Aos trinta e seis anos
um tiro no coração.
Assim
crucificaste
este século.
Emigrante
doutro tempo
acertaste
onde era preciso
tocar,
pôr as mãos,
encontrar o futuro,
Maiakovski.
in A Raiz Afectuosa (1972) - António Osório
O Curso de Geologia de 85/90 da Universidade de Coimbra escolheu o nome de Geopedrados quando participou na Queima das Fitas. Ficou a designação, ficaram muitas pessoas com e sobre a capa intemporal deste nome, agora com oportunidade de partilhar as suas ideias, informações e materiais sobre Geologia, Paleontologia, Mineralogia, Vulcanologia/Sismologia, Ambiente, Energia, Biologia, Astronomia, Ensino, Fotografia, Humor, Música, Cultura, Coimbra e AAC, para fins de ensino e educação.
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A CABEÇA LIGADA
Van Gogh, queria algo
tão consolador como a música.
Os campos de trigo e centeio
com ciprestes, os seus obeliscos,
e lírios e grandes nuvens,
a sesta dos camponeses,
a natureza morta
de girassóis e anémonas,
o sereno bivaque de ciganos,
as árvores com o azul tisnado do céu,
loendros, paveias,roçadores
de pastagens limão ouro pálido,
o semeador ferruginoso de ocre,
enxofre e do tamanho de uma catedral,
o voo de corvos sobre ramos
luminosos e ternos
de amendoeiras em flor.
Depois de cortar a orelha
retratou-se com os lábios
pintados de sangue.
Se o sofrimento fosse mensurável,
naquela cara de símio
louco de ser homem
haveria dores
de um inteiro campo de concentração.
in A Ignorância da Morte (1978) - António Osório
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Andorinhas
À vacaria os dois casais voltaram.
Os ninhos junto da lanterna,
arca da sua aliança,
e armadilha, rede de aranhas.
As vacas levantam os olhos
e o calor do corpo, da bosta
comunicam, cifrada mensagem
para outros seres, próximos,
também por elas e pela luz gerados.
in A ignorância da morte (1982) - António Osório
Postado por Pedro Luna às 21:12 0 comentários
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Elegia para Ana Achmatova
Foi em 5 de Março, quase no fim deste Inverno.
Com outra luz gostaria de ter entregue o corpo.
Nevoeiro que nos montes se rasgava, despeda-
çado pelas árvores mais altas, herdara de Emily
Dickinson o deslumbrante hálito sonâmbulo e
de Safo o voo apaixonado.
Safo, Emily Dickinson - duas vezes mortas.
in A Raiz Afectuosa (1972) - António Osório
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Postado por Pedro Luna às 11:11 0 comentários
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A Meus Filhos
A meus filhos
desejo a curva do horizonte.
E todavia deles tudo em mim desejo:
o felino gosto de ver,
o brilho chuvoso da pele,
as mãos que desvendam e amam.
Marga,
meu fermento,
neles caminho e me procuro,
a corpo igual regresso:
ao rápido besouro das lágrimas,
ao calor da boca dos cães,
à sua língua de faca afectuosa;
à seta que disparam os ibiscos,
à partida solene da cama de grades,
ao encontro, na praia, com as algas;
à alegria de dormir com um gato,
de ver sair das vacas o leite fumegante,
à chegada do amor aos quatro anos.
in A Raiz Afectuosa (1972) - António Osório
Postado por Pedro Luna às 04:00 0 comentários
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Filho de pai português e de mãe italiana, o seu pai era sobrinho paterno da escritora Ana de Castro Osório.
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (1956).
Era o poeta do amor e da fulguração, dos afetos e dos silêncios, embora tivesse começado a escrever em 1954, como colaborador da revista Anteu, apenas na década de 1970 começa a publicar a sua poesia em livros. Colaborou com Manuel Cargaleiro, Júlio Pomar e Pedro Cabrita Reis, que ilustraram algumas das suas obras. Dirigiu, com José Bento, um suplemento de poesia no Jornal de Letras e Artes.
Poeta e advogado em Lisboa, foi, na Ordem dos Advogados, vogal do conselho distrital de Lisboa, vogal e vice-presidente do conselho geral (1978-1980), vogal do conselho superior (1981-1983), Bastonário (1984-1986) e diretor da Biblioteca da Ordem dos Advogados (1995-2002). Foi administrador da Comissão Portuguesa da Fundação Europeia da Cultura e presidente da Associação Portuguesa para o Direito do Ambiente (1994-1996), qualidade na qual fundou e dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e do Ordenamento do Território (1995-2002). A partir de 1998, foi diretor da revista Foro das Letras, editada pela Associação Portuguesa de Escritores-Juristas. Foi, entre 4 de março de 1999 até à sua morte, sócio correspondente nacional, na Classe de Letras, na 1.ª Secção – Literatura e Estudos Literários, da Academia das Ciências de Lisboa.
Em 1980, foi escolhido pelo governo de Portugal para representante na Convenção da Haia e, em 1985, para árbitro do Centro Internacional para a Arbitragem de Disputas sobre Investimentos. Em 1985, fundou o Instituto Jurídico Franco-Ibérico de Bordéus, em França. Entre 1988 e 2001, foi administrador da Associação Internacional de Juristas de Língua Italiana, que fundou. Em 2003, foi nomeado Presidente da Delegação Portuguesa do Tribunal Europeu de Arbitragem, em Estrasburgo (França).
Era membro do Instituto de Direito Comparado Luso-Brasileiro, no Rio de Janeiro (Brasil), e da Conférence des Grands Barreaux d'Europe.
Morreu a 18 de novembro de 2021.
Não é uma coisa só
Não é uma coisa só,
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.
António Osório
Postado por Fernando Martins às 00:04 0 comentários
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Amor das plantas e dos doentes
Postado por Pedro Luna às 00:09 0 comentários
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Não é uma coisa só
Não é uma coisa só,
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.
António Osório
Postado por Pedro Luna às 23:32 0 comentários
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Filho de pai português e de mãe italiana, o seu pai era sobrinho paterno da escritora Ana de Castro Osório.
Era licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (1956).
Poeta do amor e da fulguração, dos afetos e dos silêncios, embora tivesse começado a escrever em 1954, como colaborador da revista Anteu, apenas na década de 1970 começa a publicar a sua poesia em livros. Colaborou com Manuel Cargaleiro, Júlio Pomar e Pedro Cabrita Reis, que ilustraram algumas das suas obras. Dirigiu, com José Bento, um suplemento de poesia no Jornal de Letras e Artes.
Poeta e advogado em Lisboa, foi, na Ordem dos Advogados, vogal do conselho distrital de Lisboa, vogal e vice-presidente do conselho geral (1978-1980), vogal do conselho superior (1981-1983), Bastonário (1984-1986) e diretor da Biblioteca da Ordem dos Advogados (1995-2002). Foi administrador da Comissão Portuguesa da Fundação Europeia da Cultura e presidente da Associação Portuguesa para o Direito do Ambiente (1994-1996), qualidade na qual fundou e dirigiu a Revista de Direito do Ambiente e do Ordenamento do Território (1995-2002). A partir de 1998, foi diretor da revista Foro das Letras, editada pela Associação Portuguesa de Escritores-Juristas. Foi, entre 4 de março de 1999 até à sua morte, sócio correspondente nacional, na Classe de Letras, na 1.ª Secção – Literatura e Estudos Literários, da Academia das Ciências de Lisboa.
Em 1980, foi escolhido pelo governo de Portugal para representante na Convenção da Haia e, em 1985, para árbitro do Centro Internacional para a Arbitragem de Disputas sobre Investimentos. Em 1985, fundou o Instituto Jurídico Franco-Ibérico de Bordéus, em França. Entre 1988 e 2001, foi administrador da Associação Internacional de Juristas de Língua Italiana, que fundou. Em 2003, foi nomeado Presidente da Delegação Portuguesa do Tribunal Europeu de Arbitragem, em Estrasburgo (França).
Foi membro do Instituto de Direito Comparado Luso-Brasileiro, no Rio de Janeiro (Brasil), e da Conférence des Grands Barreaux d'Europe.
Morreu a 18 de novembro de 2021.
A Meus Filhos
A meus filhos
desejo a curva do horizonte.
E todavia deles tudo em mim desejo:
o felino gosto de ver,
o brilho chuvoso da pele,
as mãos que desvendam e amam.
Marga,
meu fermento,
neles caminho e me procuro,
a corpo igual regresso:
ao rápido besouro das lágrimas,
ao calor da boca dos cães,
à sua língua de faca afectuosa;
à seta que disparam os ibiscos,
à partida solene da cama de grades,
ao encontro, na praia, com as algas;
à alegria de dormir com um gato,
de ver sair das vacas o leite fumegante,
à chegada do amor aos quatro anos.
in A Raiz Afectuosa (1972) - António Osório
Postado por Fernando Martins às 09:20 0 comentários
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Elegia para Mário Quintana, vivo
Antes que escape
e não adivinhe o exacto momento,
antecipo-me a Sua Ex.ª
e auguro-lhe, tarde, a vida eterna.
Já agora, continue os seus
Apontamentos de História Sobrenatural:
por porta travessa faça chegar
o Manual do Perfeito Abismo.
E fale dessa história obsessiva
do cricrilar dos grilos
(parecido com o cantarolar
dos seus vermes?)
Diga ao menos se conseguiu
encontrar Botticelli,
de quem o senhor descende:
entreajudem-se.
E, se a coisa o não embaraçar,
ilumine-nos com a enormidade
da sapiência divina.
Peça-lhe (é preciso audácia
com Deus) que assine
a sua ordem de expulsão
– e volte, gestante,
pelo túnel de outra vida.
in A Ignorância da Morte (1978) - António Osório
Postado por Pedro Luna às 22:22 0 comentários
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Lua inacessível
................1
E aí os astronautas:
finalmente
os anjos
que há milénios
quisemos ser.
................2
Lua inacessível
Sem mortos
e imensa mortalha.
Reserva, móvel
do nada.
................3
Chuva de crateras,
planaltos de poeira
chão
que nem vermes
produz.
................4
Meteorito infeliz.
Coisa pedregosa
má
rápida
que caiu
e não acerta,
não aleija
nada.
................5
Poesia - branco
escafandro
meu
sobre a Terra.
................6
Pardas cinzas
sem células,
sem escamas,
sem vestígios
carnívoros.
Cinzas
sem morte dentro,
mortas por fora.
................7
Resta-nos confiar em Vénus.
................8
Tão alto, tão longe
chegados
e não encontram Deus:
apenas falam
com o seu planeta.
................9
Radícula, sangue
que em segredo existisse:
ser a tua
cápsula sofredora.
................10
Maravilhoso corpo nu
o da Terra.
Curvos continentes
estendidos ao Sol,
nuvens, tempestades
que fogem
................e de tão longe
oceanos, minúsculas
montanhas reconhecíveis,
Himalaias proscritos.
Os próprios seres
invisíveis
se adivinham
aqui em nossa casa.
in A Raiz Afectuosa (1972) - António Osório
Postado por Pedro Luna às 05:06 0 comentários
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Postado por Fernando Martins às 08:43 0 comentários
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Postado por Pedro Luna às 10:01 0 comentários
Marcadores: António Osório, Mário Quintana, poesia
Postado por Pedro Luna às 11:11 0 comentários
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A CABEÇA LIGADA
Van Gogh, queria algo
tão consolador como a música.
Os campos de trigo e centeio
com ciprestes, os seus obeliscos,
e lírios e grandes nuvens,
a sesta dos camponeses,
a natureza morta
de girassóis e anémonas,
o sereno bivaque de ciganos,
as árvores com o azul tisnado do céu,
loendros, paveias,roçadores
de pastagens limão ouro pálido,
o semeador ferruginoso de ocre,
enxofre e do tamanho de uma catedral,
o voo de corvos sobre ramos
luminosos e ternos
de amendoeiras em flor.
Depois de cortar a orelha
retratou-se com os lábios
pintados de sangue.
Se o sofrimento fosse mensurável,
naquela cara de símio
louco de ser homem
haveria dores
de um inteiro campo de concentração.
in A Ignorância da Morte (1978) - António Osório
Postado por Pedro Luna às 11:11 0 comentários
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Andorinhas
À vacaria os dois casais voltaram.
Os ninhos junto da lanterna,
arca da sua aliança,
e armadilha, rede de aranhas.
As vacas levantam os olhos
e o calor do corpo, da bosta
comunicam, cifrada mensagem
para outros seres, próximos,
também por elas e pela luz gerados.
in A ignorância da morte (1982) - António Osório
Postado por Pedro Luna às 00:00 0 comentários
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Elegia para Ana Achmatova
Foi em 5 de Março, quase no fim deste Inverno.
Com outra luz gostaria de ter entregue o corpo.
Nevoeiro que nos montes se rasgava, despeda-
çado pelas árvores mais altas, herdara de Emily
Dickinson o deslumbrante hálito sonâmbulo e
de Safo o voo apaixonado.
Safo, Emily Dickinson - duas vezes mortas.
in A Raiz Afectuosa (1972) - António Osório
Postado por Pedro Luna às 20:02 0 comentários
Marcadores: Ana Achmatova, António Osório, poesia
Postado por Pedro Luna às 22:22 0 comentários
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