Nasceu em
1925, na freguesia de
São Sebastião da Pedreira, numa velha casa da Rua da Estefânia, filho único, no seio de uma família da classe média, de origem alentejana, com alguns antepassados militares. O pai era funcionário público e músico amador. Na juventude, Luiz Pacheco teve alguns envolvimentos amorosos com raparigas menores como ele, que haveriam de o levar por duas vezes à prisão.
Desde cedo teve a biblioteca do seu pai à sua inteira disposição e depressa manifestou enorme talento para a escrita. Estudou no Liceu Camões e chegou a frequentar o primeiro ano do curso de
Filologia Românica da
Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi óptimo aluno, mas optou por abandonar os estudos. A partir de 1946 trabalhou como agente fiscal da Inspecção Geral dos Espectáculos, acabando um dia por se demitir dessas funções, por se ter fartado do emprego. Desde então teve uma vida atribulada, sem meio de subsistência regular e seguro para sustentar a família crescente (oito filhos de três mães adolescentes), chegando por vezes a viver na maior das misérias, à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues, indo à
Sopa dos Pobres. Esse período difícil da vida inspirou-lhe o conto
Comunidade, considerado por muitos a sua obra-prima. Nos anos 1960 e 70, por vezes viveu fora de Lisboa, nas
Caldas da Rainha e em
Setúbal.
Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, como
O Globo,
Bloco,
Afinidades,
O Volante,
Diário Ilustrado,
Diário Popular e
Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como
Raul Leal,
Vergílio Ferreira,
José Cardoso Pires,
Mário Cesariny,
António Maria Lisboa,
Natália Correia,
Herberto Hélder, etc., tendo sido amigo de muitos deles. Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso (e temido) pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime
salazarista. Denunciou, de igual modo, plágios, entre os quais o cometido por
Fernando Namora em
Domingo à Tarde sobre o romance
Aparição de
Vergílio Ferreira - "O caso do sonâmbulo chupista" (Contraponto).
A sua obra literária, constituída por pequenas narrativas e relatos (nunca se dedicou ao romance ou ao conto) tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamou de corrente "neo-abjeccionista". Em
O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor (escrito em 1961), texto emblemático dessa corrente e que muito escândalo causou na época da sua publicação (1970), narra um dia passado numa
Braga fantasmática e lúbrica, e a sua libertinagem mais imaginária do que carnal, que termina de modo frustrantemente solitário.
Alto, magro e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte
miopia, vestindo roupas usadas (por vezes andrajosas e abaixo do seu tamanho), hipersensível ao
álcool (gostava de vinho tinto e de cerveja),
hipocondríaco sempre à beira da
morte (devido à
asma e a um
coração fraco), impenitentemente
cínico e honesto, paradoxal e desconcertante, é sem dúvida, como pícaro personagem literário, um digno herdeiro de
Luís de Camões,
Bocage,
Gomes Leal ou
Fernando Pessoa.
Debilitado fisicamente e quase
cego devido às
cataratas, mas ainda a dar entrevistas aos jornais, nos últimos anos passou por três lares de idosos, tendo mudado em 2006 para casa do seu filho João Miguel Pacheco, no
Montijo e daí para um lar, na mesma cidade.
Um ano após a morte de
Mário Cesariny, a
26 de novembro de
2007, em jeito de homenagem ao poeta,
Comunidade foi editada em serigrafia/texto com pinturas de
Artur do Cruzeiro Seixas pela Galeria Perve. Nessa efeméride, Luiz Pacheco foi entrevistado pela
RTP, no seu quarto e último lar de idosos.
Morreria algumas semanas depois, a
5 de janeiro de
2008, de doença súbita, a caminho do Hospital do Montijo, onde declararam o óbito às 22.17 horas.
hoje há pachecos, amanhã não sabemos…
hoje há pachecos, amanhã não sabemos…
com vinte escudinhos
nem um copo de vinho
suspeito que os malmequeres um dia vão mudar de cor
por qué no te callas?,
lá para sexta deve vir o burrinho
há dias que nem o presépio nem os santinhos
por qué no te callas?,
há coisas fantásticas!
um avião por exemplo
uma espécie de presépio
melhorado por dentro
por qué no te callas?,
gosto mais do que tem palhinhas
hoje há pachecos, amanhã não sabemos
vai um café?
é melhor esquecer
sabe-se lá…
por qué no te callas?,
olha,
a televisão hipnotiza crianças
restinhos de família
a Júlia florista
só não hipnotiza o Pacheco
sabe-se lá porquê…
vai um joguinho?
por qué no te callas?,
a ginja não é proibida.
ginjinha pás veias!
as barragens fazem toda a diferença!
por qué no te callas?,
conheces o sócrates?
eh pá, não me lembro…
maria azenha - (na morte de Luiz Pacheco, a 5 de janeiro de 2008)
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