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domingo, outubro 04, 2026

Cristóvão de Aguiar morreu há cinco anos...


Luís Cristóvão Dias de Aguiar
, de seu nome literário Cristóvão de Aguiar (Pico da Pedra, Ilha de São Miguel, 8 de setembro de 1940 – Coimbra, 5 de outubro de 2021), foi um escritor português. 

 

Biografia

Depois de Vitorino Nemésio, é considerado o maior escritor da literatura de autores açorianos e um dos de maior importância no panorama da literatura portuguesa contemporânea.

Licenciou-se em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, que frequentou de 1960 a 1971. Cumpriu o serviço militar na Guiné Portuguesa, de 1965 a 1967, período durante o qual teve de interromper os seus estudos. Tornou-se leitor de Língua Inglesa na Universidade de Coimbra em 1972. Foi redator e colaborador da revista Vértice.

Foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique em 3 de setembro de 2001 e homenageado pela Faculdade de Letras e Reitoria da Universidade de Coimbra em 2005, por ocasião dos quarenta anos da sua vida literária, tendo sido publicado um livro, "Homenagem a Cristóvão de Aguiar", coordenado pela Professora Doutora Ana Paula Arnaut, o qual contém a generalidade das críticas e ensaios publicados sobre a obra do autor durante a sua vida literária.

A trilogia romanesca Raiz Comovida (1978-1981), acerca das comunidades açorianas, da emigração e da guerra colonial na Guiné, é a sua obra mais importante. Merece também realce a sua Relação de Bordo (1999-2004), em três volumes, um dos mais interessantes diários da literatura portuguesa.

Morreu a 5 de outubro de 2021, em Coimbra, aos 81 anos de idade.

 

in Wikipédia

sexta-feira, setembro 18, 2026

Porque Luiz Goes nunca morre, enquanto for recordado...

Saudades de Luiz Goes...

Saudade de Luiz Goes...

 

Cantiga de um Vagabundo - Luiz Goes

 

Se queres saber, amor, porque te quero,
pergunta a um velho marinheiro
se uma aventura em cada cais
lhe faz perder o rumo verdadeiro.

Pergunta ao mar, eternamente azul,
a razão de ser da sua cor,
às vezes verde, às vezes cinza…
mas é o céu o seu primeiro amor.

Se queres saber, amor, porque te quero,
pergunta a um velho vagabundo
se tanta estrada, tanta mulher,
matou de vez o seu primeiro mundo.

Pergunta à flor, que a noite emurcheceu,
se quer abrir em nova madrugada,
se o quase nada que a vida lhe deu
a faz morrer na minha mão fechada.

Hoje é dia de recordar o melhor cantor de sempre de fado de Coimbra...

Luiz Goes morreu há catorze anos...


(imagem daqui)

Luís Fernando de Sousa Pires de Goes (Coimbra, 5 de janeiro de 1933 - Mafra, 18 de setembro de 2012) foi um médico e músico português. Cantor e compositor, conhecido pelo seu nome artístico como Luiz Goes, é considerado um dos expoentes máximos da canção de Coimbra.
Filho de Luís do Carmo Goes e de D. Leopoldina da Soledade Valente d'Eça e Leyva Cabral de Sousa Pires, nasceu em Coimbra, em 1933, e, por influência de seu tio paterno Armando do Carmo Goes, figura destacada da Canção de Coimbra, cedo começou a interpretá-la, tendo aos 19 anos, a convite de António Brojo, gravado o seu primeiro disco.
No final da década de 50, formou o Coimbra Quintet, com os músicos António Portugal, Jorge Godinho, Manuel Pepe e Levi Baptista, gravando o álbum Serenata de Coimbra, que "é ainda hoje o disco português mais vendido", segundo Manuel Alegre Portugal. Em 1958 licencia-se em Medicina, na Universidade de Coimbra e exerceu a profissão de médico estomatologista até à sua reforma, em 2003. De 1963 a 1965 prestou serviço militar na Guiné como Alferes Miliciano Médico.
Foi autor de 25 canções estróficas e 18 baladas. Do seu reportório fazem parte canções como "Balada do mar", "É preciso acreditar", "Cantiga para quem sonha", "Só" ou "Toada beirã".
Foi condecorado com a Ordem do Infante Dom Henrique, no grau de Grande Oficial (9 de junho de 1994), com a Medalha de Ouro da cidade de Coimbra (4 de julho de 1998), com a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Cascais e com o Prémio Amália Rodrigues 2005, na categoria Fado de Coimbra. 
  

 

 

Balada para ninguém - Luiz Goes

Letra - Leonel Neves

Música - João Bagão



Chuva dize-me o que sentes
quando as tuas gotas
caem só no mar

Chuva disse-me o que sentes
se às cisternas rotas
é que vais parar

Pobre chuva sem sementes


Noite dize-me o que sentes
quando em sonhos falas
sem achar ninguém

Noite diz-me o que sentes
quando alguém embalas
mas o dia vem

Triste noite sem correntes


Vento diz-me o que sentes
se é em vão que pedes
velas para inchar

Vento dize-me o que que sentes
se a buscar paredes
só encontras ar

Vento inútil sem batente

quinta-feira, setembro 17, 2026

Jorge Paiva celebra hoje 93 anos...!

(imagem daqui)

 

Jorge Américo Rodrigues de Paiva, nascido em Cambondo (Angola), a 17 de setembro de 1933, licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade de Coimbra e doutorado em Biologia pelo Departamento de Recursos Naturais e Medio Ambiente da Universidade de Vigo (Espanha), aposentado, tendo sido investigador principal no Departamento de Botânica da Universidade de Coimbra, onde lecionou algumas disciplinas, tendo também lecionado, como professor convidado, na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, nos Departamentos de Biologia das Universidades de Aveiro e da Madeira, na licenciatura de Arquitetura Paisagista da Universidade Vasco da Gama de Coimbra, no Departamento de Engenharia do Ambiente do Instituto Superior de Tecnologia de Viseu e no Departamento de Recursos Naturais e Medio Ambiente da Universidade de Vigo (Espanha).


Como bolseiro do Instituto Nacional de Investigação Científica (INIC) trabalhou durante três anos em Londres nos Jardins de Kew e na Secção de História Natural do Museu Britânico. Como fitotaxonomista tem percorrido a Europa, particularmente a Península Ibérica, Ilhas Macaronésicas, África, América do Sul e Ásia, tendo também já visitado a Austrália.

Pertenceu à Comissão Editorial e Redatorial da Flora Ibérica (Portugal e Espanha) e da Flora de Cabo Verde, assim como de algumas revistas científicas. Tem sido colaborador (estudo de alguns grupos de plantas superiores) de algumas floras africanas, como a Flora Zambesiaca (Moçambique, Malawi, Zimbabwe, Zambia e Botswana) e a Flora of Tropical East Africa (Quénia, Tanzania e Uganda). Assim, tem integrado grupos internacionais de investigadores em estudos e colheitas de material de campo, não só na Península Ibérica, como também em países africanos (Moçambique, Quénia, Seychelles, Tanzania, Zimbabwe, Angola, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe), asiáticos (Timor, Tailandia e Vietname) e americanos (Brasil e Paraguai).

Dos trabalhos de taxonomia em que colaborou como co-autor, o Catalogue des Plantes Vasculaires du Nord du Maroc (1008 páginas em 2 volumes), foi galardoado pela OPTIMA (Organization for the Phyto-Taxonomic Investigation of the Mediterranean Area) com a Medalha de Prata, como o melhor trabalho sobre Flora Mediterrânica publicado em 2003.

Como palinologista colaborou com entidades apícolas e com os Serviços de Pneumologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, tendo sido distinguidos dois dos trabalhos que elaborou em colaboração com o corpo clínico desta Faculdade com o 1º Prémio da Sociedade Portuguesa de Patologia Respiratória («Boehringer Ingelheim S.P.P.R., 1979»), pelo trabalho de colaboração «Pólens e Polinose na Região Centro de Portugal) e o 1º Prémio Anual SPAIC/UCB-STALLERGENES 1994, pelo trabalho de colaboração "HLA e Alergia — Aplicação ao estudo da Parietaria lusitanica ".

Como ambientalista é muito conhecido pela defesa intransigente do Meio Ambiente, sendo membro ativo de várias Associações e Comissões nacionais e estrangeiras. A sua atividade em defesa do Meio Ambiente foi distinguida, em 1993, com o Prémio “Nacional” da Quercus (Associação Nacional de Conservação da Natureza); em 2005, com o Prémio “Carreira” da Confederação Nacional das Associações de Defesa do Ambiente; em 2005, com o Prémio “Amigos do Prosepe” pelo Prosepe (Projeto de Sensibilização da População Escolar) e em 2001 e 2002, com as menções honrosas dos respetivos Prémios Nacionais do Ambiente “Fernando Pereira” conferidas pela Confederação Nacional das Associações de Defesa do Ambiente.
Publicou já mais de cinco centenas de trabalhos sobre fitotaxonomia, palinologia e ambiente, sendo dos mais relevantes, a monografia (Polygalarum africanarum et madagascaiensum prodromus atque gerontogaei generis Heterosamara Kuntze, a genere Polygala L. segregati et a nobis denuo recepti, synopsis monographica in Fontqueria 50: I-VI; 1-346, tab. 1-52; 1998) com 62 novidades fitotaxonómicas e as obras de educação ambiental A Crise Ambiental - Apocalipse ou Advento de uma Nova Idade 1: 1-36; 1998 e 2: 1-187; 2000 e A Relevância do Património Natural, edição da Câmara de Leiria e Quercus, em 2002, destinadas, fundamentalmente, a apoiar os professores que se preocupam com a docência da problemática ambiental. Apresentou variadas comunicações e proferiu diversas conferências em reuniões científicas, congressos, simpósios ou ações pedagógicas (mais de 1 milhar).
     

quinta-feira, setembro 10, 2026

Nicolau Tolentino de Almeida nasceu há 286 anos

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/07/Giuseppe_Troni_-_Retrato_de_Nicolau_Tolentino.jpg?utm_source=pt.wikipedia.org&utm_campaign=imageinfo&utm_content=thumbnail_unscaled
 
Nicolau Tolentino de Almeida (Lisboa, 10 de setembro de 1740 - Lisboa, 23 de junho de 1811) foi um poeta português que pertenceu ao movimento da Nova Arcádia (1790-1794).
Aos vinte anos ingressou em Leis na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, mas ao invés dos estudos tinha vida boémia e de poeta. No ano de 1765 tornou-se professor de retórica, numa das cátedras criadas pelo Marquês de Pombal, após a expulsão dos jesuítas.
Os seus versos continham muitas vezes pedidos, pleiteando um cargo na secretaria de estado, até que este foi satisfeito, com a nomeação como oficial de secretaria.
Foi um professor durante quinze anos, mas esta vida desagradava-lhe, pois era inadaptado e descontente até conseguir o posto na Secretaria dos Negócios do Reino. Obteve tudo quanto pretendeu, o que não o fez deixar de deplorar uma suposta miséria.
Bom metrificador, compôs sátiras descritivas e caricaturais, sonetos e odes, que reuniu em 1801 num volume chamado Obras Poéticas. Ficou pela superfície, mas apreendeu bem os erros e ridículos da época. O seu cómico consistia no agravamento das proporções, hipertrofiando o exagero que encontrava.
     

  

 
Vai, mísero cavalo lazarento

    

Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,
Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.

Morre em paz, que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:

«Aqui piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno, a não morrer de fome».

 

Nicolau Tolentino de Almeida

quarta-feira, setembro 09, 2026

O Teixeira, uma figura acarinhada pela Academia de Coimbra, nasceu há um século...

TEIXEIRA, UM FUTRICA ESTUDANTE! 

 
I
Quem não se lembra do Teixeira? – Ó ‘tor, tem aí um cigarro? – Não fumo, pá! – Umm… ó ‘tor, então paga-me um fino e uma sandes?
Figura bizarra, fisicamente distorcida, um misto de homem e criança… conheci-o na década de 50, era eu bicho no D. João III – hoje José Falcão. Nessa altura ele engraxava numa barbearia que ficava no 13 da Tenente Valadim, um pouco à frente do quiosque que faz esquina com a Praça da República. O corte de cabelo ficava em 4$00, mais 5 tostões de gorjeta e outro tanto para o Teixeira engraxar, ou seja, com 5 mil reis estava a festa feita.
O Teixeira, que décadas mais tarde viria ser conhecido por “Taxeira”, andaria nessa altura pelos 30 anos mas a sua figura pouco se modificou depois disso. É que o tempo ia passando... e o Teixeira não. As gerações de estudantes foram deslizando à sua frente, à razão de duas por década, mas o Teixeira era sempre o mesmo, ainda que a imagem que ele de nós via se lhe fosse toldando na retina, à medida que a sua imagem em nós tão nítida permanecia.
Estou a vê-lo agora na barbearia! De fato-macaco azul, sentado à minha frente sobre a caixa da ferramenta, por certo em terceira mão e com a madeira surrada do castanho e preto da graxa. Cabelo farto, de poupa à Elvis, barba de uma semana – santos de casa não fazem milagres... – cigarro encharcado ao canto da boca – "Provisórios"? "Definitivos"? "20-20-20"? Talvez “Kentuky”, que a cigarro dado não se olha a marca… – uma perna encolhida, outra estendida na minha direção. Penso que nessa altura não usava ainda sapatilhas.
Ao que me lembre, era um pouco trapalhão na sua arte: punha a graxa com os dedos, deixava que a dita lambesse as meias do cliente e julgo que, de quando em vez, cuspia no pano para melhor fazer correr o lustro. Olhar ausente, resmungava as últimas da Académica nos raros intervalos que o barbeiro deixava para intervenções alheias. Às vezes zarpava da barbearia sem aviso, para exaspero do Sô António, o qual acumulava as funções de barbeiro com as de patrão e contava com o Teixeira para combater a concorrência da barbearia da porta mesmo abaixo, onde o Sô Carlos lhe disputava a clientela.
Mas o Teixeira, não dava a sensação de ter um gosto especial pela profissão de engraxador, o que só lhe creditava sabedoria. Do que ele gostava mesmo era de ir com a malta! Ir nas latadas, saltar para arena na garraiada, posar em tudo o que fosse fotografia de curso, rasganço ou cortejo da Queima, viver na crava pelas Repúblicas e cafés, apregoar o Ponney e a Via Latina com a sua voz roufenha, conviver de igual para igual com os da sua classe: os estudantes!
E a malta, que na sua irreverência juvenil tantas vezes é cruel para as figuras bizarras da sociedade, a malta brincava com ele mas não o gozava ou, se o fazia, era com o carinho com que se trata um irmão mais novo. Alguém me contou que o Teixeira sabia dois poemas de cor e os recitava (à sua maneira…), a pedido e em cima dum banco; mas só o fazia depois de se certificar de que não andassem futricas por perto. Afinal, ele tinha sido um dia proclamado “Quartanista de Medicina honoris causa” e tratava os caloiros por tu, como conta Reis Torgal no seu Coimbra – Boémia da Saudade. Brincar com a família, sim! Mas nunca na presença de estranhos…
Muita gente tem estórias do Teixeira para contar, desde a ida ao casino da Figueira, de fraque e anel de brasão no dedo, onde só terá sido desmascarado por querer oferecer um pirolito a uma requintada senhora, até ao telefonema que terá feito ao Reitor da Universidade a pedir satisfações, aquando da crise de 69. A última que li foi-me descrita por um amigo [1] nestes termos: «… Foram com ele a Barcelona (Clínica Barraquer), estava ele quase cego. Recusou-se a ir de avião, por lhe provocar imenso medo essa ideia. Disseram-lhe que iriam de camioneta. Pois a cegueira dele era tal que ele embarcou no avião e, durante a viagem, dizia que as estradas espanholas eram maravilhosas, pois o autocarro não fazia ruídos nenhuns. Enfim, a Academia tratava sempre bem as suas "figuras"!»
E tratava… o melhor que podia: dava-lhe abrigo – num torreão (antiga bilheteira) do campo de Santa Cruz, tendo o Zé Freixo e Belmiro por anfitriões – até que um dia lhe fizeram mesmo uma casa de verdade! Dava-lhe de comer nas Repúblicas e cantinas, dava-lhe cigarros, tratava-lhe da cegueira e outros achaques, sentava-o à mesa do café, apaparicava-o… e até tinha lugar cativo no autocarro da Briosa!
Só há alguns anos, lendo o livro de Reis Torgal e pedindo informações a amigos, soube o seu verdadeiro nome. Chamava-se Raúl dos Reis Carvalheira. O nome Teixeira foi-lhe posto por ser sósia dum interior esquerdo do Benfica – Teixeira de seu nome – que a malta odiava por ter deixado os dentes marcados na barriga do Faustino, half-centro da Académica, por volta de 1940. Desde que as parecenças foram descobertas, passaram a chamar Teixeira ao Raúl, que começava a aparecer nas latadas; quanto ao verdadeiro Teixeira, o do Benfica, passou a Academia a chamar-lhe "Cão", por razões que bem se entendem.
O Teixeira nasceu em Torres do Mondego, que na altura ainda era da freguesia de Santo António dos Olivais, em 09/09/1926, tendo falecido em Coimbra, na Casa dos Pobres, na Rua Adelino Veiga, em 29/02/2000.
A última vez que o vi foi já há muitos anos. Achei-o feliz. Uma espécie de lenda viva, muito acarinhado, muito cegueta e, talvez por isso, pairando um pouco acima do quotidiano. Que se passou desde então? Como viveu os últimos anos? Como morreu? Não sei. Mas admito que tenha sido em paz. Quem tinha uma família do tamanho da Academia não se deve ter sentido sozinho.
 
II
A origem do nome Teixeira está explicada mais acima. Porém, a partir de determinada altura na década de 80, o Teixeira passou a ser igualmente conhecido por “Taxeira”, ao que se supõe, devido «à taxa que se encarregava de cobrar através do apelo: “moedinha, ó sócio”» [2] . No início dos anos 90, os dois nomes ainda coexistiam; mas quando falamos com estudantes que chegaram a Coimbra mais tarde, verificamos que estes já só retiveram o nome “Taxeira” [3].
E foi “Taxeira” que ficou registado na placa que se encontra à entrada de uma pequena rua transversal à Rua de Aveiro, já que em 2007 a edilidade de Coimbra resolveu atribuir o nome de uma rua da cidade à memória desta ilustre figura, cuja última profissão conhecida foi a de ardina. [4]
Mas quem era, afinal, o verdadeiro Teixeira, o do Benfica, o tal que em Coimbra ganhou a alcunha de “Cão”? Ouçamos, então o contraditório, pela pena do blogue Glórias do Passado, de cuja extensa biografia aqui transcrevo apenas um curto extracto [5]:
«O popular “Semilhas”, “Gasogéneo” ou “Marreco” foi um dos mais emblemáticos e categorizados futebolistas portugueses da década de 40, essencialmente, envergando, com êxito, as cores do SL Benfica, do Vitoria SC e também de Portugal, tornando-se mesmo no primeiro jogador açoriano a representar as Seleção Nacional. Natural da Horta, Ilha do Faial, nos Açores, Joaquim Teixeira, o seu verdadeiro nome, nasceu no dia 18 de Março de 1917.» Era, portanto, quase dez anos mais velho que o seu sósia, o nosso Teixeira.
A Parte I desta crónica foi escrita em 2/3/2011, sob o título “TAXEIRA”, UM FUTRICA ESTUDANTE. Posteriormente, entendi ser mais adequado alterar o título para TEIXEIRA, UM FUTRICA ESTUDANTE, como forma de não contribuir para o esquecimento da alcunha original do nosso “Quartanista de Medicina honoris causa”. Para além disso, foram surgindo novas informações que me pareceu interessante acrescentar a uma página que, segundo as estatísticas do blogue, continua a ser razoavelmente visitada.
Foi por essas razões que, ao texto inicial, acrescentei agora a Parte II e reeditei a crónica.


Post Scriptum
Há alguns anos atrás, fui até Coimbra e lembrei-me de revisitar o 13 da Tenente Valadim, curioso de rever a velha barbearia ou o que dela restasse. Queria bisbilhotar, saber quem por lá estaria, se o estabelecimento ainda mexia, se teria mudado de ramo… De facto, tudo deveria estar diferente e eu só esperava poder entrar ou, mesmo ficando à porta, antever a cadeira de barbeiro do Sô António e imaginar o Teixeira engraxando na parte de trás, no enfiamento da janela, enquanto, na porta mais abaixo, o outro barbeiro, o Sô Carlos, procurava afanosamente combater a concorrência da barbearia onde o Teixeira engraxava.
Razão tinha quem dizia que nunca devemos voltar aos sítios onde fomos felizes!...
Zé Veloso
 
[1] Francisco José Carvalho Domingues.
[2] Conforme folheto referente ao descerramento da placa toponímica e dados biográficos da reunião da Comissão de Toponímia, de 14 de maio de 2007.
[3] Estes intervalos de tempo resultam das respostas obtidas num inquérito que fiz aos membros do grupo do Facebook "Penedo d@ Saudade - TERTÚLIA"
[4] Para localização da rua, vide Google Maps:
[5] http://gloriasdopassado.blogspot.pt/2011/01/joaquim-teixeira.html
As fotografias onde aparece o Teixeira pertencem ao Arquivo Formidável da IMAGOTECA – Biblioteca Municipal de Coimbra – e foram cedidas exclusivamente para ser utilizadas no Penedo d@ Saudade, não podendo ser cedidas a outrem sem a devida autorização.
A fotografia de Joaquim Teixeira, que chegou a ser o melhor marcador do Benfica na época de 1944/45, foi obtida do blogue Glórias do Passado.
As restantes fotos foram obtidas pelo autor deste blogue.

in Penedo d@ Saudade

domingo, agosto 30, 2026

Elísio de Moura nasceu há 149 anos

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Elísio de Azevedo e Moura
(Braga, 30 de agosto de 1877 - Coimbra, 18 de junho de 1977) foi um médico, professor e psiquiatra português, o primeiro bastonário da Ordem dos Médicos, em 1939.

Biografia
Elísio de Moura notabilizou-se no ensino e investigação da Psiquiatria e Neurologia, tendo contribuído, no início da república, para a manutenção do ensino da Medicina na Universidade de Coimbra, que estava em risco de passar para as novas Universidade de Lisboa e Universidade do Porto.
Elísio de Moura era filho de José Alves de Moura, um bacharel formado em Teologia, professor e, mais tarde, Reitor do Liceu de Braga (atual Escola Secundária Sá de Miranda) e da sua mulher, Emília da Costa Pereira de Azevedo. Foi o quarto de dez filhos e filhas deste casal, tendo sido o único que seguiu Medicina.
Ao longo da sua vida escolar Elísio de Moura distinguiu-se sempre pela precocidade e brilho. A 15 de outubro de 1892, apenas com quinze anos de idade, inscreveu-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, como aluno de Matemática e Filosofia. A 10 de julho de 1895, obteve o grau de Bacharel em Filosofia.
Inscreveu-se então na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, frequentando o curso de Medicina de 1895 a 1901. A 1 de março de 1901 fez ato de licenciatura e, aprovado com distinção, é nomeado, em 1902, professor substituto da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
Mais tarde, como professor catedrático, rege as cadeiras de Patologia Interna, Propedêutica Médica, Obstetrícia e Pediatria. Terá sido a regência das cadeiras de Patologia Interna e de Clínica Médica que motivou Elísio de Moura para o estudo de Neurologia e Psiquiatria.
Em 1907, consegue, graças à sua notoriedade, dar início em Portugal ao ensino de Neurologia e Psiquiatria, na Universidade de Coimbra.
A par da investigação e do ensino, o médico dedicou também parte do seu tempo à fundação e direção daquela que é hoje conhecida como Casa da Infância Dr Elísio de Moura, em Coimbra.
Em 1939, os colegas elegeram-no para primeiro Bastonário da Ordem dos Médicos.
A 5 de junho de 1947 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, a 31 de maio de 1961 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Benemerência e a 5 de julho de 1971 foi elevado a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
Faleceu a 18 de junho de 1977, a pouco mais de dois meses de completar 100 anos, e encontra-se sepultado no Cemitério de Monte d'Arcos em Braga.
 
https://thumb.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/7b/Ordem_dos_M%C3%A9dicos.png/500px-Ordem_dos_M%C3%A9dicos.png?utm_source=pt.wikipedia.org&utm_campaign=imageinfo&utm_content=thumbnail

quarta-feira, agosto 26, 2026

Carlos Amaral Dias nasceu há oitenta anos...

https://cdn.sabado.pt/images/2019-12/img_640x426uu2019-12-04-14-05-53-611214.jpg

(imagem daqui)

 

Carlos Augusto Amaral Dias (Coimbra, 26 de agosto de 1946 - Lisboa, 3 de dezembro de 2019) foi um psicanalista e professor universitário português.

 

Biografia

Médico licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, com especialização em Psiquiatria, obteve o grau de Doutor pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPCE) da mesma Universidade, com a dissertação A influência relativa dos fatores psicológicos e sociais no evolutivo toxicómano (1981).

Foi Diretor do Instituto Superior Miguel Torga e professor catedrático da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), em Lisboa. Teve colaboração com a Universidade de Wisconsin e com a Universidade de Porto Alegre. Foi vice-presidente da Academia Internacional de Psicologia e coordenador do Nusiaf - Núcleo de Seguimento Infantil e Ação Familiar. Foi também presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e presidente da Sociedade Portuguesa de Psicodrama Psicanalítico de Grupo.

Foi autor dos livros O Inferno Somos Nós - conversas sobre crianças e adolescentes (2002) e Modelos de Interpretação em Psicanálise (2003). Com João Sousa Monteiro publicou Eu Já Posso Imaginar que Faço (1989). Foi também revisor científico da edição portuguesa do Dicionário de Psicanálise de Élisabeth Roudinesco e Michel Plas (2000). Foi diretor da Revista Portuguesa de Psicanálise. Dirigiu Esta Inquietante Estranheza, programa para a TSF, e partilhou Alma Nostra, com Carlos Magno, na Antena1 cuja última emissão foi em 1 de novembro de 2011.

Foi também, comentador televisivo.

Colaborou na revista Arte Opinião (1978-1982).

O problema da toxicodependência é um dos temas principais da sua investigação. Os seus referenciais de interesse científico e de investigação são a psicanálise, a psicologia clínica, a psicopatologia do funcionamento mental, a toxicodependência e a investigação sobre a psicose.

 

Obras

  • Para uma Psicanálise da Relação (1988)
  • Ali Babá - Droga: Uma neurose diabólica do século vinte (1991)
  • (A) Re-pensar (1995)
  • Bion Hoje (1998)
  • Falas Públicas do Inconsciente (2000)
  • Freud para além de Freud (2000)
  • O Inferno Somos Nós - conversas sobre crianças e adolescentes (2002)
  • Um psicanalista no Expresso do Ocidente (2003)
  • Modelos de Interpretação em Psicanálise (2003)
  • Costurando as linhas da psicopatologia Borderland (2004)
  • Freud para Além de Freud, Vol II (2005)
  • Carne e Lugar (2009)
  • Teoria das Transformações (2010)
  • O Obscuro Fio do Desejo (2015)
  • Quando o estranho bate à porta (Com Clara Pracana)(2016)
  • Vida e Psicodrama - Roteiro de um livro ponte (Com Maria Moreira dos Santos) (2019)

 

Casamentos e descendência

Casou primeira vez com Teresa Maria de Castro Nunes Vicente, da qual teve um filho e duas filhas:

  • Henrique Nunes Vicente Amaral Dias, casado com Vanda Patrícia Duarte Lopes, da qual tem:
    • António Duarte Lopes Amaral Dias
    • Bárbara Duarte Lopes Amaral Dias
  • Joana Beatriz Nunes Vicente Amaral Dias (Luanda, 13 de maio de 1973)
  • Leonor Nunes Vicente Amaral Dias, solteira e sem geração

Casou segunda vez civilmente na 7.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa em 1999 com Susana Maria Garcez dos Santos Quintas, da qual teve uma filha:

  • Carlota Maria Garcez Quintas Amaral Dias

 

terça-feira, agosto 25, 2026

Hoje é dia de ouvir guitarra de Coimbra...

António Brojo morreu há 27 anos...


António Brojo - foto do blog "Guitarra de Coimbra II"

 

António Pinho Brojo (Coimbra, 28 de novembro de 1928 - Coimbra, 25 de agosto de 1999) foi um músico português.

Frequentou o Liceu de Coimbra e começou os estudos de Ciências Farmacêuticas em Coimbra, que viria a ter de terminar na Universidade do Porto em 1950, por não ser possível ainda fazer na totalidade o curso em Coimbra. Preparou a tese de doutoramento em Farmácia na Universidade de Basileia e doutorou-se na Universidade do Porto em 1961. Seguiu a carreira académica na Universidade de Coimbra, onde chegaria a professor catedrático (1972) e a vice-reitor (1994). Jubilou-se da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra em 1998.

Paralelamente à carreira de professor universitário, foi um distinto executante de guitarra de Coimbra. Começou a tocar ainda nos anos quarenta, quando frequentava o Liceu com guitarristas como José Amaral, João Bagão, Armando de Carvalho Homem e Flávio Rodrigues da Silva. Ao lado de António Portugal, viria a fazer um dos mais célebres duetos de guitarra de Coimbra.

Gravou dois CDs: "Variações Inacabadas" e "Memórias de uma Guitarra". 

 

in Wikipédia

 

terça-feira, agosto 11, 2026

O matemático Pedro Nunes morreu há 448 anos

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Pedro Nunes (Alcácer do Sal, 1502 - Coimbra, 11 de agosto de 1578), com o nome latinizado Petrus Nonius, foi um matemático português que ocupou o cargo de cosmógrafo-mor do reino de Portugal.
Foi um dos maiores vultos científicos do seu tempo. Contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da navegação teórica, tendo-se dedicado, entre outros, aos problemas matemáticos da cartografia. Foi ainda inventor de vários instrumentos de medida, incluindo o "anel náutico", o "instrumento de sombras", e o nónio (nonius, o seu sobrenome em latim).
Traduziu para a língua portuguesa o Tratado da Esfera de Johannes de Sacrobosco (1537), os capítulos iniciais das Novas Teóricas dos Planetas de Georg von Peuerbach (por vezes referido como Jorge Purbáquio) e o livro primeiro da Geografia de Ptolomeu.
Em 1544 foi-lhe confiada a cátedra de Matemática da Universidade de Coimbra, a maior distinção que se podia conferir, no país, à época, a um matemático.

De possível origem judaica, o seu prestígio foi tal que, não obstante a sua ascendência, não foi importunado pela inquisição.[7] Os seus netos, Matias Pereira e Pedro Nunes Pereira, todavia, foram detidos, interrogados e condenados pelo Santo Ofício, sob a acusação de judaísmo. O primeiro esteve detido de 31 de Maio de 1623 a 4 de Junho de 1631; o segundo, em Lisboa, de 6 de Junho de 1623 a 1632.

Iniciou os estudos universitários em 1517, tendo ingressado na Universidade de Salamanca e na Universidade de Lisboa (que mais tarde veio a ser transferida para Coimbra, transformando-se na Universidade de Coimbra) onde obteve a graduação em medicina em 1525.[7][8] No século XVI a Medicina recorria à Astrologia, vindo assim a dominar as disciplinas de Astronomia e Matemática. Posteriormente prosseguiu os seus estudos de Medicina, mas também leccionou várias disciplinas na Universidade de Lisboa, incluindo Moral, Filosofia, Lógica e Metafísica. Quando, em 1537, a universidade retornou para Coimbra, ele transferiu-se para a refundada Universidade de Coimbra para lecionar matemática, cargo que manteve até 1562. À época, esta era uma disciplina nova naquela instituição, tendo sido criada com o intuito de fornecer as instruções técnicas necessárias para a navegação, que se tornara um tópico vital no país, à época. A matemática tornou-se uma disciplina independente em 1544.

Além de se dedicar ao ensino, foi nomeado Cosmógrafo Real em 1529 e tornou-se o primeiro Cosmógrafo-mor do Reino em 1547, cargo que exerceu até seu falecimento, e onde foi sucedido por Tomás de Orta.

Em 1531, João III de Portugal deu-lhe o encargo de aio, encarregando-o da educação dos seus irmãos mais novos Luís e Henrique. Anos depois, foi também responsável pela educação do neto do rei, e futuro rei, D. Sebastião.

É possível que durante a sua estadia em Coimbra, Christopher Clavius tenha assistido às aulas de Pedro Nunes, sendo assim influenciado pelo seu trabalho.

 
   
Nónio original de Pedro Nunes
      
   
  
NOTA: O nónio é um dispositivo de medição inventado pelo matemático português Pedro Nunes. Através do nónio era possível efetuar medições com rigor de alguns minutos de grau, permitindo planear a navegação com uma margem de erro da ordem da dezena de quilómetros.
Na França, o conceito foi modificado por Pierre Vernier, onde foi usado para construir um instrumento de metrologia, apelidado de vernier, com escalas de medição muito precisas.

segunda-feira, agosto 10, 2026

Carlos de Oliveira nasceu há cento e cinco anos

(imagem daqui)
   

Carlos de Oliveira (Belém do Pará, 10 de agosto de 1921 - Lisboa, 1 de julho de 1981) foi um escritor português.
Nascido no Brasil, filho de imigrantes portugueses, veio aos dois anos para Portugal. A família fixa-se em Cantanhede, mais precisamente na vila de Febres, onde o pai era médico. Em 1933 muda-se para Coimbra, onde permanece durante quinze anos, a fim de prosseguir os estudos. Em 1941 ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde estabelece amizade com Joaquim Namorado, João Cochofel e Fernando Namora. Em 1947 licencia-se em Ciências Histórico-Filosóficas, instalando-se definitivamente em Lisboa, no ano seguinte. Periodicamente volta a Coimbra e à Gândara. Em 1949 casa-se com Ângela, jovem madeirense que conhecera nos bancos da Faculdade, sua companheira e futura colaboradora permanente.
Data de 1942 o seu primeiro livro de poemas, intitulado "Turismo", com ilustrações de Fernando Namora e integrado na coleção poética de 10 volumes do "Novo Cancioneiro", iniciativa coletiva que, em Coimbra, assinalava o advento do movimento neo-realista. Porém, em 1937, já publicara em conjunto com Fernando Namora e Artur Varela, amigos de juventude, um pequeno livro de contos "Cabeças de Barro". Em 1943 publica o seu primeiro romance, "Casa na Duna", segundo volume da coleção dos Novos Prosadores (1943), editado pela Coimbra Editora. No ano de 1944 surge o romance "Alcateia", que viria a ser apreendido pelo regime. No entanto é desse mesmo ano a segunda edição de "Casa na Duna".
Em 1945 publica um novo livro de poesias, "Mãe Pobre". Os anos seguintes serão, para Carlos de Oliveira, bem profícuos quanto à integração e afirmação no grupo que veicula e auspera por um novo humanismo, com a participação nas revistas Seara Nova e Vértice, além da colaboração no livro de Fernando Lopes Graça "Marchas, Danças e Canções", uma antologia de vários poetas, musicadas pelo maestro.
Em 1953 publica "Uma Abelha na Chuva", o seu quarto romance e, unanimemente reconhecido, uma das mais importantes obras da literatura portuguesa do século XX, tendo sido integrado no programa da disciplina de português no ensino secundário.
Em 1957 organiza, com José Gomes Ferreira, os Contos Tradicionais Portugueses, alguns deles posteriormente adaptados ao cinema por João César Monteiro.
Em 1968 publica dois novos livros de poesia, "Sobre o Lado Esquerdo" e "Micropaisagem", e colabora com Fernando Lopes na adaptação de "Uma Abelha na Chuva". Em 1971 sai "O Aprendiz de Feiticeiro", coletânea de crónicas e artigos, e "Entre Duas Memórias", livro de poemas, que lhe vale o Prémio da Casa da Imprensa.
Em 1976 reúne toda a sua poesia em dois volumes, sob o título de "Trabalho Poético", juntando aos seus poemas anteriores, os inéditos reunidos em "Pastoral", publicado autonomamente no ano seguinte.
O seu último romance, "Finisterra", sai em 1978, tendo como fundo a paisagem gandaresa. A obra proporciona-lhe o Prémio Cidade de Lisboa, no ano seguinte.
Morre na sua casa em Lisboa, com 60 anos, incompletos.
   

  

Acusam-me de Mágoa e Desalento 

    

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

 

in Mãe Pobre (1945) - Carlos de Oliveira

sexta-feira, agosto 07, 2026

Saudades de Edmundo Bettencourt...

 

Canção do Alentejo -  Edmundo Bettencourt

 

Lá vai Serpa, lá vai Moura
Ai, as Pias ficam no meio
Lá vai Serpa, lá vai Moura
Ai, as Pias ficam no meio

Quem vier à minha terra
Ai, não tem de que ter receio
Quem vier à minha terra
Ai, não tem de que ter receio

Teus olhos, linda morena,
Ai, fazem-me a alma sombria
Teus olhos, linda morena,
Ai, fazem-me a alma sombria

Quero-te mais, ó morena
Ai, do que à luz de cada dia.
Quero-te mais, ó morena
Ai, do que à luz de cada dia.

Hoje é preciso ouvir fado de Coimbra...

Edmundo Bettencourt nasceu há 127 anos...

(imagem daqui)

  

Edmundo Alberto Bettencourt (Funchal, 7 de agosto de 1899 - Lisboa, 1 de fevereiro de 1973) foi um cantor e poeta português notavelmente conhecido por interpretar o Fado e a Canção de Coimbra e pelo seu papel determinante na introdução de temas populares neste género musical. Notabilizou-se pela composição musical "Saudades de Coimbra" a qual é ainda hoje uma referência da música portuguesa universitária.  

Edmundo era neto de Júlio César de Bettencourt, Morgado da Calheta. Caso o morgadio não tivesse sido extinto, Edmundo teria sido o Morgado. 

Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra, foi funcionário público, até ser despedido, por o seu nome figurar entre os milhares de signatários das listas do MUD, desenvolvendo, então, a atividade de delegado de propaganda médica. Integrou o grupo fundador de Presença, cujo título sugerira, e em cujas edições publica O Momento e a Legenda. Dissocia-se do grupo presencista em 1930, subscrevendo com Miguel Torga e Branquinho da Fonseca uma carta de dissensão, onde é acusado o risco em que a revista incorria de enquadrar o "artista em fórmulas rígidas", esquecendo o princípio de "ampla liberdade de criação" defendido nos primeiros tempos" (cf. "O Modernismo em Portugal", entrevista de João de Brito Câmara a Edmundo de Bettencourt, reproduzida em A Phala, n.° 70, maio de 1999, p. 114). A redação de Poemas Surdos, entre 1934 e 40, alguns dos quais publicados na revista lisboeta Momento, permite antedatar o surto do surrealismo em Portugal, enquanto adesão a um "sistema de pensamento, no que ele tem de fuga à chamada realidade, repúdio dos valores duma civilização e esperança de ação num domínio onde por tradição ela é quase sempre negada", embora não seja possível esclarecer com especificidade qual foi o conhecimento que Bettencourt teve da lição surrealista francesa.

Frequentou os cafés Royal e Gelo, onde se reuniu a segunda geração surrealista, vindo a publicar seis inéditos no n.° 3 da revista Pirâmide (1959-1960), em cujas páginas, entre 59 e 60, foram dadas à luz algumas das produções do grupo do Gelo. Publicou ainda esparsamente outros poemas em Momento, Vértice, Búzio. Depois de um silêncio, que deve ser compreendido não como desistência "mas sim [como] uma peculiar forma de revolta que o poeta defende carinhosamente", colige toda a sua produção, permitindo a edição, em 1963, dos Poemas de Edmundo de Bettencourt, prefaciados por Herberto Helder, poeta que, pela primeira vez, faz justiça à originalidade do autor de Poemas Surdos, considerando-o "uma das pouquíssimas vozes modernas entre o milagre do Orpheu e o breve momento surrealista português" (HELDER, Herberto - "Relance sobre a Poesia de Edmundo de Bettencourt", prefácio a Poemas de Edmundo de Bettencourt, Lisboa, Portugália, 1963, p. XXXII). Com efeito, o versilibrismo, o imagismo e certa atmosfera onírica e irreal conferem à sua poesia um lugar de destaque no segundo modernismo, estabelecendo, simultaneamente, a ponte com o vanguardismo de Orpheu e com tendências surrealistas e imagistas verificadas em gerações posteriores à Presença.

 

in Wikipédia

 

Nebulosa


Certo passado audaz sempre revive,
apenas, sob um céu menos escuro.
Quem vive para o futuro,
já o vive!
 
Futuro!
Quando te posso ver, por ti, plena aurora,
condena-te a presença:
és este agora
que possuo
como a abelha suga a rosa…
e sem que o resto me importe.
  
Mas ante sou depois, ver-te ou pensar-te
é ver uma nebulosa
– é como pensar na morte.

 
 
 
Edmundo Bettencourt

segunda-feira, agosto 03, 2026

Barros Madeira nasceu há 92 anos...

  

Chega-nos a notícia do falecimento do Dr. JOÃO BARROS MADEIRA (Loulé, 03.08.1934 - 21.01.2021), filho de David Mendes Madeira e de Joana d'Aragão Barros, associado que foi do Orfeon Académico e da TAUC, dirigente associativo em Coimbra e reputado cantor-serenateiro na década de 50 e nos inícios dos anos sessenta. Deixou discos gravados com os grupos de Jorge Tuna e António Portugal.

Frequentou a FMUC entre 1953-1962, com passagem prévia pelo Liceu João de Deus (Faro). Concluído o curso, exerceu Medicina no Algarve, teve militância política e dedicou-se à criação, treino e venda de pombos correios. 

Foi autor de pelo menos duas composições coimbrãs famosas e teve uma gravação censurada pela moral da época, por conta de um verso onde se dizia que Nossa Senhora tivera inveja de uma moça sortuda. 

Tem uma pequena biografia em Niza (1999: I, 94), com erros na datação dos registos fonográficos.

Barros Madeira foi, no vulto e na voz, uma espécie de Luciano Pavarotti da Academia de Coimbra, tenor dotado de pontentíssimo registo que, em 1962, fez um sucesso estrondoso na digressão do Orfeon Académico aos Estados Unidos com o tema Fado de Santa Clara (em cuja gravação faz umas lentificações curiosas).

Deixa amigos, admiradores e muitas saudades.

Divulgação de uma fotografia tirada em 1959 junto da República Boa-Bay-Ela, onde também figura o popular "Teixeira" que vendia o Poney: 


in Guitarra de Coimbra V (Cithara Conimbrigensis)