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sexta-feira, março 04, 2011

O rescaldo da queda da ponte Hintze Ribeiro - 10 anos

Entre-os-Rios: uma década depois as promessas permanecem no papel

A nova ponte fez-se, o IC 35 não

Nos dias que se seguiram à queda da ponte, o cortejo de ministros e secretários de Estado em direcção a Castelo de Paiva prolongou-se por meses, com a classe política, solene e consternada, a concordar que a tragédia tinha que fechar o ciclo de abandono a que aqueles concelhos vinham sendo votados. Dez anos volvidos, a principal via que ligaria Castelo de Paiva ao centro de Penafiel e que, consequentemente, colocaria os paivenses a 30 minutos do Porto continua sem sair do papel. Consequência: as fábricas continuam a fechar, o desemprego atinge os 20 por cento, o dobro da taxa nacional, e nem os médicos aceitam fixar-se por estas bandas.

Indignado com o que qualifica como "uma gritante falta de responsabilidade dos governantes", o presidente da Câmara de Penafiel, Alberto Santos, já recolheu assinaturas suficientes para forçar a discussão do problema na Assembleia da República. O caricato desta situação é que a ponte que assegura a passagem sobre o rio entre Castelo de Paiva e Entre-os-Rios foi construída, a escassos metros da nova Hintze Ribeiro, especificamente a pensar no Itinerário Complementar n.º 35 (IC35). A ideia era que a nova rodovia dispensasse os automobilistas de terem que percorrer os 13 quilómetros que separam Entre-os-Rios do centro de Penafiel, onde o acesso ao Porto é garantido pela A4, pela velhinha EN 106. Claramente sobrelotada, esta estrada matou oito pessoas nos últimos três anos. "A cada dois dias e meio há um acidente e a cada seis dias uma vítima, que pode ser um ferido, grave ou ligeiro, ou um morto", contabiliza Alberto Santos. Acresce que as 27 mil pessoas que todos os dias entopem a via fazem com que, nas horas de maior afluxo, se perca mais de uma hora a percorrer os referidos 13 quilómetros.

Como o IC35 nunca passou de um esquisso, a nova ponte não passa de um triste lembrete, a mostrar que as promessas feitas no rescaldo da tragédia perderam validade assim que os microfones mediáticos apontaram noutra direcção. "Fizeram uma ponte que está ali há anos sem servir para nada, porque não liga a lado nenhum. A consciência que os protagonistas políticos revelaram na altura apagou-se, juntamente com os holofotes", lamenta o social-democrata Alberto Santos. A empreitada está orçada em 64 milhões de euros. "Se os fundos comunitários não servem para financiar estruturas como esta, então pergunto-me para que servem", questiona.

As implicações que as más acessibilidades têm a nível social são fáceis de traduzir em estatísticas. Penafiel, que a A4 pôs a 20 minutos do centro do Porto, tem uma taxa de desemprego que ronda os 10 por cento, em linha com o país, portanto. Em Castelo de Paiva, ali mesmo na fronteira, mas sem auto-estrada nem o IC35 que facilitaria o acesso à A4, a taxa de desemprego dobra para os 20 por cento. "Se nos tivessem feito o IC35, tínhamos conseguido atrair investimento. O director-geral da Louis Vuitton esteve em Castelo de Paiva quando a nova ponte estava a ser construída e perguntou se haveria acesso à auto-estrada. Nós não podíamos dizer que o acesso ia ser feito, porque o que tínhamos era uma promessa. Quando lhe dissemos isso, ele, que já estava habituado às promessas dos políticos portugueses, simplesmente desistiu de fazer o investimento", recorda Paulo Teixeira, o social-democrata que, em 2009, perdeu a autarquia paivense para o professor de História Gonçalo Rocha, por apenas 22 votos.

Eleito pelo PS, Gonçalo Rocha confirma que "as más acessibilidades são o maior empecilho ao desenvolvimento do concelho". E não foi só o IC35 que ficou em falta. A variante da EN 222 que termina, junto a uma colina, em Pedorido, continua sem perspectivas de ligação à A32 que atravessará Santa Maria da Feira. "É um troço de seis quilómetros que não se percebe como nunca avançou porque nos poria em ligação com os principais eixos rodoviários do país e a 20 minutos do Porto", desespera.

É que sem estradas também não há médicos que aceitem fixar-se no concelho. "Estamos sempre a pedir médicos, alguns são deslocados, mas, quando verificam as acessibilidades, rejeitam vir para cá", lamenta o autarca. O problema não é de agora. Paulo Teixeira lembra as vezes em que esbarrou na porta do centro de saúde local com aviso "Procure o centro de saúde mais próximo". Já houve mortes que talvez pudessem ter sido evitadas. "No meu tempo", recorda o ex-autarca, "morreram pelo menos duas pessoas, uma criança de cinco anos e um homem de 50, porque era hora de ponta e a viatura de emergência médica não conseguiu chegar de Penafiel a Castelo de Paiva". Os hospitais mais próximos, em Penafiel e em Santa Maria da Feira, ficam a uma hora ou mais de distância, dependendo da hora. "Em saúde, uma hora é muito tempo...", insiste Gonçalo Rocha, para concluir que, desta forma, é difícil curar as nódoas negras do concelho.

quinta-feira, março 03, 2011

Curiosidades sobre uma ponte de que amanhã se falará muito

Passarão amanhã 10 anos sobre a queda de uma ponte, com um ilustre nome, na qual perderam a vida 59 pessoas. Antes de que a voragem do tempo e as notícias mal amanhadas nos façam esquecer este evento, vamos ao que interessa.


1. Ponte Hintze Ribeiro


Baptizada com o nome do ilustre Presidente do Conselho (equivalente ao actual primeiro ministro) de El-Rei D. Carlos I, havia duas pontes com este nome, a que caiu há 10 anos em Entre-os-Rios (em cima) e outra, ainda a funcionar (actualmente em obras) na cidade de Leiria:



2. Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro

Citando a Wikipédia:

Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro (Ponta Delgada, 7 de Novembro de 1849Lisboa, 1 de Agosto de 1907), foi um destacado político de origem açoriana. Distinto parlamentar e par do Reino, Procurador-Geral da Coroa, ministro das obras públicas, das finanças e dos negócios estrangeiros e líder incontestado do Partido Regenerador, por três vezes assumiu o cargo de Presidente do Conselho (equivalente hoje ao lugar de Primeiro-Ministro). Foi um dos políticos dominantes da fase final da Monarquia Constitucional, ocupando a presidência do ministério mais tempo que qualquer outro naquele período. A ele se devem importantes reformas, algumas das quais ainda perduram, tais como as autonomias insulares (1895), o regime das farmácias e a criação do regime florestal (1901). O Decreto de 24 de Dezembro de 1901, que regula o regime florestal, ainda está em vigor. Feito Conselheiro de Estado efectivo em 1891, recebeu múltiplas condecorações, entre as quais a grã-cruz da Torre e Espada. Foi sócio efectivo da Academia Real das Ciências.
Embora o pai das autonomias insulares e o homem que mostrou à Família Real a beleza dos Açores ficasse sem descendentes directos, o apelido Hintze Ribeiro perdura ainda - aliás é usado pelas duas filhas e esposa de um geopedrado açoriano, ao qual daqui mandamos as nossas saudações...


3. Porque caiu a ponte

Ainda hoje não há certezas sobre as causas do desastre, mas o excesso de extracção de areia, falhas na manutenção e verificação do estado dos pilares e os rigores do Inverno bastante pluvioso, tudo se conjugou. Culpados, como sempre, não houve. Contudo, numa atitude muito digna, o Ministro do Equipamento Social da altura, Jorge Coelho, demitiu-se em consequência do evento (só é pena que a sua respeitabilidade tivesse prazo de validade curto...).