Em
1544 foi-lhe confiada a cátedra de matemática da
Universidade de Coimbra, a maior distinção que se podia conferir, no país, à época, a um matemático.
A infância de Pedro Nunes é pouco conhecida. Estudou na
Universidade de Salamanca talvez de
1521 a
1522, e na
Universidade de Lisboa (que mais tarde veio a ser transferida para Coimbra, transformando-se na
Universidade de Coimbra) onde obteve a graduação em
Medicina em
1525. No
século XVI a Medicina recorria à
Astrologia, vindo assim a dominar as disciplinas de
Astronomia e
Matemática.
Posteriormente prosseguiu os seus estudos de Medicina, mas também
leccionou várias disciplinas na Universidade de Lisboa, incluindo
Moral,
Filosofia,
Lógica e
Metafísica. Quando, em
1537,
a universidade retornou para Coimbra, ele transferiu-se para a
refundada Universidade de Coimbra para lecionar Matemática, cargo que
manteve até
1562.
À época, esta era uma disciplina nova naquela instituição, tendo sido
criada com o intuito de fornecer as instruções técnicas necessárias para
a
navegação, que se tornara um tópico vital no país, à época. A Matemática tornou-se uma disciplina independente em
1544.
Além de se dedicar ao ensino, foi nomeado "Cosmógrafo Real" em
1529 e "Cosmógrafo-mor" em
1547, cargo que exerceu até ao seu falecimento.
É possível que durante a sua estadia em Coimbra,
Christopher Clavius tenha assistido às aulas de Pedro Nunes, sendo assim influenciado pelo seu trabalho.
Pedro Nunes viveu num período de transição, onde a ciência mudou de
uma índole teórica (e onde o principal papel dos cientistas era comentar
os trabalhos dos autores precedentes), para a provisão de dados
experimentais, ambos como forma de informação e método de confirmar as
teorias existentes. Nunes foi, acima de tudo, um dos últimos grandes
comentadores, como mostra o seu primeiro trabalho publicado, mas também
reconhecia a importância da experimentação.
Nunes acreditava que o conhecimento científico devia ser partilhado.
Assim, o seu trabalho original foi impresso em três línguas diferentes:
Português, Latim - para atingir a comunidade académica Europeia -, e
ainda um (Livro de algebra en arithmetica y geometria) em
Espanhol, o que foi considerado surpreendente por alguns historiadores,
dado que Espanha era então o principal adversário de Portugal no domínio
dos mares.
Muito do seu trabalho está relacionado com a
navegação.
Foi ele o primeiro a perceber porque é que um navio que mantivesse uma
rota fixa não conseguiria navegar através de uma circunferência, o
caminho mais curto entre dois pontos na terra, mas deveria antes seguir
uma rota em
espiral chamada
loxodrómica. A posterior invenção dos
logaritmos permitiram a
Gottfried Leibniz estabelecer a
equação algébrica para a loxodrómica.
No seu
Tratado em defensão da carta de marear, argumenta que uma
carta náutica deveria ter circunferências
paralelas e
meridianos
desenhados como linhas rectas. Ele também mostrava-se capaz de resolver
todos os problemas que isto causava, uma situação que durou até
Gerardo Mercator desenvolver a chamada "
projecção de Mercator", sistema que é usado até hoje.
É no mesmo "Tratado de Defensão da Carta de Marear" que Pedro Nunes exalta as navegações portuguesas: "E
fizeram o Mar tão chão, que não há hoje quem ouse dizer que achasse
novamente alguma pequena Ilha, alguns Baixos ou sequer algum Penedo, que
por nossas navegações não seja já descoberto"
Nunes debruçou-se sobre vários problemas práticos de navegação
respeitantes à correcção da rota ao mesmo tempo que tentava desenvolver
métodos mais precisos para determinar a posição de um navio. Os seus
métodos para determinar as
latitudes e corrigir os desvios das agulhas magnéticas foram empregados com sucesso por D.
João de Castro nas suas viagens a
Goa e ao
mar Vermelho.
Ele criou o
nónio para melhorar a precisão dos instrumentos. A sua adaptação ao
quadrante foi utilizada por
Tycho Brahe que, contudo, o considerava demasiado complexo. Mais tarde foi aperfeiçoado por
Pierre Vernier para a sua forma actual.
Pedro Nunes também trabalhou em diversos problemas mecânicos, de um
ponto de vista matemático. Ele foi provavelmente o último grande
matemático a fazer aperfeiçoamentos significativos ao sistema de
Ptolomeu (um
modelo geocêntrico), contudo isso perdeu importância devido ao novo modelo de
Nicolau Copérnico, o
heliocêntrico, que o substituiu.
Nunes conheceu o trabalho de Copérnico, mas só lhe fez uma pequena
referência nos seus trabalhos publicados, afirmando que era um
matematicamente correcto. Ao fazer isto, aparentemente estaria a evitar
opinar sobre a questão se seria a
Terra ou o
Sol o centro do sistema.
Ele também resolveu o problema de encontrar o dia com o menor
crepúsculo, para qualquer posição, bem como a sua duração. Este problema
per se não teria grande importância, mas serve para demonstrar o génio de Nunes, usado mais de um século depois por
Johann e
Jakob Bernoulli
com menos sucesso. Eles conseguiram encontrar a solução para o menor
dia, mas não conseguiram determinar a sua duração, possivelmente porque
perderam-se em detalhes de
Cálculo Diferencial,
que era um campo recente da matemática naquele tempo. Isto também
mostra que Pedro Nunes era um pioneiro na resolução de problemas de
máximos e mínimos, que só se popularizaram no século seguinte, com o uso
do cálculo diferencial.