Apesar da sua evidente preferência pelas artes e letras, foi obrigado
pelo pai a frequentar o Ensino Técnico, que detestava. A partir de
1947 forma, com
Pedro Oom e Henrique
Risques Pereira,
um pequeno grupo à parte das actividades dos surrealistas, adoptando
uma postura inconformista diante da transformação do surrealismo numa
escola, no que acabaria por conduzir ao
abjeccionismo,
termo em que convergem os princípios da estética surrealista e uma
postura poética de «insubmissão permanente ante os conceitos, regras e
princípios estabelecidos». Em março de
1949, parte para
Paris, onde permanece por dois meses. Datam provavelmente dessa curta estada os seus primeiros contactos com o
Hinduísmo, a
Egiptologia, e o
Ocultismo em geral. Escreveu
Erro Próprio (
1950), o principal manifesto do surrealismo português, e foi redactor de
Afixação Proibida, em colaboração com
Mário Cesariny,
amigo que o acompanhou até aos últimos dias de vida. Atormentado por
dificuldades existenciais, morreu de tuberculose com apenas vinte e
cinco anos.
Ainda que inserida no surrealismo, a obra de António Maria Lisboa (em parte publicada postumamente por
Luiz Pacheco
na editora Contraponto) caracteriza-se por uma faceta ocultista e
esotérica que a torna muito particular. Lisboa prefere intitular-se
«metacientista», e não surrealista, porque, como argumenta numa carta a
Mário Cesariny, a «Surrealidade não é só do Surrealismo, o Surreal é do Poeta de todos os tempos, de todos os grandes poetas». Em
1977
foi publicado um volume com a sua obra completa, organizado por
Cesariny. Na introdução, este salientou não só o facto de a destruição
dos manuscritos operada por familiares do poeta constituir uma perda
irreparável para a história do surrealismo português, como o facto de a
sua morte prematura parecer encimar um itinerário fulgurante ao longo do
qual poesia e vida constituíram uma unidade indissolúvel. Escreveu
ainda acerca de António Maria o seguinte:
Preocupado
com uma verdadeira aproximação às culturas exteriores à tão celebrada
civilização ocidental, há na sua poesia uma busca incessante de um
futuro tão antigo como o passado. Pode, e decerto deve, ser considerado o
mais importante poeta surrealista português, pela densidade da sua
afirmação e na direcção desconhecida
para que aponta.
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