segunda-feira, outubro 05, 2026

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 Os animais podem ter nascido 200 milhões de anos antes do que os fósseis dizem

 

Reconstrução artística do fundo do mar na Namíbia, África Ocidental, há 543 milhões de anos 

 

Entre o momento em que os animais surgiram e o primeiro fóssil que deixaram há um buraco negro de 200 milhões de anos. Um novo estudo tenta espreitar lá para dentro.

Os primeiros animais podem ter aparecido na Terra centenas de milhões de anos antes do que os seus fósseis sugerem, sugere um novo estudo.

Até agora, os fósseis de animais mais antigos tinham cerca de 574 milhões de anos e eram do período Ediacariano (635 milhões a 538 milhões de anos).

No novo estudo, publicado na sexta-feira na Science Advances, uma equipa de investigadores defende que não podemos confiar apenas no registo fóssil, cheio de lacunas, e sugere que os animais surgiram até 200 milhões de anos antes dos fósseis de animais mais antigos que se conhecem.

Os autores defendem que a ausência de fósseis de animais em algumas rochas antigas muito bem preservadas não significa que os animais não existissem. Em vez disso, sugerem que falta ao registo fóssil um capítulo-chave da evolução animal, o que pode recuar a origem dos animais para entre 800 e 700 milhões de anos.

Isto colocaria o surgimento dos animais bem dentro da era Neoproterozoica (mil milhões a 539 milhões de anos), talvez antes ou durante algumas das idades do gelo mais extremas da Terra.

Mesmo que os cientistas não tenham encontrado fósseis de animais indiscutíveis do Neoproterozoico, isso não quer dizer que não houvesse animais nessa altura.

Os fósseis podem faltar nas rochas por várias razões: os cientistas podem estar a procurar nos sítios errados, ou as condições não eram as certas para formar fósseis. Isso torna difícil saber quais foram os primeiros animais a evoluir.

“Até essa prova aparecer, a data exata de nascimento do reino animal continua incerta”, disse,  Ross Anderson, coautor do estudo e professor associado de história natural na Universidade de Oxford, num comunicado publicado no EurekAlert.

E então, onde estão os animais?

Até agora, a maioria dos investigadores apoiava-se nas rochas bem preservadas do período Ediacariano, como a biota de Weng’an, na China, com cerca de 590 milhões de anos, para estudar quando evoluíram os animais.

Como os depósitos de rocha de lá contêm organismos microscópicos preservados de forma única, mas nenhum fóssil de animal claro, os especialistas trataram-nos por vezes como uma espécie de limite máximo para a data em que os animais poderiam ter surgido.

“O jogo é, basicamente, saber quanto é que isso antecede a nossa primeira descoberta de fósseis, e o que aconteceu nessa caixa negra da evolução entre o momento em que de facto surgiram e aquele em que temos a nossa primeira janela fóssil”, disse à Live Science Karma Nanglu, professor auxiliar de paleobiologia evolutiva na Universidade da Califórnia em Riverside, que não participou no estudo.

Mas os investigadores quiseram saber se outros jazigos de fósseis, de períodos em que já se sabe que havia animais, tinham mesmo provas de fósseis de animais.

Para o descobrir, Anderson e os colegas estudaram mais de 140 amostras da biota de Kheseen, na Mongólia, mais de 40 milhões de anos mais recente do que o depósito da biota de Weng’an, com 590 milhões de anos.

Por ser um depósito mais recente, os investigadores partiram do princípio de que deviam restar na rocha provas de vida animal.

Com microscopia eletrónica de varrimento, viram fósseis microscópicos preservados com um detalhe extraordinário: organismos minúsculos e esféricos e estruturas parecidas com embriões, com células no interior.

Mesmo assim, apesar da qualidade da preservação, os investigadores não conseguiram identificar nenhum dos microfósseis como animal.

E isso é importante: na altura em que a biota de Kheseen se formou, já havia animais noutros pontos da Terra.

“A biota de Kheseen desmonta o argumento de que os microfósseis excecionais de Weng’an significam que teríamos visto fósseis de animais no conjunto, se eles existissem na altura”, disse Anderson. “Os microfósseis de Kheseen estão igualmente bem preservados e, ainda assim, os animais continuam ausentes, apesar de sabermos que, nesse momento, já existiam”.

 

Os relógios moleculares

Sem provas fósseis, Anderson e os colaboradores recorreram a outro método comum para datar vida antiga: os relógios moleculares.

Este método estima quando se separaram as linhagens evolutivas, ao comparar as diferenças genéticas entre organismos vivos e ao juntar essas diferenças ao ritmo a que os genes mudam.

Por exemplo: se duas espécies de aves têm cinco alterações no ADN, e cada alteração no ADN demora cerca de 1 milhão de anos a acumular-se, os cientistas podem estimar que as duas espécies se separaram há cerca de 5 milhões de anos.

“Os relógios moleculares são úteis quando não temos um registo fóssil particularmente bom para o grupo ou o período que nos interessa”, explica Nanglu.

Quando a análise foi limitada pelo depósito mais recente de Weng’an, a origem estimada dos animais era relativamente recente.

Mas, com limites geológicos mais antigos, a cronologia mudou.

Os autores usaram formações rochosas na Noruega, na Austrália e no Arizona, com cerca de 850 a 730 milhões de anos, que já no passado tinham servido para procurar os primeiros antepassados dos animais. Ao comparar o ADN dos animais atuais com datas de referência do registo fóssil e com os ritmos de evolução, a estimativa recuou cerca de 200 milhões de anos, para entre 800 e 700 milhões de anos.

“Os fósseis corporais de animais pré-Ediacarianos continuam a escapar-nos, e esta análise não prova que existissem animais há 800 milhões de anos”, diz no comunicado o primeiro autor do estudo, Orin Lole Durbin, doutorando em paleobiologia na Virginia Tech, que era estudante na Universidade de Oxford na altura do estudo.

“Entretanto, as nossas análises com relógios moleculares mostram até quando pode recuar a sua história evolutiva”, conclui.

“Os fósseis já estão, por definição, meio escondidos da vista de todos”, diz Nanglu. “Para lá disso, há um mundo ainda mais escondido, e esse mundo tem muito para nos dizer sobre a origem dos animais”.

 

in Wikipédia 

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