Devido aos seus ideais comunistas e à sua assumida e militante oposição ao
Estado Novo, esteve preso em
1937,
1940 e
1949-
1960,
num total de 13 anos, 8 dos quais em completo isolamento sem nunca,
incrivelmente, ter perdido a noção do tempo. Mesmo sob violenta tortura,
nunca falou. Na prisão, como forma de passar o tempo, dedicou-se à
pintura e à escrita. Uma das suas produções mais notáveis aquando da sua
prisão, foi a tradução e ilustração da obra
Rei Lear, de
William Shakespeare. A
3 de janeiro de
1960, Cunhal, juntamente com outros camaradas, todos quadros destacados do PCP, protagonizaram a célebre "
fuga de Peniche", possível graças a um planeamento muito rigoroso e a uma grande coordenação entre o exterior e o interior da prisão.
Em
1962 é enviado pelo PCP para o estrangeiro, primeiro para
Moscovo, depois para
Paris.
Em
1968
Álvaro Cunhal presidiu à Conferência dos Partidos Comunistas da Europa
Ocidental, o que é revelador da influência que já nessa altura detinha
no movimento comunista internacional. Neste encontro, mostrou-se um
dos mais firmes apoiantes da invasão da então
Checoslováquia pelos tanques do
Pacto de Varsóvia, ocorrida nesse mesmo ano.
Em
1982, tornou-se membro do
Conselho de Estado, abandonando estas funções dez anos depois, quando saiu da liderança do PCP.
Além das suas funções na direcção partidária, foi
romancista e
pintor, escrevendo sob o pseudónimo de
Manuel Tiago, o que só revelou em
1995.
Nos últimos anos da sua vida sofreu de
glaucoma, acabando por cegar.
Faleceu em
13 de junho de
2005, em
Lisboa, e no seu funeral, a
15 de junho, participaram mais de 250.000 pessoas, segundo o PCP. Por sua vontade, o corpo foi cremado.
Da sua relação com Isaura Maria Moreira, teve uma filha, Ana Maria Moreira Cunhal, nascida a
25 de dezembro de
1960.
Álvaro Cunhal ficou na memória como um comunista que nunca abdicou do seu ideal.
Os presídios - III
Mas,
português da rua,
entre nós,
que ninguém nos escuta,
sabes
onde
está Álvaro Cunhal?
Sabes a ausência,
ou alguém o sabe,
do valente
Militão?
Moça portuguesa,
passas como que bailando
pelas ruas
rosadas de Lisboa,
mas,
sabes onde caiu Bento Gonçalves,
o português mais puro,
honra de teu mar e de tua areia?
Sabes
que existe uma ilha,
a Ilha do Sal
e que nela o Tarrafal
verte sombra?
Sim, tu sabes, moça,
rapaz, sim, tu bem o sabes.
Em silêncio
a palavra
anda com lentidão mas percorre
não só Portugal mas toda Terra.
Sim, sabemos,
em remotos países,
que há trinta anos
uma lápide
espessa como túmulo ou como túnica,
de clerical morcego,
afoga Portugal, teu triste canto,
salpica tua doçura,
com gotas de martírio
e mantém as suas cúpulas de sombra.
in Las uvas y el viento (1954) - Pablo Neruda
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