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domingo, maio 12, 2013

Há 80 anos, um escritor teve de pedir aos estúpidos dos nazis que queimassem os seus livros

Oskar Maria Graf (Berg, 22 de julho de 1894 - Nova Iorque, 28 de junho de 1967) foi um escritor alemão.
Ele escreveu várias novelas e narrativas socialistas-anarquistas sobre a vida na Baviera, consideradas um pouco autobiográficas.
Inicialmente usou o seu verdadeiro nome, Oskar Graf. Depois de 1918, passou a usar o pseudónimo de Oskar Graf-Berg, sobretudo em artigos de revistas e jornais; para trabalhos que considerava mais sérios, ele passou a assiná-los com o nome de Oskar Maria Graf.

(...)
Em 17 de fevereiro de 1933, ele viajou para Viena, uma viagem que deu início ao seu exílio voluntário da Alemanha natal. Os seus livros, inicialmente, não foram destruídos durante a Queima de Livros nazi, sendo, curiosamente, uma leitura recomendada pelo regime. Como resultado desta decisão, em 12 de maio de 1933, ele publicou, no jornal de Viena Arbeiter-Zeitung ("Jornal dos Trabalhadores") o seu famoso apelo anti-nazi, Verbrennt mich! ("Queimem-me!"). Os nazis, por causa do conteúdo aparentemente pertencente ao Movimento Völkisch, pensavam que os livros eram conformes à ideologia oficial do III Reich.
Um ano depois, em 1934, os seus livros foram finalmente proibidos na Alemanha.

Memorial recordando a Queima dos Livros de 1933, em Frankfurt

Die Bücherverbrennung

Als das Regime befahl, Bücher mit schädlichem Wissen
Öffentlich zu verbrennen, und allenthalben
Ochsen gezwungen wurden, Karren mit Büchern
Zu den Scheiterhaufen zu ziehen, entdeckte
Ein verjagter Dichter, einer der besten, die Liste der
Verbrannten studierend, entsetzt, daß seine
Bücher vergessen waren. Er eilte zum Schreibtisch
Zornbeflügelt, und schrieb einen Brief an die Machthaber.
Verbrennt mich! schrieb er mit fliegender Feder, verbrennt mich!
Tut mir das nicht an! Laßt mich nicht übrig! Habe ich nicht
Immer die Wahrheit berichtet in meinen Büchern? Und jetzt
Werd ich von euch wie ein Lügner behandelt! Ich befehle euch, Verbrennt mich!

Bertolt Brecht

NOTA: para os nossos leitores que não sabem alemão, tal como eu, aqui fica a tradução do poema anterior, feita por um grande Professor da Universidade de Coimbra:

A QUEIMA DOS LIVROS

Quando o Regime ordenou que queimassem em público
Os livros de saber nocivo, e por toda parte
Os bois foram forçados a puxar carroças
Carregadas de livros para a fogueira, um poeta
Expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
Dos queimados, descobriu, horrorizado, que os seus
Livros tinham sido esquecidos. Correu para a secretária
Alado de cólera e escreveu uma carta aos do Poder
Queimai-me! escreveu com pena veloz, queimai-me!
Não me façais isso! Não me deixeis de lado! Não disse eu
Sempre a verdade nos meus livros? E agora
Tratais-me como um mentiroso! Ordeno-vos:
Queimai-me!

in
Poemas (2007) - Bertolt Brecht (versão portuguesa de Paulo Quintela)

sexta-feira, maio 10, 2013

Os nazis começaram a Bücherverbrennung (queima de livros) há 80 anos...

Bücherverbrennung significa em alemão literalmente queima de livros. É um termo muitas vezes associado à acção propagandística dos nazis, organizada entre 10 de maio e 21 de junho de 1933, poucos meses depois da chegada ao poder de Adolf Hitler. Em várias cidades alemãs foram organizadas nesta data queimas de livros em praças públicas, com a presença da polícia, bombeiros e outras autoridades.
Tudo o que fosse crítico ou desviasse dos padrões impostos pelo regime nazi foi destruído. Centenas de milhares de livros foram queimados no auge de uma campanha iniciada pelo diretório nacional de estudantes (Verbindungen).
Os estudantes, em particular os estudantes membros das Verbindungen, membros das SA e SS participaram nestas queimas. A organização deste evento coube às associações de estudantes alemãs NSDStB e a ASTA, que com grande zelo competiram entre si tentando cada uma provar que era melhor do que a outra. Foram queimados cerca de 20.000 livros, a maioria dos quais pertencentes às bibliotecas públicas, de autores oficialmente tidos como "pouco alemães" (undeutsch).
O poeta nazi Hanns Johst foi um dos que justificou a queima, logo depois da ascensão dos nazis ao poder, com a "necessidade de purificação radical da literatura alemã de elementos estranhos que possam alienar a cultura alemã".

Autores banidos
Entre os livros queimados pelos nazis contavam-se obras quer de autores falecidos como também contemporâneos, perseguidos pelo regime, muitos deles tendo emigrado. Na lista encontramos entre outros:

"Queimem os meus Livros!"
Oskar Maria Graf não foi incluido na lista. Para seu espanto, os seus livros não foram banidos como até foram recomendados pelos Nazis. Em resposta, ele publicou um artigo intitulado "Verbrennt mich! (Queimem-me!) no jornal "Wiener Arbeiterzeitung" (Jornal do Trabalhador Vienense - texto em alemão aqui). Em 1934 o seu desejo foi tornado realidade e os seus livros foram também banidos pelos nazis.

Repercussões
A opinião pública e a intelectualidade alemãs ofereceram pouca resistência à queima. Editoras e distribuidoras reagiram com oportunismo, enquanto a burguesia se distanciou, passando a responsabilidade aos académicos. Também outros países acompanharam a destruição de forma distanciada, chegando a minimizar a queima como resultado do "fanatismo estudantil".
Entre os poucos escritores que reconheceram o perigo e tomaram uma posição estava Thomas Mann, que havia recebido o Nobel de Literatura em 1929. Em 1933, ele emigrou para a Suíça e, em 1939, para os Estados Unidos. Quando a Faculdade de Filosofia da Universidade de Bonn lhe retirou o título de doutor honoris causa, ele escreveu ao Reitor: "Nestes quatro anos de exílio involuntário, nunca parei de meditar sobre minha situação. Se tivesse ficado ou retornado à Alemanha, talvez já estivesse morto. Jamais sonhei que no fim da minha vida seria um emigrante, despojado da nacionalidade, vivendo desta maneira!"
Também Ricarda Huch retirou-se da Academia Prussiana de Artes. Na carta ao seu presidente, em 9 de abril de 1933, a escritora criticou os ditames culturais do regime nazista: "A centralização, a opressão, os métodos brutais, a difamação dos que pensam diferente, os autoelogios, tudo isso não combina com meu modo de pensar", justificou. Em 1934, a "lista negra" incluía mais de três mil obras proibidas pelos nazistas.
Como disse o poeta Heinrich Heine: "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas."