O Curso de Geologia de 85/90 da Universidade de Coimbra escolheu o nome de Geopedrados quando participou na Queima das Fitas.
Ficou a designação, ficaram muitas pessoas com e sobre a capa intemporal deste nome, agora com oportunidade de partilhar as suas ideias, informações e materiais sobre Geologia, Paleontologia, Mineralogia, Vulcanologia/Sismologia, Ambiente, Energia, Biologia, Astronomia, Ensino, Fotografia, Humor, Música, Cultura, Coimbra e AAC, para fins de ensino e educação.
Militante
ativo na Resistência contra o fascismo, sofreu a repressão do regime
sem nunca vacilar na determinação com que o enfrentou. Em democracia
tem-se mantido um cidadão ativo e interveniente no campo autárquico,
sindical e político.
Alfredo Rodrigues de Matos nasceu em S. Pedro do Sul, a 22 de julho de
1934, mas foi para o Barreiro em 1939 e aí fez o curso industrial, o
curso de guarda-livros e completou o 3º ciclo do liceu. Aderiu então ao
MUD Juvenil e, em 1952, começou a trabalhar na CUF, primeiro como
operário, depois como empregado de escritório. Em janeiro de 1957, foi
preso pela PIDE e julgado no Tribunal Plenário, tendo sido condenado a
18 meses de prisão correcional a que se juntaram 3 anos de medidas de
segurança, pelo que cumpriu 4 anos e seis meses de prisão (no Aljube, no
Forte de Caxias e na cadeia da PIDE no Porto).
Em 1961, na cadeia, aderiu ao Partido Comunista Português. Libertado em
janeiro de 1962, passou a desenvolver atividades políticas na margem
sul, com funções específicas na CUF, aonde regressara. Colaborava então
na redação do Boletim dos Trabalhadores.
Em 1969 fez parte da Comissão Distrital de Setúbal da CDE, integrando a
comissão de recenseamento eleitoral e participando nas ações da campanha
eleitoral, com vista às legislativas desse ano. Depois, participou na
criação do Movimento MDP/CDE, de cujo secretariado nacional fez parte.
Voltou a ser preso após as comemorações do 1º de Maio de 1970 e, após um
mês na cadeia da PIDE no Porto a ser interrogado e torturado, foi
transferido para Caxias, onde esteve até ser julgado, em dezembro, no
Tribunal Plenário de Lisboa. Foi absolvido, mas nesse mesmo mês foi
despedido do Hospital da CUF, no qual era chefe do economato.
A 22 de julho de 1970, José Afonso dedicou-lhe «Por Trás Daquela
Janela», um poema que posteriormente seria editado em disco sob o título
Eu Vou Ser Como a Toupeira.
Trabalhou depois noutras empresas e, em 1973, entrou no Sindicato dos
Bancários do Sul e Ilhas, como adjunto do secretário-geral. Nesse mesmo
ano, esteve na preparação do III Congresso da Oposição Democrática,
realizado em Aveiro, fazendo parte das comissões nacional e
coordenadora. Nesse congresso apresentou a tese «Situação e Perspetivas
dos Trabalhadores do Distrito de Setúbal». Ainda em 1973 desenvolveu
intensa atividade política em todo o distrito de Setúbal, pelo qual foi
candidato a deputado nas eleições para a Assembleia Nacional, na lista
da Oposição Democrática.
Em março de 1974, participou em reuniões das secções sindicais da CGTP
Intersindical e nas sedes dos principais bancos, em Paris, deu a
conhecer a situação política e social de Portugal.
Em 27 de abril de 1974, foi designado para discursar no Barreiro, em
nome do MDP/CDE, e logo em maio passou a fazer parte da comissão
administrativa que dirigiu a Câmara Municipal do Barreiro até às
eleições de 1976, ano em que foi eleito para a Assembleia Municipal
dessa autarquia. Em 1975, fora escolhido para adjunto do secretariado da
Intersindical, funções que desempenhou até 1979, quando foi eleito
vereador (iria substituir o presidente da CMB). Foi presidente dos
Serviços Municipalizados da Câmara Municipal do Barreiro, cargo este que
desempenhou em sucessivos mandatos, até dezembro de 1985. Em 1986
voltou à CGTP.
De fevereiro a setembro de 2002, foi colunista do semanário Voz do
Barreiro (de que viria a ser diretor entre setembro de 2006 e junho de
2007) e, entre outubro de 2002 e junho de 2004, foi diretor do jornal
Concelho de Palmela. Como dirigente associativo, fez parte dos corpos
gerentes do Cineclube do Barreiro, nos anos de 1971 e 1972.
Em 1993, Alfredo Matos recebeu a Medalha de Ouro da Cidade «Barreiro Reconhecido».
A 22 de julho de 1970, José Afonso dedicou-lhe Por Trás Daquela Janela,
um poema que posteriormente lhe entregou manuscrito. Pelo Natal de
1972, este poema, também com música de Zeca Afonso, foi editado em
disco, sob o título, Eu Vou Ser Como a Toupeira, que incluiu igualmente a canção A Morte Saiu à Rua, dedicada ao escultor José Dias Coelho, dirigente do PCP, assassinado pela PIDE em 19 de dezembro de 1961.
Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão
Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão
Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei
Se o mundo agora acordasse
Se aquela parede andasse
Se um grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer
Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar
Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar
Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão
Na noite que segue ao dia
Na noite que segue ao dia
O meu amigo lá dorme
De pé
E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré
Naquele lugar sem nome p'ra qualquer fim Uma gota rubra sobre a calçada cai E um rio de sangue dum peito aberto sai
O vento que dá nas canas do canavial E a foice duma ceifeira de Portugal E o som da bigorna como um clarim do céu Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu
Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual Só olho por olho e dente por dente vale À lei assassina à morte que te matou Teu corpo pertence à terra que te abraçou
Aqui te afirmamos dente por dente assim Que um dia rirá melhor quem rirá por fim Na curva da estrada há covas feitas no chão E em todas florirão rosas duma nação.
Zeca Afonso (Letra e Música), Eu Vou Ser Como a Toupeira, 1972
Canta bichos da treva e da aparência Na absolvição por incontinência Cantai cantai no pino do inferno Em janeiro ou em maio é sempre cedo Cantai cardumes da guerra e da agonia Neste areal onde não nasce o dia
Cantai cantai melancolias serenas Como o trigo da moda nas verbenas Cantai cantai guizos doidos dos sinos Os vossos salmos de embalar meninos Cantai bichos da treva e da opulência A vossa vil e vã magnificência
Cantai os vossos tronos e impérios Sobre os degredos sobre os cemitérios Cantai cantai ó torpes madrugadas As clavas os clarins e as espadas Cantai nos matadouros nas trincheiras As armas os pendões e as bandeiras
Cantai cantai que o ódio já não cansa Com palavras de amor e de bonança Dançai ó parcas vossa negra festa Sobre a planície em redor que o ar empesta Cantai ó corvos pela noite fora Neste areal onde não nasce a aurora
Na fonte está Lianor Mote Na fonte está Lianor Lavando a talha e chorando, Às amigas perguntando: - Vistes lá o meu amor?
Voltas
Posto o pensamento nele,
Porque a tudo o amor obriga,
Cantava, mas a cantiga
Eram suspiros por ele.
Nisto estava Lianor
O seu desejo enganando,
Às amigas perguntando:
- Vistes lá o meu amor?
O rosto sobre ua mão,
Os olhos no chão pregados,
Que, do chorar já cansados,
Algum descanso lhe dão.
Desta sorte Lianor
Suspende de quando em quando
Sua dor; e, em si tornando,
Mais pesada sente a dor.
Não deita dos olhos água,
Que não quer que a dor se abrande
Amor, porque, em mágoa grande,
Seca as lágrimas a mágoa. Despois que de seu amor
Soube novas perguntando,
De improviso a vi chorando.
Olhai que extremos de dor!
Roubam-me Deus
outros o Diabo
– quem cantarei?
roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
– quem cantarei?
sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
– quem cantarei?
roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
– aqui del Rei!
O avô cavernoso
Instituiu a chuva
Ratificou a demora
Persignou-se
Ninguém o chora agora
Perfumou-se
Vinte mil léguas de virgens vieram
Inutéis e despidas
Flores de malva
E a boina bem segura
Sobre a calva
Ao avô cavernoso quem viu a tonsura?
E a tenda dos milagres e a privada?
Na tenda que foi nítida conjura
As flores de malva murcham devagar
Devagar
Até que se ouvem gritos, matinadas
NOTA: também gostamos muito da versão dos Mão Morta...
Na plateia do I Encontro da Canção Portuguesa, estavam presentes vários
dos capitães que tiveram um papel no 25 de Abril, que já estava numa
avançada fase preparatória, e que já se tinha determinado que o sinal
para começar as operações seriam duas canções emitidas através da rádio.
A Rádio Renascença foi escolhida pois os meios de comunicação dos
militares não tinham cobertura pelo país inteiro, pelo menos não de
forma fiável e audível. Tudo decorreu no maior segredo. O primeiro sinal escolhido foi a canção E depois do Adeus de Paulo de Carvalho, emitida pelos Emissores Associados de Lisboa como ordem para os militares de Lisboa prepararem-se para avançar, sendo emitida às 22.55. A canção não tinha uma letra perigosa, e ganhara o Festival RTP da Canção de 1974, sendo apresentada no Eurofestival da Canção de 1974, o que explica a sua escolha.
O segundo sinal tinha o objetivo de dar luz verde aos militares
participantes no golpe para irem avante, principalmente os que estavam
mais distantes de Lisboa, e era a senha fundamental. Numa primeira instância, foi escolhida a canção Venham mais cinco de José Afonso,
no entanto, quando já se acabara o período de preparação, descobriu-se
que a canção estava incluída na lista de músicas banidas da Rádio Renascença, a emissora católica, e estava barrada de passar no programa Limite da estação de rádio, como fora planeado. Perante a necessidade de escolher uma canção que não estivesse barrada, definiu-se a Grândola, Vila Morena, que tinha sido fortemente aclamada pelo público no I Encontro da Canção Portuguesa.
A Ordem de Operações foi emendada, e, às 00.20 de 25 de abril,
ouviu-se a voz forte do locutor a recitar os quatro primeiros versos:
"Grândola, Vila Morena/ Terra da fraternidade/ O povo é quem mais
ordena/ dentro de ti, ó cidade". Desde o início revolucionária com a adesão popular, a canção tornou-se o hino da revolução.
Ontem, um concerto no Coliseu dos Recreios, evocou, num espetáculo
organizado pela Associação José Afonso, um concerto realizado em 29 de
Março de 1974. Estive lá. Hoje publico um excerto do meu livro História da Oposição à Ditadura 1926-1974 (Ed. Figueirinhas, 2014), pp. 595-596
«Em Portugal, já se estava então a viver, embora não fosse evidente à
época, uma situação reveladora de que o regime tinha perdido a batalha
pela hegemonia ideológica, iniciada nos anos trinta e prosseguida no
pós-II Guerra Mundial, a favor das várias oposições ao regime, todas
elas unidas contra a ditadura e uma guerra colonial interminável. Como
se viu, o fim da guerra também era desejado pelos próprios quadros
intermédios das Forças Armadas, crescentemente convencidos de que ela
só terminaria através de uma solução política.
O ambiente político adverso ao regime fez-se sentir, por exemplo, num
ciclo de cinema de Roberto Rossellini, na Fundação Gulbenkian, onde foi
exibido pela primeira vez o filme anti-fascista «Roma, città aperta»
(1945), até então proibido de ser apresentado pela censura. Numa sala
cheia de jovens, as palmas e a entusiástica receção ao filme levaram
o diretor da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, que se encontrava
presente, a profetizar ao organizador do ciclo de filmes, João Bémard
da Costa, que uma mudança política iria ocorrer em Portugal.
Na noite de 29 de Março de 1974, a Rua das Portas de Santo Antão, em
Lisboa foi palco de um outro acontecimento paradigmático e revelador
desse ambiente político. Realizou-se nessa data, no Coliseu dos
Recreios, o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da
Imprensa, no qual José Afonso deveria receber o prémio da melhor
interpretação musical do ano anterior. A sessão acabou por ser recheada
de símbolos e transformou-se num espaço de liberdade, no qual o
público não cessou de se manifestar, a pretexto das canções, contra um
regime ditatorial, que, embora não se soubesse, tinha menos de um mês
de vida. O espetáculo, que teve de ser preparado com muita
antecedência, para que todas as canções fossem apresentadas previamente à
Censura, foi mais um sintoma, embora não completamente detetado
então pelos presentes, de que o regime estava a viver o seu estertor.
Como a Direção-Geral dos Espetáculos só entregara a lista das canções
que podiam ser cantadas uma hora antes do início do espectáculo, e
alguns cantores apenas foram autorizados a cantar metade das estrofes, o
público trauteou as melodias de forma cúmplice, em coro. Quando
Manuel Freire afirmou que se tinha esquecido das letras das canções no
comboio, os cerca de cinco mil espectadores compreenderam onde ele
queria chegar, aplaudiram de pé e cantaram em coro o que ele não fora
autorizado a interpretar.
Por seu lado, José Afonso foi proibido de cantar «A morte saiu à
rua», «Venham mais cinco», «Menina dos olhos tristes» e «Gastão era
perfeito», apenas sendo autorizado a apresentar «Milho Verde» e
«Grândola».
O quarteto de Marcos Resende abrira o programa, mas não foi ouvido,
devido aos assobios que irromperam pela sala, sucedendo-lhe o duo
Carlos Alberto Moniz-Maria do Amparo e um desconhecido que deu como
nome Manuel José Soares. A sala continuava morna, quando irrompeu a
primeira grande ovação da noite, a premiar a atuação de Carlos
Paredes, acompanhado por Fernando Alvim. De seguida, o jornalista
Joaquim Furtado leu em voz alta os nomes dos premiados pela associação
mutualista dos jornalistas, escolhidos por um júri que integrava José
Duarte, Tito Lívio, João Paulo Guerra e José Manuel Nunes. A maioria
dos prémios atribuídos não provocou grande entusiasmo, mas o mesmo não
aconteceu com o galardão que premiou o programa radiofónico Página Um, da
Rádio Renascença, recebido, entre outros, por Adelino Gomes, que
havia sido afastado da rádio por razões políticas. Outros nomes
aplaudidíssimos foram os de Sérgio Godinho e José Mário Branco,
cantores premiados pelos seus álbuns de estreia — Os Sobreviventes e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, respetivamente —, que «não puderam comparecer», como dizia um artigo de O Século, embora não explicando que isso se devia ao facto de estarem exilados.
Após o intervalo, atuaram os espanhóis Viño Tinto e o poeta José
Carlos Ary dos Santos, que começou por ser assobiado pelos que não
aprovavam a sua participação nos Festivais RTP da Canção. O poeta
retorquiu: «Eu venho para dizer poesia. Se não gostam, manifestem-se no
fim». Depois de ter declamado «SARL», abandonou o palco sob fortes
aplausos. Sucederam-se José Barata Moura, o grupo Intróito, Manuel
Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino, José Jorge Letria, Adriano
Correia de Oliveira e, finalmente, José Afonso.
Depois de cantar «Milho Verde», a outra canção autorizada pela Censura,
chamou ao palco todos os cantores que deram os braços e começaram a
bater, ritmadamente, com os pés no chão, enquanto as luzes se apagavam
na sala. «Grândola, vila morena…», ouviu-se novamente, desta vez em
coro. Cinco mil pessoas levantaram-se, deram igualmente os braços e
entoaram: «… terra da fraternidade…».
Outra testemunha desse espetáculo escreveria que quando «começaram a
entoar a mítica canção de José Afonso, o soalho de madeira do velho
Coliseu dos Recreios transmitiu a sensação de poder ruir em qualquer
altura».
Cantada em coro, à maneira de um grupo alentejano, aquela canção
viria a servir de senha para a eclosão do golpe militar que derrubaria
o regime menos de um mês depois».
Amália por Júlio Resende / "Medo" - Dueto com Amália Rodrigues
Poema de Reinaldo Ferreira
Música de Alain Oulman
Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem lhes digo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.
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