Famoso manuscrito de Galileu não passava de uma falsificação do século XX

O manuscrito era um dos bens mais preciosos da biblioteca da
Universidade do Michigan, mas descobriu-se agora que era uma
falsificação. Os especialistas suspeitam que o seu autor terá sido Tobia
Nicotra, um famoso forjador italiano.
Desde 1938 que um dos objetos mais valiosos da biblioteca da
Universidade do Michigan é um raro manuscrito de Galileu Galilei datado
de 24 de agosto de 1609 e que estava relacionado com a sua famosa descoberta de que a Terra não estava no centro do Universo.
Galileu tinha primeiramente ouvido falar sobre um novo instrumento que
“via coisas ao longe como se estivessem perto” e depois de ter ficado
desiludido com a capacidade dos instrumentos disponíveis, decidiu
arregaçar as mangas e construir o seu próprio telescópio, tendo até
aprendido a fazer as suas lentes.
O manuscrito incluía o rascunho de uma carta onde Galileu descrevia a
sua criação e desenhos sobre as posições das luas em torno de Júpiter.
No entanto, após uma investigação interna, a biblioteca concluiu agora que o documento é uma falsificação e que muito provavelmente partiu da habilidosa mão de um famoso forjador de documentos.
“Foi muito angustiante quando soubemos inicialmente
que o nosso Galileu não era verdadeiramente um Galileu”, revela Donna L.
Hayward, reitora interina da Universidade, ao The New York Times.
A denúncia partiu de Nick Wilding, um historiador da Universidade da
Geórgia, que está a escrever uma biografia de Galileu e já descobriu
outros trabalhos do astrónomo que eram forjados.
“Pareceu-me estranho. Isto são supostamente dois documentos
diferentes que acontecem estar numa folha de papel. Por que é que têm a
mesma cor castanha?”, explica. O historiador decidiu acabar de vez com
estas suspeitas e contactou a biblioteca para pedir uma imagem da marca de água do manuscrito, que poderia indicar onde e quando o papel foi feito.
O documento apareceu pela primeira vez num leilão em 1934, tendo sido
comprado por um empresário de Detroit, que o doou à Universidade do
Michigan em 1938, após a sua morte.
Pablo Alvarez, um dos curadores da biblioteca, admite que temeu logo o
pior quando viu o nome de Wilding no email, por já saber da sua
reputação para a descoberta de documentos forjados.
Wilding começou por descobrir que os arquivos italianos não tinham
qualquer registo da existência deste manuscrito, mas foi mesmo a marca
de água, composta por um círculo com um trevo de três folhas e o monograma “AS/BMO”, que acabou por ser a pista que resolveu o mistério.
A leiloeira que vendeu o manuscrito alegava que a sua autenticidade tinha sido verificada pelo Cardeal Pietro Maffi, que morreu em 1931 e o terá comparado a dois outros documentos autografados por Galileu na sua coleção.
Wilding descobriu que esses dois documentos tinham sido dados ao Cardeal por Tobia Nicotra,
um italiano oriundo de Milão que era famoso pelo seu talento para
falsificar documentos. “Quando ouvi o nome Nicotra, o meu sexto sentido
começou a formigar”, revela.
E não era para menos. Nicotra foi várias vezes descrito pelos seus contemporâneos como o forjador mais inteligente
até então conhecido. Não se sabe muito sobre a sua vida, mas terá
começado a vender documentos falsos nos anos 20, supostamente para
conseguir dinheiro para sustentar a sua esposa e as sete amantes que
tinha.
Terá sido o autor de entre 500 e 600 documentos falsos
e Galileu Galilei esteve longe de ser o seu único alvo, já que Nicotra
também criou manuscritos forjados atribuídos a outras figuras como
Cristóvão Colombo, George Washington, Martinho Lutero, Mozart ou
Leonardo da Vinci. O seu talento para a falsificação acabou por lhe sair
caro, já que foi condenado a dois anos de prisão a 9 de novembro de
1934.
Apesar de o papel e a tinta do manuscrito parecerem genuínos e serem
contemporâneos de Galileu, o historiador descobriu que o “BMO” se
referia à cidade italiana de Bérgamo e que a marca de água coincidia com
documentos datados de 1790 — 150 anos depois de
Galileu ter feito as descobertas, o que acabou por ser o último prego no
caixão que enterrou as esperanças de o documento ser verdadeiro.
A revelação foi dececionante, mas a biblioteca prefere ver o lado
positivo: “No futuro, pode servir para a investigação, aprendizagem e
ensino na área das falsificações, uma disciplina intemporal que nunca foi tão relevante“.
in ZAP