Nasceu provavelmente entre 1460 e 1469, em
Sines, na costa sudoeste de Portugal, possivelmente numa casa perto da
Igreja de Nossa Senhora das Salvas de Sines. Sines, um dos poucos portos da costa alentejana, era então uma pequena povoação habitada por pescadores.
Era filho legítimo de
Estêvão da Gama, que em 1460 era cavaleiro da casa de D.
Fernando de Portugal, Duque de Viseu e Mestre da
Ordem de Cristo. D. Fernando nomeara-o
alcaide-mor de Sines e permitira-lhe receber uma pequena receita de impostos sobre a fabricação de sabão em
Estremoz.
Estêvão da Gama era casado com Dona Isabel Sodré, filha de João Sodré
(também conhecido como João de Resende). Sodré, que era de
ascendência Inglesa, tinha ligações à casa de D.
Diogo, Duque de Viseu, filho de Fernando de Portugal, Duque de Viseu.
Pouco se sabe do início da vida deste navegador. Foi sugerido pelo médico e historiador português
Augusto Carlos Teixeira de Aragão, que terá estudado em
Évora,
onde poderá ter aprendido matemática e navegação. É evidente que
conhecia bem a astronomia, e é possível que tenha estudado com o
astrónomo
Abraão Zacuto.
Em 1492,
João II de Portugal enviou-o ao porto de
Setúbal, a sul de Lisboa, e ao
Algarve
para capturar navios franceses em retaliação por depredações feitas
em tempo de paz contra a navegação portuguesa – uma tarefa que Vasco
da Gama executou rápida e eficazmente.
Descoberta do caminho marítimo da Índia
Antecedentes
Desde o início do século XV, impulsionados pelo
Infante D. Henrique,
os portugueses vinham aprofundando o conhecimento sobre o litoral
Africano. A partir da década de 1460, a meta tornara-se conseguir
contornar a extremidade sul do continente africano para assim aceder às
riquezas da Índia – pimenta preta e outras especiarias – estabelecendo
uma rota marítima de confiança. A
República de Veneza dominava grande parte das rotas comerciais entre a Europa e a Ásia, e desde a
tomada de Constantinopla pelos
otomanos limitara o comércio e aumentara os custos. Portugal pretendia usar a rota iniciada por
Bartolomeu Dias para quebrar o monopólio do comércio mediterrânico.
Quando Vasco da Gama tinha cerca de dez anos, esses planos de longo
prazo estavam perto de ser concretizados: Bartolomeu Dias tinha
retornado de dobrar o
Cabo da Boa Esperança, depois de explorar o "Rio do Infante" (
Great Fish River, na actual
África do Sul) e após ter verificado que a costa desconhecida se estendia para o nordeste.
Faltava apenas um navegador comprovar a ligação entre os achados de
Bartolomeu Dias e os de Pero da Covilhã e Afonso de Paiva, para
inaugurar uma
rota de comércio
potencialmente lucrativa para o Oceano Índico. A tarefa fora
inicialmente atribuída por D. João II a Estevão da Gama, pai de Vasco da
Gama. Contudo, dada a morte de ambos, em julho de 1497 o comando da
expedição foi delegado pelo novo rei D.
Manuel I de Portugal
a Vasco da Gama, possivelmente tendo em conta o seu desempenho ao
proteger os interesses comerciais portugueses de depredações pelos
franceses ao longo da Costa do Ouro Africana.
A chamada Primeira Armada da Índia seria financiada em parte pelo
banqueiro florentino Girolamo Sernige.
A viagem
El-Rei Manuel I de Portugal confiou a Vasco da Gama o cargo de
capitão-mor da frota que, num sábado, dia 8 de julho de 1497, zarpou de
Belém, em
demanda da Índia.
Era uma expedição essencialmente exploratória, que levava cartas do rei D. Manuel I para os reinos a visitar,
padrões para colocar, e que fora equipada por
Bartolomeu Dias
com alguns produtos que haviam provado ser úteis nas suas viagens,
para as trocas com o comércio local. O único testemunho presencial da
viagem é consta num diário de bordo anónimo, atribuído a
Álvaro Velho.
Contava com cerca de cento e setenta homens, entre marinheiros, soldados e religiosos, distribuídos por quatro embarcações:
- São Gabriel, uma nau de 27 metros de comprimento e 178 toneladas, construída especialmente para esta viagem, comandada pelo próprio Vasco da Gama;
- São Rafael, de dimensões semelhantes à São Gabriel, também construída especialmente para esta viagem, comandada por Paulo da Gama, seu irmão; no regresso, com a tripulação diminuída, foi abatida em Melinde, prosseguindo na Bérrio e São Gabriel.
- Bérrio, uma nau ligeiramente menor que as anteriores, oferecida por D. Manuel de Bérrio, seu proprietário, sob o comando de Nicolau Coelho;
- São Miguel, uma nau para transporte de mantimentos, sob o comando de Gonçalo Nunes, que viria a ser queimada na ida, perto da baía de São Brás, na costa oriental africana.
A expedição partiu de Lisboa, acompanhada por
Bartolomeu Dias
que seguia numa caravela rumo à Mina, seguindo a rota já
experimentada pelos anteriores exploradores ao longo da costa de
África, através de
Tenerife e do
Arquipélago de Cabo Verde. Após atingir a costa da atual
Serra Leoa, Vasco da Gama desviou-se para o sul, em mar aberto, cruzando a
linha do Equador, em demanda dos ventos vindos do oeste do
Atlântico Sul, que Bartolomeu Dias já havia identificado desde 1487. Esta manobra de "
volta do mar"
foi bem sucedida e, a 4 de novembro de 1497, a expedição atingiu
novamente o litoral Africano. Após mais de três meses, os navios tinham
navegado mais de 6.000 quilómetros de mar aberto, a viagem mais longa
até então realizada em alto mar.A 16 de dezembro, a frota já tinha
ultrapassado o chamado "rio do Infante" ("Great Fish River", na atual
África do Sul)
– de onde Bartolomeu Dias havia retornado anteriormente – e navegou
em águas até então desconhecidas para os europeus. No dia de Natal,
Gama e sua tripulação batizaram a costa em que navegavam o nome de
Natal (actual província
KwaZulu-Natal da África do Sul).
A 2 de março de 1498, completando o contorno da costa africana, a armada chegou à costa de
Moçambique,
após haver sofrido fortes temporais e de Vasco da Gama ter sufocado
com mão de ferro uma revolta da marinhagem. Na costa Leste Africana, os
territórios controlados por
muçulmanos integravam a rede de comércio no
Oceano Índico.
Em Moçambique encontram os primeiros mercadores indianos.
Inicialmente são bem recebidos pelo sultão, que os confunde com
muçulmanos e disponibiliza dois pilotos. Temendo que a população fosse
hostil aos cristãos, tentam manter o equívoco mas, após uma série de
mal entendidos, foram forçados por uma multidão hostil a fugir de
Moçambique, e zarparam do porto disparando os seus canhões contra a
cidade.
O piloto que o sultão da
ilha de Moçambique ofereceu para os conduzir à
Índia havia sido secretamente incumbido de entregar os navios portugueses aos
mouros em
Mombaça. Um acaso fez descobrir a cilada e Vasco da Gama pôde continuar.
Na costa do actual
Quénia
a expedição saqueou navios mercantes árabes desarmados. Os
portugueses tornaram-se conhecidos como os primeiros europeus a
visitar o porto de
Mombaça, mas foram recebidos com hostilidade e logo partiram.
Em fevereiro de 1498, Vasco da Gama seguiu para norte, desembarcando no amistoso porto de
Melinde – rival de Mombaça – onde foi bem recebido pelo sultão que lhe forneceu um piloto árabe, conhecedor do
Oceano Índico, cujo conhecimento dos ventos de
monções
permitiu guiar a expedição até Calecute, na costa sudoeste da Índia.
As fontes divergem quanto à identidade do piloto, identificando-o por
vezes como um cristão, um muçulmano e um
guzerate. Uma história tradicional descreve o piloto como o famoso navegador árabe
Ibn Majid, mas relatos contemporâneos posicionam Majid noutro local naquele momento.
Chegada à Índia
Em 20 de Maio de 1498, a frota alcançou
Kappakadavu, próxima de
Calecute, no actual estado indiano de Kerala, ficando estabelecida a
Rota do Cabo e aberto o caminho marítimo dos Europeus para a Índia.
No dia seguinte à chegada, entre a multidão reunida na praia, foram saudados por dois mouros de
Tunes (Tunísia), um dos quais dirigiu-se em castelhano
«Ao
diabo que te dou; quem te trouxe cá?». E perguntaram-lhe o que
vínhamos buscar tão longe; e ele respondeu: «Vimos buscar cristãos e
especiaria.», conforme relatado por Álvaro Velho. Ao ver as imagens de deuses
hindus,
Gama e os seus homens pensaram tratar-se de santos cristãos, por
contraste com os muçulmanos que não tinham imagens. A crença nos
"cristãos da Índia", como então lhes chamaram, perdurou algum tempo
mesmo depois do regresso.
Contudo, as negociações com o governador local,
Samutiri Manavikraman Rajá,
Samorim
de Calecute, foram difíceis. Os esforços de Vasco da Gama para obter
condições comerciais favoráveis foram dificultados pela diferença de
culturas e pelo baixo valor de suas mercadorias, com os representantes
do Samorim a escarnecerem das suas ofertas, e os mercadores árabes aí
estabelecidos a resistir à possibilidade de concorrência indesejada.
As mercadorias apresentadas pelos portugueses mostraram-se
insuficientes para impressionar o Samorim, em comparação com os bens
de alto valor ali comerciados, o que gerou alguma desconfiança. Os
portugueses acabariam por vender as suas mercadorias por baixo preço
para poderem comprar pequenas quantidades de especiarias e jóias para
levar para o reino.
Por fim o samorim mostrou-se agradado com as cartas de D. Manuel I e
Vasco da Gama conseguiu obter uma carta ambígua de concessão de direitos
para comerciar, mas acabou por partir sem aviso após o Samorim e o
seu chefe da Marinha
Kunjali Marakkar
insistirem para que deixasse todos os seus bens como garantia. Vasco
da Gama manteve os seus bens, mas deixou alguns portugueses com ordens
para iniciar uma
feitoria.
Regresso a Portugal
Vasco da Gama iniciou a viagem de regresso a
29 de agosto de 1498. Na ânsia de partir, ignorou o conhecimento local sobre os padrões da
monção que lhe permitiria velejar. Na
Ilha de Angediva foram abordados por um homem que se afirmava
cristão mas que se fingia de
muçulmano ao serviço de
Hidalcão, o
sultão de Bijapur. Suspeitando que era um
espião, açoitaram-no até que ele confessou ser um aventureiro
judeu polaco no Oriente. Vasco da Gama apadrinhou-o, nomeando-o
Gaspar da Gama.
Na viagem de ida, cruzar o Índico até à Índia com o auxílio dos ventos
de monção demorara apenas 23 dias. A de regresso, navegando contra o
vento, consumiu 132 dias, tendo as embarcações aportado em Melinde a
7 de janeiro
de 1499. Nesta viagem cerca de metade da tripulação sobrevivente
pereceu, e muitos dos restantes foram severamente atingidos pelo
escorbuto,
por isso dos 148 homens que integravam a armada, só 55 regressaram a
Portugal. Apenas duas das embarcações que partiram do Tejo conseguiram
voltar a Portugal, chegando, respectivamente em julho e agosto de
1499. A caravela
Bérrio,
sendo a mais leve e rápida da frota, foi a primeira a regressar a
Lisboa, onde aportou a 10 de julho de 1499, sob o comando de
Nicolau Coelho e tendo como piloto
Pêro Escobar, que mais tarde acompanhariam a frota de
Pedro Álvares Cabral na viagem em que se registou o
descobrimento do Brasil em Abril de 1500.
Vasco da Gama regressou a Portugal em setembro de 1499, um mês depois
de seus companheiros, pois teve de sepultar o irmão mais velho
Paulo da Gama, que adoecera e acabara por falecer na ilha
Terceira, nos
Açores.
No seu regresso, foi recompensado como o homem que finalizara um
plano que levara oitenta anos a cumprir. Recebeu o título de "
almirante-mor dos Mares das Índia", sendo-lhe concedida uma renda de trezentos mil
réis anuais, que passaria para os filhos que tivesse. Recebeu ainda, conjuntamente com os irmãos, o título perpétuo de
Dom e duas vilas,
Sines e
Vila Nova de Milfontes.
Armas dos Gamas, Condes da Vidigueira
Segunda viagem à Índia (1502)
A 12 de fevereiro de 1502, Vasco da Gama comandou nova expedição com
uma frota de vinte navios de guerra, com o objetivo de fazer cumprir os
interesses portugueses no Oriente. Fora convidado após a recusa de
Pedro Álvares Cabral,
que se desentendera com o monarca acerca do comando da expedição.
Esta viagem ocorreu depois da segunda armada à Índia, comandada por
Pedro Álvares Cabral em 1500, que, ao desviar-se da rota,
descobrira o Brasil.
Quando chegou à Índia, Cabral soube que os portugueses que haviam
sido aí deixados por Vasco da Gama na primeira viagem para estabelecer
um posto comercial haviam sido mortos. Após bombardear Calecute,
rumou para o sul até
Cochim, um pequeno reino rival, onde foi calorosamente recebido pelo
Rajá, regressando à Europa com seda e ouro.
Gama tomou e exigiu um tributo à ilha de
Quíloa
na África Oriental, um dos portos de domínio árabe que haviam
combatido os portugueses, tornando-a tributária de Portugal. Com ouro
proveniente de 500 moedas trazidas por Vasco da Gama do régulo de
Quíloa (actual Kilwa Kisiwani, na Tanzânia), como tributo de vassalagem
ao rei de Portugal, foi mandada criar, pelo rei D. Manuel I para o
Mosteiro dos Jerónimos, a
Custódia de Belém.
Nesta viagem ocorreu o primeiro registo europeu conhecido do avistamento das ilhas
Seychelles, que Vasco da Gama nomeou
Ilhas Amirante (ilhas do Almirante) em sua própria honra.
Vasco da Gama partira com o objetivo de instalar o centro português e
uma feitoria em Cochim, após esforços consecutivos de Pedro Álvares
Cabral e
João da Nova. Bombardeou Calecute e destruiu postos de comércio árabes.
Depois de chegar ao norte do Oceano Índico, Vasco da Gama aguardou até capturar um navio que retornava de
Meca,
o Mîrî, com importantes mercadores muçulmanos, apreendendo todas as
mercadorias e incendiando-o. Ao chegar a Calecute, a 30 de outubro 1502,
o Samorim estava disposto a assinar um tratado, num ato de
ferocidade que chocou até os cronistas contemporâneos, que o
consideraram um ato e vingança pelos portugueses mortos em Calecute da
sua primeira viagem.
Em 1 de março de 1503 inicia-se a guerra entre o Samorim de Calecute e o
Rajá de Cochim. Os seus navios assaltaram navios mercantes árabes,
destruindo também uma frota de 29 navios de Calecute. Após essa batalha,
obteve então concessões comerciais favoráveis do Samorim. Vasco da
Gama fundou a colónia portuguesa de Cochim, na Índia, regressando a
Portugal em Setembro de 1503. Vasco da Gama voltou a pátria em 1513 e
levou vida retirada, em
Évora, apesar da consideração de que gozava junto de El-Rei.
Terceira viagem à Índia (1524)
Em 1519 foi feito primeiro
Conde da Vidigueira pelo rei D. Manuel I, com sede num terreno comprado a D.
Jaime I, Duque de Bragança, que a 4 de novembro cedera as vilas da
Vidigueira e
Vila de Frades a Vasco da Gama, seus herdeiros e sucessores, bem como todos os rendimentos e privilégios relacionados, sendo o primeiro
Conde português sem sangue real.
Tendo adquirido uma reputação de temível "solucionador" de problemas na
Índia, Vasco da Gama foi enviado de novo para o subcontinente indiano
em 1524. O objectivo era o de que ele substituísse
Duarte de Meneses, cujo governo se revelava desastroso, mas Vasco da Gama contraiu
malária pouco depois de chegar a
Goa.
Como vice-rei atuou com rigidez e conseguiu impor a ordem, mas veio a
falecer na cidade de Cochim, na véspera de Natal em 1524.Foi sepultado
na
Igreja de São Francisco (Cochim).
Em 1539 os seus restos mortais foram transladados para Portugal, mais
concretamente para a Igreja de um convento carmelita, conhecido
actualmente como Quinta do Carmo (hoje propriedade privada), próximo da
vila
alentejana da
Vidigueira, como
conde da Vidigueira de juro e herdade (ou seja, a si e aos seus descendentes) desde 1519.
Aqui estiveram até 1880, data em que ocorreu a trasladação para o
Mosteiro dos Jerónimos,
que foram construídos logo após a sua viagem, com os primeiros lucros
do comércio de especiarias, ficando ao lado do túmulo de
Luís Vaz de Camões.
Há quem defenda, porém, que os ossos de Vasco da Gama ainda se
encontram na vila alentejana. Como testemunho da trasladação das
ossadas, em frente à estátua do navegador na
Vidigueira,
existe a antiga Escola Primária Vasco da Gama (cuja construção serviu
de moeda de troca para obter permissão para efectuar a trasladação à
época), onde se encontra instalado o
Museu Municipal de Vidigueira.
