O Curso de Geologia de 85/90 da Universidade de Coimbra escolheu o nome de Geopedrados quando participou na Queima das Fitas.
Ficou a designação, ficaram muitas pessoas com e sobre a capa intemporal deste nome, agora com oportunidade de partilhar as suas ideias, informações e materiais sobre Geologia, Paleontologia, Mineralogia, Vulcanologia/Sismologia, Ambiente, Energia, Biologia, Astronomia, Ensino, Fotografia, Humor, Música, Cultura, Coimbra e AAC, para fins de ensino e educação.
Foi contratada pelo governo americano para escrever boletins para a rádio durante a Depressão e também escrevia artigos sobre história natural para o Jornal Baltimore Sun.
Em 1936, torna-se editora–chefe de todas as publicações do renomeado U.S. Fish e Wildlife
(Departamento de Pesca e Vida Selvagem). As suas primeiras publicações
foram sobre os estudos das espécies e seres vivos que habitavam os
mares e oceanos como: Under The Sea Wind (Sob o Vento do Mar – 1941), The Sea Around Us (O Mar Que Nos Rodeia – 1951), que foi sucesso nacional e internacional e foi traduzido para 30 diferentes idiomas.
(...)
Em 1960, Rachel descobriu que o seu cancro de mama entrou em metástase.
O tratamento e a doença a enfraqueceram e ela ficou doente devido a um
vírus respiratório em janeiro de 1964. A sua saúde piorou muito e em
fevereiro os médicos descobriram que ela estava com anemia severa, devido aos tratamentos com radioterapia e que seu cancro tinha atingido o fígado. Ela faleceu devido a um enfarte, em 14 de abril de 1964, em sua casa em Silver Spring, Maryland.
O seu corpo foi cremado e as cinzas enterradas ao lado do túmulo da mãe, no Cemitério Parklawn Memorial Gardens, em Rockville, Maryland. Parte de suas cinzas foram espalhadas ao longo da costa da ilha de Southport, próximo de Sheepscot Bay, no Maine.
Livros publicados
Under the Sea Wind, 1941, Simon & Schuster, Penguin Group, 1996
Fishes of the Middle West, 1943, United States Government Printing Office (online pdf)
Fish and Shellfish of the Middle Atlantic Coast, 1945, United States Government Printing Office (online pdf)
Chincoteague: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Mattamuskeet: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Parker River: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Bear River: A National Wildlife Refuge, 1950, United States Government Printing Office (com Vanez T. Wilson) (online pdf)
The Sea Around Us, 1951, Oxford University Press, 1991
Rachel Carson desafiou a indústria química há 60 anos. Faz-nos falta ler hoje Primavera Silenciosa?
Há
seis décadas, o Primavera Silenciosa alertava-nos para como o uso
excessivo de pesticidas estava a destruir ecossistemas e a própria saúde
humana. O livro de Rachel Carson impulsionou a proibição do DDT e o
movimento ambientalista. Hoje, está indisponível em Portugal. O que esta
obra nos pode ensinar em tempos de crise climática?
No dia 27 de setembro de 1962, chegava às livrarias nos Estados Unidos Primavera Silenciosa,
de Rachel Carson. Tinha uma capa verde-clara, com a ilustração de um
ribeiro tímido e plantas aquáticas – uma aparência despretensiosa para
uma obra tão controversa, que trazia em si a semente de uma revolução
social e acabaria por condicionar o curso da História.
As 368 páginas do livro encerravam uma mensagem que não era nova para muitos leitores. Capítulos do livro já haviam sido publicados em série na revista New Yorker
em junho de 1962, inflamando um debate nacional à volta do uso
desregrado de pesticidas e mobilizando cidadãos para aquele que viria a
ser o movimento ambientalista moderno. No mês seguinte, a manchete do New York Times condensava o ar do tempo: “Primavera Silenciosa é agora um Verão barulhento”. Em 1972, uma década depois, foi banido nos Estados Unidos o diclorodifeniltricloroetano (DDT).
Primavera Silenciosa tornou-se rapidamente um bestseller e,
em 1963, já estava traduzido em 14 línguas. Só foi publicado em Portugal
em 1966, pela Editorial Pórtico, com tradução de Raúl Correia. Hoje o
título está indisponível no mercado nacional, embora algumas livrarias
online vendam a edição brasileira. Faz-nos falta ler hoje Primavera Silenciosa? O que a obra nos ensina em tempos de crise climática?
O
filósofo Viriato Soromenho Marques acredita que os portugueses têm
“todas as razões” para ler ou revisitar Primavera Silenciosa. O
professor catedrático da Universidade de Lisboa explica que Rachel
Carson, quando aponta o dedo para a indústria química, não se limita a
mostrar falhas técnicas ou científicas.“Ela vai mais longe”, diz.
Rachel
Carson denuncia “a escassa capacidade humana” de produzir mecanismos de
regulação para as tecnologias que a própria humanidade engendrou. “Cabe
a nós, 60 anos depois, numa situação muito mais dramática do que aquela
que o mundo se encontrava em 1962, redobrar e prosseguir continuamente
[esse esforço]”, afirma o filósofo português ao PÚBLICO.
Viriato Soromenho Marques, que ensina Filosofia da Natureza na universidade, lamenta que Primavera Silenciosa
não seja lido no país como título de divulgação científica. “O público
leitor em Portugal acaba por ser mais académico, infelizmente”, refere o
professor da Universidade de Lisboa.
Soromenho
Marques leu o texto original, em inglês, uma edição comemorativa
publicada em 1992 e comprada pelo docente durante uma viagem a Berkeley,
nos Estados Unidos. O livro está todo sublinhado, anotado. “A primeira
leitura teve um impacto enorme em mim”, confessa.
O facto de Primavera Silenciosa estar indisponível não só nas livrarias, mas também para empréstimo
em bibliotecas também prejudica a democratização do texto no país.
“Acredito que há muitos leitores de Rachel Carson em Portugal, mas o
objetivo de chegar ao grande público ainda não foi conseguido”, afirma o
filósofo português numa conversa com o PÚBLICO, que pode ser ouvida na
íntegra no mais recente episódio do podcast do Azul.
Christof
Mauch, diretor do Centro Rachel Carson da Universidade de Munique, na
Alemanha, corrobora a ideia de que, passadas seis décadas, Primavera Silenciosa
continua a ser uma leitura necessária. “Acredito que a popularidade de
Carson só vai aumentar no futuro, em parte porque há algo de profético
na sua escrita”, afirma ao PÚBLICO.
“Os
textos de Rachel Carson não são apenas [a exposição de] factos. Eles
combinam uma advertência e uma visão do amanhã; ensinam-nos, acima de
tudo, que os humanos são organismos como todos os outros e que, para
termos um futuro, nós precisamos utilizar os recursos da Terra sem
perturbar o equilíbrio geral”, refere Christof Mauch.
Para
celebrar as seis décadas do livro, o Centro Rachel Carson está a
organizar para a segunda quinzena de outubro uma conferência intitulada “Primaveras Silenciosas” – assim mesmo, no plural –, com um programa
no qual serão exploradas “histórias globais sobre pesticidas e sobre o
nosso mundo tóxico”. As narrativas que emergiram da obra clássica dos
anos 60 parecem mostrar como Rachel Carson transformou a forma como
escrevemos hoje sobre a natureza.
“Carson tem sido uma inspiração maior. Os seus textos estão na mente de muitos romancistas também – como Margaret Atwood,
Richard Powers e muitos outros. Acredito que nenhum outro autor teve um
impacte parecido nas humanidades ligadas ao ambiente, seja porque a
autora concilia ciência pura com filosofia, seja porque Carson tem um
entendimento profundo da complexidade da vida – do microscópico ao
macroscópico”, observa Christof Mauch.
Conferência programada para outubro em Munique, na Alemanha
Tornar o microscópico visível
Os 17 capítulos de Primavera Silenciosa têm,
entre tantas outras coisas, o condão de tornar compreensíveis eventos
moleculares que não são visíveis a olho nu. Na parte intitulada
“Elixires da morte”, Rachel Carson demonstra a omnipresença do DDT.
“Pela primeira vez na história do mundo, todos os seres humanos estão
agora sujeitos ao contacto com químicos perigosos, desde o momento da
fecundação até à morte”, lê-se nas primeiras linhas do texto.
A
autora prossegue citando vários estudos que atestam que o corpo humano
não possui uma barreira protetora; aquilo que é capaz de matar insetos
também afeta todas as formas de vida num ecossistema, persistindo em tecidos e fluidos impensáveis como a placenta e o leite materno. O leitor do século XXI, que lê Primavera Silenciosa enquanto o planeta não para de aquecer, fará talvez um paralelo imediato com os microplásticos. Tal como o DDT, a poluição plástica está por todo lado, do gelo do Ártico ao sangue humano.
Hoje
parece-nos óbvio que haja moléculas persistentes nos solos, alimentos e
organismos vivos. Contudo, nos anos 60, em que os pesticidas modernos
eram vistos como o único caminho para uma agricultura capaz de alimentar
o mundo, esta não era uma ideia dominante no imaginário coletivo. O DDT
era apresentado ainda como a panaceia para a malária em países
africanos – e, por isso, os detratores acusaram Rachel Carson de “assassinar” milhões de crianças afetadas pela doença.
Como o próprio nome “pesticidas” sugere,
estes produtos deveriam matar apenas pestes agrícolas. Daí Rachel
Carson ter dito certa vez que a denominação induzia em erro, e que a
molécula deveria ser chamada de biocida, e não pesticida. Porque não
mata apenas insetos – também aniquila ou causa dano a outras formas de vida, alterando processos celulares em plantas, animais e seres humanos.
O
título do livro remete exatamente para a potência destruidora dos
inseticidas. Se moléculas desenhadas para aniquilar pestes são dispersas
de forma desregrada, as aves também serão afetadas e a Primavera
chegará sem o canto destes animais.
Esta
imagem emerge de uma balada de John Keats, cujos versos servem de
epígrafe ao livro: “O carriço desapareceu do lago / E nenhum pássaro
canta.” Com a metáfora do silêncio, Carson conseguiu transformar uma
denúncia grave, alicerçada em sólidos argumentos científicos, numa clara
mensagem de causa e efeito.
“Rachel
Carson mostrou com muita coragem nos anos 60 – e ainda hoje há poucas
pessoas que o fazem – que, se nós analisarmos, dos departamentos e
institutos que trabalham na área dos insetos [nos Estados Unidos], só 2%
focam-se em controlo biológico (controlo natural das pragas), sendo que
os restantes 98% recebem financiamento da indústria química. E esta
entrada em cena do dinheiro faz toda a diferença”, afirma Soromenho
Marques.
O lobby da
indústria química nos Estados Unidos não tardou a reagir, tentando
desacreditar não apenas o livro mas também a autora. Um sector que
movimentava milhões de dólares não poderia permitir que, nos anos 60,
uma mulher solteira, sem um doutoramento ou afiliação a uma universidade
(Carson interrompeu os estudos para sustentar a família), denunciasse
os mecanismos que permitiam expor populações inteiras a agentes tóxicos.
Um texto fundador do ambientalismo
Robert Musil explica, no livro Rachel Carson and Her Sisters,
por que razão a obra é considerada o texto fundador do ambientalismo
contemporâneo. Primeiro, porque consegue aliar boa ciência a uma escrita
impecável. Por mais urgente que seja uma mensagem, ela não chegará ao
destinatário se não for bem articulada, encapsulada pelo emissor. E aí
residia uma das destrezas de Carson: dominava, desde muito nova, a arte da comunicação de ciência.
Carson
nasceu a 27 de maio de 1907 em Springdale, Pensilvânia. Cresceu numa
casa repleta de livros e era encorajada por uma mãe culta, Maria McLean
Carson. Ainda muito jovem, publicou artigos de história natural no
jornal The Baltimore Sun e, já madura, fez carreira como editora-chefe das publicações do Departamento de Pescas e Natureza do Governo norte-americano.
Antes de Primavera Silenciosa, já era uma celebridade literária: o livro The Sea Around Us foi publicado em capítulos na The New Yorker, em 1951, e granjeou uma resposta calorosa dos leitores. Carson venceu prémios e repetiu o sucesso editorial com The Edge of the Sea.
Por outras palavras, a autora conhecia bem os meandros editoriais – e
isto nos leva à segunda razão, de acordo com Robert Musil, para o livro
de 1962 tornar-se um marco da literatura ambiental.
O lançamento de Primavera Silenciosa
foi cuidadosamente desenhado para ser uma ferramenta de ativismo
ambiental, sugere Musil. Carson movia-se bem tanto na academia como na
política. A bióloga rodeou-se de cientistas de peso como George Wallace,
na Universidade de Michigan, e Edward O. Wilson, na de Harvard. Contava ainda com apoiantes nas associações civis.
Rachel Carson aos 55 anos, com binóculos para observação da natureza
O
terreno foi bem preparado; os próprios editores sabiam que a obra seria
atacada pelo poderoso sector da indústria química. Eles tentaram, por
isso, dissociar o livro de expressões ecologistas vistas como radicais –
como o vegetarianismo, por exemplo.
“Carson
esteve a pensar nas recomendações para a legislação e mudanças de
políticas públicas desde o início da investigação, cinco anos antes.
Durante a escrita de Primavera Silenciosa, contactou vários
especialistas para discutir as suas ideias de reformas. Rachel queria
que o seu testemunho oferecesse recomendações específicas que pudessem
trazer melhorias mas que, ao mesmo tempo, fossem politicamente
exequíveis”, escreve a biógrafa Linda Lear no livro Rachel Carson: Witness for Nature.
Num laborioso trabalho de marketing, os simpatizantes de Carson terão feito circular exemplares da obra nos circuitos de poder. Primavera Silenciosa
terá chegado às mãos de figuras políticas de relevo como congressistas,
secretários do Governo de Kennedy e líderes associativos influentes. A
erradicação do DDT nos Estados Unidos não aconteceu num vácuo
sociopolítico. Se por um lado esta vitória deve muito a Rachel Carson,
por outro, seria ingénuo ignorar que a rede de contactos foi previamente
sensibilizada em prol da proteção dos ecossistemas.
“Rachel
Carson não acordou de repente um movimento de conservação meio
adormecido, vamos salvar os papinhos e os falcões, nem baniu o DDT
sozinha. Ela teve ajuda. Mesmo muita”, defende Robert Musil, que hoje
dirige o Rachel Carson Council em Maryland, nos Estados Unidos.
Viriato
Soromenho Marques concorda com a ideia de que “Rachel Carson não está
sozinha”, citando, por exemplo, o trabalho precursor do naturalista e
filósofo Aldo Leopold (1887-1948), que fazia o elogio de uma “ética da
terra”. Há um lastro prévio mas, do ponto de vista de transposição das
ideias para as políticas públicas, Rachel Carson afirma-se como uma
divisora de águas.
“A lei-quadro do ambiente, de 1969, e o Dia da Terra,
[celebrado pela primeira vez a 22 de abril de 1970], por exemplo, têm a
sua marca”, recorda Soromenho Marques. Carson, que já escreveu o livro
com um cancro de mama avançado, não sobreviveu para testemunhar estas
vitórias. Morreu em 1964, dois anos após a publicação de Primavera Silenciosa.
Carson
inspirou gerações de ativistas e ecólogos, sobretudo nos Estados
Unidos. A ambientalista Erin Greeson, hoje com 45 anos, vê desde muito
jovem Rachel Carson como “uma heroína”. “Rachel Carson incentivou os
movimentos. Ela seria inspirada pelos movimentos que acontecem hoje, em
grande parte encabeçados por jovens líderes que se recusam a aceitar o
mundo fraturado e os sistemas destrutivos que lhes estamos a entregar”,
diz ao PÚBLICO diretora de comunicação do Instituto para as Energias Renováveis e a Vida Selvagem, sediado em Washington.
Para
Greeson, a voz de Carson continua a ecoar hoje e, de algum modo,
deu-nos ferramentas enquadrar e comunicar os riscos que a crise
climática coloca à humanidade. Ainda assim, parece faltar-nos uma
metáfora poderosa para condensar a urgência de um planeta a arder, cada
vez mais fustigado com eventos climáticos extremos.
“Talvez não precisemos mais de metáforas. Rachel Carson descrevia em Primavera Silenciosa
algo que ainda não podia ser realmente visto. Carson falava sobre
futuro. Agora, temos muitos exemplos de incêndios e inundações – as
metáforas tornaram-se desnecessárias”, afirma o escritor e ativista
climático Bill McKibben, à margem de uma entrevista ao PÚBLICO.
Já
Soromenho Marques, acredita que “a crise climática é uma janela
perturbante, gravíssima para algo mais amplo: a crise global do
ambiente”. Por isso, quando enunciamos o problema em busca de soluções,
devemos nos desviar de “expressões redutoras” como “transição
energética” e focar no primordial: “a nossa principal crise é a do modo
como habitamos a Terra”.
A solução
passa, portanto, pela transformação, pela possibilidade – que ainda
temos – de escolher outra estrada. Para Soromenho Marques, trata-se de
um ensinamento válido que, seis décadas depois, Primavera Silenciosa
continua a oferecer. Como nestas palavras de Rachel Carson, que o
filósofo português lê em voz alta: “A estrada pela qual temos estado a
viajar por tão longo tempo é ilusoriamente fácil: uma auto-estrada de
pavimentação lisa, pela qual avançamos em grande velocidade; mas, na sua
extremidade final, o que há é o desastre.”
Foi contratada pelo governo americano para escrever boletins para a rádio durante a Depressão e também escrevia artigos sobre história natural para o Jornal Baltimore Sun.
Em 1936, torna-se editora–chefe de todas as publicações do renomeado U.S. Fish e Wildlife
(Departamento de Pesca e Vida Selvagem). As suas primeiras publicações
foram sobre os estudos das espécies e seres vivos que habitavam os
mares e oceanos como: Under The Sea Wind (Sob o Vento do Mar – 1941), The Sea Around Us (O Mar Que Nos Rodeia – 1951), que foi sucesso nacional e internacional e foi traduzido para 30 diferentes idiomas.
(...)
Em 1960, Rachel descobriu que seu câncer de mama entrou em metástase.
O tratamento e a doença a enfraqueceram e ela ficou doente devido a um
vírus respiratório em janeiro de 1964. A sua saúde piorou muito e em
fevereiro os médicos descobriram que ela estava com anemia severa, devido aos tratamentos com radioterapia e que seu câncer tinha atingido o fígado. Ela faleceu devido a um enfarte, em 14 de abril de 1964, em sua casa em Silver Spring, Maryland.
O seu corpo foi cremado e as cinzas enterradas ao lado do túmulo da mãe, no Cemitério Parklawn Memorial Gardens, em Rockville, Maryland. Parte de suas cinzas foram espalhadas ao longo da costa da Ilha de Southport, próximo de Sheepscot Bay, no Maine.
Livros publicados
Under the Sea Wind, 1941, Simon & Schuster, Penguin Group, 1996
Fishes of the Middle West, 1943, United States Government Printing Office (online pdf)
Fish and Shellfish of the Middle Atlantic Coast, 1945, United States Government Printing Office (online pdf)
Chincoteague: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Mattamuskeet: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Parker River: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Bear River: A National Wildlife Refuge, 1950, United States Government Printing Office (com Vanez T. Wilson) (online pdf)
The Sea Around Us, 1951, Oxford University Press, 1991
Rachel Carson desafiou a indústria química há 60 anos. Faz-nos falta ler hoje Primavera Silenciosa?
Há
seis décadas, o Primavera Silenciosa alertava-nos para como o uso
excessivo de pesticidas estava a destruir ecossistemas e a própria saúde
humana. O livro de Rachel Carson impulsionou a proibição do DDT e o
movimento ambientalista. Hoje, está indisponível em Portugal. O que esta
obra nos pode ensinar em tempos de crise climática?
No dia 27 de setembro de 1962, chegava às livrarias nos Estados Unidos Primavera Silenciosa,
de Rachel Carson. Tinha uma capa verde-clara, com a ilustração de um
ribeiro tímido e plantas aquáticas – uma aparência despretensiosa para
uma obra tão controversa, que trazia em si a semente de uma revolução
social e acabaria por condicionar o curso da História.
As 368 páginas do livro encerravam uma mensagem que não era nova para muitos leitores. Capítulos do livro já haviam sido publicados em série na revista New Yorker
em junho de 1962, inflamando um debate nacional à volta do uso
desregrado de pesticidas e mobilizando cidadãos para aquele que viria a
ser o movimento ambientalista moderno. No mês seguinte, a manchete do New York Times condensava o ar do tempo: “Primavera Silenciosa é agora um Verão barulhento”. Em 1972, uma década depois, foi banido nos Estados Unidos o diclorodifeniltricloroetano (DDT).
Primavera Silenciosa tornou-se rapidamente um bestseller e,
em 1963, já estava traduzido em 14 línguas. Só foi publicado em Portugal
em 1966, pela Editorial Pórtico, com tradução de Raúl Correia. Hoje o
título está indisponível no mercado nacional, embora algumas livrarias
online vendam a edição brasileira. Faz-nos falta ler hoje Primavera Silenciosa? O que a obra nos ensina em tempos de crise climática?
O
filósofo Viriato Soromenho Marques acredita que os portugueses têm
“todas as razões” para ler ou revisitar Primavera Silenciosa. O
professor catedrático da Universidade de Lisboa explica que Rachel
Carson, quando aponta o dedo para a indústria química, não se limita a
mostrar falhas técnicas ou científicas.“Ela vai mais longe”, diz.
Rachel
Carson denuncia “a escassa capacidade humana” de produzir mecanismos de
regulação para as tecnologias que a própria humanidade engendrou. “Cabe
a nós, 60 anos depois, numa situação muito mais dramática do que aquela
que o mundo se encontrava em 1962, redobrar e prosseguir continuamente
[esse esforço]”, afirma o filósofo português ao PÚBLICO.
Viriato Soromenho Marques, que ensina Filosofia da Natureza na universidade, lamenta que Primavera Silenciosa
não seja lido no país como título de divulgação científica. “O público
leitor em Portugal acaba por ser mais académico, infelizmente”, refere o
professor da Universidade de Lisboa.
Soromenho
Marques leu o texto original, em inglês, uma edição comemorativa
publicada em 1992 e comprada pelo docente durante uma viagem a Berkeley,
nos Estados Unidos. O livro está todo sublinhado, anotado. “A primeira
leitura teve um impacto enorme em mim”, confessa.
O facto de Primavera Silenciosa estar indisponível não só nas livrarias, mas também para empréstimo
em bibliotecas também prejudica a democratização do texto no país.
“Acredito que há muitos leitores de Rachel Carson em Portugal, mas o
objetivo de chegar ao grande público ainda não foi conseguido”, afirma o
filósofo português numa conversa com o PÚBLICO, que pode ser ouvida na
íntegra no mais recente episódio do podcast do Azul.
Christof
Mauch, diretor do Centro Rachel Carson da Universidade de Munique, na
Alemanha, corrobora a ideia de que, passadas seis décadas, Primavera Silenciosa
continua a ser uma leitura necessária. “Acredito que a popularidade de
Carson só vai aumentar no futuro, em parte porque há algo de profético
na sua escrita”, afirma ao PÚBLICO.
“Os
textos de Rachel Carson não são apenas [a exposição de] factos. Eles
combinam uma advertência e uma visão do amanhã; ensinam-nos, acima de
tudo, que os humanos são organismos como todos os outros e que, para
termos um futuro, nós precisamos utilizar os recursos da Terra sem
perturbar o equilíbrio geral”, refere Christof Mauch.
Para
celebrar as seis décadas do livro, o Centro Rachel Carson está a
organizar para a segunda quinzena de outubro uma conferência intitulada “Primaveras Silenciosas” – assim mesmo, no plural –, com um programa
no qual serão exploradas “histórias globais sobre pesticidas e sobre o
nosso mundo tóxico”. As narrativas que emergiram da obra clássica dos
anos 60 parecem mostrar como Rachel Carson transformou a forma como
escrevemos hoje sobre a natureza.
“Carson tem sido uma inspiração maior. Os seus textos estão na mente de muitos romancistas também – como Margaret Atwood,
Richard Powers e muitos outros. Acredito que nenhum outro autor teve um
impacte parecido nas humanidades ligadas ao ambiente, seja porque a
autora concilia ciência pura com filosofia, seja porque Carson tem um
entendimento profundo da complexidade da vida – do microscópico ao
macroscópico”, observa Christof Mauch.
Conferência programada para outubro em Munique, na Alemanha
Tornar o microscópico visível
Os 17 capítulos de Primavera Silenciosa têm,
entre tantas outras coisas, o condão de tornar compreensíveis eventos
moleculares que não são visíveis a olho nu. Na parte intitulada
“Elixires da morte”, Rachel Carson demonstra a omnipresença do DDT.
“Pela primeira vez na história do mundo, todos os seres humanos estão
agora sujeitos ao contacto com químicos perigosos, desde o momento da
fecundação até à morte”, lê-se nas primeiras linhas do texto.
A
autora prossegue citando vários estudos que atestam que o corpo humano
não possui uma barreira protetora; aquilo que é capaz de matar insetos
também afeta todas as formas de vida num ecossistema, persistindo em tecidos e fluidos impensáveis como a placenta e o leite materno. O leitor do século XXI, que lê Primavera Silenciosa enquanto o planeta não para de aquecer, fará talvez um paralelo imediato com os microplásticos. Tal como o DDT, a poluição plástica está por todo lado, do gelo do Ártico ao sangue humano.
Hoje
parece-nos óbvio que haja moléculas persistentes nos solos, alimentos e
organismos vivos. Contudo, nos anos 60, em que os pesticidas modernos
eram vistos como o único caminho para uma agricultura capaz de alimentar
o mundo, esta não era uma ideia dominante no imaginário coletivo. O DDT
era apresentado ainda como a panaceia para a malária em países
africanos – e, por isso, os detratores acusaram Rachel Carson de “assassinar” milhões de crianças afetadas pela doença.
Como o próprio nome “pesticidas” sugere,
estes produtos deveriam matar apenas pestes agrícolas. Daí Rachel
Carson ter dito certa vez que a denominação induzia em erro, e que a
molécula deveria ser chamada de biocida, e não pesticida. Porque não
mata apenas insetos – também aniquila ou causa dano a outras formas de vida, alterando processos celulares em plantas, animais e seres humanos.
O
título do livro remete exatamente para a potência destruidora dos
inseticidas. Se moléculas desenhadas para aniquilar pestes são dispersas
de forma desregrada, as aves também serão afetadas e a Primavera
chegará sem o canto destes animais.
Esta
imagem emerge de uma balada de John Keats, cujos versos servem de
epígrafe ao livro: “O carriço desapareceu do lago / E nenhum pássaro
canta.” Com a metáfora do silêncio, Carson conseguiu transformar uma
denúncia grave, alicerçada em sólidos argumentos científicos, numa clara
mensagem de causa e efeito.
“Rachel
Carson mostrou com muita coragem nos anos 60 – e ainda hoje há poucas
pessoas que o fazem – que, se nós analisarmos, dos departamentos e
institutos que trabalham na área dos insetos [nos Estados Unidos], só 2%
focam-se em controlo biológico (controlo natural das pragas), sendo que
os restantes 98% recebem financiamento da indústria química. E esta
entrada em cena do dinheiro faz toda a diferença”, afirma Soromenho
Marques.
O lobby da
indústria química nos Estados Unidos não tardou a reagir, tentando
desacreditar não apenas o livro mas também a autora. Um sector que
movimentava milhões de dólares não poderia permitir que, nos anos 60,
uma mulher solteira, sem um doutoramento ou afiliação a uma universidade
(Carson interrompeu os estudos para sustentar a família), denunciasse
os mecanismos que permitiam expor populações inteiras a agentes tóxicos.
Um texto fundador do ambientalismo
Robert Musil explica, no livro Rachel Carson and Her Sisters,
por que razão a obra é considerada o texto fundador do ambientalismo
contemporâneo. Primeiro, porque consegue aliar boa ciência a uma escrita
impecável. Por mais urgente que seja uma mensagem, ela não chegará ao
destinatário se não for bem articulada, encapsulada pelo emissor. E aí
residia uma das destrezas de Carson: dominava, desde muito nova, a arte da comunicação de ciência.
Carson
nasceu a 27 de maio de 1907 em Springdale, Pensilvânia. Cresceu numa
casa repleta de livros e era encorajada por uma mãe culta, Maria McLean
Carson. Ainda muito jovem, publicou artigos de história natural no
jornal The Baltimore Sun e, já madura, fez carreira como editora-chefe das publicações do Departamento de Pescas e Natureza do Governo norte-americano.
Antes de Primavera Silenciosa, já era uma celebridade literária: o livro The Sea Around Us foi publicado em capítulos na The New Yorker, em 1951, e granjeou uma resposta calorosa dos leitores. Carson venceu prémios e repetiu o sucesso editorial com The Edge of the Sea.
Por outras palavras, a autora conhecia bem os meandros editoriais – e
isto nos leva à segunda razão, de acordo com Robert Musil, para o livro
de 1962 tornar-se um marco da literatura ambiental.
O lançamento de Primavera Silenciosa
foi cuidadosamente desenhado para ser uma ferramenta de ativismo
ambiental, sugere Musil. Carson movia-se bem tanto na academia como na
política. A bióloga rodeou-se de cientistas de peso como George Wallace,
na Universidade de Michigan, e Edward O. Wilson, na de Harvard. Contava ainda com apoiantes nas associações civis.
Rachel Carson aos 55 anos, com binóculos para observação da natureza
O
terreno foi bem preparado; os próprios editores sabiam que a obra seria
atacada pelo poderoso sector da indústria química. Eles tentaram, por
isso, dissociar o livro de expressões ecologistas vistas como radicais –
como o vegetarianismo, por exemplo.
“Carson
esteve a pensar nas recomendações para a legislação e mudanças de
políticas públicas desde o início da investigação, cinco anos antes.
Durante a escrita de Primavera Silenciosa, contactou vários
especialistas para discutir as suas ideias de reformas. Rachel queria
que o seu testemunho oferecesse recomendações específicas que pudessem
trazer melhorias mas que, ao mesmo tempo, fossem politicamente
exequíveis”, escreve a biógrafa Linda Lear no livro Rachel Carson: Witness for Nature.
Num laborioso trabalho de marketing, os simpatizantes de Carson terão feito circular exemplares da obra nos circuitos de poder. Primavera Silenciosa
terá chegado às mãos de figuras políticas de relevo como congressistas,
secretários do Governo de Kennedy e líderes associativos influentes. A
erradicação do DDT nos Estados Unidos não aconteceu num vácuo
sociopolítico. Se por um lado esta vitória deve muito a Rachel Carson,
por outro, seria ingénuo ignorar que a rede de contactos foi previamente
sensibilizada em prol da proteção dos ecossistemas.
“Rachel
Carson não acordou de repente um movimento de conservação meio
adormecido, vamos salvar os papinhos e os falcões, nem baniu o DDT
sozinha. Ela teve ajuda. Mesmo muita”, defende Robert Musil, que hoje
dirige o Rachel Carson Council em Maryland, nos Estados Unidos.
Viriato
Soromenho Marques concorda com a ideia de que “Rachel Carson não está
sozinha”, citando, por exemplo, o trabalho precursor do naturalista e
filósofo Aldo Leopold (1887-1948), que fazia o elogio de uma “ética da
terra”. Há um lastro prévio mas, do ponto de vista de transposição das
ideias para as políticas públicas, Rachel Carson afirma-se como uma
divisora de águas.
“A lei-quadro do ambiente, de 1969, e o Dia da Terra,
[celebrado pela primeira vez a 22 de abril de 1970], por exemplo, têm a
sua marca”, recorda Soromenho Marques. Carson, que já escreveu o livro
com um cancro de mama avançado, não sobreviveu para testemunhar estas
vitórias. Morreu em 1964, dois anos após a publicação de Primavera Silenciosa.
Carson
inspirou gerações de ativistas e ecólogos, sobretudo nos Estados
Unidos. A ambientalista Erin Greeson, hoje com 45 anos, vê desde muito
jovem Rachel Carson como “uma heroína”. “Rachel Carson incentivou os
movimentos. Ela seria inspirada pelos movimentos que acontecem hoje, em
grande parte encabeçados por jovens líderes que se recusam a aceitar o
mundo fraturado e os sistemas destrutivos que lhes estamos a entregar”,
diz ao PÚBLICO diretora de comunicação do Instituto para as Energias Renováveis e a Vida Selvagem, sediado em Washington.
Para
Greeson, a voz de Carson continua a ecoar hoje e, de algum modo,
deu-nos ferramentas enquadrar e comunicar os riscos que a crise
climática coloca à humanidade. Ainda assim, parece faltar-nos uma
metáfora poderosa para condensar a urgência de um planeta a arder, cada
vez mais fustigado com eventos climáticos extremos.
“Talvez não precisemos mais de metáforas. Rachel Carson descrevia em Primavera Silenciosa
algo que ainda não podia ser realmente visto. Carson falava sobre
futuro. Agora, temos muitos exemplos de incêndios e inundações – as
metáforas tornaram-se desnecessárias”, afirma o escritor e ativista
climático Bill McKibben, à margem de uma entrevista ao PÚBLICO.
Já
Soromenho Marques, acredita que “a crise climática é uma janela
perturbante, gravíssima para algo mais amplo: a crise global do
ambiente”. Por isso, quando enunciamos o problema em busca de soluções,
devemos nos desviar de “expressões redutoras” como “transição
energética” e focar no primordial: “a nossa principal crise é a do modo
como habitamos a Terra”.
A solução
passa, portanto, pela transformação, pela possibilidade – que ainda
temos – de escolher outra estrada. Para Soromenho Marques, trata-se de
um ensinamento válido que, seis décadas depois, Primavera Silenciosa
continua a oferecer. Como nestas palavras de Rachel Carson, que o
filósofo português lê em voz alta: “A estrada pela qual temos estado a
viajar por tão longo tempo é ilusoriamente fácil: uma auto-estrada de
pavimentação lisa, pela qual avançamos em grande velocidade; mas, na sua
extremidade final, o que há é o desastre.”
Foi contratada pelo governo americano para escrever boletins para a rádio durante a Depressão e também escrevia artigos sobre história natural para o Jornal Baltimore Sun.
Em 1936, torna-se editora–chefe de todas as publicações do renomeado U.S. Fish e Wildlife
(Departamento de Pesca e Vida Selvagem). As suas primeiras publicações
foram sobre os estudos das espécies e seres vivos que habitavam os
mares e oceanos como: Under The Sea Wind (Sob o Vento do Mar – 1941), The Sea Around Us (O Mar Que Nos Rodeia – 1951), que foi sucesso nacional e internacional e foi traduzido para 30 diferentes idiomas.
Livros publicados
Under the Sea Wind, 1941, Simon & Schuster, Penguin Group, 1996
Fishes of the Middle West, 1943, United States Government Printing Office (online pdf)
Fish and Shellfish of the Middle Atlantic Coast, 1945, United States Government Printing Office (online pdf)
Chincoteague: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Mattamuskeet: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Parker River: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Bear River: A National Wildlife Refuge, 1950, United States Government Printing Office (com Vanez T. Wilson) (online pdf)
The Sea Around Us, 1951, Oxford University Press, 1991
Rachel Carson desafiou a indústria química há 60 anos. Faz-nos falta ler hoje Primavera Silenciosa?
Há
seis décadas, o Primavera Silenciosa alertava-nos para como o uso
excessivo de pesticidas estava a destruir ecossistemas e a própria saúde
humana. O livro de Rachel Carson impulsionou a proibição do DDT e o
movimento ambientalista. Hoje, está indisponível em Portugal. O que esta
obra nos pode ensinar em tempos de crise climática?
No dia 27 de setembro de 1962, chegava às livrarias nos Estados Unidos Primavera Silenciosa,
de Rachel Carson. Tinha uma capa verde-clara, com a ilustração de um
ribeiro tímido e plantas aquáticas – uma aparência despretensiosa para
uma obra tão controversa, que trazia em si a semente de uma revolução
social e acabaria por condicionar o curso da História.
As 368 páginas do livro encerravam uma mensagem que não era nova para muitos leitores. Capítulos do livro já haviam sido publicados em série na revista New Yorker
em junho de 1962, inflamando um debate nacional à volta do uso
desregrado de pesticidas e mobilizando cidadãos para aquele que viria a
ser o movimento ambientalista moderno. No mês seguinte, a manchete do New York Times condensava o ar do tempo: “Primavera Silenciosa é agora um Verão barulhento”. Em 1972, uma década depois, foi banido nos Estados Unidos o diclorodifeniltricloroetano (DDT).
Primavera Silenciosa tornou-se rapidamente um bestseller e,
em 1963, já estava traduzido em 14 línguas. Só foi publicado em Portugal
em 1966, pela Editorial Pórtico, com tradução de Raúl Correia. Hoje o
título está indisponível no mercado nacional, embora algumas livrarias
online vendam a edição brasileira. Faz-nos falta ler hoje Primavera Silenciosa? O que a obra nos ensina em tempos de crise climática?
O
filósofo Viriato Soromenho Marques acredita que os portugueses têm
“todas as razões” para ler ou revisitar Primavera Silenciosa. O
professor catedrático da Universidade de Lisboa explica que Rachel
Carson, quando aponta o dedo para a indústria química, não se limita a
mostrar falhas técnicas ou científicas.“Ela vai mais longe”, diz.
Rachel
Carson denuncia “a escassa capacidade humana” de produzir mecanismos de
regulação para as tecnologias que a própria humanidade engendrou. “Cabe
a nós, 60 anos depois, numa situação muito mais dramática do que aquela
que o mundo se encontrava em 1962, redobrar e prosseguir continuamente
[esse esforço]”, afirma o filósofo português ao PÚBLICO.
Viriato Soromenho Marques, que ensina Filosofia da Natureza na universidade, lamenta que Primavera Silenciosa
não seja lido no país como título de divulgação científica. “O público
leitor em Portugal acaba por ser mais académico, infelizmente”, refere o
professor da Universidade de Lisboa.
Soromenho
Marques leu o texto original, em inglês, uma edição comemorativa
publicada em 1992 e comprada pelo docente durante uma viagem a Berkeley,
nos Estados Unidos. O livro está todo sublinhado, anotado. “A primeira
leitura teve um impacto enorme em mim”, confessa.
O facto de Primavera Silenciosa estar indisponível não só nas livrarias, mas também para empréstimo
em bibliotecas também prejudica a democratização do texto no país.
“Acredito que há muitos leitores de Rachel Carson em Portugal, mas o
objetivo de chegar ao grande público ainda não foi conseguido”, afirma o
filósofo português numa conversa com o PÚBLICO, que pode ser ouvida na
íntegra no mais recente episódio do podcast do Azul.
Christof
Mauch, diretor do Centro Rachel Carson da Universidade de Munique, na
Alemanha, corrobora a ideia de que, passadas seis décadas, Primavera Silenciosa
continua a ser uma leitura necessária. “Acredito que a popularidade de
Carson só vai aumentar no futuro, em parte porque há algo de profético
na sua escrita”, afirma ao PÚBLICO.
“Os
textos de Rachel Carson não são apenas [a exposição de] factos. Eles
combinam uma advertência e uma visão do amanhã; ensinam-nos, acima de
tudo, que os humanos são organismos como todos os outros e que, para
termos um futuro, nós precisamos utilizar os recursos da Terra sem
perturbar o equilíbrio geral”, refere Christof Mauch.
Para
celebrar as seis décadas do livro, o Centro Rachel Carson está a
organizar para a segunda quinzena de outubro uma conferência intitulada “Primaveras Silenciosas” – assim mesmo, no plural –, com um programa
no qual serão exploradas “histórias globais sobre pesticidas e sobre o
nosso mundo tóxico”. As narrativas que emergiram da obra clássica dos
anos 60 parecem mostrar como Rachel Carson transformou a forma como
escrevemos hoje sobre a natureza.
“Carson tem sido uma inspiração maior. Os seus textos estão na mente de muitos romancistas também – como Margaret Atwood,
Richard Powers e muitos outros. Acredito que nenhum outro autor teve um
impacte parecido nas humanidades ligadas ao ambiente, seja porque a
autora concilia ciência pura com filosofia, seja porque Carson tem um
entendimento profundo da complexidade da vida – do microscópico ao
macroscópico”, observa Christof Mauch.
Conferência programada para outubro em Munique, na Alemanha
Tornar o microscópico visível
Os 17 capítulos de Primavera Silenciosa têm,
entre tantas outras coisas, o condão de tornar compreensíveis eventos
moleculares que não são visíveis a olho nu. Na parte intitulada
“Elixires da morte”, Rachel Carson demonstra a omnipresença do DDT.
“Pela primeira vez na história do mundo, todos os seres humanos estão
agora sujeitos ao contacto com químicos perigosos, desde o momento da
fecundação até à morte”, lê-se nas primeiras linhas do texto.
A
autora prossegue citando vários estudos que atestam que o corpo humano
não possui uma barreira protetora; aquilo que é capaz de matar insetos
também afeta todas as formas de vida num ecossistema, persistindo em tecidos e fluidos impensáveis como a placenta e o leite materno. O leitor do século XXI, que lê Primavera Silenciosa enquanto o planeta não para de aquecer, fará talvez um paralelo imediato com os microplásticos. Tal como o DDT, a poluição plástica está por todo lado, do gelo do Ártico ao sangue humano.
Hoje
parece-nos óbvio que haja moléculas persistentes nos solos, alimentos e
organismos vivos. Contudo, nos anos 60, em que os pesticidas modernos
eram vistos como o único caminho para uma agricultura capaz de alimentar
o mundo, esta não era uma ideia dominante no imaginário coletivo. O DDT
era apresentado ainda como a panaceia para a malária em países
africanos – e, por isso, os detratores acusaram Rachel Carson de “assassinar” milhões de crianças afetadas pela doença.
Como o próprio nome “pesticidas” sugere,
estes produtos deveriam matar apenas pestes agrícolas. Daí Rachel
Carson ter dito certa vez que a denominação induzia em erro, e que a
molécula deveria ser chamada de biocida, e não pesticida. Porque não
mata apenas insetos – também aniquila ou causa dano a outras formas de vida, alterando processos celulares em plantas, animais e seres humanos.
O
título do livro remete exatamente para a potência destruidora dos
inseticidas. Se moléculas desenhadas para aniquilar pestes são dispersas
de forma desregrada, as aves também serão afetadas e a Primavera
chegará sem o canto destes animais.
Esta
imagem emerge de uma balada de John Keats, cujos versos servem de
epígrafe ao livro: “O carriço desapareceu do lago / E nenhum pássaro
canta.” Com a metáfora do silêncio, Carson conseguiu transformar uma
denúncia grave, alicerçada em sólidos argumentos científicos, numa clara
mensagem de causa e efeito.
“Rachel
Carson mostrou com muita coragem nos anos 60 – e ainda hoje há poucas
pessoas que o fazem – que, se nós analisarmos, dos departamentos e
institutos que trabalham na área dos insetos [nos Estados Unidos], só 2%
focam-se em controlo biológico (controlo natural das pragas), sendo que
os restantes 98% recebem financiamento da indústria química. E esta
entrada em cena do dinheiro faz toda a diferença”, afirma Soromenho
Marques.
O lobby da
indústria química nos Estados Unidos não tardou a reagir, tentando
desacreditar não apenas o livro mas também a autora. Um sector que
movimentava milhões de dólares não poderia permitir que, nos anos 60,
uma mulher solteira, sem um doutoramento ou afiliação a uma universidade
(Carson interrompeu os estudos para sustentar a família), denunciasse
os mecanismos que permitiam expor populações inteiras a agentes tóxicos.
Um texto fundador do ambientalismo
Robert Musil explica, no livro Rachel Carson and Her Sisters,
por que razão a obra é considerada o texto fundador do ambientalismo
contemporâneo. Primeiro, porque consegue aliar boa ciência a uma escrita
impecável. Por mais urgente que seja uma mensagem, ela não chegará ao
destinatário se não for bem articulada, encapsulada pelo emissor. E aí
residia uma das destrezas de Carson: dominava, desde muito nova, a arte da comunicação de ciência.
Carson
nasceu a 27 de maio de 1907 em Springdale, Pensilvânia. Cresceu numa
casa repleta de livros e era encorajada por uma mãe culta, Maria McLean
Carson. Ainda muito jovem, publicou artigos de história natural no
jornal The Baltimore Sun e, já madura, fez carreira como editora-chefe das publicações do Departamento de Pescas e Natureza do Governo norte-americano.
Antes de Primavera Silenciosa, já era uma celebridade literária: o livro The Sea Around Us foi publicado em capítulos na The New Yorker, em 1951, e granjeou uma resposta calorosa dos leitores. Carson venceu prémios e repetiu o sucesso editorial com The Edge of the Sea.
Por outras palavras, a autora conhecia bem os meandros editoriais – e
isto nos leva à segunda razão, de acordo com Robert Musil, para o livro
de 1962 tornar-se um marco da literatura ambiental.
O lançamento de Primavera Silenciosa
foi cuidadosamente desenhado para ser uma ferramenta de ativismo
ambiental, sugere Musil. Carson movia-se bem tanto na academia como na
política. A bióloga rodeou-se de cientistas de peso como George Wallace,
na Universidade de Michigan, e Edward O. Wilson, na de Harvard. Contava ainda com apoiantes nas associações civis.
Rachel Carson aos 55 anos, com binóculos para observação da natureza
O
terreno foi bem preparado; os próprios editores sabiam que a obra seria
atacada pelo poderoso sector da indústria química. Eles tentaram, por
isso, dissociar o livro de expressões ecologistas vistas como radicais –
como o vegetarianismo, por exemplo.
“Carson
esteve a pensar nas recomendações para a legislação e mudanças de
políticas públicas desde o início da investigação, cinco anos antes.
Durante a escrita de Primavera Silenciosa, contactou vários
especialistas para discutir as suas ideias de reformas. Rachel queria
que o seu testemunho oferecesse recomendações específicas que pudessem
trazer melhorias mas que, ao mesmo tempo, fossem politicamente
exequíveis”, escreve a biógrafa Linda Lear no livro Rachel Carson: Witness for Nature.
Num laborioso trabalho de marketing, os simpatizantes de Carson terão feito circular exemplares da obra nos circuitos de poder. Primavera Silenciosa
terá chegado às mãos de figuras políticas de relevo como congressistas,
secretários do Governo de Kennedy e líderes associativos influentes. A
erradicação do DDT nos Estados Unidos não aconteceu num vácuo
sociopolítico. Se por um lado esta vitória deve muito a Rachel Carson,
por outro, seria ingénuo ignorar que a rede de contactos foi previamente
sensibilizada em prol da proteção dos ecossistemas.
“Rachel
Carson não acordou de repente um movimento de conservação meio
adormecido, vamos salvar os papinhos e os falcões, nem baniu o DDT
sozinha. Ela teve ajuda. Mesmo muita”, defende Robert Musil, que hoje
dirige o Rachel Carson Council em Maryland, nos Estados Unidos.
Viriato
Soromenho Marques concorda com a ideia de que “Rachel Carson não está
sozinha”, citando, por exemplo, o trabalho precursor do naturalista e
filósofo Aldo Leopold (1887-1948), que fazia o elogio de uma “ética da
terra”. Há um lastro prévio mas, do ponto de vista de transposição das
ideias para as políticas públicas, Rachel Carson afirma-se como uma
divisora de águas.
“A lei-quadro do ambiente, de 1969, e o Dia da Terra,
[celebrado pela primeira vez a 22 de abril de 1970], por exemplo, têm a
sua marca”, recorda Soromenho Marques. Carson, que já escreveu o livro
com um cancro de mama avançado, não sobreviveu para testemunhar estas
vitórias. Morreu em 1964, dois anos após a publicação de Primavera Silenciosa.
Carson
inspirou gerações de ativistas e ecólogos, sobretudo nos Estados
Unidos. A ambientalista Erin Greeson, hoje com 45 anos, vê desde muito
jovem Rachel Carson como “uma heroína”. “Rachel Carson incentivou os
movimentos. Ela seria inspirada pelos movimentos que acontecem hoje, em
grande parte encabeçados por jovens líderes que se recusam a aceitar o
mundo fraturado e os sistemas destrutivos que lhes estamos a entregar”,
diz ao PÚBLICO diretora de comunicação do Instituto para as Energias Renováveis e a Vida Selvagem, sediado em Washington.
Para
Greeson, a voz de Carson continua a ecoar hoje e, de algum modo,
deu-nos ferramentas enquadrar e comunicar os riscos que a crise
climática coloca à humanidade. Ainda assim, parece faltar-nos uma
metáfora poderosa para condensar a urgência de um planeta a arder, cada
vez mais fustigado com eventos climáticos extremos.
“Talvez não precisemos mais de metáforas. Rachel Carson descrevia em Primavera Silenciosa
algo que ainda não podia ser realmente visto. Carson falava sobre
futuro. Agora, temos muitos exemplos de incêndios e inundações – as
metáforas tornaram-se desnecessárias”, afirma o escritor e ativista
climático Bill McKibben, à margem de uma entrevista ao PÚBLICO.
Já
Soromenho Marques, acredita que “a crise climática é uma janela
perturbante, gravíssima para algo mais amplo: a crise global do
ambiente”. Por isso, quando enunciamos o problema em busca de soluções,
devemos nos desviar de “expressões redutoras” como “transição
energética” e focar no primordial: “a nossa principal crise é a do modo
como habitamos a Terra”.
A solução
passa, portanto, pela transformação, pela possibilidade – que ainda
temos – de escolher outra estrada. Para Soromenho Marques, trata-se de
um ensinamento válido que, seis décadas depois, Primavera Silenciosa
continua a oferecer. Como nestas palavras de Rachel Carson, que o
filósofo português lê em voz alta: “A estrada pela qual temos estado a
viajar por tão longo tempo é ilusoriamente fácil: uma auto-estrada de
pavimentação lisa, pela qual avançamos em grande velocidade; mas, na sua
extremidade final, o que há é o desastre.”
Foi contratada pelo governo americano para escrever boletins para a rádio durante a Depressão e também escrevia artigos sobre história natural para o Jornal Baltimore Sun.
Em 1936, torna-se editora–chefe de todas as publicações do renomeado U.S. Fish e Wildlife
(Departamento de Pesca e Vida Selvagem). As suas primeiras publicações
foram sobre os estudos das espécies e seres vivos que habitavam os
mares e oceanos como: Under The Sea Wind (Sob o Vento do Mar – 1941), The Sea Around Us (O Mar Que Nos Rodeia – 1951), que foi sucesso nacional e internacional e foi traduzido para 30 diferentes idiomas.
Livros publicados
Under the Sea Wind, 1941, Simon & Schuster, Penguin Group, 1996
Fishes of the Middle West, 1943, United States Government Printing Office (online pdf)
Fish and Shellfish of the Middle Atlantic Coast, 1945, United States Government Printing Office (online pdf)
Chincoteague: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Mattamuskeet: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Parker River: A National Wildlife Refuge, 1947, United States Government Printing Office (online pdf)
Bear River: A National Wildlife Refuge, 1950, United States Government Printing Office (com Vanez T. Wilson) (online pdf)
The Sea Around Us, 1951, Oxford University Press, 1991
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