A cheia de fevereiro de 2026 não foi uma surpresa para quem conhece o rio. Foi a consequência previsível de décadas de ilusões, de má manutenção e de construções onde nunca deveriam ter sido feitas. Está na hora de dizer o que a ciência sabe há muito
A
11 de fevereiro de 2026, no Baixo Mondego, o dique marginal direito do
canal principal do Mondego, cedeu por baixo da autoestrada A1. O
tabuleiro da mais importante autoestrada do país abateu horas depois. A
água alastrou pelos campos. Portugal ficou em choque. Mas há uma
pergunta que poucos pensaram naqueles dias de lama e sirenes: roturas de
diques e alagamento das planícies de inundação, já tinham acontecido
antes; e voltarão a acontecer
Há 827 anos que a
documentação escrita sobre as cheias do Mondego, nos avisa. Já em 1199 - quando uma cheia catastrófica inundou a Baixa de Coimbra "em menos de
uma hora" e alagou o Mosteiro de Santa Cruz - que este rio demonstra,
com brutal regularidade, o que é capaz de fazer. As crónicas medievais,
os registos eclesiásticos, as gazetas do século XIX, os dados horários
do século XX: tudo diz o mesmo. E nós continuámos, inconscientemente e
imprudentemente, a edificar nas planícies de inundação.
Escrevo
este artigo com base no relatório técnico-científico que elaborei a
pedido da Agência Portuguesa do Ambiente, no seguimento da solicitação
da Ministra do Ambiente e Energia. Tive 100 dias para o elaborar e
acesso a dados que, anteriormente, nunca tinham sido sistematizados e
interpretados desta forma. O que encontrei confirmou os piores receios e
também revelou erros que não podem voltar a ser tolerados.
O escasso valor estatístico que tem causado colossais prejuízos
Durante
décadas, o caudal considerado "de cheia centenária, em regime natural"
no Mondego - aquele que serviu de referência para o Projeto Hidráulico
do Mondego, os Planos Diretores Municipais (PDMs) e para os Planos de
Proteção Civil (PPCs) dos municípios com territórios na planície aluvial - foi de 3660 m³/s. Foi obtido a partir de 50 anos (1915-1965) de
registos em Coimbra. Depois, com base em 63-80 anos, foi estimado em
4100 a 4500 m³/s. Para um rio com grande variabilidade interanual de
caudal, isto equivale a calcular a probabilidade de um caudal com muito
fraco valor estatístico.
Com base na análise de 805
fontes documentais ao longo de 827 anos - das crónicas de Santa Cruz às
séries hidrométricas modernas -, obtive uma estimativa de provável
caudal centenário de ~4500 a 5200 m³/s
(respetivamente, com base nas distribuições pelo Empírico ou pelo
Gumbel). Note-se que apenas as cheias ordinárias a catastróficas foram
documentadas antes de 1915.
Um caudal desse nível,
provocaria o colapso da obra hidráulica do Baixo Mondego e o alagamento
total das planícies de inundação, incluindo as baixas de Coimbra e Sta.
Clara. É isso que está em risco.
A análise histórica
é ainda mais dramática: de 1199 a 2026, ocorreram em média cerca de 5
cheias por século com caudal >3000 m³/s, e 3 cheias com caudal
>4000 m³/s (caudais naturais). Oitenta e três por cento das grandes
cheias acontecem entre dezembro e fevereiro. O período crítico é,
exatamente, o inverno. Nada disto é novidade para a ciência. Mas parece
continuar a ser desconhecido por quem licenciou e por quem continua a
licenciar bairros nas planícies de inundação.
As barragens fizeram o que podiam. Mas não fizeram milagres
O
sistema de regularização hidráulica do Mondego - as barragens da
Aguieira (1981), Raiva (1983) e Fronhas (1987), o Canal Principal do
Mondego com diques marginais e o Açude de Coimbra - é uma obra de
engenharia notável, com um investimento de 516 milhões de euros a preços
atuais. Durante 19 anos, de 1981 a 2000, não ocorreram eventos de
elevada precipitação e as barragens conseguiram encaixar afluências de
pequenas cheias.
Este aparente sucesso criou a ilusão de que o problema estava definitivamente resolvido.
Através da gestão hídrica assegurada pelas barragens, o projeto prometia que um caudal atenuado de 2000 m³/s (equivalente a um natural de 3000 m³/s) em Coimbra seria um evento raro, decorrente de uma precipitação extraordinária. Mas, na realidade, de 1987 a 2026, esse valor foi atingido quatro vezes em 39 anos: em 2001, em 2016, em 2019, em 2026. Em alguns anos, a gestão de caudal pelas barragens podia ter sido melhor. Mas, principalmente, houve uma subestimação do rio.
A A1 foi construída em cima do dique. Literalmente
A
causa principal da rotura de fevereiro de 2026 não foi a chuva, não
foram as barragens, não foi o rio. Foi uma decisão de engenharia tomada
em 1991: uma linha de pilares do tabuleiro da A1 foi implantada no dique
direito do Canal Principal do Mondego, construído dez anos antes, em
1981.
Os pilares penetraram em profundidade no
aterro arenoso do dique, criando transmissão de vibração, diferenças
mecânicas, zonas de fragilidade e facilitação da percolação; além disso,
a queda dos tubos de escoamento de água pluvial da A1 faz-se
diretamente sobre a areia do dique. Com um caudal extremo, a pressão
hidráulica lateral fez o resto. A consequência negativa da opção de 1991
foi potenciada pela falta de uma fiscalização moderna.
Em
imagem de satélite de outubro de 2025 - quatro meses antes da rotura -,
era já visível um abatimento significativo no coroamento desse dique. O
descarregador em sifão imediatamente a montante da A1, que deveria ter
aliviado parte do caudal para os campos agrícolas adjacentes, tal como
desde 2021, praticamente não funcionou.
Há ainda uma
causa secundária que merece atenção. Entre 2017 e 2018, fez-se
deposição de areia proveniente do desassoreamento do Açude de Coimbra
diretamente no leito do Canal, a montante e a jusante, exatamente, do
cruzamento com a A1. Este excesso local de areia elevou artificialmente o
nível do leito, o que subiu localmente o nível de água, aumentou a
pressão lateral no dique, galgou-o, rompeu-o e levou a que imensa areia
ficasse a cobrir os campos agrícolas vizinhos (com 1 m de espessura). A
ciência não adivinha. Mas quando os dados estão disponíveis, alguém tem
de lê-los, percebê-los e atuar em conformidade.
Esta
coincidência perturbante pode ter uma explicação geológica:
identificámos neste local um lineamento tectónico, com direção NNW-SSE,
alinhado com o raro vale retilíneo ao longo da ribeira de Frades. O
traçado desta provável falha tectónica ativa atravessa o canal principal
do Mondego muito junto à A1. Uma eventual movimentação desta falha
contribuiria para a fragilização local de ambos os diques. É uma
hipótese remota que precisa de investigação pormenorizada - mas que não
pode ser ignorada dada a surpreendente e, aparentemente inexplicável,
posição das duas roturas.
A barragem da Aguieira e o sismo que ninguém ainda quis discutir
A
falha de Vérin-Penacova é uma das maiores falhas sismicamente ativas de
Portugal continental. Tem muito mais de 800 km de extensão total e
situa-se a apenas 6 km da barragem da Aguieira. Um sismo de magnitude
7,1 nesta falha - com período de retorno estimado de 14300 anos
portanto, improvável, mas não impossível - provocaria, no percentil 95%,
acelerações entre 0,6g e 0,8g. A barragem foi, aparentemente, projetada
para suportar 0,4g.
O muito improvável colapso
(natural ou antrópico) da Aguieira geraria uma gigantesca e rápida onda
de água, que chegaria a Coimbra 1 h depois. O alagamento atingiria,
provavelmente, 8 m de altura de água nas planícies de inundação,
alagando-as completamente - incluindo as baixas de Coimbra e de Santa
Clara, bem como todo o Baixo Mondego.
A
probabilidade é muitíssimo baixa, atendendo à robustez da estrutura e
cálculos feitos. Contudo, as diferenças no comportamento mecânico nos
encostos da barragem ao maciço de rochas metamórficas pouco resistentes
poderá gerar rotura. As consequências de uma rotura seriam devastadoras.
É
recomendável fazer a reavaliação do risco sísmico acompanhada de
eventual manutenção da barragem. Não porque o colapso seja provável, mas
porque a prudência assim o exige dado que ainda não conseguimos prever
sismos. Note-se que as consequências deste raríssimo evento não estão
consideradas nas Cartas de Zonas Inundáveis e de Riscos de Inundações do
PGRI, PDMs e PPCs dos municípios do Mondego.
Girabolhos: uma resposta política a um problema de gestão
Dias
depois da cheia do passado fevereiro, o Governo anunciou o relançamento
da barragem de Girabolhos como solução para o problema das inundações a
jusante. A intenção é compreensível. Mas a análise de fundamentação
técnica e científica obriga a uma muito grande prudência na decisão
política.
A sub-bacia que Girabolhos controlaria
representa apenas 15% da bacia do Mondego. Em fevereiro de 2026, o
volume de precipitação na sua área de influência teria enchido
completamente a albufeira em apenas sete dias - e depois continuaria a
transbordar. O rio Ceira, que trouxe mais de 1000 m³/s nas cheias de
2019 e 2026, entra no Mondego a junto a Coimbra, completamente fora do
sistema de controlo.
Girabolhos não resolve, nem
muito parcialmente, as cheias extraordinárias ou catastróficas. Poderia
constituir uma nova fonte de energia renovável e complementar a gestão
de pequenas ou moderadas cheias, bem como de secas. Mas os impactos
ambientais no rio Mondego seriam muito altos. Entre eles encontram-se a
diminuição da qualidade e da oxigenação da água, desaparecimento de
habitats essenciais às espécies aquáticas, perda de conectividade
longitudinal essencial para espécies migradoras, perda de vegetação
ripária essencial à manutenção de uma temperatura da água mais baixa no
verão e limitação dos blooms de cianobactérias, entre outros.
O
Estudo de Impacto Ambiental existente é de 2016 - e está, no mínimo,
desatualizado. Num momento de crise emocional não se tomam as melhores
decisões de engenharia.
O que é preciso fazer - e o que não pode continuar a acontecer
Há
medidas urgentes que não exigem estudos, nem licitações, nem anos de
espera. Exigem rigor técnico-científico na fundamentação e a consequente
vontade e decisão política:
Primeiro: Proibição
imediata de implantação de novas edificações nas planícies de inundação.
Não é uma medida impopular: é a única medida racional. Se não houver
edifícios nas planícies de inundação, não há risco fluvial. É tão
simples quanto isso.
Segundo: Gestão dinâmica das
cotas de espera nas barragens da Aguieira e Fronhas, com base em
previsões meteorológicas a 15 dias - disponíveis e fiáveis, hoje, com
tecnologia existente. Durante dezembro, janeiro e fevereiro, as
albufeiras devem estar o mais vazias possível.
Terceiro:
Manutenção preventiva e regular dos diques do canal principal do
Mondego. Desassoreamento da albufeira do Açude de 3 em 3 anos, mas
dependente de cada montante extraído e transferido, bem como tendo em
conta a época de reprodução das espécies piscícolas e outras. Remoção da
vegetação arbórea nos diques. Inspeção geotécnica anual. Não é
glamoroso. Não dá títulos nos jornais. Mas evita que um dique que,
segundo a moderna engenharia hidráulica foi construído para ser “não
galgável e intransponível”, rompa numa tarde de fevereiro.
Quarto:
O caudal natural correspondente a uma recorrência de 100 anos agora
determinado é muito superior ao que foi estimado no projeto da Obra
Hidráulica do Mondego, bem como o correspondente caudal amortecido pelas
barragens. Assim, é necessária uma revisão urgente das Cartas de Zonas
Inundáveis e de Riscos de Inundações do PGRI. Consequentemente, também
dos PDMs e dos PPCs dos municípios do Mondego.
Quinto:
Criação de uma entidade de Gestão Integrada da Bacia do Mondego, com:
competências reais, amplas e claras; recursos humanos qualificados e em
número adequado; recursos financeiros necessários aos objetivos a
atingir; e ser usado um modelo de cogestão participada. A gestão hídrica
de uma bacia hidrográfica não pode continuar a ser feita em silos - a
APA de um lado, a EDP de outro, os municípios de um terceiro, os
agricultores a reclamar e a Proteção Civil a apagar fogos, bem como as
populações ribeirinhas em desespero…
A lição do Mondego é muito antiga
Em
Coimbra ocorreram muitas cheias catastróficas, nomeadamente: 1788 (4800
m³/s); 1331 (4500 m³/s); 1764 e 1843 e 1948 (4200 m³/s); 1411, 1739 e
1821 (4100 m³/s). Mesmo após a construção da gigantesca barragem da
Aguieira (1981) ocorreram grandes cheias: em 2001, cedeu um dique junto à
A1 e ocorreram mais 15 roturas em diques; em 2019 ocorreram 2 roturas
em diques; em 2026, cedeu o dique do outro lado, exatamente, na mesma
secção transversal onde a A1 abateu.
De cada vez que o
Mondego transbordava, dizia-se que tinha sido excecional. Que não
voltaria a acontecer. E era feito mais um pormenorizado relatório a
listar as eventuais causas. Mas, depois, voltava a ocorrer mais um
grande caudal de cheia, que o projeto hidráulico preconizava não poder
vir a acontecer!
E de cada vez que o dizíamos,
construíamos mais um pouco nas planícies de inundação, aprovávamos mais
um PDM otimista, mantínhamos mais uns anos os diques sem manutenção
adequada ou mesmo uma Câmara Municipal chegava a suspender o seu PDM
para poder edificar extensivamente, nas planícies de inundação!
A
ciência, nomeadamente, os especialistas de investigação científica, têm
a obrigação de dizer a verdade, mesmo quando é incómoda. A verdade é
esta: o Mondego não está a comportar-se de forma anómala. Está a
comportar-se exatamente como sempre se comportou. O que mudou foi a
quantidade de casas, estradas e infraestruturas que pusemos no caminho
da sua água.
O Ordenamento do Território
fundamenta-se nos dados científicos recolhidos e estudados, aplicando as
regras da prevenção face à salvaguarda de pessoas e bens.
Portugal
vai voltar a ter grandes cheias no Mondego. Nos últimos 102 anos a
frequência de cheias em regime natural de 3000 m³/s (equivalente a 2000
m³/s com controlo por barragens) é de 20 anos (5 cheias por 100 anos,
valor igual nos últimos 827 anos). A questão não é se o rio vai
transbordar.
A questão é se da próxima vez haverá
mesmo muita gente nas planícies de inundação a perder a sua casa, o seu
carro, todos os seus outros bens ou a sua vida... Isso não depende do
rio. Depende de nós.
in Expresso


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