FP-25: As armas depois dos cravos
A primeira ação foi há 30 anos. No
Portugal pacífico atual, voltamos atrás na bolha do tempo e perguntamos
o que pensam os protagonistas deste episódio da História nacional
«Era uma tarde de sábado, de chuva miudinha, igual a tantas outras.
Gaspar Castelo-Branco tinha amigos para jantar e faltava-lhe o queijo. À
primeira aberta, já ao cair da noite, resolve dar uma saltada ao
comerciante da zona. Saiu, por uns minutos. Foi morto com um tiro na
nuca, disparado à queima-roupa, no passeio em frente à casa onde
morava».
A descrição é contada por José Teles, no jornal «O Semanário», em 1986, e reproduzida em 2008, na Internet, no
blogue «31 da Armada» por Manuel Castelo-Branco, no dia em que fazia 22 anos da morte do pai.
Gaspar Castelo-Branco era o diretor-geral dos Serviços Prisionais e foi assassinado a 15 de fevereiro de 1986.
Gobern Lopes, um dos fundadores das FP-25 e o primeiro a assumir-se em
julgamento como membro da organização, confessa, à Lusa, que os meios
justificam os fins «naquele contexto» e «não tem que se arrepender».
Manuel e Gobern têm papéis diferentes, lados opostos, mas os dois são
parte deste retrato de Portugal. Voltemos atrás na bolha do tempo e
contemos as histórias desta História de Portugal.
Em 1980, Portugal vivia há seis anos em democracia, conquistada por uma
revolução pacífica. A 20 de abril nascem as Forças Populares 25 de
Abril, as FP-25. Surgem passado um mês da criação da Força de Unidade
Popular (FUP), uma organização política de extrema-esquerda, da qual as
FP-25 se tornariam o braço armado.
As FP-25 anunciam-se com um estrondoso rebentamento de petardos pelo
país e com a distribuição do «Manifesto ao Povo Trabalhador», que
instava ao «derrube do regime, instauração ditadura do proletariado e
criação de um exército popular» para implantação do
socialismo.
Estava assim dado o tiro de partida. Logo a 5 de maio deu-se a primeira
ação, com o homicídio de um militar da GNR em Mogadouro e o assalto aos
bancos
Totta e Açores e
Caixa de Crédito e Providência, no Cacém. Entre
1980 e 1987, as FP-25 foram responsáveis por
18 assassinatos,
66
atentados à bomba e ainda
99 assaltos.
Otelo, o rosto que nunca deu a cara pelo movimento
As polícias, juntas na
Operação Orion, ditaram o princípio do fim das
FP-25 com o desmantelamento da rede armada, que começou com uma rusga à
sede da FUP, em 19 de junho de 1984. Otelo viria a ser preso um dia
depois e condenado a 15 anos de prisão em 1987.
Martinho de Almeida Cruz foi o juiz e o carrasco dos operacionais das FP-25.
A história havia de dar outra volta e, em 1989, Otelo Saraiva de
Carvalho é libertado. Sete anos depois, chega a amnistia para os presos
das Forças Populares 25 de Abril, aprovada pela Assembleia da República e
assinada pela mão de Mário Soares, então presidente da República.
Que lição tirou a sociedade e a História? O sociólogo Manuel Villaverde
Cabral explica à Lusa que «não é mais do que um fenómeno histórico
expectável, uma agonia».
Manuel publicou a fotografia do pai com a legenda «foi decidido
esquecê-lo». O amargo das palavras escritas continuam a ouvir-se na boca
do filho. Em entrevista à agência Lusa, Manuel, o homem de hoje, à data
adolescente, acusa: «A sociedade e o poder político fizeram sempre tudo
para esquecer as vítimas do grupo terrorista».
Gobern Lopes foi condenado a 20 anos, mas só esteve preso durante cinco.
As barbas brancas não lhe retiram o ar revolucionário mas trouxeram a
moderação. Reconhece que a partir de determinado momento, a organização
andou depressa de mais. «As organizações armadas têm um problema, que é
todos estão armados. Quando se esgotam os caminhos da razão, quais é que
ficam?»