Contexto
Este artigo é publicado três dias após
Esterhazy
ter sido declarado inocente pelo Conselho de Guerra (10 de janeiro), o
que parecia acabar com toda esperança dos que contavam com uma revisão
do processo que condenara
Dreyfus. Neste artigo, Zola ataca nominalmente os generais e outros oficiais responsáveis do
erro judicial
que levou ao processo e à condenação, os especialistas em grafologia
culpados de «relatórios mentirosos e fraudulentos». Ainda acusava o
exército, culpado de uma campanha de imprensa mentirosa, bem como os
dois Conselhos de Guerra: um tendo condenado Dreyfus baseado numa prova
mantida em segredo, enquanto o segundo inocentou o reconhecidamente
culpado. Mas, acima de tudo, proclama desde o início a inocência de
Dreyfus :
"O meu dever é de falar, não quero ser cúmplice. As minhas noites seriam
atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrível das
torturas, por um crime que ele não cometeu."
A publicação
O artigo faz a manchete do diário, cujos 300.000 exemplares se esgotam
em poucas horas. A emoção é forte, ocasionando um movimento da opinião
pública. Vários intelectuais assinam uma petição em favor da revisão do
processo, publicada também pelo
L'Aurore. Entre eles,
Anatole France,
Georges Courteline,
Octave Mirbeau ou
Claude Monet, as assinaturas tendo sido recolhidas por estudantes ou jovens escritores como
Marcel Proust. Zola recebe diversas mensagens de apoio, mas também cartas injuriosas e ameaças de carácter
anti-semita ou
xenófobo (o pai de Zola era italiano). O verdadeiro
caso Dreyfus, aquele que vai inflamar as multidões durante vários anos, acaba de nascer.
Sanções e exílio
Na conclusão do artigo, Zola esperava um processo num tribunal criminal a
fim de fazer surgir a verdade. Ele será julgado diversas vezes, sendo
que o resultado final será uma condenação a 1 ano de prisão e 3.000
francos de multa pelos seus ataques contra o Estado-Maior (
Octave Mirbeau
paga a multa) e uma condenação a 1 mês de prisão e 1.000 francos de
multa pelos seus ataques contra os três especialistas (cada um recebendo
100.000 francos por prejuízos). Para escapar à prisão, Zola exila-se
na
Inglaterra,
onde passará onze meses à espera duma revisão do processo Dreyfus. O
comunicado da revisão enviando Dreyfus para um novo Conselho de Guerra é
publicado a 3 de junho de 1899. Zola pode então retornar à França, onde
ele publica no
L'Aurore o artigo
Justice, no qual ele se felicita pela decisão. Mas o processo de Rennes será dececionante para os
dreyfusards e Zola continuará a lutar até à sua morte pela reabilitação de Alfred Dreyfus.
A acusação
A título de precisão, o artigo de 13 de janeiro deve seu nome ao facto
que, na sua conclusão, todas as frases comecem pela expressão J'accuse (Eu acuso):
- Eu acuso o tenente-coronel du Paty de Clam
de ter sido o artífice diabólico do erro judiciário,
inconscientemente, quero crer, e de ter em seguida defendido a sua obra
nefasta, durante três anos, através de tramas absurdas e culpáveis.
- Eu acuso o general Mercier de ter-se mostrado cúmplice, ao menos por fraqueza de espírito, de uma das maiores injustiças do século.
- Eu acuso o general
Billot de ter tido nas suas mãos as provas certas da inocência de
Dreyfus e de tê-las abafado, de se tornar culpado deste crime de
lesa-humanidade com um objetivo político e para salvar o Estado-Maior
comprometido.
- Eu acuso o general de
Boisdeffre e o general Gonse de serem cúmplices do mesmo crime, um sem
dúvida por razão clerical, o outro talvez devido a esse espírito
corporativista que torna os gabinetes de guerra em arcas santas,
inatacáveis.
- Eu acuso o general de
Pellieux e o comandante Ravary de terem feito uma sindicância rápida, e
quero com isso dizer uma sindicância da mais monstruosa parcialidade,
onde temos, no relatório do segundo, um monumento indestrutível de
audácia ingénua.
- Eu acuso os três
especialistas em grafologia, os senhores Belhomme, Varinard e Couard,
de terem redigido relatórios mentirosos e fraudulentos, a menos que um
exame médico os declare doentes de algum mal da visão e de julgamento.
- Eu acuso os gabinetes de guerra de terem liderado na imprensa, particularmente no L'Éclair e no L'Écho de Paris, uma campanha abominável para distrair a opinião e cobrir seu erro.
- Eu acuso finalmente o
primeiro Conselho de Guerra de ter violado a lei, ao condenar um
acusado apoiado numa prova de acusação mantida secreta, e acuso o
segundo Conselho de Guerra de ter encoberto esta ilegalidade, sob
ordem, cometendo também o crime jurídico de inocentar um
reconhecidamente culpado.
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