Nasceu em
Creta, que naquela época pertencia à
República de Veneza, e era um centro artístico
pós-bizantino. Treinou ali e tornou-se um mestre dentro dessa tradição artística, antes de viajar, aos vinte e seis anos, para
Veneza, como já tinham feito outros artistas gregos. Em 1570 mudou-se para
Roma, onde abriu um ateliê e executou algumas séries de trabalhos. Durante sua permanência na
Itália, enriqueceu seu estilo com elementos do
maneirismo e da
renascença veneziana. Mudou-se finalmente em
1577 para
Toledo, na
Espanha, onde viveu e trabalhou até sua morte. Ali, El Greco recebeu diversas encomendas e produziu suas melhores pinturas conhecidas.
O estilo dramático e expressivo de El Greco foi considerado estranho
por seus contemporâneos, mas encontrou grande apreciação no
século XX, sendo considerado um precursor do
expressionismo e do
cubismo, ao mesmo tempo em que sua personalidade e trabalhos eram fonte de inspiração a poetas e escritores como
Rainer Maria Rilke e
Nikos Kazantzakis.
El Greco é considerado pelo modernos estudiosos como um artista tão
individual que não o consideram como pertencente a nenhuma das escolas
convencionais. É mais conhecido por suas figuras tortuosamente
alongadas e uso freqüente de
pigmentação fantástica ou mesmo fantasmagórica, unindo tradições bizantinas com a
pintura ocidental.
Em sua época teve somente dois seguidores de seu estilo: o seu filho Jorge Manuel Theotokópoulos e
Luis Tristán.
El entierro del Conde de Orgaz - 1587
Solilóquio de Greco no Enterro do Conde de Orgaz
Quatrocentos anos depois, importa-me
digam ser a minha
a arte do desmembramento e ascensão nucleares,
levítica, alienada? Ou alguém hesite
pelos séculos entre este finado e as Meninas
de Velázquez? Quantos apaixonei por mim
ao unir terra e céu na mesma fraternidade mal-afortunada,
ao tornar aderente a divindade
como fruto que conserva parte da sua flor
e espoliar-me do quinto sigilo,
dos mortos pela palavra de Deus e por seu testemunho.
Amigos, os sinais fúnebres, Jorge Manuel,
único filho, com insciência e garbo
de seus oito anos, e sobre o Anjo recolhendo a alma,
a Virgem, minha mulher, Jerónima,
entre Deus e todos os seus Santos.
Essa que pintei com pele de arminho
e cujo cálido rosto pervive com dureza de lioz,
igual quando a possuí e sempre
assumindo a feição de Mãe de Cristo:
fiel a ambas, fiel a nuvens, mãos aladas.
E olho, miraculado, os visitantes de Toledo,
turbas passam, tártaros indiferentes
nesta capela onde sou eu quem dá
a proporção cósmica da beleza.
A eles amo por seu bafo
poluente, mas vivo, e aos que me querem
na dúvida de crer ou na mortificação da Graça,
que foi minha. Como desejo ao Tejo
corra com o meu verde, mais exaltado,
e que as casas toledanas mantenham
a cor entre palha e barro, burel de apóstolos,
comunicada pelo restolho na planura.
A alma é sombra, um sonho.
Assim figurei vida e morte,
sem descaminho, sem o terrível cheiro de lobos,
ambas perdurando além de toda a mudança.
in O Lugar do Amor (1981) - António Osório
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