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sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Chamava-se Catarina...

   

Cantar Alentejano - Zeca Afonso

   

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manha fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
O Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
O Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

quinta-feira, janeiro 29, 2026

O último grande concerto de Zeca Afonso foi há quarenta e três anos...


(imagem daqui)
 
Passam hoje exatamente quarenta e três anos (foi no dia 29 de janeiro de 1983...) sobre o último grande concerto de Zeca Afonso, já fortemente debilitado pela doença degenerativa que o matou, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Com todos os amigos a ajudar (Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre, Vitorino e Janita Salomé, entre outros...) fez história nessa noite.

Recordemos a data com a sua Balada de Coimbra, que usou como uma pungente e triste despedida...

 

 

Balada do Outono - José Afonso

  
Aguas passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
 
Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
 
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
 
Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
 
Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
 
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar


segunda-feira, janeiro 19, 2026

Música para recordar um Poeta...

 

Não canto porque sonho

 

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
somente um bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.

  

 
in As mãos e os frutos (1948) - Eugénio de Andrade

sexta-feira, dezembro 19, 2025

Porque, enquanto for recordado, o pintor José Dias Coelho nunca morre...

 

 

A Morte Saiu À Rua - Zeca Afonso

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai
 
O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu
 
Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
 
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação

sábado, novembro 29, 2025

Música para recordar um político importante na nossa história recente...

 

Os Fantoches de Kissinger - Zeca Afonso

 

Em toda parte baqueia a muralha imperialistaNa ponta duma espingardaOs povos da IndochinaVarrem da terra sangrentaOs fantoches de KissingerMas aqui também semeiasNo pátio da tua fábricaNo largo da tua aldeiaA fome, a prostituiçãoSão filhas da mesma bestaQue Kissinger tem na mãoValor à Mulher PrimeiraNa luta que nos esperaSó não há vida possívelNa liberdade comprada na liberdade vendidaA morte é mais desejadaA NATO não chega a netos abaixo o hidroviãoNa ponta duma espingarda o Povo da PalestinaMandou a Golda Meir uma mensagem divinaDa CIA não tenhas penaTem carne viva nas garrasÉ a pomba de Kissinger toda a América LatinaSe lembra das suas farrasA mesma tropa domina a mesma tropa dominaSó um é embaixador mas nada nos abalançaA dormir sobre a calçadaFaz como o trabalhadorDorme sobre a tua enxada faz como o atiradorDorme sobre a espingarda

domingo, novembro 02, 2025

Hoje é dia de cantar a poesia de Jorge de Sena...

 

Epígrafe para a arte de furtar

   
  
Roubam-me Deus
outros o diabo
– quem cantarei?

roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
– quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
– quem cantarei?

roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
– aqui d'El-Rei!

  
 

Jorge de Sena

 

terça-feira, outubro 07, 2025

Porque hoje é o Dia Nacional dos Castelos...!

 

Altos Castelos - Zeca Afonso

Altos castelos de branco luar
Linda menina que vai casar
Torres cinzentas que dão para o vento
Dentro do meu pensamento

Eu lá na serra não sou ninguém
Se fores prá guerra eu irei também
Irei também numa barca bela
Cinta vermelha e saia amarela

Eu lá na serra não sou ninguém
Se fores prá guerra eu irei também
Irei também numa barca bela
Cinta vermelha e saia amarela

Na praia nova caiu uma estrela
Moças trigueiras ide atrás dela
Rola rolinha garganta de prata
Canta-me uma serenata

Eu lá na serra não sou ninguém
Se fores prá guerra eu irei também
Irei também numa barca bela
Cinta vermelha e saia amarela

Eu lá na serra não sou ninguém
Se fores prá guerra eu irei também
Irei também numa barca bela
Cinta vermelha e saia amarela

Um cavalinho de crina na ponta
Leva à garupa uma bruxa tonta
Duas meninas a viram passar
Mesmo à beirinha do mar

Eu lá na serra não sou ninguém
Se fores prá guerra eu irei também
Irei também numa barca bela
Cinta vermelha e saia amarela

Eu lá na serra não sou ninguém
Se fores prá guerra eu irei também
Irei também numa barca bela
Cinta vermelha e saia amarela

segunda-feira, setembro 22, 2025

Glosa à chegada da nova estação...

 

Balada do Outono - José Afonso

  
Aguas passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
 
Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
 
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
 
Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
 
Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
 
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai
Óh, ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

sábado, agosto 02, 2025

Música adequada à data...

Saudades do Zeca...

Zeca Afonso nasceu há 96 anos...

    
José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (Aveiro, 2 de agosto de 1929 - Setúbal, 23 de fevereiro de 1987), foi um cantor e compositor português. É também conhecido pelo diminutivo familiar de Zeca Afonso, apesar de nunca ter utilizado este nome artístico.
      
 

Saudades de Zeca...

terça-feira, julho 22, 2025

Alfredo Rodrigues de Matos, resistente anti-fascista homenageado por Zeca em Por trás daquela janela, nasceu há 91 anos...


Alfredo Rodrigues de Matos

Data da primeira prisão -

Militante ativo na Resistência contra o fascismo, sofreu a repressão do regime sem nunca vacilar na determinação com que o enfrentou. Em democracia tem-se mantido um cidadão ativo e interveniente no campo autárquico, sindical e político.

Alfredo Rodrigues de Matos nasceu em S. Pedro do Sul, a 22 de julho de 1934, mas foi para o Barreiro em 1939 e aí fez o curso industrial, o curso de guarda-livros e completou o 3º ciclo do liceu. Aderiu então ao MUD Juvenil e, em 1952, começou a trabalhar na CUF, primeiro como operário, depois como empregado de escritório. Em janeiro de 1957, foi preso pela PIDE e julgado no Tribunal Plenário, tendo sido condenado a 18 meses de prisão correcional a que se juntaram 3 anos de medidas de segurança, pelo que cumpriu 4 anos e seis meses de prisão (no Aljube, no Forte de Caxias e na cadeia da PIDE no Porto). 
Em 1961, na cadeia, aderiu ao Partido Comunista Português. Libertado em janeiro de 1962, passou a desenvolver atividades políticas na margem sul, com funções específicas na CUF, aonde regressara. Colaborava então na redação do Boletim dos Trabalhadores. 
Em 1969 fez parte da Comissão Distrital de Setúbal da CDE, integrando a comissão de recenseamento eleitoral e participando nas ações da campanha eleitoral, com vista às legislativas desse ano. Depois, participou na criação do Movimento MDP/CDE, de cujo secretariado nacional fez parte. Voltou a ser preso após as comemorações do 1º de Maio de 1970 e, após um mês na cadeia da PIDE no Porto a ser interrogado e torturado, foi transferido para Caxias, onde esteve até ser julgado, em dezembro, no Tribunal Plenário de Lisboa. Foi absolvido, mas nesse mesmo mês foi despedido do Hospital da CUF, no qual era chefe do economato. 
A 22 de julho de 1970, José Afonso dedicou-lhe «Por Trás Daquela Janela», um poema que posteriormente seria editado em disco sob o título Eu Vou Ser Como a Toupeira.
Trabalhou depois noutras empresas e, em 1973, entrou no Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, como adjunto do secretário-geral. Nesse mesmo ano, esteve na preparação do III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro, fazendo parte das comissões nacional e coordenadora. Nesse congresso apresentou a tese «Situação e Perspetivas dos Trabalhadores do Distrito de Setúbal». Ainda em 1973 desenvolveu intensa atividade política em todo o distrito de Setúbal, pelo qual foi candidato a deputado nas eleições para a Assembleia Nacional, na lista da Oposição Democrática. 
Em março de 1974, participou em reuniões das secções sindicais da CGTP Intersindical e nas sedes dos principais bancos, em Paris, deu a conhecer a situação política e social de Portugal. 
Em 27 de abril de 1974, foi designado para discursar no Barreiro, em nome do MDP/CDE, e logo em maio passou a fazer parte da comissão administrativa que dirigiu a Câmara Municipal do Barreiro até às eleições de 1976, ano em que foi eleito para a Assembleia Municipal dessa autarquia. Em 1975, fora escolhido para adjunto do secretariado da Intersindical, funções que desempenhou até 1979, quando foi eleito vereador (iria substituir o presidente da CMB). Foi presidente dos Serviços Municipalizados da Câmara Municipal do Barreiro, cargo este que desempenhou em sucessivos mandatos, até dezembro de 1985. Em 1986 voltou à CGTP. 
De fevereiro a setembro de 2002, foi colunista do semanário Voz do Barreiro (de que viria a ser diretor entre setembro de 2006 e junho de 2007) e, entre outubro de 2002 e junho de 2004, foi diretor do jornal Concelho de Palmela. Como dirigente associativo, fez parte dos corpos gerentes do Cineclube do Barreiro, nos anos de 1971 e 1972. 
Em 1993, Alfredo Matos recebeu a Medalha de Ouro da Cidade «Barreiro Reconhecido». 

A 22 de julho de 1970, José Afonso dedicou-lhe Por Trás Daquela Janela, um poema que posteriormente lhe entregou manuscrito. Pelo Natal de 1972, este poema, também com música de Zeca Afonso, foi editado em disco, sob o título, Eu Vou Ser Como a Toupeira, que incluiu igualmente a canção A Morte Saiu à Rua, dedicada ao escultor José Dias Coelho, dirigente do PCP, assassinado pela PIDE em 19 de dezembro de 1961.

 

in Memória Comum - Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos

 

 

Por trás daquela janela - Zeca Afonso

 

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei

Se o mundo agora acordasse
Se aquela parede andasse
Se um grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer

Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar

Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Na noite que segue ao dia
Na noite que segue ao dia
O meu amigo lá dorme
De pé
E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré

quarta-feira, julho 02, 2025

Música adequada à data...

 

Ronda das mafarricas
LETRA António Quadros (pintor)
MÚSICA José Afonso

 

Estavam todas juntas
Quatrocentas bruxas
À espera À espera
À espera da lua cheia

Estavam todas juntas
Veio um chibo velho
Dançar no adro
Alguém morreu

Arlindo coveiro
Com a tua marreca
Leva-me primeiro
Para a cova aberta

Arlindo Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada

Arlindo coveiro
Cava-me a morada
Fecha-me o jazigo
Quero campa rasa

Arlindo Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada

quinta-feira, junho 19, 2025

Música para recordar um Pintor...

 

 

A Morte saiu à Rua - Zeca Afonso

Naquele lugar sem nome p'ra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação.

  

Zeca Afonso (Letra e Música), Eu Vou Ser Como a Toupeira, 1972

sexta-feira, junho 13, 2025

Música para celebrar o fim mais um ano letivo...

 

 

Coro dos caídos - Zeca Afonso

 



Canta bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em janeiro ou em maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia
   
Cantai cantai melancolias serenas
Como o trigo da moda nas verbenas
Cantai cantai guizos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência
   
Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos sobre os cemitérios
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas os clarins e as espadas
Cantai nos matadouros nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras

Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora

terça-feira, junho 10, 2025

Zeca canta Camões...

 

Na fonte está Lianor
  
   
Mote
Na fonte está Lianor
Lavando a talha e chorando,
Às amigas perguntando:
- Vistes lá o meu amor?



Voltas
Posto o pensamento nele,
Porque a tudo o amor obriga,
Cantava, mas a cantiga
Eram suspiros por ele.
Nisto estava Lianor
O seu desejo enganando,
Às amigas perguntando:
- Vistes lá o meu amor?

O rosto sobre ua mão,
Os olhos no chão pregados,
Que, do chorar já cansados,
Algum descanso lhe dão.
Desta sorte Lianor
Suspende de quando em quando
Sua dor; e, em si tornando,
Mais pesada sente a dor.

Não deita dos olhos água,
Que não quer que a dor se abrande
Amor, porque, em mágoa grande,
Seca as lágrimas a mágoa.
Despois que de seu amor
Soube novas perguntando,
De improviso a vi chorando.
Olhai que extremos de dor! 


   
Luís de Camões

 

quarta-feira, junho 04, 2025

Hoje é bom ouvir cantar poesia de Jorge de Sena...

 

 

Epígrafe para a arte de furtar

Roubam-me Deus
outros o Diabo
– quem cantarei?

roubam-me a Pátria;
e a Humanidade
outros ma roubam
– quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
– quem cantarei?

roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
– aqui del Rei!


 

Jorge de Sena

segunda-feira, maio 19, 2025

Música adequada à data...

 

Cantar Alentejano - Zeca Afonso

 

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manha fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
O Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
O Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

segunda-feira, abril 28, 2025

Música para recordar um ditador...

 

O avô cavernoso - José Afonso

 

O avô cavernoso
Instituiu a chuva
Ratificou a demora
Persignou-se
Ninguém o chora agora
Perfumou-se
Vinte mil léguas de virgens vieram
Inutéis e despidas
Flores de malva
E a boina bem segura
Sobre a calva

Ao avô cavernoso quem viu a tonsura?
E a tenda dos milagres e a privada?
Na tenda que foi nítida conjura
As flores de malva murcham devagar
Devagar
Até que se ouvem gritos, matinadas