Fernando Pessoa é o mais universal poeta português. Por ter sido educado na
África do Sul,
numa escola católica irlandesa, chegou a ter maior familiaridade com o
idioma inglês do que com o português ao escrever seus primeiros poemas
nesse idioma. O crítico literário
Harold Bloom considerou Pessoa como "
Whitman
renascido", e o incluiu no seu cânone entre os 26 melhores escritores
da civilização ocidental, não apenas da literatura portuguesa mas também
da inglesa.
Enquanto poeta, escreveu sob múltiplas personalidades –
heterónimos, como
Ricardo Reis,
Álvaro de Campos e
Alberto Caeiro
–, sendo estes últimos objeto da maior parte dos estudos sobre a sua
vida e obra. Robert Hass, poeta americano, diz: "outros modernistas como
Yeats,
Pound,
Elliot inventaram máscaras pelas quais falavam ocasionalmente... Pessoa inventava poetas inteiros."
A ÚLTIMA NAU
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou ’spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.
in Mensagem (1934) - Fernando Pessoa
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