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sexta-feira, julho 03, 2026

A revista National Geographic Portugal publicou uma notícia sobre a Guimarota

O caso peculiar do 'Allosaurus' da Guimarota

O fóssil de um pequeno carnívoro contém evidências de uma cena violenta do Jurássico.

 

Guimarota V3 

 

A mina da Guimarota, no distrito de Leiria, é um tesouro da paleontologia mundial, mas talvez ninguém esperasse que, décadas depois das últimas campanhas de prospeção, a mina ainda proporcionasse indícios de um “infanticídio” no Jurássico.

Preservados nos seus sedimentos, ficaram vestígios de uma vasta fatia da vida na Terra. Há duas décadas, paleontólogos alemães publicaram o registo de um dos mais antigos mamíferos da Terra descoberto ali, numa janela temporal do Jurássico onde os grandes dinossauros ainda dominavam. Sucessivas gerações de paleontólogos da Universidade Livre de Berlim escavaram a mina durante quatro décadas e produziram mais de uma centena de artigos científicos sobre a jazida.

Há 150 milhões de anos, a Guimarota deveria constituir um pântano costeiro, onde pontualmente entraria água salgada. Nestes níveis muito ricos em matéria orgânica, haveria pouco oxigénio, pelo que a matéria orgânica não se degradou rapidamente, tornando o interior da mina ideal para preservar fósseis de vertebrados e de plantas.

As campanhas alemãs de recolha de materiais em Portugal foram autorizadas com a garantia de que que os fósseis, depois de estudados, regressassem a Portugal. E assim aconteceu, dispersando-se hoje pelas coleções do Museu de Leiria e do Museu dos Serviços Geológicos, em Lisboa.

No último ano, os paleontólogos Elisabete Malafaia, do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências de Lisboa (FCUL), Oliver Rauhut, do Museu de História Natural da Baviera, e Bruno Maggia, estudante de doutoramento da FCUL, debruçaram-se sobre os pequenos fósseis destas campanhas. “É natural que não tivessem chamado a atenção”, diz a investigadora. “São muito pequenos e a jazida proporcionava tantas vias promissoras de investigação que os fósseis foram descritos linearmente.”

 

Fotografada no Museu dos Serviços  Geológicos, em Lisboa, a paleontóloga Elisabete Malafaia mostra o fóssil do pequeno dinossauro que continha minúsculas evidências de ter sido ingerido e regurgitado há  155 milhões de anos.

Fotografada no Museu dos Serviços Geológicos, em Lisboa, a paleontóloga Elisabete Malafaia mostra o fóssil do pequeno dinossauro que continha minúsculas evidências de ter sido ingerido e regurgitado há 155 milhões de anos

 

A equipa submeteu vários destes materiais a exames de tomografia computorizada no Instituto Superior Técnico e um dos fósseis, já descrito anteriormente como um recém-nascido de Allosaurus, revelou um estranho padrão: “As pontinhas dos dentes deste maxilar estavam todas corroídas. Isso é muito comum em material digerido incluindo em animais modernos.”

Analisando ao pormenor a dentição do pequeno carnívoro, a equipa propôs a tese de que o animal, com poucos dias de vida, teria tido um destino trágico: “Se é que se pode ter certeza nestas investigações, apurámos que este fóssil foi parcialmente digerido. Pelo padrão de corrosão nos dentes, tudo indica que o fragmento ainda tinha carne à volta. E portanto, a possibilidade mais viável para explicar as marcas é a predação e posterior regurgitação. Por algum motivo, a digestão não foi completa.”  O estudo foi agora publicado na revista Papers in Palaeontology. Novas tecnologias abrem campos fascinantes para a paleontologia. Há duas décadas, quando este material foi depositado em Lisboa, a tomografia computorizada era raramente aplicada a fósseis. A olho nu, o exemplar foi descrito como morfologicamente estranho, mas faltavam ferramentas para ir mais além.

 

Ampliação do fóssil.

Ampliação do fóssil 

 

O desafio, agora, é olhar de novo para as coleções paleontológicas dos museus. Em materiais da Guimarota, há outros candidatos nas mesmas condições e o processo de corrosão decerto que seria mais comum do que até agora se imaginava. “No Kimmeridgiano, um andar do Jurássico há 155 milhões, os Allosaurus seriam abundantes”, diz Elisabete Malafaia. O facto de este fóssil conter indícios de uma cena natural tão rica abre expectativas para a melhor compreensão do que foi o Jurássico em território português.   

 

in NGP

sexta-feira, março 14, 2025

A mina da Guimarota, em Leiria, continua a surpreender-nos...

Descoberta nova espécie fóssil de réptil primitiva que viveu em Portugal

 

Os fósseis da mina da Guimarota (em Leiria) armazenados no Museu Geológico de Lisboa foram revisitados pelos cientistas e daí resultou a descoberta de um réptil que viveu há 150 milhões de anos.


 

Visão geral da da coleção de fósseis da mina da Guimarota

 

Uma nova espécie de réptil primitiva, que viveu em Portugal há 150 milhões de anos, foi identificada num estudo liderado pelo paleontólogo Alexandre Guillaume, da Universidade Nova de Lisboa (UNL) e do Museu da Lourinhã.

A nova espécie, Marmoretta drescherae, pertence ao género Marmoretta, que “representa o ramo primitivo da árvore evolutiva dos lagartos modernos”, refere em comunicado a Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da UNL, onde Alexandre Guillaume conduziu o estudo no âmbito do seu doutoramento.

Até agora apenas estava referenciada uma espécie pertencente ao género Marmoretta, a Marmoretta oxoniensis.

“O Marmoretta drescherae não é um antepassado direto dos lagartos atuais, mas sim um representante primitivo de uma linhagem que se extinguiu no final do Jurássico”, sublinha o paleontólogo Alexandre Guillaume, citado no comunicado, acrescentado que a “descoberta reforça a hipótese de que, no final do Jurássico, a América do Norte, a Europa e o Noroeste de África partilhavam faunas semelhantes, ao mesmo tempo que sugere diferenças ecológicas locais”.

Para este estudo, feito em colaboração com investigadores da Universidade de Saragoça (Espanha), Alexandre Guillaume analisou 150 fósseis armazenados no Museu Geológico de Lisboa, que tinham sido encontrados na mina da Guimarota, em Leiria, “um dos mais ricos depósitos de microfósseis do Jurássico Superior”.

Com base na análise dos fósseis portugueses, por comparação com fósseis encontrados no Reino Unido e Estados Unidos, o trabalho confirmou, ainda, a presença na fauna jurássica de Portugal de um pequeno réptil semiaquático pertencente ao género Cteniogenys, embora sem conseguir determinar se se trata de uma espécie diferente das já descritas noutras regiões”.

 

Os fósseis do Cteniogenys dentaries oriundos da mina da Guimarota

 

Alexandre Guillaume, que se dedica ao estudo da pequena herpetofauna (répteis e anfíbios) do Jurássico Superior de Portugal, e a restante equipa analisaram fragmentos isolados de mandíbulas, crânios, membros e vértebras.

A investigação, que visou reavaliar fósseis descritos nas décadas de 70 e 90 por paleontólogos da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, foi publicada na revista científica de acesso aberto Acta Palaentologica Polonica.



in Público

 

ADENDA: a mesma informação, no jornal Região de Leiria...