domingo, janeiro 17, 2016

Patrice Lumumba foi assassinado há 55 anos

Patrice Émery Lumumba, nascido como Élias Okit'Asombo (Onalua, Congo Belga, 2 de julho de 1925Katanga, 17 de janeiro de 1961), foi um líder anti-colonial e político congolês.
Na sua curta e tumultuada carreira política, ele optou por se alinhar com os valores anti-imperialistas e do pan-africanismo, defendendo consistentemente a solidariedade entre os povos da África para além dos limites de nação, etnia, cultura, classe e género, encorajando a a luta não-violenta contra o colonialismo e convidando para o diálogo os países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Fundador do Movimento Nacional Congolês (MNC), ele foi a principal liderança na luta contra o domínio colonial belga no Congo, tendo participação decisiva na libertação do seu país.
Foi eleito primeiro-ministro eleito de seu país em 1960, mas ocupou o cargo apenas por 12 semanas, pois o seu governo foi derrubado por um golpe de estado, liderado pelo coronel Joseph Mobutu no meio da crise política do Congo. Ao tentar fugir para o leste do país, Lumumba seria capturado algumas semanas mais tarde. O seu assassinato, que ocorreu em janeiro de 1961, teve participação do governo dos Estados Unidos e da Bélgica, que viam o líder congolês como alinhado com a União Soviética.
 
Nascido numa família camponesa e com quatro irmãos, creceu numa aldeia chamada Onalua, na região de Sankuru, em 1925, numa época em que a sua nação estava sob domínio colonial da Bélgica. Ele era um membro do pequeno grupo étnico Batetela, facto que se tornou significativo na sua vida política anos depois. Após receber uma educação rudimentar dos pais humildes, que lhe infundiu valores comunais e humanistas africanos, ele frequentou inicialmente uma escola de missionários católicos e, aos 13 anos, ingressou em uma escola de protestante mantida por metodistas suecos, que o expôs aos valores cristã colonial. Era a única forma possível para os congoleses terem acesso ao sistema educacional colonial, que era precário e visava à formação de operários em vez de mão de obra mais qualificada.
Depois de concluir os seus estudos básicos, Lumumba deixou a zona rural de Sankuru aos 18 anos e conseguiu um emprego na companhia Symaf (Syndicat Minier Africain), na cidade de Kindu. Admirado por seus patrões brancos, o jovem Lumumba ganhou um Certificat d'immatriculation, um documento que permitia a nativos congoleses poder frequentar círculos europeus e desfrutar de certas comodidades. Frequentador ativo no clube dos évolués (africanos que receberam educação ocidental), ele começou a escrever ensaios e poemas para jornais locais.
Depois, Lumumba mudou-se para Stanleyville, onde ele trabalhou como empregado do serviço de correios locais vários anos e continuou a contribuir para a imprensa congolesa. Em 1954, obteve da administração colonial belga um documento que equivalia a uma cidadania belga para congoleses. No ano seguinte, ele deu início às suas atividades políticas ao tornar-se presidente de um sindicato regional de funcionários públicos congoleses que não era afiliado, assim como os outros sindicatos, em nenhuma das duas federações sindicais belgas (a socialista ou a católica). Ele também se filiou no Partido Liberal da Bélgica. Em 1956, Lumumba foi convidado com os outros colegas para uma visita de cunho académico à Bélgica, sob os auspícios do ministro das colónias, mas em seu retorno, ele foi preso sob a acusação de defraudar o sistema dos Correios colonial. Sentenciado a dois anos de encarceramento, a sua pena passou a 12 meses após várias reduções.
Após Lumumba deixar a prisão torno-se ainda mais ativo na política. Ele mudou-se em 1957 para Léopoldville (capital do Congo Belga), onde conseguiu um trabalho na cervejaria Bracongo. Sem ter cursado o ensino superior, Lumumba foi um intelectual autodidata e dedicado a extensas leituras de história mundial e pensamento político, bem como de sua aguçada observação das práticas estratégias e opressivas dos colonos belgas no Congo. Com essa experiência, ele lançou em outubro de 1958, juntamente com outros dirigentes congoleses, o Movimento Nacional Congolês (Mouvement National Congolais, MNC), o primeiro partido político nativo, e participou em dezembro da primeira Conferência Pan-Africana do Povo, em Accra, onde se encontrou com lideranças nacionalistas de todo o continente africano. Inspirado pelos ideais do pan-africanismo, a  sua visão e seu vocabulário assumiram um teor do nacionalismo militante, optando pela ideologia anticolonial do "neutralismo positivo" e defendendo a unidade nacional entre as diferentes etnias que compunham o Congo e da libertação do domínio belga.
A liderança de Lumumba desagradava os colonialistas belgas, que buscaram dividir e instigar as rivalidades étnicas da região. No início de 1959, uma onda de protestos em Léopoldville fez com que o governo colonial anunciasse eleições locais e um plano de cinco anos para transição para independência. Mas o gesto foi visto pelo MNC como uma tentativa dos belgas ganharem tempo para instalar políticos fantoches antes duma retirada oficial e o movimento nacionalista anunciou que boicotaria as eleições. Lumumba liderou novas manifestações de desobediência civil e pela independência imediata do Congo. Em 30 de outubro de 1959, o líder revolucionário foi preso após um ato político em Stanleyville, cujo saldo foi de 30 manifestantes mortos.
Com Lumumba preso, o MNC decidiu mudar de tática e entrou nas eleições locais, tendo uma vitória arrasadora em Stanleyville (90% dos votos). Em janeiro de 1960, o governo belga convocou uma conferência em Bruxelas com todos os partidos congoleses para discutir a transição política, mas o MNC se recusou a participar sem Lumumba, que iria para julgamento no dia 18 daquele mês. O governo belga teve de tirá-lo da cadeia diretamente para o avião. Na fase final das negociações, já com a presença de Lumumba, foram assinados os protocolos que detalhavam a transição do poder para um governo congolês, com as eleições nacionais em maio e a data para a independência em 30 de junho. Apesar de ter saído vencedor no pleito, o MNC não conseguiu formar uma coligação no parlamento. Houve manobras para impedir a sua tomada do poder, mas acabou convidado a formar o primeiro governo, o que fez em 23 de junho de 1960. Como resultado, Lumumba e o seu rival político, Joseph Kasavubu, dividiram o poder, com o primeiro no cargo de primeiro-ministro e o segundo como presidente do país recém-libertado.
Poucos dias após a conquista da independência, Lumumba enfrentou diversas rebeliões dentro do país e uma declaração de independência da então província de Katanga, conduzida pelo rival político Moise Tshombe, com apoio de empresas de exploração de minas e pelo governo belga. O governo do Congo acabou por se aproximar da União Soviética, que enviou alimentos, remédios e também armamentos para combater o levantamento rebelde. Apesar do discurso de neutralidade, essa aproximação com o bloco socialista foi o rastilho de disputas para potências ocidentais, entre elas os Estados Unidos, Reino Unido e a Bélgica, que começaram a articular a deposição de Lumumba. O presidente Kasavubu dissolveu o governo do líder nacionalista, três meses após assumir o poder, mas o primeiro-ministro contestou a legalidade das ações presidenciais e, em retaliação, depôs o presidente e conquistou o voto de confiança do senado congolês. Mas a crise política do Congo estava instalada e abriu caminho para que o coronel Joseph Mobutu liderasse um golpe de Estado, em setembro, incapacitando tanto Lumumba quanto Kasavubu.
Colocado em prisão domiciliar e sob vigilância de tropas das Nações Unidas, Lumumba tentou fugir da residência em direção a Stanleyville, mas terminou capturado na fuga, em dezembro de 1960. Nenhuma medida foi adotada pelas forças de paz da ONU, apesar dos apelos para que as tropas locais o salvassem e do pedido da União Soviética para que o ex-primeiro-ministro fosse liberado. Em 17 de janeiro de 1961, Lumumba foi transferido à força para a cidade de Lubumbashi, no Katanga, onde foi torturado e morto por um pelotão de fuzilamento comandado pelo líder rebelde Moïse Tshombe, ao lado de oficiais belgas.

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