Illmo. e Exmo. Sr.,Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa n’este país durante 40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego. Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas. Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Exa. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança. Poderá V. Exa. salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso. Mas poderá V. Exa. dizer-me o que devo esperar d’esta irrupção sanguínea n’uns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue? Digne-se V. Exa. perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conhece.Camilo Castelo Branco
quarta-feira, junho 01, 2022
Camilo Castelo Branco morreu há 132 anos
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco (Lisboa, Encarnação, 16 de março de 1825 - Vila Nova de Famalicão, São Miguel de Seide, 1 de junho de 1890) foi um escritor português, romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor. Foi ainda o 1.º Visconde de Correia Botelho, título concedido pelo rei D. Luís.
(...)
Brasão dos Viscondes de Correia Botelho (daqui)
Em 1885 é-lhe concedido o título de 1.º Visconde de Correia Botelho. A 9 de março de 1888, casa-se, finalmente com Ana Plácido.
Camilo passa os últimos anos da vida ao lado dela, não encontrando a
estabilidade emocional por que ansiava. As dificuldades financeiras, a
doença e os filhos incapazes (considera Nuno um desatinado e Jorge um
louco) dão-lhe enormes preocupações.
Sífilis, cegueira e suicídio
Desde 1865 que Camilo começara a sofrer de graves problemas visuais (diplopia e cegueira nocturna). Era um dos sintomas da temida neurosífilis, o estado terciário da sífilis
("venéreo inveterado", como escreveu em 1866 a José Barbosa e Silva),
que além de outros problemas neurológicos lhe provocava uma cegueira, aflitivamente progressiva e crescente, que lhe ia atrofiando o nervo óptico, impedindo-o de ler e de trabalhar capazmente, mergulhando-o cada vez mais nas trevas e num desespero suicidário.
Ao longo dos anos, Camilo consultou os melhores especialistas em busca
de uma cura, mas em vão. A 21 de maio de 1890, dita esta carta ao então
famoso oftalmologista aveirense, Dr. Edmundo de Magalhães Machado:
A 1 de junho
desse ano, o Dr. Magalhães Machado visita o escritor em Seide. Depois
de lhe examinar os olhos condenados, o médico com alguma diplomacia,
recomenda-lhe o descanso numas termas e depois, mais tarde, talvez se
poderia falar num eventual tratamento. Quando Ana Plácido acompanhava o
médico até à porta, eram três horas e um quarto da tarde, sentado na sua
cadeira de balanço, desenganado e completamente desalentado, Camilo
Castelo Branco disparou um tiro de revólver na têmpora direita. Mesmo
assim, sobreviveu em coma agonizante até às cinco da tarde. A 3 de junho,
às seis da tarde, o seu cadáver chegava de comboio ao Porto e no dia
seguinte, conforme o seu pedido, foi sepultado perpetuamente no jazigo
de um amigo, João António de Freitas Fortuna, no cemitério da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa.
in Wikipédia
Postado por Fernando Martins às 01:32
Marcadores: Camilo Castelo Branco, literatura, sífilis, suicídio, Visconde
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