O Curso de Geologia de 85/90 da Universidade de Coimbra escolheu o nome de Geopedrados quando participou na Queima das Fitas.
Ficou a designação, ficaram muitas pessoas com e sobre a capa intemporal deste nome, agora com oportunidade de partilhar as suas ideias, informações e materiais sobre Geologia, Paleontologia, Mineralogia, Vulcanologia/Sismologia, Ambiente, Energia, Biologia, Astronomia, Ensino, Fotografia, Humor, Música, Cultura, Coimbra e AAC, para fins de ensino e educação.
Ontem, um concerto no Coliseu dos Recreios, evocou, num espetáculo
organizado pela Associação José Afonso, um concerto realizado em 29 de
Março de 1974. Estive lá. Hoje publico um excerto do meu livro História da Oposição à Ditadura 1926-1974 (Ed. Figueirinhas, 2014), pp. 595-596
«Em Portugal, já se estava então a viver, embora não fosse evidente à
época, uma situação reveladora de que o regime tinha perdido a batalha
pela hegemonia ideológica, iniciada nos anos trinta e prosseguida no
pós-II Guerra Mundial, a favor das várias oposições ao regime, todas
elas unidas contra a ditadura e uma guerra colonial interminável. Como
se viu, o fim da guerra também era desejado pelos próprios quadros
intermédios das Forças Armadas, crescentemente convencidos de que ela
só terminaria através de uma solução política.
O ambiente político adverso ao regime fez-se sentir, por exemplo, num
ciclo de cinema de Roberto Rossellini, na Fundação Gulbenkian, onde foi
exibido pela primeira vez o filme anti-fascista «Roma, città aperta»
(1945), até então proibido de ser apresentado pela censura. Numa sala
cheia de jovens, as palmas e a entusiástica receção ao filme levaram
o diretor da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, que se encontrava
presente, a profetizar ao organizador do ciclo de filmes, João Bémard
da Costa, que uma mudança política iria ocorrer em Portugal.
Na noite de 29 de Março de 1974, a Rua das Portas de Santo Antão, em
Lisboa foi palco de um outro acontecimento paradigmático e revelador
desse ambiente político. Realizou-se nessa data, no Coliseu dos
Recreios, o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da
Imprensa, no qual José Afonso deveria receber o prémio da melhor
interpretação musical do ano anterior. A sessão acabou por ser recheada
de símbolos e transformou-se num espaço de liberdade, no qual o
público não cessou de se manifestar, a pretexto das canções, contra um
regime ditatorial, que, embora não se soubesse, tinha menos de um mês
de vida. O espetáculo, que teve de ser preparado com muita
antecedência, para que todas as canções fossem apresentadas previamente à
Censura, foi mais um sintoma, embora não completamente detetado
então pelos presentes, de que o regime estava a viver o seu estertor.
Como a Direção-Geral dos Espetáculos só entregara a lista das canções
que podiam ser cantadas uma hora antes do início do espectáculo, e
alguns cantores apenas foram autorizados a cantar metade das estrofes, o
público trauteou as melodias de forma cúmplice, em coro. Quando
Manuel Freire afirmou que se tinha esquecido das letras das canções no
comboio, os cerca de cinco mil espectadores compreenderam onde ele
queria chegar, aplaudiram de pé e cantaram em coro o que ele não fora
autorizado a interpretar.
Por seu lado, José Afonso foi proibido de cantar «A morte saiu à
rua», «Venham mais cinco», «Menina dos olhos tristes» e «Gastão era
perfeito», apenas sendo autorizado a apresentar «Milho Verde» e
«Grândola».
O quarteto de Marcos Resende abrira o programa, mas não foi ouvido,
devido aos assobios que irromperam pela sala, sucedendo-lhe o duo
Carlos Alberto Moniz-Maria do Amparo e um desconhecido que deu como
nome Manuel José Soares. A sala continuava morna, quando irrompeu a
primeira grande ovação da noite, a premiar a atuação de Carlos
Paredes, acompanhado por Fernando Alvim. De seguida, o jornalista
Joaquim Furtado leu em voz alta os nomes dos premiados pela associação
mutualista dos jornalistas, escolhidos por um júri que integrava José
Duarte, Tito Lívio, João Paulo Guerra e José Manuel Nunes. A maioria
dos prémios atribuídos não provocou grande entusiasmo, mas o mesmo não
aconteceu com o galardão que premiou o programa radiofónico Página Um, da
Rádio Renascença, recebido, entre outros, por Adelino Gomes, que
havia sido afastado da rádio por razões políticas. Outros nomes
aplaudidíssimos foram os de Sérgio Godinho e José Mário Branco,
cantores premiados pelos seus álbuns de estreia — Os Sobreviventes e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, respetivamente —, que «não puderam comparecer», como dizia um artigo de O Século, embora não explicando que isso se devia ao facto de estarem exilados.
Após o intervalo, atuaram os espanhóis Viño Tinto e o poeta José
Carlos Ary dos Santos, que começou por ser assobiado pelos que não
aprovavam a sua participação nos Festivais RTP da Canção. O poeta
retorquiu: «Eu venho para dizer poesia. Se não gostam, manifestem-se no
fim». Depois de ter declamado «SARL», abandonou o palco sob fortes
aplausos. Sucederam-se José Barata Moura, o grupo Intróito, Manuel
Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino, José Jorge Letria, Adriano
Correia de Oliveira e, finalmente, José Afonso.
Depois de cantar «Milho Verde», a outra canção autorizada pela Censura,
chamou ao palco todos os cantores que deram os braços e começaram a
bater, ritmadamente, com os pés no chão, enquanto as luzes se apagavam
na sala. «Grândola, vila morena…», ouviu-se novamente, desta vez em
coro. Cinco mil pessoas levantaram-se, deram igualmente os braços e
entoaram: «… terra da fraternidade…».
Outra testemunha desse espetáculo escreveria que quando «começaram a
entoar a mítica canção de José Afonso, o soalho de madeira do velho
Coliseu dos Recreios transmitiu a sensação de poder ruir em qualquer
altura».
Cantada em coro, à maneira de um grupo alentejano, aquela canção
viria a servir de senha para a eclosão do golpe militar que derrubaria
o regime menos de um mês depois».
Ontem, um concerto no Coliseu dos Recreios, evocou, num espetáculo
organizado pela Associação José Afonso, um concerto realizado em 29 de
Março de 1974. Estive lá. Hoje publico um excerto do meu livro História da Oposição à Ditadura 1926-1974 (Ed. Figueirinhas, 2014), pp. 595-596
«Em Portugal, já se estava então a viver, embora não fosse evidente à
época, uma situação reveladora de que o regime tinha perdido a batalha
pela hegemonia ideológica, iniciada nos anos trinta e prosseguida no
pós-II Guerra Mundial, a favor das várias oposições ao regime, todas
elas unidas contra a ditadura e uma guerra colonial interminável. Como
se viu, o fim da guerra também era desejado pelos próprios quadros
intermédios das Forças Armadas, crescentemente convencidos de que ela
só terminaria através de uma solução política.
O ambiente político adverso ao regime fez-se sentir, por exemplo, num
ciclo de cinema de Roberto Rossellini, na Fundação Gulbenkian, onde foi
exibido pela primeira vez o filme anti-fascista «Roma, città aperta»
(1945), até então proibido de ser apresentado pela censura. Numa sala
cheia de jovens, as palmas e a entusiástica receção ao filme levaram
o diretor da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, que se encontrava
presente, a profetizar ao organizador do ciclo de filmes, João Bémard
da Costa, que uma mudança política iria ocorrer em Portugal.
Na noite de 29 de Março de 1974, a Rua das Portas de Santo Antão, em
Lisboa foi palco de um outro acontecimento paradigmático e revelador
desse ambiente político. Realizou-se nessa data, no Coliseu dos
Recreios, o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da
Imprensa, no qual José Afonso deveria receber o prémio da melhor
interpretação musical do ano anterior. A sessão acabou por ser recheada
de símbolos e transformou-se num espaço de liberdade, no qual o
público não cessou de se manifestar, a pretexto das canções, contra um
regime ditatorial, que, embora não se soubesse, tinha menos de um mês
de vida. O espetáculo, que teve de ser preparado com muita
antecedência, para que todas as canções fossem apresentadas previamente à
Censura, foi mais um sintoma, embora não completamente detetado
então pelos presentes, de que o regime estava a viver o seu estertor.
Como a Direção-Geral dos Espetáculos só entregara a lista das canções
que podiam ser cantadas uma hora antes do início do espectáculo, e
alguns cantores apenas foram autorizados a cantar metade das estrofes, o
público trauteou as melodias de forma cúmplice, em coro. Quando
Manuel Freire afirmou que se tinha esquecido das letras das canções no
comboio, os cerca de cinco mil espectadores compreenderam onde ele
queria chegar, aplaudiram de pé e cantaram em coro o que ele não fora
autorizado a interpretar.
Por seu lado, José Afonso foi proibido de cantar «A morte saiu à
rua», «Venham mais cinco», «Menina dos olhos tristes» e «Gastão era
perfeito», apenas sendo autorizado a apresentar «Milho Verde» e
«Grândola».
O quarteto de Marcos Resende abrira o programa, mas não foi ouvido,
devido aos assobios que irromperam pela sala, sucedendo-lhe o duo
Carlos Alberto Moniz-Maria do Amparo e um desconhecido que deu como
nome Manuel José Soares. A sala continuava morna, quando irrompeu a
primeira grande ovação da noite, a premiar a atuação de Carlos
Paredes, acompanhado por Fernando Alvim. De seguida, o jornalista
Joaquim Furtado leu em voz alta os nomes dos premiados pela associação
mutualista dos jornalistas, escolhidos por um júri que integrava José
Duarte, Tito Lívio, João Paulo Guerra e José Manuel Nunes. A maioria
dos prémios atribuídos não provocou grande entusiasmo, mas o mesmo não
aconteceu com o galardão que premiou o programa radiofónico Página Um, da
Rádio Renascença, recebido, entre outros, por Adelino Gomes, que
havia sido afastado da rádio por razões políticas. Outros nomes
aplaudidíssimos foram os de Sérgio Godinho e José Mário Branco,
cantores premiados pelos seus álbuns de estreia — Os Sobreviventes e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, respetivamente —, que «não puderam comparecer», como dizia um artigo de O Século, embora não explicando que isso se devia ao facto de estarem exilados.
Após o intervalo, atuaram os espanhóis Viño Tinto e o poeta José
Carlos Ary dos Santos, que começou por ser assobiado pelos que não
aprovavam a sua participação nos Festivais RTP da Canção. O poeta
retorquiu: «Eu venho para dizer poesia. Se não gostam, manifestem-se no
fim». Depois de ter declamado «SARL», abandonou o palco sob fortes
aplausos. Sucederam-se José Barata Moura, o grupo Intróito, Manuel
Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino, José Jorge Letria, Adriano
Correia de Oliveira e, finalmente, José Afonso.
Depois de cantar «Milho Verde», a outra canção autorizada pela Censura,
chamou ao palco todos os cantores que deram os braços e começaram a
bater, ritmadamente, com os pés no chão, enquanto as luzes se apagavam
na sala. «Grândola, vila morena…», ouviu-se novamente, desta vez em
coro. Cinco mil pessoas levantaram-se, deram igualmente os braços e
entoaram: «… terra da fraternidade…».
Outra testemunha desse espetáculo escreveria que quando «começaram a
entoar a mítica canção de José Afonso, o soalho de madeira do velho
Coliseu dos Recreios transmitiu a sensação de poder ruir em qualquer
altura».
Cantada em coro, à maneira de um grupo alentejano, aquela canção
viria a servir de senha para a eclosão do golpe militar que derrubaria
o regime menos de um mês depois».
Ontem, um concerto no Coliseu dos Recreios, evocou, num espetáculo
organizado pela Associação José Afonso, um concerto realizado em 29 de
Março de 1974. Estive lá. Hoje publico um excerto do meu livro História da Oposição à Ditadura 1926-1974 (Ed. Figueirinhas, 2014), pp. 595-596
«Em Portugal, já se estava então a viver, embora não fosse evidente à
época, uma situação reveladora de que o regime tinha perdido a batalha
pela hegemonia ideológica, iniciada nos anos trinta e prosseguida no
pós-II Guerra Mundial, a favor das várias oposições ao regime, todas
elas unidas contra a ditadura e uma guerra colonial interminável. Como
se viu, o fim da guerra também era desejado pelos próprios quadros
intermédios das Forças Armadas, crescentemente convencidos de que ela
só terminaria através de uma solução política.
O ambiente político adverso ao regime fez-se sentir, por exemplo, num
ciclo de cinema de Roberto Rossellini, na Fundação Gulbenkian, onde foi
exibido pela primeira vez o filme anti-fascista «Roma, città aperta»
(1945), até então proibido de ser apresentado pela censura. Numa sala
cheia de jovens, as palmas e a entusiástica receção ao filme levaram
o diretor da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, que se encontrava
presente, a profetizar ao organizador do ciclo de filmes, João Bémard
da Costa, que uma mudança política iria ocorrer em Portugal.
Na noite de 29 de Março de 1974, a Rua das Portas de Santo Antão, em
Lisboa foi palco de um outro acontecimento paradigmático e revelador
desse ambiente político. Realizou-se nessa data, no Coliseu dos
Recreios, o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da
Imprensa, no qual José Afonso deveria receber o prémio da melhor
interpretação musical do ano anterior. A sessão acabou por ser recheada
de símbolos e transformou-se num espaço de liberdade, no qual o
público não cessou de se manifestar, a pretexto das canções, contra um
regime ditatorial, que, embora não se soubesse, tinha menos de um mês
de vida. O espetáculo, que teve de ser preparado com muita
antecedência, para que todas as canções fossem apresentadas previamente à
Censura, foi mais um sintoma, embora não completamente detetado
então pelos presentes, de que o regime estava a viver o seu estertor.
Como a Direção-Geral dos Espetáculos só entregara a lista das canções
que podiam ser cantadas uma hora antes do início do espectáculo, e
alguns cantores apenas foram autorizados a cantar metade das estrofes, o
público trauteou as melodias de forma cúmplice, em coro. Quando
Manuel Freire afirmou que se tinha esquecido das letras das canções no
comboio, os cerca de cinco mil espectadores compreenderam onde ele
queria chegar, aplaudiram de pé e cantaram em coro o que ele não fora
autorizado a interpretar.
Por seu lado, José Afonso foi proibido de cantar «A morte saiu à
rua», «Venham mais cinco», «Menina dos olhos tristes» e «Gastão era
perfeito», apenas sendo autorizado a apresentar «Milho Verde» e
«Grândola».
O quarteto de Marcos Resende abrira o programa, mas não foi ouvido,
devido aos assobios que irromperam pela sala, sucedendo-lhe o duo
Carlos Alberto Moniz-Maria do Amparo e um desconhecido que deu como
nome Manuel José Soares. A sala continuava morna, quando irrompeu a
primeira grande ovação da noite, a premiar a atuação de Carlos
Paredes, acompanhado por Fernando Alvim. De seguida, o jornalista
Joaquim Furtado leu em voz alta os nomes dos premiados pela associação
mutualista dos jornalistas, escolhidos por um júri que integrava José
Duarte, Tito Lívio, João Paulo Guerra e José Manuel Nunes. A maioria
dos prémios atribuídos não provocou grande entusiasmo, mas o mesmo não
aconteceu com o galardão que premiou o programa radiofónico Página Um, da
Rádio Renascença, recebido, entre outros, por Adelino Gomes, que
havia sido afastado da rádio por razões políticas. Outros nomes
aplaudidíssimos foram os de Sérgio Godinho e José Mário Branco,
cantores premiados pelos seus álbuns de estreia — Os Sobreviventes e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, respetivamente —, que «não puderam comparecer», como dizia um artigo de O Século, embora não explicando que isso se devia ao facto de estarem exilados.
Após o intervalo, atuaram os espanhóis Viño Tinto e o poeta José
Carlos Ary dos Santos, que começou por ser assobiado pelos que não
aprovavam a sua participação nos Festivais RTP da Canção. O poeta
retorquiu: «Eu venho para dizer poesia. Se não gostam, manifestem-se no
fim». Depois de ter declamado «SARL», abandonou o palco sob fortes
aplausos. Sucederam-se José Barata Moura, o grupo Intróito, Manuel
Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino, José Jorge Letria, Adriano
Correia de Oliveira e, finalmente, José Afonso.
Depois de cantar «Milho Verde», a outra canção autorizada pela Censura,
chamou ao palco todos os cantores que deram os braços e começaram a
bater, ritmadamente, com os pés no chão, enquanto as luzes se apagavam
na sala. «Grândola, vila morena…», ouviu-se novamente, desta vez em
coro. Cinco mil pessoas levantaram-se, deram igualmente os braços e
entoaram: «… terra da fraternidade…».
Outra testemunha desse espetáculo escreveria que quando «começaram a
entoar a mítica canção de José Afonso, o soalho de madeira do velho
Coliseu dos Recreios transmitiu a sensação de poder ruir em qualquer
altura».
Cantada em coro, à maneira de um grupo alentejano, aquela canção
viria a servir de senha para a eclosão do golpe militar que derrubaria
o regime menos de um mês depois».
Ontem, um concerto no Coliseu dos Recreios, evocou, num espectáculo organizado pela Associação José Afonso, um concerto realizado em 29 de Março de 1974. Estive lá. Hoje publico um excerto do meu livro História da Oposição à Ditadura 1926-1974 (Ed. Figueirinhas, 2014), pp. 595-596
«Em Portugal, já se estava então a viver, embora não fosse evidente à época, uma situação reveladora de que o regime tinha perdido a batalha pela hegemonia ideológica, iniciada nos anos trinta e prosseguida no pós-II Guerra Mundial, a favor das várias oposições ao regime, todas elas unidas contra a ditadura e uma guerra colonial interminável. Como se viu, o fim da guerra também era desejado pelos próprios quadros intermédios das Forças Armadas, crescentemente convencidos de que ela só terminaria através de uma solução política.
O ambiente político adverso ao regime fez-se sentir, por exemplo, num ciclo de cinema de Roberto Rossellini, na Fundação Gulbenkian, onde foi exibido pela primeira vez o filme anti-fascista «Roma, città aperta» (1945), até então proibido de ser apresentado pela censura. Numa sala cheia de jovens, as palmas e a entusiástica recepção ao filme levaram o director da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, que se encontrava presente, a profetizar ao organizador do ciclo de filmes, João Bémard da Costa, que uma mudança política iria ocorrer em Portugal.
Na noite de 29 de Março de 1974, a Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa foi palco de um outro acontecimento paradigmático e revelador desse ambiente político. Realizou-se nessa data, no Coliseu dos Recreios, o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa, no qual José Afonso deveria receber o prémio da melhor interpretação musical do ano anterior. A sessão acabou por ser recheada de símbolos e transformou-se num espaço de liberdade, no qual o público não cessou de se manifestar, a pretexto das canções, contra um regime ditatorial, que, embora não se soubesse, tinha menos de um mês de vida. O espectáculo, que teve de ser preparado com muita antecedência, para que todas as canções fossem apresentadas previamente à Censura, foi mais um sintoma, embora não completamente detectado então pelos presentes, de que o regime estava a viver o seu estertor.
Como a Direcção-Geral dos Espectáculos só entregara a lista das canções que podiam ser cantadas uma hora antes do início do espectáculo, e alguns cantores apenas foram autorizados a cantar metade das estrofes, o público trauteou as melodias de forma cúmplice, em coro. Quando Manuel Freire afirmou que se tinha esquecido das letras das canções no comboio, os cerca de cinco mil espectadores compreenderam onde ele queria chegar, aplaudiram de pé e cantaram em coro o que ele não fora autorizado a interpretar. Por seu lado, José Afonso foi proibido de cantar «A morte saiu à rua», «Venham mais cinco», «Menina dos olhos tristes» e «Gastão era perfeito», apenas sendo autorizado a apresentar «Milho Verde» e «Grândola».
O quarteto de Marcos Resende abrira o programa, mas não foi ouvido, devido aos assobios que irromperam pela sala, sucedendo-lhe o duo Carlos Alberto Moniz-Maria do Amparo e um desconhecido que deu como nome Manuel José Soares. A sala continuava morna, quando irrompeu a primeira grande ovação da noite, a premiar a actuação de Carlos Paredes, acompanhado por Fernando Alvim. De seguida, o jornalista Joaquim Furtado leu em voz alta os nomes dos premiados pela associação mutualista dos jornalistas, escolhidos por um júri que integrava José Duarte, Tito Lívio, João Paulo Guerra e José Manuel Nunes. A maioria dos prémios atribuídos não provocou grande entusiasmo, mas o mesmo não aconteceu com o galardão que premiou o programa radiofónico Página Um, da Rádio Renascença, recebido, entre outros, por Adelino Gomes, que havia sido afastado da rádio por razões políticas. Outros nomes aplaudidíssimos foram os de Sérgio Godinho e José Mário Branco, cantores premiados pelos seus álbuns de estreia — Os Sobreviventes e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, respectivamente —, que «não puderam comparecer», como dizia um artigo de O Século, embora não explicando que isso se devia ao facto de estarem exilados.
Após o intervalo, actuaram os espanhóis Viño Tinto e o poeta José Carlos Ary dos Santos, que começou por ser assobiado pelos que não aprovavam a sua participação nos Festivais RTP da Canção. O poeta retorquiu: «Eu venho para dizer poesia. Se não gostam, manifestem-se no fim». Depois de ter declamado «SARL», abandonou o palco sob fortes aplausos. Sucederam-se José Barata Moura, o grupo Intróito, Manuel Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino, José Jorge Letria, Adriano Correia de Oliveira e, finalmente, José Afonso.
Depois de cantar «Milho Verde», a outra canção autorizada pela Censura, chamou ao palco todos os cantores que deram os braços e começaram a bater, ritmadamente, com os pés no chão, enquanto as luzes se apagavam na sala. «Grândola, vila morena…», ouviu-se novamente, desta vez em coro. Cinco mil pessoas levantaram-se, deram igualmente os braços e entoaram: «… terra da fraternidade…». Outra testemunha desse espectáculo escreveria que quando «começaram a entoar a mítica canção de José Afonso, o soalho de madeira do velho Coliseu dos Recreios transmitiu a sensação de poder ruir em qualquer altura». Cantada em coro, à maneira de um grupo alentejano, aquela canção viria a servir de senha para a eclosão do golpe militar que derrubaria o regime menos de um mês depois».
Ontem, um concerto no Coliseu dos Recreios, evocou, num espectáculo organizado pela Associação José Afonso, um concerto realizado em 29 de Março de 1974. Estive lá. Hoje publico um excerto do meu livro História da Oposição à Ditadura 1926-1974 (Ed. Figueirinhas, 2014), pp. 595-596
«Em Portugal, já se estava então a viver, embora não fosse evidente à época, uma situação reveladora de que o regime tinha perdido a batalha pela hegemonia ideológica, iniciada nos anos trinta e prosseguida no pós-II Guerra Mundial, a favor das várias oposições ao regime, todas elas unidas contra a ditadura e uma guerra colonial interminável. Como se viu, o fim da guerra também era desejado pelos próprios quadros intermédios das Forças Armadas, crescentemente convencidos de que ela só terminaria através de uma solução política.
O ambiente político adverso ao regime fez-se sentir, por exemplo, num ciclo de cinema de Roberto Rossellini, na Fundação Gulbenkian, onde foi exibido pela primeira vez o filme anti-fascista «Roma, città aperta» (1945), até então proibido de ser apresentado pela censura. Numa sala cheia de jovens, as palmas e a entusiástica recepção ao filme levaram o director da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, que se encontrava presente, a profetizar ao organizador do ciclo de filmes, João Bémard da Costa, que uma mudança política iria ocorrer em Portugal.
Na noite de 29 de Março de 1974, a Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa foi palco de um outro acontecimento paradigmático e revelador desse ambiente político. Realizou-se nessa data, no Coliseu dos Recreios, o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa, no qual José Afonso deveria receber o prémio da melhor interpretação musical do ano anterior. A sessão acabou por ser recheada de símbolos e transformou-se num espaço de liberdade, no qual o público não cessou de se manifestar, a pretexto das canções, contra um regime ditatorial, que, embora não se soubesse, tinha menos de um mês de vida. O espectáculo, que teve de ser preparado com muita antecedência, para que todas as canções fossem apresentadas previamente à Censura, foi mais um sintoma, embora não completamente detectado então pelos presentes, de que o regime estava a viver o seu estertor.
Como a Direcção-Geral dos Espectáculos só entregara a lista das canções que podiam ser cantadas uma hora antes do início do espectáculo, e alguns cantores apenas foram autorizados a cantar metade das estrofes, o público trauteou as melodias de forma cúmplice, em coro. Quando Manuel Freire afirmou que se tinha esquecido das letras das canções no comboio, os cerca de cinco mil espectadores compreenderam onde ele queria chegar, aplaudiram de pé e cantaram em coro o que ele não fora autorizado a interpretar. Por seu lado, José Afonso foi proibido de cantar «A morte saiu à rua», «Venham mais cinco», «Menina dos olhos tristes» e «Gastão era perfeito», apenas sendo autorizado a apresentar «Milho Verde» e «Grândola».
O quarteto de Marcos Resende abrira o programa, mas não foi ouvido, devido aos assobios que irromperam pela sala, sucedendo-lhe o duo Carlos Alberto Moniz-Maria do Amparo e um desconhecido que deu como nome Manuel José Soares. A sala continuava morna, quando irrompeu a primeira grande ovação da noite, a premiar a actuação de Carlos Paredes, acompanhado por Fernando Alvim. De seguida, o jornalista Joaquim Furtado leu em voz alta os nomes dos premiados pela associação mutualista dos jornalistas, escolhidos por um júri que integrava José Duarte, Tito Lívio, João Paulo Guerra e José Manuel Nunes. A maioria dos prémios atribuídos não provocou grande entusiasmo, mas o mesmo não aconteceu com o galardão que premiou o programa radiofónico Página Um, da Rádio Renascença, recebido, entre outros, por Adelino Gomes, que havia sido afastado da rádio por razões políticas. Outros nomes aplaudidíssimos foram os de Sérgio Godinho e José Mário Branco, cantores premiados pelos seus álbuns de estreia — Os Sobreviventes e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, respectivamente —, que «não puderam comparecer», como dizia um artigo de O Século, embora não explicando que isso se devia ao facto de estarem exilados.
Após o intervalo, actuaram os espanhóis Viño Tinto e o poeta José Carlos Ary dos Santos, que começou por ser assobiado pelos que não aprovavam a sua participação nos Festivais RTP da Canção. O poeta retorquiu: «Eu venho para dizer poesia. Se não gostam, manifestem-se no fim». Depois de ter declamado «SARL», abandonou o palco sob fortes aplausos. Sucederam-se José Barata Moura, o grupo Intróito, Manuel Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino, José Jorge Letria, Adriano Correia de Oliveira e, finalmente, José Afonso.
Depois de cantar «Milho Verde», a outra canção autorizada pela Censura, chamou ao palco todos os cantores que deram os braços e começaram a bater, ritmadamente, com os pés no chão, enquanto as luzes se apagavam na sala. «Grândola, vila morena…», ouviu-se novamente, desta vez em coro. Cinco mil pessoas levantaram-se, deram igualmente os braços e entoaram: «… terra da fraternidade…». Outra testemunha desse espectáculo escreveria que quando «começaram a entoar a mítica canção de José Afonso, o soalho de madeira do velho Coliseu dos Recreios transmitiu a sensação de poder ruir em qualquer altura». Cantada em coro, à maneira de um grupo alentejano, aquela canção viria a servir de senha para a eclosão do golpe militar que derrubaria o regime menos de um mês depois».
NOTA: no mesmo Coliseu dos Recreio o Zeca Afonso se despediu do seu público, a 29 de janeiro de 1983, num memorável concerto, com a Grândola - aqui fica essa versão histórica:
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