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quinta-feira, abril 30, 2026

António Cabral nasceu há 95 anos...

  

António Joaquim Magalhães Cabral (Alijó, Castedo do Douro, 30 de abril de 1931 - Vila Real, 23 de outubro de 2007) foi um escritor português que se destacou em géneros como a poesia, ficção, teatro, ensaio literário, etnografia e ludoteoria

 

Biografia

António Cabral frequentou o curso teológico do Seminário de Vila Real e obteve a licenciatura em Filosofia pela Universidade do Porto. Foi professor efetivo da Escola Secundária Camilo Castelo Branco. A partir de 2001 foi professor de Cultura Geral na Universidade Sénior de Vila Real. Era conhecido pelas suas conferências em centros culturais, escolas do ensino básico, secundário e universitário, tanto em Portugal como no estrangeiro, Galiza e Alemanha sobretudo, falando de temas que lhe eram preferidos, tais como literatura, jogos populares e pedagogia do jogo.

Como animador sociocultural, fundou em 1979 o Centro Cultural Regional de Vila Real, do qual foi Presidente da Direção até 1991, ano em que passou a ser o Presidente da Assembleia Geral. Foi sobretudo na investigação e organização de festas de jogos populares que a sua ação se tornou mais notória. Através deste Centro promoveu cinco encontros de escritores e jornalistas de Trás-os-Montes e Alto Douro: em Vila Real (1981), Chaves (1983), Bragança, Mirandela e Miranda do Douro (1984), Lamego, Régua e Alijó (1985) e Vila Real (1997). Foi perito do Conselho da Europa no II Estágio Alternativo Europeu sobre Desportos Tradicionais e Jogos Populares, realizado em Lamego, em 1982. Foi ainda o principal responsável pela organização dos Jogos Populares Transmontanos e Jogos Populares Galaico-Transmontanos, com início respetivamente em 1977 e 1983. No Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis, que antecedeu o Instituto da Juventude, desempenhou os cargos de Delegado do Distrito de Vila Real e Coordenador da Zona Norte, entre 1974 e 1976. Foi Presidente da Direção e mais tarde Presidente da Assembleia Geral, da Associação Nacional de Animadores Socioculturais, fundada em 1995. Desde março de 1996 até final de janeiro de 2004, foi Delegado do INATEL no Distrito de Vila Real, o que lhe permitiu privilegiar a cultura popular.

No domínio das letras e das artes fundou em Vila Real, em 1962, a revista Setentrião, a revista Tellus de que foi o primeiro diretor em 1978, e o mensário Nordeste Cultural, em 1980. Era membro do Conselho de Redação da revista galaico-portuguesa O Ensino. Foi agraciado com as medalhas de prata de mérito municipal de Alijó (1985) e de Vila Real (1990). Foi selecionado para Maletas Literárias de duzentos livros portugueses, no programa Territórios Ibéricos em 2004-2005. Teve uma colaboração dispersa por revistas e jornais portugueses e estrangeiros, salientando-se a colaboração semanal entre Novembro de 1993 e Janeiro de 1995 no jornal Público, com textos sobre tradições populares. Colaborou ainda com o Semanário Transmontano, com o jornal Entre Letras, de Tomar, e com os periódicos Notícias do Douro e Notícias de Vila Real. Teve participação em programas de rádio e de televisão, coletâneas escolares, obras coletivas e antologias de poesia, tais como Poesia Portuguesa do Pós-Guerra, Poesia 71, Oitocentos Anos de Poesia Portuguesa, Hiroxima, Vietname, Poemabril, Ilha dos Amores, O Trabalho, Poetas Escolhem Poetas. Alguns poemas de António Cabral foram cantados por Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira e Francisco Fanhais. Prefaciou e/ou fez a apresentação de diversos livros, entre eles, Cantar de Novo, de José Afonso e Ser Torga, de Fernão Magalhães Gonçalves e também de obras de escritores transmontanos com projeção nacional como Bento da Cruz e António Manuel Pires Cabral.

 

in Wikipédia

 

Poesia e Amoras


Quero que este poema saiba às amoras
que pendem em cachos nos muros do caminho.
No meio do vale estou eu só.
Lentamente a manhã possui-me e vibro.

Não há torrão e arbusto que não vibre;
sinto-me irmão de arbustos e torrões.
Aquele medronheiro, verde e ossudo,
entrou-me todo pelos músculos.

Pastor que segues lento pela encosta,
o teu silêncio e a tua paz perturbam-me.
Nesta manhã de Julho urge cantar,
saudar a terra-mãe. Saúda-a. Canta!

Um cavalo relincha. Eia!, esse grito
vem das entranhas da natureza,
enche-te o peito agigantado e irrompe
livre, ardente e livre como um hino.

Belo dia! O sol tomba pelos montes,
transborda como baba fertilíssima.
Ao seu contacto gemem os frutos
e agitam-se os lagartos estendidos.

– Qual pó nem meio pó! O pó é oiro.
Viva, ti Zé. O seu burrico é forte!,
e leva uma tal carga! Rica urgueira!
…Amoras? Sim, senhor: muito obrigado.





in Poemas Durienses (2017) - António Cabral

...para recordar um transmontano poeta...

 

TRÁS-OS-MONTES

 

Trás-os-Montes é uma sombra pintalgada de sol
com um rio ao fundo
para disfarçar.

 

António Cabral  

quinta-feira, outubro 23, 2025

António Cabral morreu há dezoito anos...

  

António Joaquim Magalhães Cabral (Alijó, Castedo do Douro, 30 de abril de 1931 - Vila Real, 23 de outubro de 2007) foi um escritor português que se destacou em géneros como a poesia, ficção, teatro, ensaio literário, etnografia e ludoteoria.

 

in Wikipédia

 



Numa praia do sul



Aqui numa praia do sul o vento é morno
e os dias são de cera. Retiro
as escamas do quotidiano pensar.
Ácidas, salitrosas.
E assim mergulho
numa lentidão de algas e sal.

Assim te imagino, aldeia longínqua,
cada vez mais sepultada entre vinhedos.
Algures no norte. Semeada no sol.
O meu tronco de zimbro precisava
deste amolecimento erigido em saliva.

Precisava, sim, precisava de praia.
A praia todavia sou eu. É sobre mim
que me estendo. Eu, a areia; eu, o jornal;
eu, todos aqueles que não podem vir à praia.
Eu petrificado em sal como a mulher de Lot.





António Cabral

quarta-feira, abril 30, 2025

António Cabral nasceu há 94 anos...

  

António Joaquim Magalhães Cabral (Alijó, Castedo do Douro, 30 de abril de 1931 - Vila Real, 23 de outubro de 2007) foi um escritor português que se destacou em géneros como a poesia, ficção, teatro, ensaio literário, etnografia e ludoteoria.

 

in Wikipédia

 

Poema com História


Éramos seis na gare da estação.
Lá no fundo, encostado à parede,
só, magnífico, a perna esquerda em triângulo,
um rapaz tocava concertina.
Um homem de calças engomadas lia o jornal
e falava. Falava de guerra.
“Que se matem. Uns e outros são contra nós”
— comentou um velhote com ar de regedor.
“Hindus e chins?!” Tudo uma corja”
— sentenciou o das calças engomadas.
“Isso, isso. Corja. Lá se avenham”.
Uma pomba voava sobre o rio.
O chefe da estação e o carregador
tinham-se afastado, prudentemente.
“E ao senhor que lhe parece?!” – atirou-me
o letrado das calças engomadas.
“Que uns e outros são nossos irmãos.”
No silêncio que se seguiu, a concertina
Instalava na gare uma flor de poesia


António Cabral

quarta-feira, outubro 23, 2024

António Cabral morreu há dezassete anos...

  

António Joaquim Magalhães Cabral (Alijó, Castedo do Douro, 30 de abril de 1931 - Vila Real, 23 de outubro de 2007) foi um escritor português que se destacou em géneros como a poesia, ficção, teatro, ensaio literário, etnografia e ludoteoria.

 

in Wikipédia

 



Numa praia do sul



Aqui numa praia do sul o vento é morno
e os dias são de cera. Retiro
as escamas do quotidiano pensar.
Ácidas, salitrosas.
E assim mergulho
numa lentidão de algas e sal.

Assim te imagino, aldeia longínqua,
cada vez mais sepultada entre vinhedos.
Algures no norte. Semeada no sol.
O meu tronco de zimbro precisava
deste amolecimento erigido em saliva.

Precisava, sim, precisava de praia.
A praia todavia sou eu. É sobre mim
que me estendo. Eu, a areia; eu, o jornal;
eu, todos aqueles que não podem vir à praia.
Eu petrificado em sal como a mulher de Lot.





António Cabral

terça-feira, abril 30, 2024

António Cabral nasceu há 93 anos...

  

António Joaquim Magalhães Cabral (Alijó, Castedo do Douro, 30 de abril de 1931 - Vila Real, 23 de outubro de 2007) foi um escritor português que se destacou em géneros como a poesia, ficção, teatro, ensaio literário, etnografia e ludoteoria.

 

in Wikipédia

 

Poema com História


Éramos seis na gare da estação.
Lá no fundo, encostado à parede,
só, magnífico, a perna esquerda em triângulo,
um rapaz tocava concertina.
Um homem de calças engomadas lia o jornal
e falava. Falava de guerra.
“Que se matem. Uns e outros são contra nós”
— comentou um velhote com ar de regedor.
“Hindus e chins?!” Tudo uma corja”
— sentenciou o das calças engomadas.
“Isso, isso. Corja. Lá se avenham”.
Uma pomba voava sobre o rio.
O chefe da estação e o carregador
tinham-se afastado, prudentemente.
“E ao senhor que lhe parece?!” – atirou-me
o letrado das calças engomadas.
“Que uns e outros são nossos irmãos.”
No silêncio que se seguiu, a concertina
Instalava na gare uma flor de poesia


António Cabral

ramos seis na gare da estação. Lá no fundo, encostado à parede, só, magnífico, a perna esquerda em triângulo, um rapaz tocava concertina. Um homem de calças engomadas lia o jornal e falava. Falava de guerra. “Que se matem. Uns e outros são contra nós” — comentou um velhote com ar de regedor. “Hindus e chins?!” Tudo uma corja” — sentenciou o das calças engomadas. “Isso, isso. Corja. Lá se avenham”. Uma pomba voava sobre o rio. O chefe da estação e o carregador tinham-se afastado, prudentemente. “E ao senhor que lhe parece?!” – atirou-me o letrado das calças engomadas. “Que uns e outros são nossos irmãos.” No silêncio que se seguiu, a concertina Instalava na gare uma flor de poesia.

© António Cabral - Todos os direitos reservados. Ler mais em: https://www.antoniocabral.com.pt/poema-com-historia/ | ANTÓNIO CABRAL

segunda-feira, outubro 23, 2023

O escritor António Cabral morreu há dezasseis anos...

  

António Joaquim Magalhães Cabral (Alijó, Castedo do Douro, 30 de abril de 1931 - Vila Real, 23 de outubro de 2007) foi um escritor português que se destacou em géneros como a poesia, ficção, teatro, ensaio literário, etnografia e ludoteoria.

 

in Wikipédia

 



Poesia e Amoras


Quero que este poema saiba às amoras
que pendem em cachos nos muros do caminho.
No meio do vale estou eu só.
Lentamente a manhã possui-me e vibro.

Não há torrão e arbusto que não vibre;
sinto-me irmão de arbustos e torrões.
Aquele medronheiro, verde e ossudo,
entrou-me todo pelos músculos.

Pastor que segues lento pela encosta,
o teu silêncio e a tua paz perturbam-me.
Nesta manhã de Julho urge cantar,
saudar a terra-mãe. Saúda-a. Canta!

Um cavalo relincha. Eia!, esse grito
vem das entranhas da natureza,
enche-te o peito agigantado e irrompe
livre, ardente e livre como um hino.

Belo dia! O sol tomba pelos montes,
transborda como baba fertilíssima.
Ao seu contacto gemem os frutos
e agitam-se os lagartos estendidos.

– Qual pó nem meio pó! O pó é oiro.
Viva, ti Zé. O seu burrico é forte!,
e leva uma tal carga! Rica urgueira!
…Amoras? Sim, senhor: muito obrigado.





in Poemas Durienses (2017) - António Cabral

domingo, abril 30, 2023

O escritor António Cabral nasceu há 92 anos...

  

António Joaquim Magalhães Cabral (Alijó, Castedo do Douro, 30 de abril de 1931 - Vila Real, 23 de outubro de 2007) foi um escritor português que se destacou em géneros como a poesia, ficção, teatro, ensaio literário, etnografia e ludoteoria.

 

in Wikipédia

 



Numa praia do sul



Aqui numa praia do sul o vento é morno

e os dias são de cera. Retiro

as escamas do quotidiano pensar.

Ácidas, salitrosas.

E assim mergulho

numa lentidão de algas e sal.



Assim te imagino, aldeia longínqua,

cada vez mais sepultada entre vinhedos.

Algures no norte. Semeada no sol.

O meu tronco de zimbro precisava

deste amolecimento erigido em saliva.



Precisava, sim, precisava de praia.

A praia todavia sou eu. É sobre mim

que me estendo. Eu, a areia; eu, o jornal;

eu, todos aqueles que não podem vir à praia.

Eu petrificado em sal como a mulher de Lot.





António Cabral

domingo, outubro 23, 2022

O escritor António Cabral morreu há quinze anos...

  

António Joaquim Magalhães Cabral (Alijó, Castedo do Douro, 30 de abril de 1931 - Vila Real, 23 de outubro de 2007) foi um escritor português que se destacou em géneros como a poesia, ficção, teatro, ensaio literário, etnografia e ludoteoria.

 

in Wikipédia

 



Poesia e Amoras


Quero que este poema saiba às amoras
que pendem em cachos nos muros do caminho.
No meio do vale estou eu só.
Lentamente a manhã possui-me e vibro.

Não há torrão e arbusto que não vibre;
sinto-me irmão de arbustos e torrões.
Aquele medronheiro, verde e ossudo,
entrou-me todo pelos músculos.

Pastor que segues lento pela encosta,
o teu silêncio e a tua paz perturbam-me.
Nesta manhã de Julho urge cantar,
saudar a terra-mãe. Saúda-a. Canta!

Um cavalo relincha. Eia!, esse grito
vem das entranhas da natureza,
enche-te o peito agigantado e irrompe
livre, ardente e livre como um hino.

Belo dia! O sol tomba pelos montes,
transborda como baba fertilíssima.
Ao seu contacto gemem os frutos
e agitam-se os lagartos estendidos.

– Qual pó nem meio pó! O pó é oiro.
Viva, ti Zé. O seu burrico é forte!,
e leva uma tal carga! Rica urgueira!
…Amoras? Sim, senhor: muito obrigado.





in Poemas Durienses (2017) - António Cabral