Henrique II desejava ser senhor absoluto dos seus domínios, tanto da
Igreja como do
Estado, e conseguiu encontrar um precedente nas tradições do reino para retirar privilégios especiais ao
clero inglês, que ele considerava como empecilhos à sua autoridade.
Enquanto chanceler, Becket cobrou um imposto de proteção do reino
contra invasores, uma tradição medieval cobrada de todos os
proprietários de terras, incluindo
igrejas e
bispados, o que lhe criou dificuldades e ressentimentos do clero inglês. Becket aumentou ainda mais a sua imagem de homem
secular ao tornar-se um
cortesão
bem sucedido e extravagante, e um alegre companheiro dos prazeres do
rei. O jovem Thomas era dedicado aos interesses do seu soberano, de um
modo tão firme apesar de diplomático, que quase ninguém, com a possível
exceção de John of
Salisbury, bispo de
Chartres, duvidava da sua lealdade à coroa inglesa.
De modo a honrar o seu vassalo, e segundo o costume da época de
crianças nobres serem educadas em outras casas nobres, o rei enviou o
seu primogénito,
Henrique, o Jovem
para a casa de Becket. Posteriormente, essa seria uma das razões por
que este se revoltaria contra o pai, tendo formado uma ligação emocional
a Becket como figura parental. Conta-se que Henrique,
o Jovem teria declarado que Becket lhe dera mais afeto paternal em um dia que o seu próprio pai durante toda a vida.
Arcebispado
Em
1162,
Henrique II recompensou Becket fazendo-o
arcebispo de Cantuária.
A escolha terá sido olhada com desconfiança pelo clero inglês, e
Thomas só conseguiu o cargo vários meses após a morte do anterior
arcebispo, Teobaldo. O rei tencionava aumentar a sua influência ditando
as ações do seu fiel e nomeado vassalo, e diminuir a independência e a
influência da
Igreja na Inglaterra.
Mas o carácter de Becket pareceu modificar-se imediatamente. Passou a viver uma vida de
simplicidade e pobreza
e, apesar de anteriormente ter ajudado Henrique a diminuir o poder dos
bispos, passou a defender ativamente os direitos da Igreja.
Vários
hagiógrafos do
santo
retratam-no de modos bastante diferentes: uns falam do comportamento
virtuoso como parte do seu dia-a-dia de sempre (por exemplo, o uso de
roupas grossas, desconfortáveis, por baixo das roupagens de cortesão);
outros que a sua devoção cresceu em revolta contra o homem de paixões
que era Henrique II; ainda outros acusam-no de ser motivado apenas pelos
seus próprios interesses e pelo seu desejo de poder. A maioria dos
relatos dos primeiros tempos de Thomas como arcebispo foram escritas
depois da sua morte e influenciadas pelos respetivos ambientes
políticos. As interpretações das políticas de Henrique II e do
papado, e as implicações da sua
canonização para ambos, foram de grande importância no jogo de poderes europeu.
Primeiro confuso com a atitude de Thomas, e depois sentindo-se
traído pelo antigo companheiro,
Henrique II viu o
arcebispo afastar-se ainda mais quando este abandonou o seu cargo de chanceler e manteve os rendimentos das terras da
Cantuária
sob o seu controle. Começaram assim uma série de conflitos legais
sobre a jurisdição dos tribunais seculares sobre o clero inglês. Em outubro de
1163, o rei tentou colocar a opinião e a influência dos outros bispados contra Thomas em
Westminster, com o objetivo de obter a aprovação dos privilégios reais.
As constituições de Clarendon
Em
30 de Janeiro de
1164,
Henrique II da Inglaterra convocou uma assembleia no Palácio de Clarendon, em
Wiltshire,
onde apresentou as suas exigências em 16 constituições. Pretendia com
isto diminuir a independência do clero e a influência de Roma na
política inglesa. Henrique conseguiu negociar e pressionar o
consentimento de todos, inclusivamente de Richer de L'aigle, o amigo de
longa data da família de Thomas. Foi oficialmente exigido a Becket que
assinasse as cartas do rei, caso contrário enfrentaria repercussões
políticas e legais, graves para a sua pessoa e para a
Igreja.
Por fim, até mesmo Becket expressou a sua disponibilidade em concordar
com as constituições, mas quando chegou o momento da assinatura,
recusou-se. Isto significava a guerra entre os dois poderes. Henrique
instaurou um
processo judicial contra o arcebispo e convocou-o a aparecer perante um concelho em
Northampton, a
8 de outubro de
1164, para responder a alegações de desobediência à autoridade real e ilegalidades cometidas como chanceler do reino.
Fuga para França
Henrique perseguiu-o com uma série de editos, dirigidos também aos seus amigos e apoiantes, mas o seu rival
Luís VII de França recebeu o arcebispo fugitivo e ofereceu-lhe proteção. Becket passou quase dois anos na
abadia cistercense de
Pontigny, até que as ameaças do rei contra a sua ordem o obrigaram a voltar a
Sens.
Becket lutou com as armas legais da
Igreja, pedindo ao
papa Alexandre III a
excomunhão de
Henrique II da Inglaterra e o interdito (o equivalente à excomunhão para um território) da
Inglaterra. Mas apesar de concordar com a posição do seu arcebispo, o papa preferia tentar uma solução mais
diplomática. O papa e o arcebispo desentenderam-se, principalmente quando o primeiro enviou legados, em
1167
com a autoridade de agir como árbitros do conflito. Ressentido com esta
limitação da sua jurisdição, e firme nos seus princípios, Becket não se
submeteu aos enviados do papa, uma vez que a sua posição o obrigava a
lealdade tanto com a coroa inglesa como com a Igreja.
A sua firmeza parecia ter compensado quando, em
1170,
o papa parecia inclinado a promulgar o interdito contra a Inglaterra.
Alarmado pela ideia, uma vez que isto implicava um conflito mais ou menos
aberto com as nações europeias sujeitas a Roma, Henrique II decidiu
elevar o seu filho e herdeiro
Henrique, o Jovem a
rei da Inglaterra, mantendo para si poder imperial. Uma vez que Becket estava no exílio, o arcebispo de
York sagrou a
coroação. Furioso, o
arcebispo da Cantuária ameaçou excomungar o rei e todos os envolvidos na cerimónia. No entanto, seguiu-se uma débil reconciliação e Thomas voltou à
Cantuária com a promessa de que poderia re-coroar o
príncipe.
Assassinato
Assim que aportou em Sandwich,
Kent, Becket mostrou que continuaria inflexível como sempre,
excomungando os
bispos envolvidos na coroação. Quando informado disto, o rei, furioso, terá dito qualquer coisa como "
Não haverá ninguém capaz de me livrar deste padre turbulento?".
A maioria dos historiadores parece concordar que o rei não pretendia
realmente o assassinato de Becket, apesar das suas duras palavras. Seja
como for, quatro dos
cavaleiros
presentes (Reginald Fitzurse, Hugh de Moreville, William de Traci e
Richard le Breton) terão interpretado isto como uma ordem. Responderam
que sabiam como fazer isso e partiram para a Cantuária. Em
29 de dezembro de
1170,
entraram na catedral e assassinaram Becket, segundo alguns nos degraus
do altar, quando os monges cantavam as vésperas. Existem vários relatos
contemporâneos do ato, em particular um de Edward Grim, um visitante da
catedral que teria também sido ferido no ataque.
Canonização
Depois do assassinato, descobriu-se que Becket usava um cilício
(neste contexto uma camisa de tecido grosso e desconfortável) por baixo
das suas vestes de arcebispo. Em pouco tempo, a fiéis por toda a Europa
começaram a venerar Thomas Becket como
mártir, e em
1173, cerca de três anos após a sua morte, foi
canonizado pelo
papa Alexandre III, na Igreja de S. Pedro, em
Segni.
Em
12 de julho de
1174, durante a revolta dos seus três filhos
Henrique, o Jovem,
Ricardo, futuro Coração de Leão e
Geoffrey Plantageneta de
1173-
1174,
Henrique II da Inglaterra fez
penitência pública junto ao túmulo de Becket, que se tornou num dos mais populares locais de
peregrinação da Inglaterra até à sua destruição durante a Dissolução dos Mosteiros (1538 a 1541).
Em
1220, os restos de Becket foram transladados para um
relicário na recentemente concluída Capela da Trindade, em
Cambridge. O pavimento deste está hoje em dia assinalado com uma vela acesa. Os
arcebispos atuais celebram a
Eucaristia neste local para lembrar o martírio e a transladação.
Lendas
Depois da
canonização, nasceram algumas lendas locais que, apesar de serem histórias
hagiográficas típicas, também refletem a personalidade do arcebispo:
- O Poço de Becket, em Otford, Kent,
foi criado quando Becket, desagradado com o gosto da água local, bateu
no chão com o seu báculo (ceptro) episcopal. Teriam nascido
imediatamente duas nascentes de água fresca no local.
- A ausência de rouxinóis
na mesma localidade também lhe é atribuída. Becket, perturbado nas suas
orações pelo seu chilrear, teria proibido para sempre os rouxinóis de
cantar na cidade.
- Os bebés da cidade de Strood, também em Kent, teriam passado a nascer com caudas.
Os homens de Strood tinham alinhado com o rei contra o arcebispo e,
para demonstrar o seu apoio, teriam cortado a cauda do cavalo de Becket
quando este passava pela cidade.
Literatura