Coroação póstuma de Inês de Castro - pintura de Pierre-Charles Comte (1849)
Morte
Depois de alguns anos no
Norte de Portugal, Pedro e Inês tinham regressado a
Coimbra e instalaram-se no
Paço de Santa Clara. Mandado construir pela avó de D. Pedro, a
Rainha Santa Isabel,
foi neste Paço que esta Rainha vivera os últimos anos, deixando
expresso o desejo que se tornasse na habitação exclusiva de Reis e
Príncipes seus descendentes, com as suas esposas legítimas.
Havia boatos de que o Príncipe tinha se casado secretamente com D.
Inês. Na Família Real um incidente deste tipo assumia graves implicações
políticas. Sentindo-se ameaçados pelos irmãos Castro, os fidalgos da
corte portuguesa pressionavam o rei D. Afonso IV para afastar esta
influência do seu herdeiro. O rei D. Afonso IV decidiu que a melhor
solução seria matar a dama galega. Na tentativa de saber a verdade o Rei
ordenou a dois conselheiros seus que dissessem a D. Pedro que ele
podia se casar livremente com D. Inês se assim o pretendesse. D. Pedro
percebeu que se tratava de uma cilada e respondeu que não pensava
casar-se nunca com D.ª Inês.
A 7 de janeiro de 1355, o rei cedeu às pressões dos seus conselheiros e aproveitando a ausência de D. Pedro, numa excursão de
caça, foi com
Pêro Coelho,
Álvaro Gonçalves,
Diogo Lopes Pacheco e outros para executarem Inês de Castro em Santa Clara, conforme fora decidido em conselho. Segundo a
lenda, as lágrimas derramadas no
rio Mondego pela morte de Inês teriam criado a Fonte dos Amores da
Quinta das Lágrimas, e algumas
algas avermelhadas que ali crescem seriam o seu
sangue derramado.
A morte de D. Inês provocou a revolta de D. Pedro contra D. Afonso IV. Após meses de conflito, a Rainha
D. Beatriz conseguiu intervir e fez selar a paz, em agosto de 1355.
D. Pedro tornou-se no
oitavo rei de Portugal como D.
Pedro I em 1357. Em junho de 1360 fez a
declaração de Cantanhede, legitimando os filhos de Inês ao afirmar que se tinha casado secretamente com ela, em
1354, em Bragança, «
em dia que não se lembrava». A palavra do rei, do seu
capelão e de um seu criado foram as provas necessárias para legalizar esse casamento.
D. Pedro mandou construir os dois esplêndidos
túmulos de D. Pedro I e de D. Inês de Castro no
mosteiro de Alcobaça, para onde trasladou o corpo da sua amada Inês, em 1361 ou 1362. Juntar-se-ia a ela em
1367.
A posição primeira dos túmulos foi lado a lado, de pés virados a
nascente, em frente da primeira capela do transepto sul, então dedicada a
São Bento. Na década de 80 do século XVIII os túmulos foram mudados
para o recém construído panteão real, onde foram colocados frente a
frente. Em 1956 foram mudados para a sua actual posição, D. Pedro no
transepto sul e D. Inês no transepto norte, frente a frente. Quando os
túmulos, no século XVIII, foram colocados frente a frente, apareceu a
lenda que assim estavam para que D. Pedro e D. Inês «
possam olhar-se nos olhos quando despertarem no dia do juízo final».
A tétrica cerimónia da coroação e do beija mão à Rainha D. Inês, já
morta, que D. Pedro pretensamente teria imposto à sua corte e que
tornar-se-ia numa das imagens mais vívidas no imaginário popular, terá
sido inserida pela primeira vez nas narrativas espanholas do final do
século XVI.
Nave de Alcobaça
Vazia, vertical, de pedra branca e fria,
longa de luz e linhas, do silêncio
a arcada sucessiva, madrugada
mortal da eternidade, vácuo puro
do espaço preenchido, pontiaguda
como se transparência cristalina
dos céus harmónicos, espessa, côncava
de rectas concreção, ar retirado
ao tremor último da carne viva,
pedra não-pedra que em pilar's se amarra
em feixes de brancura, geometria
do espírito provável, proporção
da essência tripartida, ideograma
da muda imensidão que se contrai
na perspectiva humana. Ambulatório
da expectação tranquila.
----------------------------- Nave e ceptro,
e sepulcral resíduo, tempestade
suspensa e transferida. Rosa e tempo.
Escada horizontal. Cilindro curvo.
Exemplo e manifesto. Paz e forma
do abstracto e do concreto.
----------------------------- Hierarquia
de uma outra vida sobre a terra. Gesto
de pedra branca e fria, sem limites
por dentro dos limites. Esperança
vazia e vertical. Humanidade.
Jorge de Sena
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