As crianças: mega-agrupadas num atulhamento cego e acéfalo, mas reconhecidas. A caminho da socialização de aviário, empatadas nas horas de ponta - maravilha desconhecida da sua escola infra-21 das berças -, mas risonhas em série. Nas próximas semanas, receberão a visita do
e-primeiro-ministro que, sorridente do abuso, olhará impressionado-pràs-câmaras os corredores do "novo centro escolar", percorrerá satisfeito as manjedouras da magalhanada e tocará ao de leve a cabeça de uma criancinha manipulável e se debruçará, interessado e comovido-pràs-câmaras, sobre um teclado para deditos a info-atrofiar "socraticamente". Dirá até algumas palavras inesquecíveis de prosápia saloia - qualquer coisa como:
'esta é a Escola que queremos para as nossas crianças, uma Escola fora do isolamento, uma Escola aberta ao sucesso, com todos os equipamentos da sociedade da informação, uma Escola do futuro! [ou
'da modernidade!']
Há os que só sabem dizer mal e nada constroem, mas esses sabem ler e escrever e já têm computador!' O homem é assim, mede o ponto de vista dos outros pela sua própria e confrangedora bitola. (Talvez haja nele alguma leve consciência disso - o que explicaria aquela pulsão da farronca que ele solta para cima de toda a divergência com que depara: esse chinfrim de valentão esganiçado procurará, umas vezes, compensar, disfarçar o seu vazio de pensamento, a sua ausência de projecto
não-imediato, ou, noutras vezes, distrair os outros do avolumar das suspeitas sobre a veracidade das suas proclamações, como se a gritaria emprestasse alguma convicção de verdade àquilo que, tantas vezes, não passa de fabulação enganosa.)
Trata-se de gente que não
pensa - nem a Escola em particular, nem, provavelmente, nada em geral. Funcionam
por arrancos, sempre desconfiados do saudável e indispensável
escrutínio. Este não lhes cabe no seu curto horizonte e revela para lá do que lhes é suportável o carácter inconsistente das suas medidas. Têm a consciência ansiosa da sua mediocridade, vivem na antecipação nervosa da descoberta dos logros que vão lançando - por isso reagem sempre tão mal a qualquer dúvida, crítica, divergência, oposição. Estas são sempre despedidas com arrogância e reduzidas a "ataques pessoais" ou "maledicência". Sócrates e Ca. têm uma visão (e uma prática) da política como uma actividade de entretenimento circense - chegam a deixar-se deslumbrar pelo seu próprio espectáculo/missão e perdem o pé, o contacto com a realidade.
É esta que tem de se lhes adaptar e não o contrário. Detestam que lhes estraguem o foguetório. Por outro lado, o primeiro-ministro faz como que um investimento "egocêntrico" nas opções que toma e, por isso, encara como uma afronta
pessoal qualquer apreciação mais independente que se faça ouvir. Como se isso não bastasse, tolera e incentiva os tiranetes que vão despontando ao redor - deixa-os medrar. (Para além dessa gente, não tem mais ninguém...) Ele mesmo tem pulsões de tiranete caprichoso. Com estas características, é um homem que nem deveria ter chegado a primeiro-ministro. O José Sócrates que há diz muito sobre nós.