-ia sido mais cómodo aderir ao
novo regime. Mesmo porque à República só poderia ser grato e proveitoso
o apoio de um homem como ele. O jornalista refugiou-se então em São João del-Rei,
onde dedicou-se a escrever o livro "Em Minas". Católico fervoroso,
serviu à Igreja no Brasil, como presidente do Círculo Católico da
Mocidade, sendo-lhe conferido pelo Vaticano o título de Conde.
Ferrenho opositor do movimento nascido em São Paulo com a Semana de Arte Moderna de 1922 ironizou e combateu o Modernismo. Graça Aranha foi alvo de suas críticas e zombarias, tendo-lhe fornecido assunto para três sonetos galhofeiros.
Tendo produzido um acervo jornalístico que, reunido em livros, chegaria
a dezenas de volumes, Carlos de Laet deixou bem poucas obras
publicadas.
Triste filosofia Ia a Rosa vestir-se, e do vestido Uma voz se desprende e assim murmura: "Muitas morremos de uma morte escura, Por que te envolva sérico tecido!" Ia toucar-se, e escuta-se um gemido Do marfim que as madeixas lhe segura: "Por dar-te o afeite desta minha alvura, Jaz na selva meu corpo sucumbido!" Põe um colar, e a pérola mais fina: "Para pescar-me quantos párias, quantos! Padeceram no mar lúgubres sortes!" E Rosa chora: "Oh! desditosa sina! Todo sorriso é feito de mil prantos, Toda a vida se tece de mil mortes!"
Venceslau
de Sousa Pereira de Lima, filho de José Joaquim Pereira de Lima,
capitalista e comendador, e de D. Isabel Amália Tallone de Sousa
Guimarães, nasceu no Porto a 15 de novembro de 1858. Oriundo de uma
abastada família portuense, foi enviado muito jovem para o estrangeiro,
tendo aí feito os seus estudos preparatórios e secundários. Terminados
esses estudos, regressou a Portugal com uma formação voltada para as
ciências naturais, bem distinta da formação que as escolas portuguesas
então propiciavam. Matriculou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, completando o curso com elevada classificação. Requereu exame de licenciatura, defendendo com brilhantismo uma tese sobre carvões. Logo de seguida, a 26 de novembro de 1882, doutorou-se pelas mesmas Faculdade e Universidade.
Em 1883 concorreu para uma vaga de lente da Academia Politécnica do Porto, tendo apresentado no respetivo concurso de provas públicas uma dissertação sobre a função clorofilina. Tendo a prova sido considerada brilhante e distinta,
foi nomeado para o lugar, iniciando uma carreira que duraria perto de
30 anos. Durante esse período regeu, com pequenas intermitências
causadas pela sua atividade política, a cadeira de geologia
daquele estabelecimento de ensino superior. Paralelamente, desenvolveu
ali um conjunto de trabalhos de investigação pioneiros no domínio da paleontologia vegetal.
À época, a paleontologia era uma ciência nova e o estudo dos fósseis
encontrados em território português era muito incipiente, devendo-se
essencialmente ao trabalho de alguns investigadores estrangeiros que
tinha coletado amostras em Portugal. Os únicos trabalhos publicados por
investigadores portugueses resumiam-se aos estudos sobre a flora fóssil
do Carbonífero feitos por Bernardino António Gomes.
Venceslau de Sousa Pereira de Lima teve o mérito de reunir os
trabalhos anteriormente publicados por estrangeiros, nomeadamente por Daniel Sharpe, Charles Bunbury e Oswald Heer,
e a partir dessa base incipiente desenvolver um profícuo estudo da
geologia e paleontologia vegetal de Portugal, com destaque para a
referente aos terrenos carboníferos.
A sua dedicação a estes estudos levaram, em 1886,
à sua nomeação como engenheiro da Secção dos Trabalhos Geológicos,
encarregado do estudo da flora fóssil portuguesa. Foi, nessas funções,
um dos colaboradores de Carlos Ribeiro, um dos pioneiros da geologia portuguesa.
Sendo uma personalidade multifacetada e com grande capacidade de
intervenção na vida social, Venceslau de Sousa Pereira de Lima não se
limitou à sua carreira científica: pouco depois de iniciar funções
docentes filiou-se no Partido Regenerador, tendo de seguida desempenhado o cargo de governador civil dos distritos de Vila Real, Coimbra e Porto. Foi também eleito deputado pelos círculos do norte de Portugal em diversas legislaturas. Em 1901 foi elevado a Par do Reino, tendo tomado assente na respetiva Câmara na sessão de 17 de março daquele ano.
As suas intervenções nas Cortes centraram-se nos temas relacionados com a instrução pública, pugnando pela reforma do Conselho Superior de Instrução Pública, órgão de que era membro.
Quando em 1903 coube a Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro assumir a presidência do Conselho de Ministros, convidou Venceslau para assumir o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros, a que ele acedeu. Durante o seu mandato conseguiram-se notáveis progressos no relacionamento com o Reino Unido e celebrou-se um tratado comercial com a Alemanha. Voltou à pasta dos Negócios Estrangeiros em 1905.
Em 1909, já em pleno período de implosão da monarquia constitucional
portuguesa foi nomeado para formar governo, presidindo a um dos últimos
executivos do regime. Durante a sua efémera passagem pela presidência,
acumulou as funções de Ministro do Reino. Sendo Conselheiro de Sua Majestade Fidelíssima, Par do Reino, Presidente do Conselho de Ministros, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino foi, também, nomeado Conselheiro de Estado a 22 de dezembro de 1909 (Diário do Governo, n.º 292, 24 de dezembro de 1909). Ao longo da sua carreira política, foi também membro do Conselho de Estado, presidente da Câmara Municipal do Porto, diretor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e provedor da Santa Casa da Misericórdia da mesma cidade. Foi ainda vice-presidente da comissão executiva da Assistência Nacional aos Tuberculosos e vogal da comissão do Patronato Portuense.
Foi também um esclarecido viticultor, introduzindo nas suas
importantes propriedades vários melhoramentos técnicos, alguns pioneiros
em Portugal. Nesta área de atividade foi presidente da Comissão AntiFiloxérica do Norte, introduzindo nessas funções diversas inovações técnicas na luta contra aquela praga das vinhas.
Intransigente nas suas ideias políticas, com a implantação da República Portuguesa,
não querendo de forma alguma colaborar com um regime com que não
concordava, demitiu-se de todos os cargos públicos que desempenhava.
Afastado da atividade política, durante os últimos anos da sua
vida, a sua atividade intelectual orientou-se para os trabalhos de
investigação científica, preparando um estudo sobre os terrenos
carboníferos portugueses, que não pôde terminar por ter entretanto
falecido. Teve colaboração na revista A semana de Lisboa (1893-1895).
Casado desde 1879 com D. Antónia Adelaide Ferreira, filha de António Bernardo Ferreira (III) e neta da sua homónima D. Antónia Adelaide Ferreira (1811-1896), a famosa "D. Antónia" ou simplesmente "Ferreirinha",
Venceslau de Lima viveu os últimos anos de vida no exílio, na cidade de
Pau, em França, e morreu em Lisboa, a 24 de dezembro de 1919. Está
sepultado no Porto, no Cemitério da Lapa.
Obras publicadas
Durante
perto de 30 anos o Doutor Wenceslau de Lima publicou um conjunto vasto
de trabalhos sobre paleontologia e geologia dos depósitos carboníferos,
sendo dignos menção os seguintes:
Notícia sôbre os vegetais fósseis da flora neocomiana do solo português;
Monografia do gênero Dicranophillum (Sistema Carbónico);
Notice sur une algue palèozoique;
Notícia sôbre as camadas da série permo-carbónica do Bussaco;
Pertencente à primeira geração de pintores modernistas
portugueses, Amadeo de Souza-Cardoso destaca-se entre todos eles pela
qualidade excecional da sua obra e pelo diálogo que estabeleceu com as
vanguardas históricas do início do século XX. "O
artista desenvolveu, entre Paris e Manhufe, a mais séria possibilidade
de arte moderna em Portugal num diálogo internacional, intenso mas
pouco conhecido, com os artistas do seu tempo". A sua pintura articula-se de modo aberto com movimentos como o cubismo o futurismo ou o expressionismo,
atingindo em muitos momentos – e de modo sustentado na produção dos
últimos anos –, um nível em tudo equiparável à produção de topo da arte
internacional sua contemporânea.
A
morte, aos 30 anos de idade, irá ditar o fim abrupto de uma obra
pictórica em plena maturidade e de uma carreira internacional promissora
mas ainda em fase de afirmação. Amadeo ficaria longamente esquecido,
dentro e, sobretudo, fora de Portugal: "O silêncio que durante longos anos cobriu com um espesso manto a visibilidade interpretativa da sua obra […], e que foi também o silêncio de Portugal como país, não permitiu a atualização histórica internacional do artista"; e "só muito recentemente Amadeo de Souza-Cardoso começou o seu caminho de reconhecimento historiográfico".
Amadeo no seu ateliê, Rue Ernest Cresson, 20, Paris, 1912
Biografia
Filho de Emília Cândida Ferreira Cardoso e José Emygdio de Sousa Cardoso, Amadeo de Souza-Cardoso nasce em Manhufe, Amarante, "numa família de boa burguesia rural, poderosa e de muita religião, entre nove irmãos […]. Seu pai era uma espécie de «gentleman farmer», vinhateiro rico, de espírito prático, desejando educar eficientemente os filhos".
Estuda no Liceu Nacional de Amarante e mais tarde em Coimbra. Em 1905 ingressa no curso preparatório de desenho na Academia Real de Belas-Artes, em Lisboa; e em novembro do ano seguinte (no dia em que celebra o seu 19º aniversário), parte para Paris, instalando-se no bairro de Montparnasse,
famoso ponto de encontro de intelectuais e artistas, onde irá viver
todos os anos de permanência nessa cidade (1907 – 1914). Ao longo desses
oito anos regressará, no entanto, diversas vezes a Portugal, para
estadias
mais ou menos breves.
Estabelece contacto com outros artistas portugueses a residir em Paris, entre os quais Francisco Smith, Eduardo Viana e Emmerico Nunes. Frequenta os ateliês de Godefroy e Freynet com o intuito de preparar a admissão ao curso de arquitetura,
projeto que abraça, em parte para responder às expectativas
familiares, mas que acaba por abandonar. Publica caricaturas em
periódicos portugueses como O Primeiro de Janeiro (1907) e a Ilustração Popular (1908 – 1909).
O início da sua atividade como pintor data provavelmente de 1907. No
ano seguinte conhece Lucie Meynardi Pecetto, com quem viria a casar-se
sete anos mais tarde. Em 1909 frequenta as aulas do pintor Anglada-Camarasa na Académie Vitti e mais tarde as Academias Livres.
Em 1910 estabelece uma forte e duradoura ralação de amizade com Amedeo Modigliani, Constantin Brancusi e Alexander Archipenko. Na correspondência para Portugal Amadeo refere-se à sua fascinação por aquilo que denomina por "pintores primitivos"
(e pela escultura e arquitetura da cristandade); por outro lado,
revela um sentimento artístico já amadurecido, manifestando a sua
oposição ao naturalismo em favor de opções plásticas exigentes, distanciadas de pressupostos académicos.
No dia 5 de março de 1911 Modigliani e Amadeo inauguram uma exposição no ateliê do pintor português, perto do Quai d'Orsay, cujo livro de honra é assinado por Picasso, Apollinaire, Max Jacob e Derain; e no mês seguinte Amadeo participa pela primeira vez numa grande mostra internacional, o XXVII Salon des Independents, exposição determinante e que dá grande visibilidade ao cubismo. Nesse mesmo ano conhece Sonia e Robert Delaunay e, através deles, Apollinaire, Picabia, Chagall, Boccioni, Klee, Franz Marc e Auguste Macke.
Em 1912 publica o álbum XX Dessins, onde reúne desenhos desse ano e do anterior que terão grande divulgação na imprensa francesa e portuguesa; participa no X Salon d’Automne (Grand Palais), encerrando o seu curto ciclo expositivo em Paris. É um dos artistas representados no famoso Armory Show (International Exhibition of Modern Art), Nova Iorque,
1913, exposição que marca a grande viragem modernista no meio
artístico norte-americano: atento ao panorama artístico alemão, expõe
também em Berlim, no Erster Deutscher Herbstsalon (Primeiro Salão de Outono Alemão), organizado pela Galeria Der Sturm, em conjunto com artistas maioritariamente associados à "novíssima pintura", dos futuristas italianos ao grupo do Blaue Reiter e ao casal Delaunay. Em 1914 tem trabalhos expostos em Londres e nos Estados Unidos da América (Exhibition of Painting and Sculpture in the "Modern Spirit", Milwaukee Art Society). O seu espírito instável fá-lo passar por "momentos torturantes de ansiedade".
Durante uma viagem a Barcelona toma conhecimento do início da I Guerra Mundial
(1914-1918). Regressa a Portugal e, a 26 de setembro, casa-se com Lucie
Pecetto, fixando residência na Casa do Ribeiro, em Manhufe, que o seu
pai mandara construir. No ano seguinte reencontra Sonia e Robert
Delaunay, que entretanto haviam fixado residência em Vila do Conde.
Amadeo ocupa o seu tempo entre a pintura, a caça, os passeios a
cavalo, mas o seu isolamento começa a tornar-se difícil de suportar e
faz planos para regressar a Paris. 1916 fica marcado por várias
tentativas falhadas de participação em exposições internacionais; nesse
mesmo ano publica o álbum 12 Reproductions e realiza exposições individuais no Porto (Salão de Festas do Jardim Passos Manuel) e em Lisboa (Liga Naval, Palácio do Calhariz). O acolhimento crítico, "num
país pouco acostumado a exposições deste género, em que o modelo dos
salons ainda vigorava, foi sobretudo marcado pela surpresa"; a articulação da montagem, "as obras exibidas e a internacionalização do artista português causaram espanto generalizado". Durante a estadia em Lisboa convive com Almada Negreiros e com membros do grupo Orpheu.
Em 1917 envolve-se em projetos editoriais com Almada Negreiros, publica dois trabalhos na revista Portugal Futurista (Farol; Cabeça Negra),
mas acima de tudo trabalha intensamente, aprofundando o seu universo
pictórico, que expande em novas direções. Anseia no entanto pelo
regresso a Paris, o que não viria a acontecer. No ano seguinte contrai
uma doença de pele, que lhe afeta o rosto e as mãos e o impede de
trabalhar. Abandona Manhufe e refugia-se em Espinho, na tentativa vã de escapar à epidemia de gripe espanhola que se espalha rapidamente e à qual viria a sucumbir, em 25 de outubro desse mesmo ano.
De personalidade algo paradoxal, Amadeo era "convictamente monárquico"
e poderá ter pertencido – este facto não é mencionado nas publicações
mais importantes sobre Amadeo –, a um movimento conhecido por Grupo do Tavares, que incluiria, entre outros, Eduardo Viana, Almada Negreiros e Santa Rita.
Obra
O ano seguinte à sua partida para Paris "terá sido um ano de choque",
um ano de revelação, marcando o início da sua atividade como pintor,
embora as suas primeiras pinturas conhecidas datem dos anos imediatos;
trata-se ainda de exercícios, de escala reduzida, "pequenas «pochades» de impressão, como toda a gente fazia",
onde representa interiores de cafés ou paisagens de forma mais ou
menos convencional. Se muitas destas obras revelam hesitação, a lição de
Cézanne informa já algumas das paisagens mais bem-sucedidas.
Maturidade
Em 1910 Amadeo estuda com Anglada Camarasa, "pintor espanhol de colorido vibrante mas também de algum simbolismo estilizado",
que impulsiona esse momento de crescimento; no ano seguinte a sua obra
começa a revelar verdadeiros sinais de maturidade, num "estilo precioso e mundano […], algo decorativo no seu grafismo estilizado e no seu colorido espetacular, onde se revela a influência […] do orientalismo luxuoso dos Ballets Russes de Diaghilev", esse "verdadeiro fenómeno pluridisciplinar que, com as suas danças exóticas e exuberantes […] transfigurou a paisagem mental de todos os artistas".
Marcado por uma multiplicidade de referências – da longa tradição
erudita da arte Europeia à intensidade hierática da arte primitiva
Africana; da linearidade sofisticada das gravuras e aguarelas japonesas
às ruturas formais e concetuais do cubismo e do futurismo –, para
Amadeo, neste momento de consolidação de ideias é igualmente
determinante a amizade e conivência de artistas como Modigliani ou Brancusi. É neste quadro de referências que surgem pinturas como Saut du Lapin (Salto do Coelho) ou Os galgos, 1911, e o álbum de 20 desenhos que irá publicar no ano seguinte, com o seu pendor marcadamente decorativo "em que assomam ainda ecos do Jugenstil muniquense", e onde procura afirmar a sua identidade, gráfica e pessoal, revendo-se em memórias ou fantasias e projetando a "construção de alguns cenários mais adequados à sua mitologia pessoal. […] Amadeo é um cavaleiro veloz, um caçador com galgos e falcões, que atravessa a galope as suas montanhas em Manhufe […] até chegar a sua casa, que se perspetiva como um castelo no cimo de uma hierarquia de colinas" (ver, por exemplo, Les Faucons, 1912).
Em 1912 participa no Salon de Independents e no Salon d’Automne com um "conjunto
de obras, sedutoras no tempo pelo uso de uma moderada técnica cubista,
temperada com os arabescos decorativos de um imaginário singular,
visualmente muito apelativo" (e onde se sente uma vontade de
representar o movimento que poderá talvez relacionar-se com os
princípios do manifesto futurista). Em obras como Avant la Corrida, 1912 – exposto no Salon d’Automne e no Armory Show
–, Amadeo procura um caminho singular através de aspetos temáticos
menos comuns e de soluções formais algo híbridas que o associam a
movimentos artísticos díspares, "aproximando-se deliberadamente das margens alternativas dos respetivos programas". A sua participação com trabalhos deste tipo no Armory Show, 1913, irá ser um sucesso do ponto de vista comercial. Das 8 pinturas expostas, são vendidas 7, três das quais – Saut du Lapin, 1911; Chateau Fort, c. 1912; Paysage,
1912 -, a Jerome Eddy, autor do primeiro livro em inglês sobre o
cubismo. A opinião deste importante colecionador fixará, por muitos
anos, a análise interpretativa da obra de Amadeo "nesse período, brilhante e sofisticado, mas ainda distante de futuros desenvolvimentos".
Paralelamente, vemo-lo trabalhar a paisagem em obras onde o sentido
predominantemente linear cede o lugar a um outro tipo de plasticidade,
numa reaproximação à sensibilidade impressionista que evolui rapidamente
para obras totalmente abstratas: "Entre um jogo geométrico de
relevos (de lembranças cézanianas) e um ritmo colorido de massas de
arvoredo, Amadeo avança para soluções de progressiva indiferenciação,
como se essas massas densas perdessem a sua referência à realidade, para
se transformarem em exclusivas soluções formais". Irá radicalizar a sua abordagem, aproximando-se de forma mais explícita da decomposição cubista (como na famosa Cozinha da Casa de Manhufe,
1913), que noutras pinturas será tratada através de um cromatismo
aberto mais próximo de Delaunay (veja-se, por exemplo, Título
desconhecido – Les Cavaliers, c. 1913); e tematicamente oscila
entre caminhos diversos, com as alusões figurativas – à figura humana, à
natureza-morta ou à paisagem –, a alternar com obras estritamente
abstratas como, por exemplo, Sem título, 1913.
Em 1914 expõe trabalhos em Londres e Berlim, o que indicia um desejo de
encontrar novas vias de internacionalização. A participação no 1º Salão de Outono
(Herbstsalon) organizado pela Galeria Der Sturm, é particularmente
significativa da sua ligação ao polo de difusão berlinense. "O
dramatismo e a intensa espiritualidade que forma a personalidade do
artista, não podem ser excluídos do seu envolvimento com o movimento
expressionista e com as sensibilidades estéticas que com ele se cruzaram […].
Coincidindo sensivelmente com a cronologia da sua passagem expositiva
pela Alemanha, Amadeo desenvolveu várias séries de trabalhos […] de intenso diálogo com os conteúdos, formais e teóricos, dos expressionismos do seu tempo"
(é o que acontece de forma explícita com um conjunto de cabeças, ou
máscaras, datado de 1914, que remete, também, para as explorações
pioneiras de Picasso em torno das máscaras africanas). E será esta,
afinal, uma das principais linhas unificadoras da sua obra
plurifacetada. Mesmo quando os caminhos formais apontam noutras
direções, "a sua alma de expressionista, esquiva a classificações e a modelos rígidos, individualista, inquieta e dissonante […] sustenta o desenvolvimento do seu trabalho", atravessando todas as fases, desde as primeiras paisagens até ao seu modo final.
O diálogo com as vanguardas do início do Século XX será o grande motor
por detrás da obra de Amadeo, mas há fatores determinantes de outra de
outra ordem e que se prendem com um universo temático marcado por
referentes pessoais. Numa carta dirigida à sua mãe, em 1908, o pintor
lamentava a ausência de "um forte meio da arte" na sua terra natal, mas queixava-se igualmente da "atmosfera parda" ou o "sol anémico" de Paris, que contrapunha ao seu "Portugal prodigioso, país supremo para artistas". Segundo Helena Freitas, "o alimento espiritual de Amadeo é também a iconografia da sua terra e das suas tipologias".
Na sua pintura encontramos alusões a essa luz diferente; ao sol, às
montanhas, às azenhas e moinhos; aos alvos das barracas de feira; às
canções, bonecos e figuras populares… (veja-se, por exemplo, Canção Popular - a Russa e o Figaro, c. 1916).
Obras finais
Regressa a Portugal após tomar conhecimento da eclosão da 1ª Guerra Mundial (1914-1918): "este virar de página vai transtornar definitivamente os seus projetos e fechar para sempre o seu livro de viagens".
Isolado no norte do país, remetido para uma zona periférica de um país
já de si periférico, esse isolamento é apenas mitigado pelo
intercâmbio com Eduardo Viana, com Sonia e Robert Delaunay (então a
residir em Portugal), e por brevíssimos contactos com elementos do
chamado grupo futurista português. Vive esses últimos anos – o seu
período de "maior energia e criatividade individual" –, num
frenesim criativo, sonhando com a participação em mostras
internacionais (que nunca se concretizam) e com o regresso, sempre
adiado, a Paris. "Neste trabalho, sabiamente manipulador de uma
memória seletiva, estão presentes os sinais de maturidade do artista na
escolha do seu caminho. Mas é um caminho solitário e desamparado". E
essas obras notáveis, onde desenvolve pesquisas consonantes com a de
autores máximos das vanguardas da época – dos cubistas aos membros da
vanguarda russa –, ficarão praticamente esquecidas da historiografia
internacional da arte.
Os últimos trabalhos de Amadeo, datáveis de 1917, "são o núcleo mais consistente e poderoso da sua afirmação como artista". Nestas obras reforçam-se as associações inesperadas, alógicas, "ao
mesmo tempo que se adensam e complexificam os processos técnicos, na
espessura e materialidade das tintas misturadas com areias e outros
agregantes, nas colagens, nos trompe-l’oeils e suas simulações".
Partindo de um princípio gerador baseado na fragmentação cubista, irá
integrar na pintura elementos iconográficos típicos desse movimento (dos
instrumentos musicais à palavra escrita), fragmentos apropriados da
vida real (madeira, espelhos, ganchos de cabelo, etc.), representações
de partes do corpo ou de produtos contemporâneos produzidos
industrialmente (como uma máquina registadora), e formas totalmente
abstratas… Essa diversidade aparentemente incongruente é gerida de forma
magistral, "num jogo combinatório poderoso e de uma energia plástica rara" que coloca essas obras a par das pinturas mais notáveis suas contemporâneas.
Embora a "notoriedade do seu percurso expositivo e […] integração no contexto internacional dos diálogos de vanguarda"
o coloquem no centro da revolução que atravessou o mundo das artes nas
primeiras décadas do século XX, a origem de Amadeo num país pequeno e
periférico, a sua morte prematura e inconstância estilística, "camaleónica",
criaram sérias dificuldades ao seu reconhecimento. Mesmo em Portugal,
depois da sua morte, ocorreu um longo hiato até que a sua obra merecesse
a devida atenção; e apenas em 1983, com a inauguração do Centro de
Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, se tornou finalmente
possível um acesso real e permanente a obras de referência como Título
desconhecido (Entrada), ou Título desconhecido (Coty), 1917.
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