Após ter terminado o ensino básico, Manuel da Fonseca prosseguiu os seus estudos em
Lisboa. Estudou no Colégio Vasco da Gama,
Liceu Camões, Escola Lusitânia e
Escola de Belas-Artes.
Apesar de não ter sobressaído na área das Belas-Artes, deixou alguns
registos do seu traço sobretudo nos retratos que fazia de alguns dos
seus companheiros de tertúlias lisboetas como é o caso do de
José Cardoso Pires.
Durante os períodos de interregno escolar, aproveitava para regressar
ao seu Alentejo de origem. Daí que o espaço de eleição dos seus
primeiros textos seja o Alentejo. Só mais tarde e a partir de
Um Anjo no Trapézio é que o espaço das suas obras passa a ser a cidade de Lisboa.
Membro do
Partido Comunista Português (PCP), Manuel da Fonseca fez parte do grupo do
Novo Cancioneiro e é considerado por muitos como um dos melhores escritores do
neo-realismo
português. Nas suas obras, carregadas de intervenção social e
política, relata como poucos a vida dura do Alentejo e dos alentejanos.
Em sua homenagem, a Escola Secundária de
Santiago do Cacém, denomina-se
Escola Secundária Manuel da Fonseca e a Biblioteca Municipal de
Castro Verde,
Biblioteca Municipal Manuel da Fonseca.
Vida
Vida:
sensualíssima mulher de carnes maravilhosas
cujos passos são horas
cadenciadas
rítmicas
fatais.
A cada movimento do teu corpo
dispersam asas de desejos
que me roçam a pele
e encrespam os nervos na alucinação do «nunca mais».
Vou seguindo teus passos
lutando e sofrendo
cantando e chorando
e ficam abertos meus braços:
nunca te alcanço!
Meu suplício de Tântalo.
Envelheço...
E tu, Vida, cada vez mais viçosa
na oscilação nervosa
das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
À punhalada dilacero a folhagem
e abro clareiras
na floresta milenária do meu caminho.
Humildemente se rasga e avilta
no roçar dos espinhos
minha carne dorida.
E quando julgo chegada a hora
meu abraço de posse fica escancarado no ar!
Olímpica
firme
gloriosa
tu passas e não te alcanço, Vida.
Caio suado de borco
no lodo...
O vento da noite badala nos ramos
sarcasmos canalhas.
Não avisto a vida!
Tenho medo, grito.
Creio em Deus e nos fantásticos ecos
do meu grito
que vêm de longe e de perto
do sul e do norte
que me envolvem
e esmagam:
— maldita selva, maldita selva,
antes o deserto, a sede e a morte!
in Rosa dos Ventos (1940) - Manuel da Fonseca
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