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Luís Filipe Barros (Lisboa, 30 de janeiro de 1949), é um dos
nomes míticos da rádio portuguesa, fundador, por exemplo, do aclamado
"Rock Em Stock", na Rádio Comercial, entre 1979 e 1982 e entre 1986 e
1993. "O verdadeiro Rei da Rádio", na expressão de Ruy Castelar, outro
homem da rádio.
É realizador-chefe da RDP, reformado, e, atualmente, explora a
rádio 105.4, em Cascais. É casado, tem um filho, Rui, e uma neta, Maria.
Percurso
Luís Filipe dos Prazeres Domingues
Barros nasceu numa moradia, já demolida, na Avenida Duque de Ávila, em Lisboa,
no dia 30 de janeiro de 1949.
Estudou no Externato Cristal, em Lisboa, com António Sérgio e perdia os dias a ouvir a Radio Caroline, de Londres, a sua grande aprendizagem e influência.
Começou a fazer rádio em 1968, na Rádio Renascença, por sua iniciativa.
“A Renascença era a minha estação preferida e eu ia lá bater à porta, falar
com os locutores, etc. Um dia, o Armando Marques Ferreira convidou-me a fazer
uma rubrica”.
A rubrica era aos domingos à noite e chamava-se "FES-Festival",
onde já passava Led Zeppelin. Ganhava 400 escudos.
Na mesma altura, iniciou o curso de 3 anos de locutor na Rádio
Universidade (RU), tendo tido como colegas de curso, entre outros,
Henrique Garcia, Dina Aguiar, Fernando de Sousa, Ricardo Saló e Luís
Paixão Martins. O monitor era Fernando Balsinha.
Na RU, no final do curso, em 1971, assinava um programa de 13 minutos intitulado "Paralelo 71". "Won't Get Fooled Again", dos Who, era então uma das suas canções preferidas.
Um dos seus primeiros trabalhos foi uma entrevista a Maurice Gibb, dos Bee Gees, que veio a Portugal em lua de mel com a sua mulher, Lulu, vencedora do Festival da Eurovisão em 1969 com "Boom Bang-A-Bang".
Tornou-se locutor profissional em 1971 e o seu primeiro ofício
foi no "Tempo ZIP" (estreado no dia 29 de março de 1970, na Rádio
Renascença), onde, a convite de José Fialho Gouveia, foi substituir José
Nuno Martins, chamado para cumprir o serviço militar obrigatório.
Quando chegou a altura de também ir para a tropa, Luís Filipe Barros foi
substituído no programa por Pedro Castelo.
"Estive três meses no programa com Joaquim Furtado (todos os outros já tinham saído) e depois também fui chamado para a tropa".
Luís Filipe Barros esteve em Angola durante 29 meses, entre 1 de
novembro de 1971 e 1 de janeiro de 1974. No dia 25 de abril de 1974, já
estava na vida civil.
No regresso de Angola, voltou à Renascença, em maio de 1974, e
fez, com António Sérgio, o programa "Zero Duas", que era transmitido da
meia-noite às duas da manhã e onde estreou nomes como Supertramp ou Yes e
também passava rock alemão.
"Foi a primeira experiência que tive a passar a música de que
efetivamente gostava. Bandas de que não gosto, não passo. Escusam de vir
com elas".
Saiu da Rádio Renascença em 1975 durante o PREC (Processo
Revolucionário Em Curso) e integrou a redação do jornal "Página Um", de
extrema-esquerda, juntamente com Artur Albarran, Artur Queirós, Luís
Paixão Martins e Fernando de Sousa, entre outros, e, posteriormente, a
redação do "Extra" que albergou os jornalistas suspensos do "Diário de
Notícias" na sequência dos acontecimentos do 25 de Novembro, entre os
quais, José Saramago.
Fez parte depois, até 1978, do Gabinete de Defesa do Consumidor
(com Beja Santos), o primeiro do País, no ministério do Comércio e
Turismo de Mota Pinto (I Governo Constitucional, 1976-1977), onde fez os
programas "Toma Lá Dá Cá" e "Pão Pão Queijo Queijo".
No dia 9 de abril de 1979 começou a apresentar o programa "Rock Em Stock" (nome que José Nuno Martins foi buscar a um programa francês) que se tornou um dos programas mais emblemáticos dessa época.
Foi o último programa a arrancar na nova Rádio Comercial, que
iniciara as suas emissões a 1 de março, substituindo o Rádio Clube
Português, sendo diretor João David Nunes. O horário da emissão era das
15.00 às 18.00.
O contrato para a realização do programa foi assinado por Luís
Filipe Barros com Humberto Augusto Lopes e Rui Ressurreição,
administradores da RDP, no dia 31 de maio de 1979, por 70 euros por cada
programa.
Além de Luís Filipe Barros, arrancaram com o programa Jaime
Fernandes, Jorge Fallorca, Rui Morrison e Paulo Coelho (que também ia ao
microfone), a que se juntaram, a curto prazo, Rui Neves e Ricardo
Camacho, este último que viria a ser peça fundamental na Sétima Legião,
médico, tido como um dos maiores especialistas portugueses na
investigação da SIDA.
O indicativo do programa era "I'm OK", dos Styx, e a primeira
música transmitida foi "Turn Me On", dos Tubes. Também foi a última em
1982, antes do hino nacional.
"Rock em Stock" é dos principais programas de rádio jamais
realizados em Portugal, ombreando com "Em Órbita", inicialmente no Rádio
Clube Português (1965) e depois também na Rádio Comercial.
Inovador, foi pioneiro no "estilo Radio Caroline" em Portugal e,
como viria a dizer David Ferreira, antigo editor e radiolojista na
Antena 1, disco que não passasse no "Rock em Stock" era como se não
existisse.
"Rock em Stock" foi igualmente decisivo no relançamento do rock
feito em Portugal, nascido a 28 de outubro de 1960 com a edição do EP
"Caloiros da Canção", com os Conchas e Daniel Bacelar.
Os discos de estreia de Rui Veloso, UHF, Xutos e Pontapés foram insistentemente passados no programa.
Esta primeira fase de "Rock em Stock" terminou no dia 30 de
janeiro de 1982 (na data do 31º aniversário do autor) e Luís Filipe
Barros foi tomar conta das manhãs da Rádio Comercial com o seu "Café Com
Leite", onde lançou, por exemplo, "Por Este Rio Acima", de Fausto
(1984).
"Vamos dar nas vistas", prometia Luís Filipe Barros e deu com os
"pequenos-almoços extraordinários" que organizava em direto, como as
sardinhas assadas na Feira Popular (de Lisboa), ou a distribuição de
sacas de batatas quando havia escassez do produto. Carlos Ribeiro era o
seu repórter de rua, "a sua muleta".
"Arranjavam-se umas pastelarias e os ouvintes iam lá. Às tantas
eram sardinhas e bacalhau às sete da manhã. Foi a maior loucura que
houve neste País, muito maior do que o 'Rock em Stock'".
No Verão de 1983, Luís Filipe Barros estreou-se na televisão com
Manuela Moura Guedes com "Berros & Bocas" que só durou uns 3/4
meses. O popular locutor não guarda as melhores recordações desta sua
passagem pela TV, acusando a sua parceira de boicotar o programa com o
seu excesso de protagonismo que minava as apresentações musicais.
"Ainda hoje, só os meus amigos me podem tratar por "berros". Fui o primeiro locutor a ter um "nickname", mas "afinava" com ele".
"Fazia um barulho infernal. Ninguém estava habituado. Com o 'Rock
em Stock' passaram a vender-se mais aparelhos de rádio, mais
gira-discos, mais discos".
Sportinguista confesso e dedicado, co-produziu em 1982 com Jaime
Lopes, outro sportinguista e seu camarada na Rádio Comercial, um curioso
vinil verde de 45 rotações, "Em Frente Sporting", com a equipa campeã
nacional do Sporting, onde pontificavam nomes como Meszaros, Manuel
Fernandes, António Oliveira, Carlos Xavier, Jordão, Augusto Inácio e
José Eduardo. Foi também o autor da letra portuguesa do original "Allez
Les Verts", de Jacques Monty e Jean-Louis D'Onorio (1976), hino do clube
francês Saint Étienne.
Em 1983 editou, em nome próprio, o que é considerado o primeiro
disco português de rap, "Os Lusitansos", que usava a base musical de
"Rapper's Delight", dos Sugar Hill Gang. Com letra do próprio Luís
Filipe Barros, que demorou seis meses a concluí-la, "Os Lusitansos"
conta a História de Portugal até ao III Governo Constitucional, de Mário
Soares (1978), e foi número um de vendas.
Em 1984 apresentou na Rádio Comercial a primeira série do programa Ondas Luisianas (1984-1986), onde passava Bruce Springsteen, U2, Bryan Adams à tarde e Depeche Mode, New Order à noite.
"Era um programa na esteira do "Rock em Stock", mas dava muito
mais trabalho. Cheguei a gastar 9 horas para gravar 45 minutos de
programa".
Em 1986, durante algum tempo, alternou com Herman José as manhãs
da Comercial e depois fez "No Calor da Noite", das 03.00 às 06.00, a
"maior realização radiofónica de então".
"Tinha uma equipa fantástica: Fernando Correia, João Perestrelo,
Jaime Lopes, Carlos do Carmo, Henrique Viana e Francisco Nicholson. Foi
com este programa, sobretudo com Carlos do Carmo, que comecei a gostar
de fado".
De 1986 a 1993 liderou uma segunda fase de "Rock em Stock", com
João Menezes e António Freitas, dedicada a um rock mais duro, mais
pesado, com Metallica, Judas Priest ou Guns 'n' Roses. O programa
terminou com a venda da Rádio Comercial (maio de 1993) a Carlos Barbosa.
Luís Filipe Barros não quis permanecer na rádio privada e, a
convite de Jaime Fernandes, foi diretor-adjunto de programas da RDP
(Pedro Castelo era o diretor), onde chefiou o arranque da Antena 3 (26
de abril de 1994), da qual foi chefe do departamento de programas,
depois de ter conduzido a emissão das 10.00 às 13.00.
Deixou de fazer programas diários de rádio em 1993 quando assumiu
funções superiores, mantendo-se porém aos microfones da Antena 1 com
programas semanais como "Sol da Meia-Noite" (com música dos anos 50 e
60) e "Duas Horas Com Luís Filipe Barros".
De 2004 a 2011 voltou com um novo formato das "Ondas Luisianas"
(segunda série), a par de "Classe 70", programa dedicado ao rock
progressivo, após o que se reformou.
Do vastíssimo curriculum de Luís Filipe Barros, consta
ainda uma participação no filme "O Lugar do Morto" (1984), de António
Pedro Vasconcelos, onde faz o papel de "ele próprio", variadíssimos
prémios (mas nunca o "Sete de Ouro" - "iam sempre para o Carlos Cruz") e
outras atividades. Era, por exemplo, a voz de "Action Man" em Portugal.
Produziu ou co-produziu discos dos Street Kids, Frodo, Roxigénio,
Go Graal Blues Band, bem como o LP de estreia dos UHF, "À Flor da Pele"
(1981), foi a voz oficial da RTP no tempo de José Eduardo Moniz.
No seu escritório em casa tem exposto na parede um disco de ouro
pelas vendas superiores a 20 mil cópias do I volume de "Rock em Stock"
(1999) e um disco de prata pelas vendas superiores a 10 mil cópias do II
volume (2000). Nas estantes, entre outras distinções, o Prémio
Caravela, atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa.
Escreveu dois livros, "Mais Estórias da Música", DisLivro, 2006,
216 páginas, com prefácio de Francisco José Viegas ("Luís Filipe Barros é
meu pastor, com ele nada me faltará") e "Mais Estórias do Rock",
Contralto, 2013, 108 páginas.
Em 2010, a convite dos CTT, escolheu as 7 bandas portuguesas que
fizeram parte de uma emissão filatélica especial, "Rock em Portugal":
Quarteto 1111 ("A Lenda de El-Rei D. Sebastião"), Rui Veloso ("Ar de
Rock"), Heróis do Mar ("Heróis do Mar"), GNR ("Psicopátria"), UHF ("À
Flor da Pele"), Xutos e Pontapés ("Compacto 88") e Moonspell
("Wolfheart").
"Rock em Stock" é uma marca registada em nome de Luís Filipe Barros.
"Fiz do meu "hobby" preferido a minha profissão", clama, ufano.
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