quarta-feira, abril 25, 2007

A importância mundial da Mina da Guimarota

Depois das muitas fotografias aqui publicadas, importa explicar o porquê deste nosso esforço. Consultando muito rapidamente a Internet, é fácil encontrar, nas mais diversas línguas, referências à Mina da Guimarota, sendo esta referida sempre como sendo um dos mais importante lagerstätten mundiais (um lagerstätten é, segundo o geoROTEIROS, um "tipo de jazida na qual os fósseis se encontram excepcionalmente preservados ou excepcionalmente concentrados.").

Diz ainda o site
geoROTEIROS: "O termo provem de um termo mineiro alemão referente a concentrações minerais excepcionais, tendo sido adoptado pela Paleontologia. Alguns exemplos de Lagerstätten mais conhecidos são os calcários litográficos de Solnhofen, famosos pelos seus fósseis de Archaeopteryx, e os poços de alcatrão do Rancho La Brea, Califórnia, de onde foram extraídos inúmeros vestígios de faunas Plistocénicas da América do Norte."

Quanto à Mina da Guimarota, com rochas de cerca de 153 milhões de anos (Jurássico inferior - Kimmeridgiano) diz o site atrás referido o seguinte: "A Mina da Guimarota, situada a sul de Leiria, é uma das melhores jazidas de mamíferos Jurássicos a nível mundial. Fechada desde 1982, desta mina de lignito foram extraídos por paleontólogos alemães da Freie Universität Berlin milhares de fósseis testemunho de uma riqueza faunística da região durante o Jurássico Superior. A fauna compreendia, entre outros, tubarões, crocodilos, tartarugas, dinossáurios, mamíferos e aves primitivas. "

O Professor Doutor Galopim de Carvalho, a quem devemos muito na preservação de achados paleontológicos em Portugal, dizia ASSIM na sua página da Internet:

"Mina da Guimarota - Leiria

Um caso único como documento da vida no Jurássico nesta região da Europa

Em 1959, o Prof. W. G. Kuhne, da Freie Universität de Berlim, especialista em mamíferos primitivos, interessou-se por uma pequena mina de carvão (lignito) abandonada, na Guimarota, nas proximidades de Leiria.

Na sequência dos estudos que aí empreendeu, a partir de 1960, publicados nas Memórias dos então Serviços Geológicos de Portugal (Nova Série, nº 14, 1968) e dos muitos outros levados a cabo pelos seus discípulos e continuadores, esta velha mina revelou-se uma jazida de excepcional riqueza paleontológica, não só pela variedade e número de fósseis aí encontrados (e estudados), como pelo esplêndido estado de conservação dos mesmos. Celebrizada pela fauna de mamíferos do Jurássico superior (com 151 a 154 milhões de anos), esta jazida de carvão relevou-se igualmente rica de outras espécies de animais e plantas que cedo despertaram o interesse de muitos paleontólogos de variadíssimas especialidades, sendo muito vasta a bibliografia publicada por autores alemães e outros estrangeiros, em contraste com os nacionais, que nunca tiveram condições para competir com eles.

A grande maioria deste espólio saiu do país, sendo mínima a parte que permanece entre nós. Resta-nos a mina, que continua a ser uma jazida onde muitos estudos podem e devem prosseguir.

Apreciamos e enaltecemos o trabalho dos nossos colegas estrangeiros, além de que apoiamos a continuação dos seus estudos. Sem eles, o desconhecimento sobre esta página da nossa história geológica seria total.

A par de jazidas mundialmente reconhecidas, como a de Solenhöfen, na Alemanha ou a do Cabo Mondego, em Portugal, a Mina da Guimarota deverá ser considerada um Geomonumento e, como tal, convenientemente protegida pela lei.

O Museu Nacional de História Natural tem vindo a desenvolver esforços no sentido da musealização de sítios com interesse geológico, nos quais inclui esta mina.

O interesse da comunidade científica internacional levou a recente edição, em 2002, de um livro de divulgação cuja referência se inclui em anexo. Também em anexo se insere a parte mais significativa da bibliografia sobre esta jazida e uma lista das espécies até hoje descritas.

Lisboa, 6 de Janeiro 2003

A. M. Galopim de Carvalho "

O livro que o Professor Doutor Galopim de Carvalho
referia no texto anterior era este:

MARTIN, Thomas & Bernard KREBS (editors):

Guimarota – A Jurassic Ecosystem

2000. [in English] – 156 pp., 177 mostly coloured figures, 2 tables
24.5 x 21.3 cm. Hard cover

ISBN 978-3-931516-80-2


Nas Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro (Tomo 88, Lisboa, 2001) aparece o seguinte texto, em relação ao livro anterior:

"GUIMAROTA – a Jurassic Ecosystem
THOMAS MARTIN & BERNARD KREBS (EDITORS)

Em 1960 uma equipa de investigadores do Instituto de Paleontologia da Universidade Livre de Berlim, chefiada pelo Prof. W. G. Kuhne, iniciava os trabalhos de pesquisa de fósseis na antiga mina da Guimarota, nos arredores de Leiria, que explorava a lenhite dos níveis do Jurássico superior (Kimeridgiano). O interesse suscitado pelo material fóssil recolhido nesses primeiros anos, enquanto a mina ainda funcionava, levou a que, após o seu fecho, se retomasse a "exploração" do seu carvão, agora para fins unicamente científicos.

Assim, durante 9 anos (1973-82) aquela antiga mina foi reaberta e explorada com objectivos paleontológicos tendo-se recolhido milhares de exemplares de crânios, mandíbulas, ossos e dentes de vertebrados terrestres e aquáticos e inúmeros restos de plantas e de invertebrados, tornando o local a mais importante jazida a nível mundial de mamíferos e outros pequenos vertebrados do Jurássico superior.

Com base neste precioso espólio paleontológico, foram sendo publicados numerosos trabalhos científicos, alguns incluídos nas Comunicações e nas Memórias dos Serviços Geológicos de Portugal.

Decorridos mais de 30 anos sobre o início dos trabalhos, pretendeu-se reunir numa única publicaçáo o conjunto dos principais resultados obtidos.

O livro agora editado relata a história desta exploração científica e os principais resultados obtidos pelo estudo dos fósseis encontrados, incluindo a reconstituição paleoambiental da jazida, com capítulos consagrados á flora, ostracodos, carófitas, moluscos, peixes, réptɥis, dinossauros, mamíferos e, ainda, aos métodos de preparação utilizados.

Esta obra tem uma excelente apresentação em papel "couché" sendo profusamente ilustrada com fotografias a cores das espécies estudadas e com estampas da reconstituição dos principais vertebrados e dos paleoambientes onde viveram."

Para terminar, convém ainda referir dois aspectos: hoje em dia há uma enorme área construída em cima da mina e do vazio que ela representa - e a escoragem, mais tarde ou mais cedo, terá de ceder... O problema da subsidência foi, de forma preliminar, estudado pelo Professores Doutores Fernando Pedro Figueiredo e Lídia Catarino (Departamento de Ciências da Terra - Universidade de Coimbra) em 2005, no texto Caracterização de uma Antiga Zona Mineira por Métodos de Prospecção Geofísica – O Caso da Mina da Guimarota, Leiria. Depois há ainda aspectos de natureza ambiental pouco tratados - a existência de morcegos a habitarem a mina, eventuais problemas de contaminação de lençóis freáticos, a libertação de gases da mina, a situação dos respiradouros antigos, etc.

Em Setembro de 2007 vamos tentar voltar à mina, desta vez com mais gente (incluindo Doutores da Universidade de Coimbra, especialistas em morcegos, bombeiros e outros) para saber um pouco mais sobre este importante património português e mundial, tão ignorado e tão mal preservado...


ADENDA - Para além das anteriormente referidas, sugere-se ainda a consulta das seguintes páginas da Internet, em português e inglês:

2 comentários:

Carlos Faria disse...

brilhante conjunto de posts sobre o tema e a forma de divulgar este património geológico... parabéns pelo trabalho

Fernando Oliveira Martins disse...

Obrigado - é fundamental conhecer para divulgar e preservar.

A propósito, já me contactaram diversas pessoas para irem também à Mina, entre as quais saliente diversos professores e um espeleólogo do GPS (Grupo de Protecção Sicó - Pombal)... Vamos ver se conseguimos levar toda a gente à Mina.