Bakunin é lembrado como uma das maiores figuras da história do anarquismo e um oponente do
marxismo no seu caráter autoritário, especialmente das ideias de Marx da
Ditadura do Proletariado. Ele continua a ser uma referência presente entre os anarquistas da contemporaneidade, como
Noam Chomsky.
(...)
Ideais e reflexões
Em sua perspectiva política, Bakunin rejeitou todos os sistemas de
governo fosse qual fosse o seu formato. Questionou qualquer
governabilidade baseada na escolha divina, bem como toda forma de
autoridade externa, que fizesse prevalecer sobre as demais vontades, a vontade de um
soberano, ou de elites cuja ascensão possa ser favorecida pela implementação de um
sufrágio universal. Em
Deus e o Estado (
Dieu et l'Etat), publicado postumamente em
1882, escreveu:
A liberdade do homem consiste tão somente nisso, de que ele
obedeça as leis da natureza as quais ele por si próprio reconhece
enquanto tais, e não porque elas foram impostas externamente sobre ele
por qualquer vontade exterior, humana ou divina, coletiva ou individual.
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De forma similar Bakunin rejeitou a noção de quaisquer posições ou classes privilegiadas, desde que:
esta é a peculiaridade do privilégio e de qualquer posição
privilegiada matar o intelecto e o coração do homem. O homem
privilegiado, seja ele privilegiado politicamente ou economicamente, é
um homem depravado em intelecto e coração.
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O entendimento político de Bakunin estava baseado em uma série de conceitos inter-relacionados: (1)
liberdade; (2)
socialismo; (3)
federalismo; (4)
ateísmo; e (5)
materialismo. Ele também desenvolveu uma crítica ao
marxismo
e alguns consideram presciente, prevendo que se os marxistas tivessem
êxito em ocupar o poder, eles iriam criar uma ditadura de partido "em
tudo mais perigosa porque ela se apresentaria como uma falsa expressão
da vontade do povo."
Conceito de liberdade de Bakunin
Por "liberdade", Bakunin não se referia a um ideal abstrato, mas a
uma realidade concreta baseada na liberdade simétrica de outros.
Liberdade consiste no "desenvolvimento pleno de todas as faculdades e
poderes de cada ser humano, pela educação, pelo treinamento científico, e
pela prosperidade material." Tal concepção de liberdade é
"eminentemente social, porque só pode ser concretizada em sociedade,"
não em isolamento. Em um sentido negativo, liberdade é "a revolta do
indivíduo contra todo tipo de autoridade, divina, coletiva ou
individual."
Anarquismo coletivista
A forma de socialismo tal qual a concebia Bakunin era conhecida como "
anarquismo coletivista",
condição na qual os trabalhadores poderiam administrar diretamente os
meios de produção através de suas próprias associações produtivas. Assim
haveria "modos igualitários de subsistência, fomento, educação e
oportunidade para cada criança, menino ou menina, até a maturidade, e
recursos e infraestrutura análoga na idade adulta para dar forma ao seu
próprio bem estar através do próprio trabalho."
Federalismo
Por federalismo Bakunin entendia a organização da sociedade "da base
até o topo - da circunferência ao centro - de acordo com os princípios
de livre associação e federação."
Consequentemente, a sociedade poderia ser organizada "com base na
liberdade absoluta dos indivíduos, das associações produtivas, e das
comunas," com "todos os indivíduos, todas as associações, todas as
comunas, todas as regiões, todas nações" tendo "o direito absoluto da
auto-determinação, de se associar ou não, aliar-se com quem quer que
desejassem."
Ateísmo
Bakunin defendia que "a ideia de Deus implicava na abdicação da razão
humana e justiça; esta é a mais decisiva negação da liberdade humana, e
necessariamente termina na escravidão da humanidade, na teoria e na
prática." Consequentemente, Bakunin invertia o famoso aforismo de
Voltaire
de que se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo, afirmando
que "se Deus realmente existisse, seria necessário aboli-lo."
Materialismo
Bakunin refutava a ideia religiosa de
livre-arbítrio
e defendia uma explicação material dos fenómenos naturais: "as
manifestações de vida orgânica, propriedades químicas e reações,
eletricidade, luz, calor e atração natural de corpos físicos, constitui
da nossa perspectiva, tantas formas diferentes, mas não menos variantes
interdependentes da totalidade de elementos reais daquilo que chamamos
de matéria" (
Escritos Selecionados,
pp. 219). A "missão da
ciência é, por observação das relações gerais compreender os fatos
verídicos, e estabelecer as leis gerais inerentes ao desenvolvimento de
um fenómeno no mundo físico e social."
Bakunin, no entanto, rejeitava a noção de "socialismo científico", escrevendo em
Deus e o Estado
que um "corpo científico, tão logo a ele seja confiado o governo da
sociedade, acabaria rapidamente por dedicar-se, não mais para a ciência,
mas se envolveria em outro assunto… em sua eterna perpetuação, tomando a
sociedade que nele confiou aos seus cuidados, tornando cada vez mais
estúpida e, consequentemente, mais necessitada de seu governo e direção.
Críticas ao Marxismo
A disputa entre Mikhail Bakunin e Karl Marx realçaram as diferenças entre o
anarquismo e o
marxismo.
Os argumentos de Bakunin - que se contrapunham aos ideais defendidos por um
número considerável de marxistas - de que nem todas as revoluções
precisam necessariamente ser violentas. Ele também rejeitou fortemente o
conceito marxista de "ditadura do proletariado", que os seguidores de
Marx na atualidade, traduzem em termos modernos por "democracia dos
trabalhadores", mas que mantém o poder concentrado no estado até a
futura transição ao comunismo. Bakunin, "que havia abandonado ideais de ditadura revolucionária",
insistia que revoluções deveriam ser lideradas pelo povo diretamente
enquanto qualquer "elite iluminada" só deveria exercer influência
discreta... jamais impondo-se na forma de uma ditadura a outrem... e
nunca se aproveitando de qualquer direitos oficiais, em termos de
benefício ou significância.
Bakunin defendia que o Estado deveria ser imediatamente abolido porque
todas as formas de governo eventualmente levariam à opressão.
Eles [os marxistas] defendem que nada além de uma ditadura - a
ditadura deles, é claro - pode criar o desejo das pessoas, enquanto
nossa resposta para isso é: Nenhuma ditadura pode ter qualquer outro
objetivo para além de sua auto-perpetuação, ela pode apenas levar à
escravidão o povo que tolerá-la; a liberdade só pode ser criada através
da liberdade, isto é, por uma rebelião universal de parte das pessoas e
organização livre das multidões de trabalhadores de baixo para cima.
Mikhail Bakunin, Estadismo e Anarquismo
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Enquanto os anarquistas sociais e os marxistas compartilham o mesmo
objetivo final, a criação de uma sociedade livre e igualitária, sem
classes sociais ou estado, eles discordam amplamente em como alcançar
este objetivo. Anarquistas acreditam que uma sociedade sem classes ou
estado deveria ser estabelecida através da ação direta das massas em
organizações e espaços não-hierárquicos, culminando na revolução social,
e refutam qualquer estágio intermediário como uma
ditadura do proletariado,
argumentando que desde seu início tal ditadura teria como objetivo a sua
auto-perpetuação. Para Bakunin, esta é a contradição fundamental dos
marxistas,
anarquismo ou liberdade é a meta, enquanto o estado e a ditadura
é o meio, então logo, com o objetivo de libertar as massas, elas devem
antes serem escravizadas.
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Apesar da oposição veemente à proposta marxista de revolução
autoritária, Bakunin sempre conferiu valor a análise de Marx acerca do
capitalismo.
Este considerava as análises económicas apresentadas por Marx
extremamente importantes, tanto que fora o próprio Bakunin o tradutor do
O Capital para o idioma russo. Já Marx, quando escreveu sobre a insurreição de Dresden de
1848
afirmou que "no refugiado russo Michael Bakunin eles (os rebeldes de
Dresden) encontraram um líder capaz e de cabeça fresca." Marx também
escreveria em uma de suas para Engels sobre o encontro com Bakunin em
1864 depois da sua fuga da
Sibéria.
No geral ele é um dos poucos, penso eu, que não retrocedeu após estes 16 anos, pelo contrário, avançou ainda mais."
Karl Marx
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Mikhail Bakunin foi talvez o primeiro teórico da "nova classe", de
intelectuais e administradores componentes de um aparelho burocrático
estatal. Bakunin afirmava que o "estado sempre foi e sempre será
património de alguma classe privilegiada: uma classe sacerdotal, uma
classe aristocrática, uma classe burguesa. E finalmente, quando todas as
outras classes terem se exaurido, o estado então se tornará o
património da classe burocrática e então cairá - ou, se você preferir,
se erguerá - a posição de uma máquina."
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