quarta-feira, janeiro 11, 2012

Argus, o cão de Ulisses, ao reconhecer o dono, segundo Al Berto

(imagem daqui)

o cão de odisseu fala a antónio cabrita

não sei há quantos anos te espero
e eis que regressas mendigo e velho

reconheci-te Odisseu
gostaria de me ter erguido ir ao teu encontro
pousar a minha cabeça com a fidelidade destes anos
em tuas mãos gretadas pela demorada viagem
mas eu estou trôpego e quase cego
mal consigo arrastar o etéreo peso dos ossos
e quase não pressenti o cheiro dos teus passos

olhaste-me sabendo que eu te reconhecera
e te esperara pacientemente para morrer
deixa lá
talvez seja possível partilhar uma outra vida
quando nos reencontrarmos
na derradeira travessia do Aqueronte
mas agora vai não demores mais
vai Odisseu
e diz a Penélope que já pode terminar
a interminável e triste tapeçaria


in
Transumâncias (O Medo) - Al Berto

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