segunda-feira, julho 05, 2021

Cecil Rhodes nasceu há 168 anos

     
Cecil John Rhodes (Bishop's Stortford, Hertfordshire, 5 de julho de 1853 - Muizenberg, 26 de março de 1902) foi um colonizador e homem de negócios britânico. Foi também uma personagem essencial no projecto britânico de construção do caminho de ferro que ligaria o Cairo, no Egipto, ao Cabo, na África do Sul, nunca realizado. É também um dos principais fundadores da companhia De Beers, que na atualidade detém aproximadamente 40% de todo o mercado mundial de diamantes, mas que um dia foi responsável por 90% dele.
Ficou famosa a sua divisa pessoal "So much to do, so little time..." (Tanto para fazer, tão pouco tempo...).
    
Biografia
Nascido no condado de Hertfordshire,Cecil foi o quinto filho do reverendo Francis William Rodhes (18071878) e da sua segunda mulher, Louisa Peacock Rhodes (18161873). Teve onze irmãos, entre eles duas mulheres.
Criança brilhante mas de frágil saúde, em 1870 Cecil Rhodes tem apenas 17 anos quando, para tratar a sua asma, interrompe os seus estudos em Oxford para ir ter com o seu irmão Herbert no Natal, na África do Sul, onde o clima lhe é favorável.
Com dezanove anos converteu 3000 libras que um tio lhe havia dado, com a ideia de cultivar algodão, em licenças para explorar uma mina de diamantes em Kimberley, na África do Sul, associado a John X Merrimam e C. D. Rudd, que mais tarde o acompanhariam na fundação a De Beers Mining Company.
Em 1872, Cecil sofreu um ataque de coração, mas conseguiu recuperar. Foi então que começou a investigar as possibilidades de descobrir ouro no interior africano. Para isso, os irmãos Rhodes marcharam para norte, chegando a Mafeking. Porém, no ano seguinte, ao anunciar-se que a mina mais rica de Kimberley estava esgotada, Cecil ficou com todas as licenças que lhe ofereceram e ficou rico ao descobrir mais minas de diamantes, as quais deixou aos cuidados do seu sócio, Rudd, pois voltou para Inglaterra, com o objectivo de completar os seus estudos. Para tal inscreveu-se no Oriel College e não voltou a África antes de 1876.
Em abril de 1880, associado a Rudd, fundou a De Beers Mining Company, um investimento de 200 000 libras. Assim, em 1885, já controlava mais de 50% da economia de Kimberley.
Em 1886, ao ser descoberta uma mina de ouro em Joanesburgo, Cecil Rhodes compra grande parte desta.
   
Relações com a Companhia Britânica da África do Sul
A companhia foi criada por Cecil Rhodes através da fusão da Central Gold Search Association, empresa liderada por Charles Rudd, e da Exploring Company, Ltd, de Arthur Edward Maund.
Os feitos de Rhodes, no período em que atuou na companhia, foram resumidos por Daniel Litvin, que é consultor e escritor inglês, em seu livro: " Empires of Profit:
"Em um período de menos de dez anos, Rhodes e sua companhia tinham invadido ou levado a autoridade imperial britânica a se impor sobre uma região que corresponde à moderna Botswana, Zimbábue, Zâmbia e Malaui, - uma área com três vezes o tamanho da França."
O trecho acima citado, extraído do livro: "Empires of Profit", sinaliza a atuação conjunta de Cecil Rhodes com a companhia, num longo processo de intervenção britânica na África do Sul, que ocasionou num violento esmagamento dos grupos locais sul-africanos, na perda de milhares de vidas, além da geração de lucros em escala inimaginável.
Rhodes se tornou um personagem emblemático ao se falar do expansionismo e do colonialismo inglês do século XIX, uma de suas frases mais popularizadas foi:
"O mundo está quase todo parcelado e o que dele resta está sendo dividido, conquistado, colonizado. Penso nas estrelas que vemos à noite, esses vastos mundos que jamais poderemos atingir. Eu anexaria os planetas se pudesse. Entristece-me vê-los tão claramente e ao mesmo tempo tão distantes". (Cecil Rhodes 1895)
     
Rhodes e o racismo
Rhodes, assim como muitos homens de seu tempo, acreditava nas aplicação social das ideias de Darwin, o chamado darwinismo social. Devido a isso era um profundo defensor da superioridade da raça branca, em relação as demais raças. Em um de seus testamentos, intitulado: "Last Will and Testament", ele escreve:
"Considerei a existência de Deus e decidi que há uma boa hipótese de que ele exista. Se ele realmente existir, deve estar trabalhando em um plano. Portanto, se devo servir a Deus, preciso descobrir o plano e fazer o melhor possível para ajudá-lo em sua execução. Como descobrir o plano? Primeiramente, procurar a raça que Deus escolheu para ser o instrumento divino da futura evolução. Inquestionavelmente, é a raça branca… Devotarei o restante de minha vida ao propósito de Deus e a ajudá-lo a tornar o mundo inglês."
Talvez essas crenças na superioridade do homem branco, sejam a explicação para as empreitadas violentas, dirigidas por Rhodes, contra os nativos da África do Sul e a vontade que o acompanhou por toda a sua vida de expandir o Império britânico apesar de sua tradição anticolonialista no Congresso de Viena, sendo um dos maiores apologistas do imperialismo anglo-saxónico ao lado de Joseph Chamberlain no final do século XIX.
      
Morte
O local onde ele decidiu que seria enterrado - da mesma forma que um rei africano - foram as colinas de Matobo, onde ele dominou uma rebelião dos matabeles. O funeral de Rhodes ocorreu em 11 de abril de 1902 e ele foi enterrado perto do rei Mzilikazi. Milhares de matabeles vieram ao seu enterro, mesmo tendo sido Rhodes opressor deste povo. A cerimónia foi cristã, apesar disso os chefes guerreiros matabeles pagaram tributos a Rhodes de acordo com as suas crenças animistas locais.
     

Hoje é o Dia Nacional da Ilha de Man


A Ilha de Man (Isle of Man, em inglês; Mannin, em manês) é uma dependência da Coroa do Reino Unido, que inclui a ilha principal, do mesmo nome, e algumas ilhotas adjacentes, no Mar da Irlanda. A capital é Douglas (Doolish). The Tynwald Day (manês: Laa Tinvaal) é o Dia Nacional da Ilha de Man, o 5 de Julho.

 


domingo, julho 04, 2021

O Rei D. João VI regressou a Portugal há dois séculos


Patenteado o fracasso do seu projeto de construir uma monarquia forte e unificada, centralizada na América, e perdendo importantes apoios brasileiros, D. João não pôde mais resistir à pressão portuguesa, e seu retorno se tornou inevitável. Nomeou D. Pedro regente em seu nome e partiu para Lisboa em 25 de abril de 1821, após uma permanência de treze anos no Brasil, do qual levou saudades.

Os navios com o rei e sua comitiva entraram no porto de Lisboa em 3 de julho. Sua volta fora orquestrada de modo a não dar a entender que o rei se sentira coagido, mas de facto já se havia instaurado um novo ambiente político. Elaborada a Constituição, o rei foi obrigado a jurá-la em 1 de outubro de 1822, perdendo diversas prerrogativas.
 

All Around the World - hoje é dia de recordar Barry White...!

A sonda Deep Impact chocou propositadamente contra um cometa há dezasseis anos

Deep Impact.jpg
 Concepção artística mostra a Deep Impact e a Impactor ao fundo
    
Inspirando-se no filme americano Impacto Profundo, a NASA chamou de Deep Impact esta sonda espacial. O objetivo da missão não tripulada norte-americana Deep Impact ou Impacto Profundo da NASA, sob os cuidados do Laboratório de Jato-propulsão - JPL, foi o de lançar um impactador contra o cometa 9P/Tempel 1 ou simplesmente Tempel 1 que circula entre as órbitas de Marte e Júpiter, observar a explosão e dela analisar os componentes químicos e físicos internos do cometa.
A sonda Deep Impact foi lançada em 12 de janeiro de 2005 pelo foguete Delta II (modelo 2925), do Cabo Canaveral, Estados Unidos. O impacto da sonda com o cometa ocorreu em 4 de julho de 2005.
O cometa escolhido pertence a uma classe de cometas que são comuns do sistema solar e o impacto não deverá causar uma significativa mudança na trajetória do cometa.
    
   
   
  
The spacecraft consists of two main sections, the 370-kg (815-lb) copper-core "Smart Impactor" that impacted the comet, and the "Flyby" section, which imaged the comet from a safe distance during the encounter with Tempel 1.
The Flyby spacecraft is about 3.2 meters (10.5 ft) long, 1.7 meters (5.6 ft) wide and 2.3 meters (7.5 ft) high. It includes two solar panels, a debris shield, and several science instruments for imaging, infrared spectroscopy, and optical navigation to its destination near the comet. The spacecraft also carried two cameras, the High Resolution Imager (HRI), and the Medium Resolution Imager (MRI). The HRI is an imaging device that combines a visible-light camera with a filter wheel, and an imaging infrared spectrometer called the "Spectral Imaging Module" or SIM that operates on a spectral band from 1.05 to 4.8 micrometres. It has been optimized for observing the comet's nucleus. The MRI is the backup device, and was used primarily for navigation during the final 10-day approach. It also has a filter wheel, with a slightly different set of filters.
The Impactor section of the spacecraft contains an instrument that is optically identical to the MRI, called the Impactor Targeting Sensor (ITS), but without the filter wheel. Its dual purpose was to sense the Impactor's trajectory, which could then be adjusted up to four times between release and impact, and to image the comet from close range. As the Impactor neared the comet's surface, this camera took high-resolution pictures of the nucleus (as good as 0.2 metre [7.9 in] per pixel) that were transmitted in real-time to the Flyby spacecraft before it and the Impactor were destroyed. The final image taken by the impactor was snapped only 3.7 seconds before impact.
The impactor's payload, dubbed the "Cratering Mass", was 100% copper (impactor 49% copper by mass) to reduce debris interfering with scientific measurements of the impact. Since copper was not expected to be found on a comet, scientists could eliminate copper from the spectrometer reading. Instead of using explosives, it was also cheaper to use copper as the payload.
The name of the mission is shared with the 1998 Deep Impact film, in which a comet strikes the Earth. This is coincidental, however, as the scientists behind the mission and the creators of the film devised the name independently of each other at around the same time.
    
    

A astrónoma Henrietta Swan Leavitt nasceu há 153 anos

  
Henrietta Swan Leavitt (Lancaster, Massachusetts, 4 de julho de 1868 - Cambridge, Massachusetts, 12 de dezembro de 1921) foi uma astrónoma dos Estados Unidos da América famosa por seu trabalho sobre as estrelas variáveis.
Leavitt efetuou os seus estudos no Oberlin College e na Society for Collegiate Instruction of Women (Radcliffe College) onde ela descobriu, tardiamente, a Astronomia. No final de seus estudos, em 1892, ela seguiu outros cursos de Astronomia.
Em 1895 ela entrou para o Harvard College Observatory como voluntária. As suas qualidades e sua vivacidade de espírito permitiram-lhe ser admitida no quadro permanente de funcionários do observatório sob a direção de Charles Pickering.
Leavitt teve poucas possibilidades de efetuar trabalhos teóricos, mas foi rapidamente nomeada para a chefia do departamento de fotometria fotográfica, responsável pelo estudo das fotografias de estrelas a fim de determinar as suas magnitudes, processo que envolvia a comparação do tamanho de uma estrela em duas chapas fotográficas tiradas em momentos diferentes.
Ela descobriu e catalogou 1.777 estrelas variáveis situadas nas Nuvens de Magalhães. Em 1912, a partir do seu catálogo, descobriu que a luminosidade das variáveis cefeidas era proporcional ao seu período de variação de luminosidade. Essa relação período-luminosidade é a base de um método de estimação das distâncias de nebulosas e de galáxias no Universo.
Os resultados de Leavitt foram usados por cientistas como Ejnar Hertzsprung, Harlow Shapley e Edwin Hubble e contribuíram significativamente para o desenvolvimento da Astrofísica e da Cosmologia.
No final da sua vida, por causa da doença, já não conseguia já trabalhar, vindo a morrer, de cancro, em 12 de dezembro de 1921, sendo enterrada no túmulo da família, no Cemitério de Cambridge.
    

O estranho caso do passarinho cretácico que pensava ser um T. rex...


Fóssil com 120 milhões de anos tem um crânio de T. rex num corpo de pássaro

Henrique Viana morreu há catorze anos

(imagem daqui)
  
Henrique Viana (Lisboa, 29 de junho de 1936 - Lisboa, 4 de julho de 2007) foi um actor português.

Carreira
Estudante da Escola Industrial Fonseca Benevides (Lisboa), inicia-se no teatro na Sociedade Guilherme Cossoul. Estreou-se em Amanhã Há Récita, de Varela Silva, juntamente com Luís Alberto, corria o ano de 1956. Ainda como amador na Guilherme Cossoul integrou o elenco de O Dia Seguinte, de Luiz Francisco Rebello e Catão, de Almeida Garrett, até vir a integrar a Companhia de Amélia Rey Colaço no Teatro Nacional. Em 1959 matricula-se no Conservatório Nacional, cujo Curso de Teatro não conclui para se estrear como profissional na peça O Lugre, de Bernardo Santareno, com encenação de Pedro Lemos (TNDMII). Em 1960 contracenava com Palmira Bastos em A visita da velha Senhora de Friedrich Durrenmatt (1960) encenado por Luca de Tema. Em 1962 passa a integrar a Empresa de Teatros Vasco Morgado, estreando-se na alta comédia em Loucuras de papá e de mamã de Alfonso Paso, encenada por Manuel Santos Carvalho, no Teatro Avenida, em Lisboa.

Cinema
Nesta altura, Henrique Viana estreia-se também no cinema sob a direcção de Pedro Martins, no filme Aqui Há Fantasmas (1963), o primeiro de uma longa lista de cerca de meia centena de títulos, tendo trabalhado com realizadores como Henrique Campos (1970 - O Destino Marca a Hora), João Botelho (1992 - No dia dos meus Anos; 1993 - Aqui Na Terra), João César Monteiro (1989 - Recordações da Casa Amarela), Luís Filipe Rocha (1995 - Sinais de Fogo), José Fonseca e Costa (1987 - Balada da Praia dos Cães), João Mário Grilo (1992 - O Fim do Mundo), Margarida Gil, Fernando Matos Silva, Maria de Medeiros (2000 - Capitães de Abril) e Leonel Vieira em O Julgamento, seu último trabalho como actor.
Participou em vários filmes de Eduardo Geada, nomeadamente A Santa Aliança (1975-77), Uma Viagem na Nossa Terra (da série televisiva Lisboa Sociedade Anónima, 1982) e Saudades Para Dona Genciana (1983).

Teatro de Revista
Estreia-se no teatro de revista em 1967 - Sete Colinas de César de Oliveira, Rogério Bracinha e Paulo Fonseca, no Variedades. Foi co-fundador do Teatro do Nosso Tempo, onde protagonizou O Porteiro de Harold Pinter. Passou pelo Teatro da Estufa Fria, sendo que a partir de 1971 na companhia do Teatro Villaret, ao lado de Raúl Solnado alcança um dos seus maiores êxitos com O Vison Voador, de Ray Cooney. Permanece até 1973 nesta companhia, onde participa em várias peças sob a direcção de Paulo Renato e Adolfo Marsilach. Fez parte da fundação do Teatro Ádoque, participando nos espectáculos Pides na Grelha, CIA dos Cardeais, entre outras, estreando-se como autor neste teatro com Ó Calinas Cala a Boca (1977), em parceria com Ary dos Santos, Francisco Nicholson e Gonçalves Preto. Continua a trabalhar no teatro de revista no Teatro ABC com o empresário Sérgio de Azevedo. Seguidamente, interpretou O Tartufo de Molière, dirigido por Adolfo Marsilach; participou em Hedda Gabler, de Henrik Ibsen, com encenação de Carlos Quevedo.

Televisão
Na televisão foi um dos actores mais requisitados a partir da década de 80. Participou no tele-romance Chuva na Areia (1985), de Luís Sttau Monteiro, contracenando, entre outros, com Rui Mendes, Virgílo Teixeira, Mariana Rey Monteiro, Alina Vaz, Manuela Maria, Laura Soveral e Natália Luiza. Sozinhos em Casa (1993), que protagonizava com Miguel Guilherme; Desencontros (1994); Os Imparáveis (1996); Camilo na Prisão (1998), em que contracenava com Camilo de Oliveira; Esquadra de Polícia (1999); Alves dos Reis, Processo dos Távoras (2001); Inspector Max (2005); A Ferreirinha (2004); Bocage (2006); Morangos com açúcar de verão (2006) e Paixões Proibidas (2007) foram outras séries televisivas em que participou. Em 2005, partiu com a equipa da RTP1 para o Brasil, para fazer o antagonista da série O Segredo, co-produzida com a RBT, Rede Bandeirantes.
  
Morte
Henrique Viana morreu em Lisboa, a 4 de julho de 2007, no Hospital dos Capuchos, vítima de cancro. O seu corpo está enterrado no Cemitério dos Olivais.
  

Adolfo Casais Monteiro nasceu há 113 anos

(imagem daqui)
   
Adolfo Casais Monteiro (Porto, 4 de julho de 1908 - São Paulo, 23 de julho/24 de julho de 1972) foi um poeta, crítico e novelista português.
 
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade do Porto (Faculdade de Letras), onde foi colega de Agostinho da Silva e Delfim Santos, tendo-se formado em 1933. Foi também nessa cidade que começou por ser professor no Liceu Rodrigues de Freitas, até ao momento em que foi afastado da carreira por motivos políticos. Exilou-se em 1954 no Brasil, por motivos políticos e por lhe ser vedada a docência em Portugal.
Foi director, em 1931, da revista "Presença", depois da demissão de Branquinho da Fonseca, ainda que não tenha sido um dos seus fundadores. A revista viria ter o seu fim em 1940, tendo provavelmente contribuído para o seu encerramento as opções políticas de Casais Monteiro, que acabaria por se instalar no Brasil em 1954, após ter participado nas comemorações do 4º centenário da Cidade de São Paulo. Dele se afirma que, sendo um heterodoxo, tal como Eduardo Lourenço, é natural que viesse a exilar-se, já que a própria oposição ao regime se regia por normas (ortodoxias) que não se adequavam ao seu modo de ser.
Lecionou, então, Literatura Portuguesa em diversas universidades brasileiras, incluindo a da Bahia (Salvador), até se fixar em 1962 na Universidade Estadual Paulista (UNESP), Campus de Araraquara - São Paulo. Escreveu por essa altura vários ensaios, ao mesmo tempo que escrevia, como crítico, para vários jornais brasileiros, tendo deixado contributos para o estudo de Fernando Pessoa e do grupo da "Presença".
Entre os seus trabalhos de tradução conta-se "A Germânia", de Tácito, em 1941. O seu único romance, de 1945, intitulava-se "Adolescentes".
A sua obra poética, iniciada em 1929 com "Confusão", foi influenciada pelo primeiro modernismo português, aproximando-se estilisticamente do esteticismo de André Gide. As suas críticas ao concretismo baseavam-se na ideia de que esta corrente estética promovia a impessoalidade, partindo da "mais pura das abstracções" na construção de uma "uma linguagem nova ao serviço de nada, uma pura linguagem, uma invenção de objectos - em resumo: um lindo brinquedo". Enquanto alguns autores o descrevem como independente do Surrealismo outros acentuam a influência que esta corrente estética teve no autor, como se pode verificar nos seus ensaios sobre autores como Jules Supervielle, Henri Michaux e Antonin Artaud (designando o último como "presença insustentável). Muita da sua obra poética dedica-se ao período histórico específico por ele vivido, como acontece no poema "Europa", de 1945, que foi lido por António Pedro na BBC de Londres, no decorrer da Segunda Guerra Mundial.
   
   
EUROPA
  
 

Europa, sonho futuro!

Europa, manhã por vir,

fronteiras sem cães de guarda,

nações com seu riso franco

abertas de par em par!

 

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,

virás um dia? virá o dia

em que renasças purificada?

Serás um dia o lar comum dos que nasceram

no teu solo devastado?

Saberás renascer, Fénix, das cinzas

em que arda enfim, falsa grandeza,

a glória que teus povos se sonharam

— cada um para si te querendo toda?

 

Europa, sonho futuro,

se algum dia há-se-ser!

Europa que não soubeste

ouvir do fundo dos tempos

a voz na treva clamando

que tua grandeza não era

só do espírito seres pródiga

se do pão eras avara!

Tua grandeza a fizeram

os que nunca perguntaram

a raça por quem serviam.

Tua glória a ganharam

mãos que livres modelaram

teu corpo livre de algemas

num sonho sempre a alcançar!

 

Europa, ó mundo a criar!

 

Europa, ó sonho por vir

enquanto à terra não desçam

as vozes que já moldaram

tua figura ideal,

Europa, sonho incriado,

até ao dia em que desça

teu espírito sobre as águas!

 

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,

virás um dia? virá o dia

em que renasças purificada?

Serás um dia o lar comum dos que nasceram

no teu solo devastado?

Saberás renascer, Fénix, das cinzas

do teu corpo dividido?

 

Europa, tu virás só quando entre as nações

o ódio não tiver a última palavra,

ao ódio não guiar a mão avara,

à mão não der alento o cavo som de enterro

— e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,

o homem que sonhaste, Europa, seja vida!

 

 

II

 

Ó morta civilização!

Teu sangre podre, nunca mais!

Cadáver hirto, ressequido,

á cova, à cova!

 

Teu canto novo, esse sim!

Purificado,

teu nome, Europa,

o mal que foste, redimido,

o bem que deste,

repartido!

 

Aí vai o cadáver enfeitado de discursos,

florindo em chaga, em pus, em nojo..

Cadáver enfeitado de guerras de fronteiras,

ficções para servir o sonho de violência,

máscara de ideal cobrindo velhas raivas...

Vai, cadáver de crimes enfeitado,

que os coveiros, sem descanso,

acham pouca toda a terra,

nenhum sangue já lhes chega!

 

Sobre o cadáver dançam

teus coveiros sua dança.

Corvos de negro augúrio

chupam teu sangue de desgraça.

Haja mais sangue, mais dançam!

E tu levada, tu dançando,

os passos do teu bailado

funerário!

 

Mas do sangue nascerás,

ou nunca mais, Europa do porvir!

 

         E a mão que te detenha

         à beira do abismo?

                   Do sangue nascerá!

 

         E braços que defendam

         teu dia de amanhã?

                   Do sangue nascerão!

 

O sangue ensinará

— ou nova escravidão

maior há-de enlutar

teus campos semeados

de forcas e tiranos.

 

         De sangue banharás

         teu corpo atormentado

         e, Fénix, viverás!

 

 

III

 

Na erma solidão glacial da treva

os que não morreram velam.

 

Em vagas sucessivas de descargas

A morte ceifou os nossos irmãos.

 

O medo ronda,

o ódio espreita.

Todos os homens estão sozinhos.

 

A madrugada ainda virá?

 

Vão caindo um a um na luta sem trincheiras,

 e a noite parece que não terá nunca madrugada,

mas cada gota de sangue é agora semente de revolta,

da revolta que varrerá da face da terra

os sacerdotes sinistros do terror.

A revolta a florir em esperança

dos braços e das bocas que ficaram...

 

A traição ronda,

A morte espreita.

 

Uma comoção de bandeiras ao vento...

Clarins de aurora, ao longe...

 

Os que não morreram velam.

 

 

IV

 

Eu falo das casas e dos homens,

dos vivos e dos mortos:

do que passa e não volta nunca mais...

Não me venham dizer que estava matematicamente previsto,

ah, não me venha com teorias!

eu vejo a desolação e a fome,

as angústias sem nome,

os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.

E sei que vejo , sei que imagino apenas uma ínfima,

uma insignificante parcela de tragédia.

Eu, se visse, não acreditava.

Se visse, dava em louco ou em profeta,

dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,

— mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.

Olho num pasmo sem limites,

e fico sem palavras,

na dor de serem homens que fizeram tudo isto:

esta  pasta ensangüentada a que reduziram a terra inteira,

esta lama de sangue e alma,

de coisa e ser,

e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,

se o ódio sequer servirá para alguma coisa...

 

Deixai-me chorar — e chorai!

As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,

de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,

e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,

por momentos será nosso um pouco de sofrimento alheio,

por um segundo seremos os mortos e os torturados,

os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,

seremos a terra podre de tanto cadáver,

seremos o sangue das árvores,

o ventre doloroso das casas saqueadas,

— sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

 

Eu não sei porque me caem lágrimas,

porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,

eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,

eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,

eu que estou na minha casa sossegada,

eu que não guerra à porta,

— eu porque tremo e soluço?

 

Quem chora em mim, dizei — quem chora em nós?

 

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:

As ruas são ruas com gente e automóveis,

Não há sereias a gritar  pavores irreprimíveis,

e a miséria é a mesma miséria que já havia...

E se tudo é igual aos dias antigos,

Apesara da Europa à nossa volta, exangue e mártir,

eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,

sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,

sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,

uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...

 

V

 

A música era linda...

vinha do rádio, meiga, mansa,

macia como um corpo quente de mulher...

era doce, cariciosa e lânguida...

 

Mas eu tinha ainda nos ouvidos,

como um clamor de milhões de bocas:

“No campo de concentração hoje ocupado pelas nossas tropas

os alemães queimaram milhares de vivos num formo crematório...

Nas cubatas, os mortos misturavam-se com os moribundos...

O sargento S.S. não pôde recordar quantos homens tinha morto...

Os mortos apodrecem aos montes, e os vivos

                                               arrancam-lhes as roupas

para as fogueiras em que ao lado se aquecem...

EM MUITOS CADÁVERES ENCONTROU-SE UM CORTE LONGITUDINAL:

ERAM OS VIVOS QUE TINHAM TIRADO AOS MORTOS O FÍGADO

                                      E OS RINS PARA COMER,

A ÚNICA CARNE QUE AINDA RESTAVA NOS CADÁVARES...”

 

E lembro-me de repente dum filme muito antigo

Em que o criminoso perguntava:

“De quoi est fait un homme, monsieur le comissaire?”

e nos seus olhos lia-se o pavor

de quem vi u um abismo e não lhe sabe o fundo...

De quoi est fait un homme? De que são feitos os homens

que queimaram vivos outros homens? Que tinham centos de crianças

a morrer de fome e pavor, escravos como os pais?

que matavam ou deixavam morrer homens aos milhões,

que os faziam descer ao mais fundo da degradação,

torturados, esfomeados, feitos chaga e esqueleto?

Eram esses mesmos homens

que faziam pouco da liberdade,

que vinham salvar o mundo da desordem,

que vinham ensinar a ORDEM ao planeta!

Sim, que traziam a paz com as grades das prisões,

a ordem com as câmara de tortura...

 

E depois a música vem, cariciosa e lenta,

a julgar que apaga a ignomínia que lançaram sobre a terra!

A julgar que esqueceremos a abjecção dos que sonharam

apagar da terra a insubmissão do homem livre!

Não — nem cárceres, nem deportações, nem represálias, nem torturas

acabarão jamais com a insubmissão do homem livre,

do homem livre nas cadeias, cantando nas torturas,

porque vê diante de si os irmãos que estão lutando,

que hão-se-cair, para outros sempre se erguerem,

clamando em vozes sempre novas

QUE O HOMEM NÃO SE HÁ-DE SUBMETER À VIOLÊNCIA!

Homens sem partido e de todos os partidos,

que nasceram com a revolta porque não lhes vale de

                                      nada viver para serem escravos,

homens sem partido e de todos os partidos —, menos todos quantos

só sabem dizer ORDEM! e clamar VIOLÊNCIA!

os que pedem sangue porque são sanguinários, sim,

mas também todos os que nunca souberam querer nada,

os que dizem “Não é possível que se torturem os presos políticos”,

os que não podem acreditar

porque não querem ser incomodados pela pestilência

                                      dos crimes cometidos para eles

— para eles continuarem a acreditar que a ORDEM não é

                                               apenas a mordaça

sobre as bocas livres que hão-de gritar até ao fim do mundo

QUE SÓ O HOMEM LIVRE É DIGNO DE SER HOMEM!

 

                                               (Europa, 1944-45)


 
 
Adolfo Casais Monteiro

Otto de Habsburgo, o último príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro, morreu há dez anos


O Arquiduque Otto de Habsburgo (Reichenau an der Rax, em 20 de Novembro de 1912 - 4 de Julho de 2011) foi chefe da casa dinástica de Habsburgo e filho mais velho de Carlos da Áustria, último Imperador da Áustria e último Rei da Hungria, e de sua esposa, Zita de Bourbon-Parma. Era membro do Parlamento Europeu pelo partido União Social Cristã da Baviera (CSU) e presidente da União Internacional Pan-Europeia.
Foi baptizado Francisco José Otto Roberto Maria Antônio Carlos Max Henrique Sexto Xavier Félix Renato Luís Caetano Pio Inácio da Áustria (em alemão, Franz Joseph Otto Robert Maria Anton Karl Max Heinrich Sixtus Xaver Felix Renatus Ludwig Gaetan Pius Ignatius von Österreich).
Otto morava na Baviera, na Alemanha, e tinha nacionalidades alemã, austríaca, húngara e croata. Apesar de seu nome oficial ser Otto de Habsburgo, as autoridades austríacas se referiam a ele como Otto de Habsburgo-Lorena (Habsburg-Lothringen em alemão). Ele às vezes era chamado de Arquiduque Otto da Áustria, Príncipe-Herdeiro Otto da Áustria e, na Hungria, simplesmente como Habsburg Ottó. Era também um pretendente em potencial ao título de Rei de Jerusalém.

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Em 1940, Otto é uma das dezenas de milhares de pessoas a quem o cônsul português Aristides de Sousa Mendes concede o visto de saída da França, no momento da invasão nazis.

 
NOTA: era um primo próximo do atual Duque de Bragança e um europeísta convicto. Lutou contra os nazis e foi por eles perseguido, tendo sido salvo por Aristides de Sousa Mendes. Abdicou dos seus direitos para servir a Europa e os países que amava - um Grande Homem...