O Curso de Geologia de 85/90 da Universidade de Coimbra escolheu o nome de Geopedrados quando participou na Queima das Fitas.
Ficou a designação, ficaram muitas pessoas com e sobre a capa intemporal deste nome, agora com oportunidade de partilhar as suas ideias, informações e materiais sobre Geologia, Paleontologia, Mineralogia, Vulcanologia/Sismologia, Ambiente, Energia, Biologia, Astronomia, Ensino, Fotografia, Humor, Música, Cultura, Coimbra e AAC, para fins de ensino e educação.
Ontem, um concerto no Coliseu dos Recreios, evocou, num espetáculo
organizado pela Associação José Afonso, um concerto realizado em 29 de
Março de 1974. Estive lá. Hoje publico um excerto do meu livro História da Oposição à Ditadura 1926-1974 (Ed. Figueirinhas, 2014), pp. 595-596
«Em Portugal, já se estava então a viver, embora não fosse evidente à
época, uma situação reveladora de que o regime tinha perdido a batalha
pela hegemonia ideológica, iniciada nos anos trinta e prosseguida no
pós-II Guerra Mundial, a favor das várias oposições ao regime, todas
elas unidas contra a ditadura e uma guerra colonial interminável. Como
se viu, o fim da guerra também era desejado pelos próprios quadros
intermédios das Forças Armadas, crescentemente convencidos de que ela
só terminaria através de uma solução política.
O ambiente político adverso ao regime fez-se sentir, por exemplo, num
ciclo de cinema de Roberto Rossellini, na Fundação Gulbenkian, onde foi
exibido pela primeira vez o filme anti-fascista «Roma, città aperta»
(1945), até então proibido de ser apresentado pela censura. Numa sala
cheia de jovens, as palmas e a entusiástica receção ao filme levaram
o diretor da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, que se encontrava
presente, a profetizar ao organizador do ciclo de filmes, João Bémard
da Costa, que uma mudança política iria ocorrer em Portugal.
Na noite de 29 de Março de 1974, a Rua das Portas de Santo Antão, em
Lisboa foi palco de um outro acontecimento paradigmático e revelador
desse ambiente político. Realizou-se nessa data, no Coliseu dos
Recreios, o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da
Imprensa, no qual José Afonso deveria receber o prémio da melhor
interpretação musical do ano anterior. A sessão acabou por ser recheada
de símbolos e transformou-se num espaço de liberdade, no qual o
público não cessou de se manifestar, a pretexto das canções, contra um
regime ditatorial, que, embora não se soubesse, tinha menos de um mês
de vida. O espetáculo, que teve de ser preparado com muita
antecedência, para que todas as canções fossem apresentadas previamente à
Censura, foi mais um sintoma, embora não completamente detetado
então pelos presentes, de que o regime estava a viver o seu estertor.
Como a Direção-Geral dos Espetáculos só entregara a lista das canções
que podiam ser cantadas uma hora antes do início do espectáculo, e
alguns cantores apenas foram autorizados a cantar metade das estrofes, o
público trauteou as melodias de forma cúmplice, em coro. Quando
Manuel Freire afirmou que se tinha esquecido das letras das canções no
comboio, os cerca de cinco mil espectadores compreenderam onde ele
queria chegar, aplaudiram de pé e cantaram em coro o que ele não fora
autorizado a interpretar.
Por seu lado, José Afonso foi proibido de cantar «A morte saiu à
rua», «Venham mais cinco», «Menina dos olhos tristes» e «Gastão era
perfeito», apenas sendo autorizado a apresentar «Milho Verde» e
«Grândola».
O quarteto de Marcos Resende abrira o programa, mas não foi ouvido,
devido aos assobios que irromperam pela sala, sucedendo-lhe o duo
Carlos Alberto Moniz-Maria do Amparo e um desconhecido que deu como
nome Manuel José Soares. A sala continuava morna, quando irrompeu a
primeira grande ovação da noite, a premiar a atuação de Carlos
Paredes, acompanhado por Fernando Alvim. De seguida, o jornalista
Joaquim Furtado leu em voz alta os nomes dos premiados pela associação
mutualista dos jornalistas, escolhidos por um júri que integrava José
Duarte, Tito Lívio, João Paulo Guerra e José Manuel Nunes. A maioria
dos prémios atribuídos não provocou grande entusiasmo, mas o mesmo não
aconteceu com o galardão que premiou o programa radiofónico Página Um, da
Rádio Renascença, recebido, entre outros, por Adelino Gomes, que
havia sido afastado da rádio por razões políticas. Outros nomes
aplaudidíssimos foram os de Sérgio Godinho e José Mário Branco,
cantores premiados pelos seus álbuns de estreia — Os Sobreviventes e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, respetivamente —, que «não puderam comparecer», como dizia um artigo de O Século, embora não explicando que isso se devia ao facto de estarem exilados.
Após o intervalo, atuaram os espanhóis Viño Tinto e o poeta José
Carlos Ary dos Santos, que começou por ser assobiado pelos que não
aprovavam a sua participação nos Festivais RTP da Canção. O poeta
retorquiu: «Eu venho para dizer poesia. Se não gostam, manifestem-se no
fim». Depois de ter declamado «SARL», abandonou o palco sob fortes
aplausos. Sucederam-se José Barata Moura, o grupo Intróito, Manuel
Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino, José Jorge Letria, Adriano
Correia de Oliveira e, finalmente, José Afonso.
Depois de cantar «Milho Verde», a outra canção autorizada pela Censura,
chamou ao palco todos os cantores que deram os braços e começaram a
bater, ritmadamente, com os pés no chão, enquanto as luzes se apagavam
na sala. «Grândola, vila morena…», ouviu-se novamente, desta vez em
coro. Cinco mil pessoas levantaram-se, deram igualmente os braços e
entoaram: «… terra da fraternidade…».
Outra testemunha desse espetáculo escreveria que quando «começaram a
entoar a mítica canção de José Afonso, o soalho de madeira do velho
Coliseu dos Recreios transmitiu a sensação de poder ruir em qualquer
altura».
Cantada em coro, à maneira de um grupo alentejano, aquela canção
viria a servir de senha para a eclosão do golpe militar que derrubaria
o regime menos de um mês depois».
Amália por Júlio Resende / "Medo" - Dueto com Amália Rodrigues
Poema de Reinaldo Ferreira
Música de Alain Oulman
Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem lhes digo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.
Movimento dos habitantes do Ferrel contra a construção da central nuclear, em 1976
A Central Nuclear de Ferrel foi uma central elétrica planeada, mas nunca construída, que se iria localizar nas imediações da povoação de Ferrel, no concelho de Peniche, em Portugal.
Planeamento
Caso tivesse sido construída, a central nuclear estaria
situada na zona do Moinho Velho, a cerca de quatro quilómetros da
localidade do Ferrel.
Na década de 1960, ainda durante o período da ditadura,
foram lançados os primeiros planos para a instalação de um conjunto de
centrais nucleares em território nacional, que contaram com a forte
presença da Companhia Portuguesa de Eletricidade. Este programa continuou logo após a Revolução de 25 de Abril de 1974, tendo sido planeada a instalação do primeiro grupo nuclear no Ferrel, por parte da CPE, que então já se encontrava numa fase de transição para a empresa EDP - Eletricidade de Portugal. Este empreendimento foi duramente criticado pelas populações, que
receavam que a central nuclear tivesse efeitos negativos sobre a pesca,
que então era uma das principais funções económicas da região, através da canalização da água de arrefecimento para o oceano. Com efeito, segundo especialistas em energia nuclear, previa-se que a
operação de uma central elétrica deste tipo, com a potência de um
gigawatt, iria utilizar uma quantidade de água cerca de dez vezes
superior ao consumo registado em Lisboa, e que iria aumentar a
temperatura das águas em cerca de dez a quinze graus, atingindo a fauna
marítima, principalmente os mariscos. Além disso, durante o seu funcionamento a energia não aproveitada sob a
forma elétrica iria provocar um grande aumento de temperatura na zona
em redor, que também iria trazer problemas à fauna e flora locais. Durante estes movimentos populares, foram destruídos os instrumentos
colocados pela empresa Eletricidade de Portugal, que tinham como
finalidade estudar as condições ambientais do local, incluindo os níveis
naturais de radioatividade. Além das populações, a instalação da central no Ferrel também foi
criticada por especialistas em energia nuclear e por técnicos da própria
empresa operadora da central, que formaram um conjunto chamado de Grupo dos Preocupados.
Os defensores da opção nuclear argumentaram que a geração
de energia por centrais deste tipo seria menos dispendiosa, e que as
alternativas eram menos eficientes, tanto do ponto de vista económico
como da produção, ainda mais porque se previa que o consumo nacional
iria duplicar nos sete anos seguintes. Seria necessário construir um grande número de barragens hidroelétricas
para acompanhar a evolução do consumo, enquanto que no caso das
centrais a carvão e petróleo teria de se importar uma quantidade maior
de combustível, a preços elevados. Por seu turno, também a operação de centrais nucleares iria gerar
dependência tecnológica em relação ao estrangeiro, sendo esta indústria
então dominada pela União Soviética e pelos Estados Unidos da América,
potências ideologicamente distintas, pelo que a opção por uma ou outra
iria ter graves consequências a nível diplomático e de soberania
nacional. Uma preocupação semelhante foi expressa num artigo publicado na revista Poder Popular
de 23 de março de 1976, que também chamou a atenção para os riscos de
segurança das próprias centrais nucleares, receios que tinham sido
recentemente reacendidos por um incêndio na unidade americana de Brown's Ferry.
Contestação popular e fim do projeto
As populações de Ferrel fizeram vários protestos junto das autoridades, sempre sem sucesso, até à grande manifestação de 15 de março de 1976. Neste dia, os habitantes dirigiram-se ao local onde estavam a ser
feitas as prospeções geológicas, sismológicas e eólicas, tendo
convencido os trabalhadores a abandonar as operações.
Este movimento inseriu-se num quadro de protesto contra a energia
nuclear, durante o qual várias organizações, como o Movimento Ecológico,
tinham chamado a atenção para os problemas ambientais causados por este
tipo de centrais elétricas. Em junho de 1977 foi publicado um manifesto contra a política
energética nacional, e a construção de centrais nucleares, tendo a
questão sido debatida por mais de cem cientistas e técnicos desta área. Em janeiro de 1978 foi organizado o festival Pela vida contra o nuclear, em Ferrel e nas Caldas da Rainha, que contou com a participação de grandes nomes da música nacional, como Zeca Afonso, Vitorino, Pedro Barroso, Fausto e Sérgio Godinho. O plano para a construção da central nuclear foi definitivamente abandonado em 1982.
À direita: Zeca, Fausto, Sérgio; à esquerda: Vitorino
Os seus últimos espetáculos terão lugar nos Coliseus de Lisboa e do Porto, em 1983, numa fase avançada da sua doença. No final desse mesmo ano é-lhe atribuída a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa a distinção.
Passam hoje exatamente quarenta e três anos (foi no dia 29 de janeiro de 1983...) sobre o último grande concerto
de Zeca Afonso, já fortemente debilitado pela doença degenerativa que o matou, no
Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Com todos os amigos a ajudar (Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas,
Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior,
Sérgio Mestre, Vitorino e Janita Salomé, entre outros...) fez
história nessa noite.
Recordemos a data com a sua Balada de Coimbra, que usou como uma pungente e triste despedida...
Balada do Outono - José Afonso
Aguas passadas do rio Meu sono vazio Não vão acordar Águas das fontes calai Ó ribeiras chorai Que eu não volto a cantar
Rios que vão dar ao mar Deixem meus olhos secar Águas das fontes calai Óh, ribeiras chorai Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai Óh, ribeiras chorai Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai Óh, ribeiras chorai Que eu não volto a cantar
Águas do rio correndo Poentes morrendo P'ras bandas do mar Águas das fontes calai Óh, ribeiras chorai Que eu não volto a cantar
Rios que vão dar ao mar Deixem meus olhos secar Águas das fontes calai Óh, ribeiras chorai Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai Óh, ribeiras chorai Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai Óh, ribeiras chorai Que eu não volto a cantar
Não canto porque sonho. Canto porque és real. Canto o teu olhar maduro, o teu sorriso puro, a tua graça animal. Canto porque sou homem. Se não cantasse seria somente um bicho sadio embriagado na alegria da tua vinha sem vinho. Canto porque o amor apetece. Porque o feno amadurece nos teus braços deslumbrados. Porque o meu corpo estremece por vê-los nus e suados.
in As mãos e os frutos (1948) - Eugénio de Andrade
Em toda parte baqueia a muralha imperialista Na ponta duma espingarda Os povos da Indochina Varrem da terra sangrenta Os fantoches de Kissinger Mas aqui também semeias No pátio da tua fábrica No largo da tua aldeia A fome, a prostituição São filhas da mesma besta Que Kissinger tem na mão Valor à Mulher Primeira Na luta que nos espera Só não há vida possível Na liberdade comprada na liberdade vendida A morte é mais desejada A NATO não chega a netos abaixo o hidrovião Na ponta duma espingarda o Povo da Palestina Mandou a Golda Meir uma mensagem divina Da CIA não tenhas pena Tem carne viva nas garras É a pomba de Kissinger toda a América Latina Se lembra das suas farras A mesma tropa domina a mesma tropa domina Só um é embaixador mas nada nos abalança A dormir sobre a calçada Faz como o trabalhador Dorme sobre a tua enxada faz como o atirador Dorme sobre a espingarda
Roubam-me Deus
outros o diabo
– quem cantarei?
roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
– quem cantarei?
sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
– quem cantarei?
roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
– aqui d'El-Rei!
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