
João Abel Carneiro de Moura Abrantes Manta (Lisboa, 29 de janeiro de 1928 – Lisboa, 15 de maio de 2026) foi um arquiteto, pintor, ilustrador e cartoonista português.
Autor de uma obra multifacetada, centrada sobretudo na arquitetura, desenho
e pintura, João Abel Manta afirmou-se no panorama cultural português a
partir do final da década de 40. Nos anos que se seguiram teve
importante atividade no domínio da arquitetura, que abandonaria
progressivamente em favor das artes, destacando-se como um dos maiores
cartoonistas portugueses das décadas de 60 e 70. Nos anos anteriores
e posteriores ao 25 de Abril
publicou regularmente, em jornais de grande tiragem, trabalhos
emblemáticos da situação político-social portuguesa nesse período de
transição (queda da ditadura e implantação de um regime democrático). Na década de 80 redirecionou uma vez mais a sua obra, centrando-se prioritariamente na pintura.
Biografia
João Abel Manta era filho dos pintores Abel Manta e Maria Clementina Carneiro de Moura Manta. Foi casado com Maria Alice Ribeiro, de quem teve uma filha, Isabel Ribeiro Manta. Vivia e trabalhava em Lisboa.
"Filho único, [...] cresce numa casa de Santo Amaro de Oeiras [...] convivendo com alguns dos intelectuais mais importantes da época que se tornam amigos de seus pais", como Manuel Mendes ou Aquilino Ribeiro;
viaja longamente com os pais, conhece Espanha, Inglaterra, Holanda, mas
serão sobretudos as viagens a Paris e Itália que o irão marcar.
Inscreve-se no curso de arquitetura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, que termina em 1951 e onde faz amizade com Sá Nogueira e José Dias Coelho,
entre outros; integra-se desde muito cedo na intelectualidade lisboeta
ligada aos movimentos de esquerda que se opunham à ditadura fascista de Salazar e Marcelo Caetano; participa no MUD Juvenil. Terminado o curso, trabalha em associação com Alberto Pessoa,
mas abandona progressivamente a arquitetura ao longo dos anos de 1960,
expandindo a atividade por uma multiplicidade de áreas, das artes plásticas à cenografia, destacando-se em particular como cartoonista na década seguinte.
Obteve vários prémios nacionais e estrangeiros; participou
em inúmeras exposições coletivas, em Portugal e no estrangeiro; realizou
múltiplas mostras individuais, entre as quais: Galeria Interior,
Lisboa, 1971; Institute of Contemporary Arts (ICA), Londres, 1976; Museu Rafael Bordalo Pinheiro, Lisboa, 1992; Palácio Galveias, Lisboa, 2009.
Morreu a 15 de maio de 2026, em Lisboa, aos 98 anos.

O Ornitóptero, circa 1960
Obra
Foi responsável, com Alberto Pessoa e Hernâni Gandra, pelos projetos do Conjunto Habitacional na Avenida Infante Santo, Lisboa (com o qual ganhou o Prémio Municipal de Arquitetura em 1957), e da Associação Académica de Coimbra (1955-59).
Como artista plástico, tem obras nas áreas da pintura, desenho (ilustração, cartoon), artes gráficas, cerâmica, tapeçaria e mosaico. Fez selos e cartazes, ilustrou livros, entre os quais A cartilha do marialva,
de José Cardoso Pires. Foi o autor das tapeçarias do Salão Nobre da
sede da Fundação Calouste Gunbenkian (circa 1969). Fez os cenários para A Relíquia, de Eça de Queiroz (1970; encenação de Artur Ramos) e O Processo, de Kafka (1970). No contexto da arte pública destacam-se o pavimento na Praça dos Restauradores, Lisboa, e o painel de azulejos na Avenida Calouste Gulbenkian, Lisboa (concebido em 1970 e aplicado em 1982).
João Abel Manta destaca-se em particular nas artes plásticas, sobretudo no desenho, onde se afirmou bastante cedo, com trabalhos de relevo datados da década de 1940. Em 1961 venceu o Prémio de Desenho na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian com O Ornitóptero.
Dedicou-se à pintura, realizou um vasto conjunto de colagens, expôs em
mostras coletivas e individuais. Mas a área em que se distinguiu de
forma mais assinalável foi a do cartoon, sendo considerado por muitos como "o caso mais extraordinário do cartoonismo luso do nosso século [século XX], só equiparável [ao] próprio Bordalo Pinheiro".
A sua atividade como cartoonista estende-se por um período
alargado, desde aproximadamente 1954 até 1991, intensificando-se entre
1969 e 1976. Durante cerca de sete anos os seus trabalhos foram publicados
com regularidade em jornais como o Diário de Lisboa, Diário de Notícias e O Jornal, abordando de forma crítica e profundamente irónica a realidade portuguesa; em 1981 publica novos trabalhos no Jornal de Letras, mas a partir daí a sua atividade como cartoonista torna-se esporádica.
Com um grafismo único, meticuloso, os seus cartoons (veja-se por exemplo Turistas, da série Reportagem Fotográfica, 1972) marcaram a época anterior ao 25 de Abril: "Nenhum pintor daqui e de agora resumiu com tantas subtilezas a temperatura social e política do fascismo agonizante". Nesse "inventário doméstico" cabe praticamente tudo: "estão em causa os desastres e os grotescos duma burguesia, a nossa, com os seus emblemas e heróis". João Abel "aponta à História, ao monumento e em particular à procissão provinciana da nossa burguesia intelectual".
A sua intervenção pública intensifica-se em 1974 e 1975, logo após a queda da ditadura, lançando-se "à batalha com redobrado ardor, multiplicando-se em caricaturas, posters e cartazes de orientação vincadamente revolucionária", e tornando-se no "artista máximo, talvez o único afinal, que a revolução de Abril suscitou". É o que vemos em desenhos como "Um problema difícil", de 1975, onde um grupo de notáveis – de Marx e Lenin a Gandhi e Sartre –, se interrogam perante um pequeno mapa de Portugal. João Abel Manta "ficará associado dum modo muito particular ao melhor e ao pior que em Portugal vivemos nesses dois anos".
A partir de 1976 "o artista alistado João Abel eclipsa-se: os ventos são outros, o MFA (Movimento das Forças Armadas) dissolveu-se", e só em 1978 "emerge do silêncio e lança ao público um […] novo álbum: Caricaturas dos Anos de Salazar", onde "narra uma história – a nossa história […] onde se encaixam, se alternam ou se encadeiam […] o ridículo e a tragédia da colonização e da guerra colonial, o miguelismo e o liberalismo […] a submissão popular e a sua revolta […] o folclore musical e o artesanato, o teatro, o cinema ou a pintura".
A 3 de setembro de 1979 foi feito Comendador da Ordem de Sant'Iago da Espada.
A partir de 1981 dedica-se quase exclusivamente à pintura,
num trabalho intimista que contrasta com o carácter de intervenção
político-social dos seus cartoons. Em 2009 expõe no Palácio Galveias: "Nestas obras pratico uma inocente pintura a óleo sobre tela, […] para explicar a quem interesse o que penso do mundo e das coisas do passado e do presente".
"A minha atração […] por
alguns artistas do chamado impressionismo, deriva do modo notável como
utilizam a técnica da pintura e talvez também pela tranquilidade dos
temas, tranquilidade curiosa numa época agitada e revolucionária:
intimidade da vida burguesa, paisagens repousantes, gente feliz,
bailarinas". Mas a sua aparente proximidade formal com o impressionismo é
enganadora, e nas suas pinturas das décadas de 80 a 2000 deparamos
frequentemente com um universo sombrio de onde emergem "figuras inomináveis e terríveis, produtos da alucinação". A visão perturbante de João Abel Manta funde o "quotidiano e o fantástico, em paisagens lisboetas invadidas de seres estranhos", a par de uma recorrente presença de auto-figurações que remetem para um
território autorreferencial até aí desconhecido na sua obra.
A 25 de abril de 2004, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem da Liberdade.

Pavimento em calçada portuguesa, Praça dos Restauradores, Lisboa

Um problema difícil, 1975

Painéis em pedra gravada, Associação Académica de Coimbra

Associação Académica de Coimbra
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