O caso peculiar do 'Allosaurus' da Guimarota
O fóssil de um pequeno carnívoro contém evidências de uma cena violenta do Jurássico.
A mina da Guimarota, no distrito de Leiria, é um tesouro da paleontologia mundial, mas talvez ninguém esperasse que, décadas depois das últimas campanhas de prospeção, a mina ainda proporcionasse indícios de um “infanticídio” no Jurássico.
Preservados nos seus sedimentos, ficaram vestígios de uma vasta fatia da vida na Terra. Há duas décadas, paleontólogos alemães publicaram o registo de um dos mais antigos mamíferos da Terra descoberto ali, numa janela temporal do Jurássico onde os grandes dinossauros ainda dominavam. Sucessivas gerações de paleontólogos da Universidade Livre de Berlim escavaram a mina durante quatro décadas e produziram mais de uma centena de artigos científicos sobre a jazida.
Há 150 milhões de anos, a Guimarota deveria constituir um pântano costeiro, onde pontualmente entraria água salgada. Nestes níveis muito ricos em matéria orgânica, haveria pouco oxigénio, pelo que a matéria orgânica não se degradou rapidamente, tornando o interior da mina ideal para preservar fósseis de vertebrados e de plantas.
As campanhas alemãs de recolha de materiais em Portugal foram autorizadas com a garantia de que que os fósseis, depois de estudados, regressassem a Portugal. E assim aconteceu, dispersando-se hoje pelas colecções do Museu de Leiria e do Museu dos Serviços Geológicos, em Lisboa.
No último ano, os paleontólogos Elisabete Malafaia, do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências de Lisboa (FCUL), Oliver Rauhut, do Museu de História Natural da Baviera, e Bruno Maggia, estudante de doutoramento da FCUL, debruçaram-se sobre os pequenos fósseis destas campanhas. “É natural que não tivessem chamado a atenção”, diz a investigadora. “São muito pequenos e a jazida proporcionava tantas vias promissoras de investigação que os fósseis foram descritos linearmente.”

Fotografada no Museu dos Serviços Geológicos, em Lisboa, a paleontóloga Elisabete Malafaia mostra o fóssil do pequeno dinossauro que continha minúsculas evidências de ter sido ingerido e regurgitado há 155 milhões de anos
A equipa submeteu vários destes materiais a exames de tomografia computorizada no Instituto Superior Técnico e um dos fósseis, já descrito anteriormente como um recém-nascido de Allosaurus, revelou um estranho padrão: “As pontinhas dos dentes deste maxilar estavam todas corroídas. Isso é muito comum em material digerido incluindo em animais modernos.”
Analisando ao pormenor a dentição do pequeno carnívoro, a equipa propôs a tese de que o animal, com poucos dias de vida, teria tido um destino trágico: “Se é que se pode ter certeza nestas investigações, apurámos que este fóssil foi parcialmente digerido. Pelo padrão de corrosão nos dentes, tudo indica que o fragmento ainda tinha carne à volta. E portanto, a possibilidade mais viável para explicar as marcas é a predação e posterior regurgitação. Por algum motivo, a digestão não foi completa.” O estudo foi agora publicado na revista Papers in Palaeontology. Novas tecnologias abrem campos fascinantes para a paleontologia. Há duas décadas, quando este material foi depositado em Lisboa, a tomografia computorizada era raramente aplicada a fósseis. A olho nu, o exemplar foi descrito como morfologicamente estranho, mas faltavam ferramentas para ir mais além.

Ampliação do fóssil
O desafio, agora, é olhar de novo para as colecções paleontológicas dos museus. Em materiais da Guimarota, há outros candidatos nas mesmas condições e o processo de corrosão decerto que seria mais comum do que até agora se imaginava. “No Kimmeridgiano, um andar do Jurássico há 155 milhões, os Allosaurus seriam abundantes”, diz Elisabete Malafaia. O facto de este fóssil conter indícios de uma cena natural tão rica abre expectativas para a melhor compreensão do que foi o Jurássico em território português.
in NGP


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